Tuesday, April 29, 2008

Cada dia, mais um adeus

Todos os dias ando pela praça do meu bairro como se fosse uma despedida. Essa sensação de adeus surgiu depois das minhas idas regulares a São Paulo. Comecei a encarar a possibilidade de não estar mais no mesmo endereço no ano que vem e, desde então, meus passeios pela pracinha têm um gosto um pouco mais melancólico que o habitual.

Conheço de cor todos os personagens daquela praça: os mendigos que ficam matando o tempo por lá durante o dia, os adolescentes que cabulam aula 4 vezes por semana e bebem vinho barato embaixo do coreto, as babás com criancinhas onde há brinquedos para bebês, a turma da cervejinha de garrafa que chega à noite, os músicos do chorinho do domingo. São identificáveis os tipos que habitam minha rua e a minha praça, e eu me despeço deles mais um pouquinho a cada dia, quando caminho em direção ao estacionamento.

A praça São Salvador habita os meus sonhos há anos, muito antes de eu me mudar pra lá, quando frequentava a casa de um ex-namorado que morava por ali. Eu acordava cedo e ia tomar café na padaria, e depois comprava jornal e sentava em um banquinho no sol. Ficava vendo as crianças jogando bola e reparando no brilho da água do chafariz francês. Nessa época, eu pensava que ali era um dos melhores lugares do Rio para se morar, e pedia ao ex-namorado que procurasse um apartamento para alugar por aquelas bandas. Mas o namoro acabou e quem foi morar perto da pracinha fui eu. Graças a Deus, a vida tem dessas ironias.

O fato de estar todos os dias me despedindo mais um pouquinho não é de todo mau. A melancolia existe, mas, em compensação, eu aproveito cada fresta daquela paisagem ao máximo, tento caminhar devagar mesmo quando estou com pressa, penso em sentar pra ler o jornal no banco como fazia quando ainda não morava ali, frequento os bares durante a noite e o chorinho do fim de semana.
Aproveito enquanto está ao meu alcance. E tem sido saboroso.

4 comments:

tatiana leão said...

pelo jeito a sua mudança começou por dentro. boa sorte para o momento em que ela for por fora também. ;)

=*

Massashi Hosono said...

Devemos ser felizes aonde estamos... amar também a peculiaridade de cada lugar. Soa meio auto ajuda mas essa, acredito eu, é a chave da felicidade.

Baxt said...

pqp, vc é vizinha do Bernardo e da Carla então! Beleza que vou visitar os 3 de uma vez só quando for ao Rio.

Se vcs ainda não se conhecem, fiquem amigos agora e vão tomar cerveja de garrafa juntos!!

Esse é Bernardo (a Carla, mulher dele, não perde tempo com blogs, twitter, orkut e nada disso. Ela é muito eficiente) http://paraumoutrolugar.blogspot.com/2008/03/microbairro.html

Conheci o casal aqui em Londres, a Carla fez mestrado comigo.

Bernardo Esteves said...

Oi, Bruna! A Barbara está tentando nos colocar em contato. Vamos tomar uma Brahma Extra na Adega da Praça dia desses? O chorinho é uma boa pedida - é bem provável que a gente vá no próximo domingo, a menos que chova. Qualquer coisa, mande um email pra besteves, no gmail.