Monday, August 13, 2007

Assombração

Outro dia tive que ouvir a pergunta que não tem resposta: como é que se faz pra matar a saudade de uma pessoa que não existe mais? Eu olhei pra ela e fiquei calada, porque eu não sei matar saudades nem de quem está nesse mundo, quanto mais no outro. E lamentei pela minha amiga, a que tinha feito a pergunta sem resposta, enquanto ela vasculhava fotos antigas e chorava silenciosamente em frente ao computador.

Desde então a saudade tem pegado no meu pé, me perseguido sem trégua, traiçoeira. Quando o momento está divertido, ela aparece sorrateiramente, e me faz pensar em gente que não existe mais, nesse mundo ou no outro. E não importa aonde eu esteja, ou quem esteja ao meu lado, eu tenho vontade de ir embora e me trancar no quarto e abrir os meus meninos do século XIX e do século XXI nas páginas marcadas, pra ver se consigo me livrar dessa tormenta.

Mas só o que eu lembro são daqueles versos do Chico Buarque que, de tão verdadeiros, eu decorei:

A saudade é o pior tormento
É pior que o esquecimento
É pior que se entregar.
A saudade é o pior castigo
Eu é que não vou levar comigo
a mortalha do amor; adeus.

E os versos se sentam no meu ombro direito e ficam sussurando insistentemente no meu ouvido, enquanto eu rio e conto piadas e mostro pra todo mundo que eles não são tão fortes assim. Só eu sei que é uma luta constante, uma queda de braço interna, e que se eu der mole, eu perco. E tenho que pagar mais uma rodada de tequila pra todo o bar.

Como esses sentimentos são cíclicos, e como a vida realmente dá voltas, espero na santa paciência para que a saudade se canse de mim e vá embora. Que vá assombrar outra pessoa, alguém que goste de fantasmas.

1 comment:

adelson said...

a saudade é o revés de um parto
a saudade é arrumar o quarto
do filho que já morreu
a saudade dói latejado
é assim como uma fisgada
no membro que já perdi
a saudade dói como um barco
que aos poucos descreve um arco
e evita atracar no cais