Thursday, January 03, 2008

O primeiro cocô de pombo do ano

Eu me pergunto se é só do brasileiro essa coisa de transformar o infortúnio em amuleto de sorte. Hoje cheguei fresquinha (na medida do possível nesse calor bombante do Rio de Janeiro) no centro da cidade e, em menos de dez minutos, fui coroada com uma bela cagada de pombo na franja. Uma pausa na história: simplesmente odeio a palavra "cagada", acho feio e desnecessário, mas, nesse caso, nada se ajusta melhor que o termo. Não foi só o dejeto do pombo que me acertou os cabelos, mas toda a situação de constrangimento frente aos passantes e aos colegas de trabalho. Foi, enfim, uma merda completa.

Mas, voltando, logo alguém se apressou em dizer: isso significa sorte! Eu sorri amarelo, porque não acredito nisso, apesar de acreditar em uma série de absurdas mandingas inexplicáveis. O problema é que essa do cocô de pombo está descarada demais como se tratando de um artifício do alvo do pombo para ver o lado bom das coisas. Um jogo do contente místico.

E foi aí que me veio: será que isso é coisa do nosso país? Ou será uma tendência mundial essa de passar a mão na cabeça suja e dizer: eu to é bem, vocês é que estão mal!
Aliás, tem uma situação parecida com essa do pombo, que é o ditado: sorte no jogo, azar no amor. E esse eu sei que é universal. Mas o engraçado é que eu só gosto de aplicar o ditado quando estou perdendo, pra ver se humilho um pouquinho o meu oponente. No sentido inverso, quando estou ganhando, faço logo questão de espinafrar meu adversário, inventando musiquinhas, repentindo fases do tipo: "amigo, aqui você não tem vez", contando cada ponto conquistado. Acontece muito quando eu jogo sueca. Acho que sou uma boa perdedora, mas uma péssima ganhadora.

O episódio do cocô do pombo logo foi esquecido. Lavei meu cabelo com um copinho de água mineral que estava ao alcance, penteei a franja mal sorteada e deixei que o assunto morresse. Mas a verdade é que eu continuei apreensiva, eternamente olhando pra cima, cuidando para me safar da mira desses animais nojentos. E preferi ficar no sol impossível do centro do Rio ao alívio da sombra sob as copas das árvores.
Tudo é uma escolha nessa vida..

1 comment:

lui said...

eu tb fui sorteada, só que antes do ano novo!! naquele dia do picote, levei uma sublime cagada no braço.. dia 28 para ser mais exata. tomara que seja sorte amiga, porque não existe nada mais desagradável do que a experiência da merda verdinha.....