Thursday, June 01, 2006

O Funeral de Victória

Depois de 93 primaveras e meia, Victória de Angelis resolveu deixar este mundo. Morreu bem cedinho, às seis e meia da madrugada, logo ela que nunca foi muito de acordar cedo. Fomos todos de carros e caronas até o Caju, dedicar um último olhar e a primeira de uma série de lágrimas àquela velhinha deitada que não se parecia em nada com a minha avó, e que mesmo assim axibia o seu nome junto ao caixão.

Acontece que a morte de alguém de quase 94 anos não é exatamente uma surpresa, e por isso minutos anteriores à cerimônia foram dedicadas a dois expressos com dois cigarros e notícias de quem nasceu, quem está sem emprego, quem casou, quem separou e quem foi preso por porte de drogas. E então, deitada em berço de flores, Victória foi servida.

Não gosto de enterros. Não curto essa de passar a mão na cabeça do morto, beijar suas faces frias e deixar que as minhas lágrimas manchem a roupa engomada. Portanto, quando entra o caixão, saio eu. Fiquei lá da porta tentando me lembrar de Victória organizando jantares para a família com exagerada comilança - sua marca registrada. Repassei mentalmente a história de como a nossa homenageada e seu marido, também já passado desta para melhor, se conheceram na praia de Copacabana em remotos anos 1940. E não consigui rezar.

Alguém me explicou que, naquela altura, Victória estaria no hospital das almas, sendo tratada das dores do espírito, recebida pelo irmão, o mencionado marido e as amigas mais chegadas. Talvez até a minha mãe esteja por lá. Ouvi tudo com extrema atenção e penso:"Deve ser muito bom acreditar nisso tudo".

Depois levaram Victória embora. E até agora eu não entendi direito o que aconteceu; tanto que não consigo terminar este texto de maneira apropriada. Talvez porque a própria Victória não tenha terminado totalmente, entende? Ontem mesmo fui mexer em seu armário e descobri desenhos que fiz para ela quando era criança. E decidi que, quando me tornar avó, serei igual à minha querida vovó Nena: aquela que guarda até a morte os desenhos infantis dos netos.

1 comment:

Baxt said...

Que fofo. Um beijo para a sua avó :o)