Thursday, June 08, 2006

Homem que chora

Hoje eu fui fazer a minha vistoria anual e, de repente, um dos atendentes do Detran saiu chorando de sua cabine. Digo chorando mesmo, copiosamente, ao mesmo tempo em que era abraçado e consolado pelos colegas de container. Ver uma pessoa chorando já me deixa morta de curiosidade de saber o que acontece. Mas ver um homem aos prantos multiplica a minha xeretice, e portanto eu olhava quase que descaradamente.
Depois, em um dos meus ataques bipolares, pensei: saco, esse cara podia parar de chorar e me dar logo meu documento.
Estou sempre assim, oscilando entre ser uma boa pessoa ou adotar o estilo bitch. Acaba que a boazinha sempre ganha, e é realmente um saco, porque esse lado do cérebro e da alma dá um trabalho danado. De cuidar do mundo e se preocupar em fazer o bem.

O episódio do choro me lembrou a única vez em que vi o meu pai chorar. Foi um dia em que a gente tinha brigado horrores, eu no auge da aborrecência, 15 aninhos, a rebeldia saindo pelos poros. Eu fui uma teenager da pior espécie. Mas, enfim, brigamos e nos odiamos bastante a caminho de um veterinário, onde meu cãozinho receberia uma dose de vacina.
Sentados na sala de espera, meu pai resolve bater papo com a recepcionista. Pergunta de um amigo das antigas que era dono da clínica veterinária, quer saber se ele ainda continua por aquela área.
A recepcionista: "O senhor não soube? O dr. Pedro está com um tumor no cérebro. Ele operou, mas a cirurgia não deu certo. Os médicos já desenganaram."
Foi assim. Tudo na lata.
Meu pai não disse nada. Colocou a mão na testa e começou a soluçar.

Eu olhava para o horror daquilo tudo e não sabia o que fazer. Meu pai chorando - eu não tinha visto isso nem na morte da minha mãe. E eu fiquei ali, sem chegar perto dele, dar um abraço, sei lá. Fiquei imóvel e perplexa, esperando que os soluços terminassem.

Esse blog está foda. Leitura tarja preta.

4 comments:

Baxt said...

Ver os pais chorando é foda.

Mas de certa maneira, eu fico feliz de eles se sentirem à vontade para chorar na minha frente e eu poder pelo menos dar um abraço.

Fã da Bruna Paixao said...

foda nada... tá lindo como nos últimos 4 anos que acompanho!

Gabriela said...

As lágrimas masculinas às vezes veem mais doces, sem a histeria feminina, que nós eternamente conhecemos.

Josy Fischberg said...

Nas poucas vezes que vi minha mãe chorando, sabia que algo ia muito mal. Porque isso só aconteceu umas três vezes na vida. E eu nunca soube como me portar nessas horas. Meu lado "bitch" sempre quis que aquela cena se desmanchasse e o tempo voltasse para eu não ter lembranças daquilo. Eu também sofro de esquizofrenia de estilos!