Monday, September 28, 2009

Quando Nietzsche Chorou

Nunca li Nietzsche. Bem que tentei com Assim Falou Zaratrusta, mas desisti no meio: achei denso, hermético, pesado... Enfim, chato. Acho que na faculdade já tinha tentado ler o Anticristo, mas, da mesma maneira, fui derrotada pela escrita do filósofo, e deixei ele pra lá. Paciência: gostava das idéias, mas não engolia a linguagem. Então acabei me distanciando dele e de Lou Salomé, e de outros da mesma época.

Mas aí calhou que um dia eu ia pra São Paulo e não tinha o que ler no avião. E eu adoro comprar livro no aeroporto, e abrir o volume na primeiríssima página assim que me sento na minha poltrona. Eu adoro esse ritual, e por isso fiquei feliz de não ter o que ler na ponte aérea, porque era um pretexto pra eu voltar aos meus hábitos de ponte aérea turista.

E logo de cara vi Quando Nietzsche Chorou na estante da livraria. Que eu já tinha ouvido falar muito, que tanta gente já leu e eu, atrasadíssima, tratei de colocar em dia esse romance obrigatório. É claro que eu devorei o livro avidamente, e fiquei obcecada com a história. Pra onde ia carregava Nietzsche chorando embaixo do braço, e se dava uma brecha eu abria e lia um pouquinho.

E foi assim que eu aprendi sobre a Teoria do Eterno Retorno. Que é uma teoria cruel e prática, ao mesmo tempo. Porque Nietszche achava que o tempo é um contínuo: estamos no meio de uma linha reta, infinita; se olharmos pra trás, o passado se estende infinitamente atrás de nós, e o futuro, ao contrário, segue em frente até o horizonte. Então, pra ele, o tempo se repete, e nós vivemos uma repetição eterna do que estamos vivendo agora.

Complicado de aceitar. Mas se você encara a teoria do Eterno Retorno como uma lei, qualquer decisão a ser tomada na sua vida se torna clara. Você se pergunta: vou querer passar pelo que estou passando por toda a eternidade? Se não, então mude de vida, mude de casa, de emprego, de amor. Faça alguma coisa que valha a pena de ser vivida repetidas vezes, para sempre.

Nietzsche morreu considerado louco, depois que chorou ao ver um homem batendo em um cavalo. As almas geniais como a dele são sempre mais atormentadas. Deve ser realmente uma merda pra quem tem uma alma como essa, tão sensível e tão inteligente e tão suscetível à cruel clareza do mundo. Os geniais morrem sofrendo pra que os medianos, como eu e você, tenhamos um pouco mais de noção da verdadeira natureza da humanidade.

2 comments:

Lucia said...

Oi Bruna,
Muito engraçado como cheguei aqui.
Estava pesquisando um remedio que eu tomo ja faz uns tres anos. Topiramato. Aí é uma longa história. Achei vc falando sobre o Rivotril. Achei seu cantinho aqui e vejo que é uma moça inteligente. Grande filósofa. Gostei de ler aqui. Sou uma mulher viuva de pouco. Sofrida mas guerreira.
Um abç
Lucia

bruna paixão said...

Oi, Lucia. Que bom que você gostou do texto :)
To tentando voltar a escrever, ando longe daqui... Mas vou voltar!
E vc tb, volte sempre :)
um abraço