Wednesday, November 28, 2007

Sobre pessoas e livros em cinco minutos

Vou tentar disfarçar e dizer que quando entrei na sua casa não reparei que havia livros espalhados por todos os cantos: no banheiro, no quarto, na mesa de jantar e até na cozinha (e nem era um livro de culinária, o que me deixou muito intrigada. O que é que você lê na cozinha? Lê enquanto prepara o almoço?). Vou disfarçar e tentar convencer você de que não reparei que existia um livro aberto em cima do sofá, uma página marcada, que deve ter sido deixado de lado no exato momento em que toquei a campainha e interrompi a sua leitura. Mas como não consigo disfarçar porcaria nenhuma, como sou absolutamente transparente - e ainda não descobri se isso é bom ou ruim - acabei perguntando: "que livro é esse?". E você respondeu: "... blá blá blá Satre", e eu só entendi que tinha Sartre no título, mas que não era um livro do Sartre. E aí não falei mais nada, porque nunca tinha ouvido falar do tal livro, mas achei que devia ser interessante, porque a capa era legal. E eu julgo livros pela capa.

E tem mais: eu percebi que nenhum daqueles volumes estavam em português. Tinham uns em inglês, outros em francês e outros em espanhol, e eu secretamente fiquei orgulhosa. Não tem nada mais turn on pra mim do que inteligência.

E então você abriu a geladeira pra pegar alguma coisa pra gente beber e eu espiei lá dentro e vi que não era uma geladeira típica de casa de homem, com cerveja, água e ketchup e nada mais. Ao contrário, era uma geladeira muito mais preparada pra vida que a minha: tinha temperos e frutas e alguns ingredientes já cortados do que comporia o jantar de mais tarde que, na verdade, nunca aconteceu. E eu pedi a receita e você disse que não dava, depois disse que não tinha receita e que você cozinhava com o que tinha em casa, esquecendo que antes tinha me dito que havia saído pra comprar os ingredientes do prato, em uma contradição deliciosa em busca da valorização de qualidades.

Depois observei que as fotos do seu computador eram, na maioria, auto-retratos, e achei engraçada essa vaidade adolescente em meio a tantas qualidades maduras. Nada melhor do que acabar de conhecer uma pessoa e considerar engraçados os potenciais defeitos dela. Mas antes que eu desse continuidade à essa lógica, você me mostrou a sua coleção de mp3, e disse que pensava em redecorar o apartamento, e me convidou pra sentar e nem reclamou quando eu, espaçosa, tirei os sapatos.

Isso é que dá abrir as portas da sua casa pra uma virginiana.

1 comment:

Paulinha said...

Quase uma sabedoria de caminhão, mas bem que se aplica aqui:

"Só quem fode com cérebro é mulher e vódca"!

Beijocas e feliz ano novo!