Wednesday, February 18, 2009

Ninguém esperava a Inquisição Espanhola

Andei por Barcelona sozinha à procura de um café com leite, minha bebida preferida naqueles tempos de poucos graus positivos. Achava bom porque em quase todos os lugares era permitido fumar, e com isso eu podia me sentar em uma mesa protegida do frio, pedir a minha xícara e acender um maço de Pall Mall azul. Esse era o plano: ficar sozinha em ruas estrangeiras, em paz pelo menos uns minutinhos, conversando com estranhos no pior espanhol de todos os tempos e esquecendo que, dali a pouco, eu teria que exorcizar mais uns demoninhos diários. Foi uma tradição espanhol, exorcizar demônios. Ninguém esperava a Inquisição Espanhola!

E aí eu passei naquele café que ficava bem ali na rua do meu hotel, e tinha um paquistanês e ninguém mais. A máquina de cigarros estava com um aviso de "No Cigarrillos", mas era mentira. Depois me explicaram que os donos dos cafés faziam isso pra que os adolescentes não conseguissem comprar cigarros - e lá essa lei se cumpre, em detrimento de tantas outras.

Me sentei ao balcão e pedi o café com leite, comprei um maço e aspirei a nicotina com aquela vontade de primeiro cigarro do dia. Só quem é fumante entende. O paquistanês enxugava uns copos, e como só eu e ele estávamos ali, me senti na obrigação de conversar com ele, nem que fosse pra quebrar o silêncio.

Naquele dia, eu estava muito triste. Quando estou triste, as coisas mínimas me chamam a atenção: risadas e objetos coloridos, crianças agasalhadas que nem um embrulho de roupas e também histórias de estrangeiros imigrantes. E foi então que eu conversei com o paquistanês do café.

Ele disse que no país dele faz 45 graus no verão. E que ele tinha chegado a Barcelona há seis meses, portanto aquele era seu primeiro inverno lá. Ele era gentil e servil, como eu também sou muitas vezes, e eu não pude deixar de pensar que o dono do café deveria pagar um salário bosta praquele cara, só porque ele era bonzinho. Eu contei que no Brasil os verões são de 40 graus, e o inverno no Rio raramente passava de 20. Depois comentamos como estávamos sofrendo com o frio espanhol, e às vezes se erguiam silêncios que eu ou ele quebrávamos com algum assunto morno.

Meu café terminou e eu me despedi e ele me desejou boa sorte com o frio e eu pensei:"ah, que se foda, eu sou uma pessoa legal!", porque eu já tinha dúvidas se realmente era, e vesti minha luvas e encarei o frio da rua e o caminho de volta pros meus demônios e suas inquisições.

3 comments:

Anonymous said...

Você voltou a fumar? Isso que dá ficar tanto tempo sem postar... Não contou sobre isso...

Bruno said...

Você escreve divinamente bem. Visitarei sempre.

Joana Lessa said...

você não voltou a fumar, né!(?) isso foi antes!(?)

adoro ler você. lembra em nova york? eu lia antes de todo mundo, hahaha, lia em casa.;)

você é uma boa pessoa, mas eu adoro sei lado malvadinho!

te amo.

beijos