Na minha semana e meia parisiense, desenvolvi uma rotina cara, engordartiva e... deliciosa. Ao final de um dia de passeios turísticos e comprinhas desnecessariamente necessárias (uma forma que faz gelos nos moldes das naves do Space Invaders é imprescindível pra minha vida, digam o que quiserem), eu passava no hotel, deixava as minhas bolsas, e corria pra rua pra comer alguma coisa. Ou algumas coisas. Geralmente, eram umas 7h da noite e eu ainda não havia almoçado. Geralmente, eu estava gelada da cabeça aos pés e precisava de um bom copo de vinho francês. Eu e o namorido avaliávamos as dezenas de cafés nos arredores do nosso hotel e sentávamos naquele que mais tinha cara de... francês. E aí, começava a nossa noite.
Percorríamos pelo menos 3 cafés por noite. Procurávamos não repetir os lugares por onde tínhamos passado na noite anterior - a menos que a fome fosse insuportável demais. E a ordem dos acontecimentos era a seguinte: no primeiro café, a gente pedia um vinho e uma entrada qualquer (queijos, frios, patés). No segundo café, pedíamos mais vinhos e um jantar legal (risotos, bifes, patos). No terceiro café, tomávamos o derradeiro copo, a saideira daquele dia. Às vezes eu optava por uma taça de champagne, mas na maioria das noites ficava com o vin rouge mesmo. E quando a gente voltava pro hotel, passávamos na mercearia em frente e comprávamos mais uma garrafinha, pra beber no quarto.
Toda vez começávamos a noite prometendo não dormir tarde. E toda vez quebrávamos a promessa.
É que eu nasci pra essa vida parisiense. Esse povo gosta de sair, de comer bem, de encontrar amigos pra conversar. Não teve um dia em que não encontrássemos os cafés cheios. É muito comum também que as pessoas saiam sozinhas pra tomar um café, ou um copo de vinho, e fumar um cigarro, sem que sejam encaradas como aberrações solitárias. É normal, só isso.
A rua do hotel era cheia de creperias, que é uma das minhas paixões gastronômicas. Eu queria sempre sentar em um daqueles lugares, mas o marido desanimava, porque queria comer pratos menos conhecidos, mais diversificados. Mas havia uma creperia que tinha sempre, a partir das 17h, uma longa fila de espera. Nessa fila, só tinha francês. Então alguma coisa boa devia estar ali.
Uma noite, depois do nosso percurso de cafés, passamos pela creperia. Ela estava aberta, mas sem fila (já era meia noite), e nós resolvemos entrar. E aí, a cena era a seguinte: apenas uma mesa vaga (a que sreia a nossa), uma velhinha cozinhando, dois rapazes atendendo, e um senhor no caixa. Você abre a porta e dá de cara com uma família francesa dona de uma tradicional creperia de Montparnasse!
Pedimos o crepe e ele veio diferente de qualquer outro crepe que você já deve ter comido. Era naquele estilo de crepe do Le Blé Noir, em Copacabana. Só que muito mais barato (em Paris, se come melhor e mais barato que no Rio, acredite).
Obviamente, eu não sei o nome da creperia. Mas o nome da rua era Rue du Montparnasse.
Se você for a Paris e entrar numa de só comer no Mac Donalds porque é mais barato, por favor, nunca mais dirija a palavra à minha pessoa. Mac Donald não é tão mais barato assim, e lá você consegue comer bem por 9 ou 10 euros. E comer, peloamordedeus, faz parte da viagem. Comer scargot é tipo subir na Torre Eiffel. Você pode nunca mais tocar naquelas conchinhas, mas um dia você tem que provar o prato de lesmas.
Tuesday, January 11, 2011
Monday, January 10, 2011
Show da Amy Winehouse x 3
Amy Winehouse toca hoje e amanhã no Rio, no HSBC Arena, bem ao lado do meu trabalho. E eu não vou. Acabo de chegar de uma viagem mega cara, to individada até a alma, e optei por não me complicar ainda mais. Mas doi um pouquinho no coração, até porque eu não sei até quando ela vai estar viva pra voltar aqui em outra época. Mas, tudo bem, eu sobrevivo ao trauma. O lance é que todo mundo, em um raio de 50 quilômetros, só fala sobre isso. E aí eu percebi que só eu deixo de ir a um show porque to dura. Tem uma grande parte da galera que dá um jeitinho.
Por exemplo: tenho um casal de amigos de uns 40 anos que vão ao show. Ela é doutoranda, mas ele já fez doutorado. Ela tem carteirinha de estudante, e fez uma hackeada pra ele. Quando comentei que não ia ao show por causa de grana, eles me ofereceram fazer uma carteirinha de estudante. Eu fiquei super sem graça e não topei. Faz tempo que não uso carteirinha falsa, anos mesmo, e sou totalmente contra essa festa da meia entrada. Acho, inclusive, que carteirinha tinha que ser só pra estudante de graduação. Mas obviamente não ia polemizar sobre isso com os meus amigos, porque essa decisão de não pagar meia é muito minha, e nada tem a ver com o resto do mundo.
Daí no mesmo dia, mais tarde, eu li no twitter do Tom Leão que ele só não paga o ingresso de um show quando vai cobrir ou quando é convidado. E que ele não ia cobrir o show da Amy, então ele teria que comprar, ou não iria, não lembro bem o desfecho. O lance é que aquilo me surpreendeu, porque se tem um cara que eu achava que não pagava pra nada, era ele. Primeiro porque ele escreve sobre música no Globo há anos, e aqui no Rio ele é um dos jornalistas musicais mais importantes. Segundo porque já é hábito dos jornalistas ligar pedindo um convitinho. Juro, todo mundo faz isso. Menos, é claro, eu. Não que eu seja melhor que ninguém. É porque fico com vergonha mesmo. Mas não se engane, porque se outra pessoa pede um convite e me oferece, eu aceito de bom grado. Ou seja: eu não faço o serviço sujo, mas mando fazer.
Essa história do Tom Leão me lembrou uma situação que presenciei no trabalho outro dia. Um repórter bem jovem do programa onde estou trabalhando temporariamente ligou pra assessora do HSBC pra pedir um ingresso. Isso me chamou atenção porque ele fez isso com tanta naturalidade, que eu fiquei me achando uma idiota por não fazer o mesmo. Será que é mesmo mal pedir pra entrar de graça? As assessorias já têm uma cota pros jornalistas - aliás, é assim que elas trocam favores com repórteres, produtores de reportagem, etc. Eles fazem um favorzinho de lá e a gente faz um favorzinho aqui. Mas é tudo muito... esquisito, não? Ou eu estou sendo puritana demais?
Não sei, mas o fato é que eu não vou ao show, e isso está ficando recorrente demais, essa coisa de perder eventos. Deve fazer parte da vida de casada. Mas, também, é tudo uma questão de prioridade. Troquei meu ingresso da Amy Winehouse por algumas taças de vinho em Paris. Por enquanto eu acho que estou ganhando na troca. Quando eu achar que to perdendo, eu mudo o jogo - mas pagando inteira.
Por exemplo: tenho um casal de amigos de uns 40 anos que vão ao show. Ela é doutoranda, mas ele já fez doutorado. Ela tem carteirinha de estudante, e fez uma hackeada pra ele. Quando comentei que não ia ao show por causa de grana, eles me ofereceram fazer uma carteirinha de estudante. Eu fiquei super sem graça e não topei. Faz tempo que não uso carteirinha falsa, anos mesmo, e sou totalmente contra essa festa da meia entrada. Acho, inclusive, que carteirinha tinha que ser só pra estudante de graduação. Mas obviamente não ia polemizar sobre isso com os meus amigos, porque essa decisão de não pagar meia é muito minha, e nada tem a ver com o resto do mundo.
Daí no mesmo dia, mais tarde, eu li no twitter do Tom Leão que ele só não paga o ingresso de um show quando vai cobrir ou quando é convidado. E que ele não ia cobrir o show da Amy, então ele teria que comprar, ou não iria, não lembro bem o desfecho. O lance é que aquilo me surpreendeu, porque se tem um cara que eu achava que não pagava pra nada, era ele. Primeiro porque ele escreve sobre música no Globo há anos, e aqui no Rio ele é um dos jornalistas musicais mais importantes. Segundo porque já é hábito dos jornalistas ligar pedindo um convitinho. Juro, todo mundo faz isso. Menos, é claro, eu. Não que eu seja melhor que ninguém. É porque fico com vergonha mesmo. Mas não se engane, porque se outra pessoa pede um convite e me oferece, eu aceito de bom grado. Ou seja: eu não faço o serviço sujo, mas mando fazer.
Essa história do Tom Leão me lembrou uma situação que presenciei no trabalho outro dia. Um repórter bem jovem do programa onde estou trabalhando temporariamente ligou pra assessora do HSBC pra pedir um ingresso. Isso me chamou atenção porque ele fez isso com tanta naturalidade, que eu fiquei me achando uma idiota por não fazer o mesmo. Será que é mesmo mal pedir pra entrar de graça? As assessorias já têm uma cota pros jornalistas - aliás, é assim que elas trocam favores com repórteres, produtores de reportagem, etc. Eles fazem um favorzinho de lá e a gente faz um favorzinho aqui. Mas é tudo muito... esquisito, não? Ou eu estou sendo puritana demais?
Não sei, mas o fato é que eu não vou ao show, e isso está ficando recorrente demais, essa coisa de perder eventos. Deve fazer parte da vida de casada. Mas, também, é tudo uma questão de prioridade. Troquei meu ingresso da Amy Winehouse por algumas taças de vinho em Paris. Por enquanto eu acho que estou ganhando na troca. Quando eu achar que to perdendo, eu mudo o jogo - mas pagando inteira.
Friday, January 07, 2011
O primeiro dia do ano
Onde você estava no dia 1/1/11? Nunca tinha escrito essa data, e agora que escrevi e visualizei todos esses números 1 reunidos parecem uma coisa, assim, da Cabala. Mas então, no dia 1o. eu estava no segundo andar da Torre Eiffel. E a primeira paisagem que vi no ano foi Paris de cima.
Um belo começo. Vou pular os detalhes mundanos de que subir na Torre Eiffel é um puta de um programa de índio, que você pega uma fila enorme e demorada, e que passa um frio tremendo (caso você, como eu, resolva visitar Paris no inverno mais frio da última década). Vou pular tudo isso e manter o glamour, porque a verdade é que se você nunca foi a Paris e pretende ir um dia, nesse dia você vai se sentir na obrigação de subir na Torre Eiffel. Faz parte da rotina de turista essa vida de corno.
Pra você que ainda não foi, uma dica: compre o passe no site da torre um dia antes e pegue uma fila muuuito menor. Eu não fiz isso, é claro. Mas acho esperto qualquer um que seja mais organizado do que eu.
Se você nunca foi à Paris, vá à Torre Eiffel, fiquei maravilhado com a vista e prometa a si mesmo nunca mais passar esse perrengue de novo.
Eu já tinha ido a Paris. Mas essa é uma cidade que a gente nunca cansa de voltar. Eu ainda carrego aquele clima de viagem pra Europa (e olha que eu passei dos 2 graus para os 30 graus em 10 horas de vôo). Dessa vez, a minha viagem foi totalmente gastronômica e boêmia: passei os dias (as noites) indo a cafés, bebendo vinhos incríveis e baratíssimos, comendo queijos e entradas e, óbvio, engordando. Liguei o foda-se e me joguei na comida francesa, comi mariscos, ostras, bifes, risotos, bombas de chocolate, pan au chocolat, chocolate quente, e tudo o mais que passava na minha frente e que paercida gostoso. E, acredite, em Paris, o que parece gostoso, é gostoso de verdade.
No primeiro dia do ano, depois da visita à torre e do frio, e de mais um chocolate quente, e de mais uma porção de castanhas na brasa (além de ser uma delícia dá uma quenturinha por dentro), andei por todo o meu bairro - Montparnasse - fotografando os cafés que mais frequentei nos últimos 9 dias, fotografando a avenida, a estação do metrô e me despedindo (temporariamente) daquela vida.
O primeiro dia do ano foi o meu último dia de viagem. Mas de alguma maneira foi um outro começo também.
Um belo começo. Vou pular os detalhes mundanos de que subir na Torre Eiffel é um puta de um programa de índio, que você pega uma fila enorme e demorada, e que passa um frio tremendo (caso você, como eu, resolva visitar Paris no inverno mais frio da última década). Vou pular tudo isso e manter o glamour, porque a verdade é que se você nunca foi a Paris e pretende ir um dia, nesse dia você vai se sentir na obrigação de subir na Torre Eiffel. Faz parte da rotina de turista essa vida de corno.
Pra você que ainda não foi, uma dica: compre o passe no site da torre um dia antes e pegue uma fila muuuito menor. Eu não fiz isso, é claro. Mas acho esperto qualquer um que seja mais organizado do que eu.
Se você nunca foi à Paris, vá à Torre Eiffel, fiquei maravilhado com a vista e prometa a si mesmo nunca mais passar esse perrengue de novo.
Eu já tinha ido a Paris. Mas essa é uma cidade que a gente nunca cansa de voltar. Eu ainda carrego aquele clima de viagem pra Europa (e olha que eu passei dos 2 graus para os 30 graus em 10 horas de vôo). Dessa vez, a minha viagem foi totalmente gastronômica e boêmia: passei os dias (as noites) indo a cafés, bebendo vinhos incríveis e baratíssimos, comendo queijos e entradas e, óbvio, engordando. Liguei o foda-se e me joguei na comida francesa, comi mariscos, ostras, bifes, risotos, bombas de chocolate, pan au chocolat, chocolate quente, e tudo o mais que passava na minha frente e que paercida gostoso. E, acredite, em Paris, o que parece gostoso, é gostoso de verdade.
No primeiro dia do ano, depois da visita à torre e do frio, e de mais um chocolate quente, e de mais uma porção de castanhas na brasa (além de ser uma delícia dá uma quenturinha por dentro), andei por todo o meu bairro - Montparnasse - fotografando os cafés que mais frequentei nos últimos 9 dias, fotografando a avenida, a estação do metrô e me despedindo (temporariamente) daquela vida.
O primeiro dia do ano foi o meu último dia de viagem. Mas de alguma maneira foi um outro começo também.
Thursday, January 06, 2011
Feliz ano totalmente e absolutamente novo
Andei bastante tempo sumida desse blog, até que no mês passado aconteceu uma coisa engraçada: comecei a receber comentários elogiando o blog e pedindo que ele voltasse à ativa. Alguns desses comentários foram de amigos, outros foram de estranhos. E eu adoro quando estranhos comentam e elogiam o blog. Eu sou vaidosa, egotripeira e, enfim, agradeço os elogios sem constrangimentos algum!
(Parênteses filosófico: isso de aceitar elogios com naturalidade só acontece na web. Na vida real, fico totalmente sem graça com qualquer palavra benéfica vinda de outrem. Menos no trabalho, porque aí eu acho que o elogio é merecido, porque eu ralo pra caramba mesmo).
Mas sumi porque casei´. É a mais pura verdade. Quando a gente é solteira, chega em casa e fica sozinha. Eu costumava tomar um copo de vinho comendo meu luxuoso jantar de queijo quente, e me sentava ao computador. No segundo copo, já me sentia mais levinha, e no terceiro os textos saíam sensacionais. Produção em massa. Mas quando você vai morar com alguém, você conversa, dá atenção, quer contar o que rolou, quer saber o que rolou com ele. Tem um milhão de coisas pra falar naquele espaço de tempo entre a chegada do trabalho e a hora de dormir.
E aí... não leio como antes, não escrevo como antes. Essas são atividades que necessitam de solidão. E quando eu me vejo sozinha eu nao aproveito, porque fico perdida com o excesso de tempo só meu. Muito louco isso?
Mas o importante é que o ano chegou, e eu to botando muita fé em 2011. Com vontade de fazer acontecer mil coisas. Fico louca quando não etsou fazendo nada, quero sempre aproveitar cada minutinho, pensar sobre o que escrever e o que fazer, pensar em projetos, me tornar uma pessoa audiovisual (daquelas que eu tanto falava mal na faculdade).
(Parênteses filosófico: isso de aceitar elogios com naturalidade só acontece na web. Na vida real, fico totalmente sem graça com qualquer palavra benéfica vinda de outrem. Menos no trabalho, porque aí eu acho que o elogio é merecido, porque eu ralo pra caramba mesmo).
Mas sumi porque casei´. É a mais pura verdade. Quando a gente é solteira, chega em casa e fica sozinha. Eu costumava tomar um copo de vinho comendo meu luxuoso jantar de queijo quente, e me sentava ao computador. No segundo copo, já me sentia mais levinha, e no terceiro os textos saíam sensacionais. Produção em massa. Mas quando você vai morar com alguém, você conversa, dá atenção, quer contar o que rolou, quer saber o que rolou com ele. Tem um milhão de coisas pra falar naquele espaço de tempo entre a chegada do trabalho e a hora de dormir.
E aí... não leio como antes, não escrevo como antes. Essas são atividades que necessitam de solidão. E quando eu me vejo sozinha eu nao aproveito, porque fico perdida com o excesso de tempo só meu. Muito louco isso?
Mas o importante é que o ano chegou, e eu to botando muita fé em 2011. Com vontade de fazer acontecer mil coisas. Fico louca quando não etsou fazendo nada, quero sempre aproveitar cada minutinho, pensar sobre o que escrever e o que fazer, pensar em projetos, me tornar uma pessoa audiovisual (daquelas que eu tanto falava mal na faculdade).
Monday, August 30, 2010
Senhora é o caralho
Fiz 33 anos. Não que isso seja grande coisa, porque na minha cabeça eu ainda tenho 25. Com um pouquinho mais de dinheiro no banco, mas com muito menos juízo que eu achava que teria depois dos 30. Pelo menos ninguém veio me dizer que eu estava completando a idade de Cristo, porque isso significaria um risco alto de agressão física. Ainda bem que eu estou cercada por trintões que, como eu, ainda se enxergam com vinte e poucos.
O problema é que, fora os meus amigos, todas as outras pessoas do mundo sabem que eu sou uma trintona. E algumas arriscam seus pescoços me chamando de senhora. Sempre que isso acontece eu tenho vontade de responder "senhora é o caralho", mas sou impedida pela culpa católica de longos anos de educação em colégio de freira. Geralmente eu finjo que não ouvi e deixo pra lá. Mas quando o contato passa a acontecer com mais freqüência, treino o meu melhor sorriso e peço: senhora não, ne.
Lá em casa eu ainda sou apenas Bruna, enquanto meu marido é Seu fulano. Mas acho que isso tudo vai mudar quando eu passar praquele círculo de mulheres que deram cria.
Eu quero dar cria, mas morro de medo de dar cria. Eu preciso de no mínimo dois a três anos e um salário duas vezes melhor do que recebo pra pensar em um rebento. E, principalmente, eu preciso me habituar a ser chamada de senhora. Porque uma mãe é uma senhora por definição. E é por respeito, o que torna tudo mais bonito.
Só falta agora eu acreditar em tudo isso.
O problema é que, fora os meus amigos, todas as outras pessoas do mundo sabem que eu sou uma trintona. E algumas arriscam seus pescoços me chamando de senhora. Sempre que isso acontece eu tenho vontade de responder "senhora é o caralho", mas sou impedida pela culpa católica de longos anos de educação em colégio de freira. Geralmente eu finjo que não ouvi e deixo pra lá. Mas quando o contato passa a acontecer com mais freqüência, treino o meu melhor sorriso e peço: senhora não, ne.
Lá em casa eu ainda sou apenas Bruna, enquanto meu marido é Seu fulano. Mas acho que isso tudo vai mudar quando eu passar praquele círculo de mulheres que deram cria.
Eu quero dar cria, mas morro de medo de dar cria. Eu preciso de no mínimo dois a três anos e um salário duas vezes melhor do que recebo pra pensar em um rebento. E, principalmente, eu preciso me habituar a ser chamada de senhora. Porque uma mãe é uma senhora por definição. E é por respeito, o que torna tudo mais bonito.
Só falta agora eu acreditar em tudo isso.
Wednesday, August 18, 2010
Cada um tem seu canto

Não me canso de olhar a pedra do Arpoador. É impressionante como a gente passa a vida de cara pro mesmo cenário, e mesmo assim consegue, vez ou outra, se maravilhar com aquela paisagem conhecida.
Nunca fumei maconha na pedra do Arpoador (mas também, eu sempre fui uma maconheira de quinta categoria, maconheira de faculdade e que, aos trinta, prefere não fumar pra evitar a larica e a tentação de perder a noção caindo no chocolate...).
Nunca beijei na pedra do Arpoador.Foi só outro dia que subi lá no topo da pedra, pra ver a ressaca melhor.
Mas já vi o sol nascer na base da pedra do Arpoador, no reveillon de 2007-2008. Isso serve?
Depois de muitos anos sem conseguir frequentar aquele canto, finalmente descobri como se faz pra aproveitar o Arpoador. E como ninguém lê esse blog mesmo (a não ser uns 5 ou 6 leitores fiéis - vocês acham que eu não sei da sua existência?), estou disposta a revelar aqui o segredo da melhor praia do Rio.
Pimeiro, esqueça o Arpoador nos fins de semana do verão. É impossível. Considere exclusivamente os sábados e domingos do inverno carioca, aquele que os ingleses dariam um braço pra ter igual. Posto isso, acorde cedo para chegar na praia antes das 10h da manhã. E fique só até 1h da tarde. Você nunca mais vai se esquecer do paraíso que é essa cidade.
A minha última praia ali foi no meio da Copa. A televisão exibia algum jogo obscuro e inútil, tipo Japão e Coréia do Norte. Fui sozinha pro Arpex. Aluguei uma cadeira, coloquei os fones no ouvido, e fiquei assistindo a vida de camarote.
A água estava naquele azul transparente que vez ou outra somos presenteados. Eu coloquei Radiohead pra ouvir, e embora a voz do Thom York seja para dias nublados, fiquei emotiva. Ainda fico, quando me lembro daquele dia. Eu precisava de um tempo assim, olhando o mar, ouvindo música e vendo criancinhas correndo pra lá e pra cá. Foi foda.
E me rendeu essa foto.
Thursday, August 12, 2010
Conversando com estranhos
Carrego sempre na bolsa um livro emergencial pra momentos de espera. Não suporto ficar vendo as horas passando sem conseguir ocupar essa cabeça tão cheia de conversa mole que é a minha. Até em fila de banco to eu lá em pé e de volume aberto nas mãos. É uma maneira de não me irritar com pessoas que ficam muito coladas em você, ou que demoram a dar aquele passinho a mais quando a fila anda.
Os livros de bolsa também servem para evitar a conversa com estranhos ávidos por trocar experiências. Acho que fiquei traumatizada anos atrás, quando voltava da faculdade no 750 lotado das 7h da noite. Sentei ao lado de uma senhora que me contou tudo, com detalhes, sobre suas doenças ginecológicas: miomas, úteros arrancados, sangramentos. Nunca foi tão longa a volta pra casa.
Mas recentemente andei pensando que até que as pessoas têm boas histórias pra contar. E que, se eu queria contar casos, deveria começar também a ouvir. E aí um dia me dei essa chance, enquanto esperava o carro voltar da revisão da concessionária.
Eu estava com o famoso livro de bolsa nas mãos quando um senhor nos seus 60 e poucos puxou conversa. Fechei o livro e escutei o homem falando do carro, da casa em Búzios, do síndico do condomínio em Búzios, e da filha dele que morava em Portugal e com quem ele não encontrava há 5 anos. (Aliás, ele puxou papo comigo porque me achou parecida com ela).
Argumentei que ele deveria fazer uma visita a ela, e aproveitar para passear por Lisboa. Ele me disse que em 2009 chegou a comprar a passagem, mas teve um problema no embarque e depois disso nunca mais tentou viajar de novo.
Ele parecia triste com isso, e acabou me confidenciando por que nunca mais tinha viajado para a Europa. Acontece que ele chegaria em Lisboa por um vôo Rio - Paris, com escala em Portugal. Mas no momento do embarque, os policiais encrencaram com o passaporte argentino dele, dizendo que ele deveria ter um brasileiro, já que tinha dupla cidadania. Não o deixaram embarcar.
O homem voltou pra casa arrasado, comeu alguma coisa e foi dormir. No dia seguinte, ligou a TV e sentiu o coração fraquejar. Seu aviaão Rio - Paris havia caído quando saía do Brasil. Era o vôo 447 da Air France.
No momento em que ele me contou isso, joguei o livro dentro da bolsa. Apenas três pessoas haviam sobrevivido ao desastre - três passageiros que não tinham embarcado - e eu estava diante de uma delas. O homem disse que nunca contou para a filha porque não foi a Portugal, e confessou que desde então não teve coragem de encarar um avião.
Ainda penso nessa conversa e tento imaginar qual é a sensação que existe quando se descobre que não morreu. Alívio imediato, provavelmente. Crença em Deus ou em um poder supremo que governaria o mundo. Medo da morte.
Contei para duas pessoas a história do homem da concessionária. Meus ouvintes se surpreenderam, mas nem de perto sentiram o mesmo que eu senti no momento em que ouvi a história. Talvez eu não tenha feito a mesma expressão ou não tenha usado as mesmas palavras que o homem. Mas com certeza a falta foi minha.
Os livros de bolsa também servem para evitar a conversa com estranhos ávidos por trocar experiências. Acho que fiquei traumatizada anos atrás, quando voltava da faculdade no 750 lotado das 7h da noite. Sentei ao lado de uma senhora que me contou tudo, com detalhes, sobre suas doenças ginecológicas: miomas, úteros arrancados, sangramentos. Nunca foi tão longa a volta pra casa.
Mas recentemente andei pensando que até que as pessoas têm boas histórias pra contar. E que, se eu queria contar casos, deveria começar também a ouvir. E aí um dia me dei essa chance, enquanto esperava o carro voltar da revisão da concessionária.
Eu estava com o famoso livro de bolsa nas mãos quando um senhor nos seus 60 e poucos puxou conversa. Fechei o livro e escutei o homem falando do carro, da casa em Búzios, do síndico do condomínio em Búzios, e da filha dele que morava em Portugal e com quem ele não encontrava há 5 anos. (Aliás, ele puxou papo comigo porque me achou parecida com ela).
Argumentei que ele deveria fazer uma visita a ela, e aproveitar para passear por Lisboa. Ele me disse que em 2009 chegou a comprar a passagem, mas teve um problema no embarque e depois disso nunca mais tentou viajar de novo.
Ele parecia triste com isso, e acabou me confidenciando por que nunca mais tinha viajado para a Europa. Acontece que ele chegaria em Lisboa por um vôo Rio - Paris, com escala em Portugal. Mas no momento do embarque, os policiais encrencaram com o passaporte argentino dele, dizendo que ele deveria ter um brasileiro, já que tinha dupla cidadania. Não o deixaram embarcar.
O homem voltou pra casa arrasado, comeu alguma coisa e foi dormir. No dia seguinte, ligou a TV e sentiu o coração fraquejar. Seu aviaão Rio - Paris havia caído quando saía do Brasil. Era o vôo 447 da Air France.
No momento em que ele me contou isso, joguei o livro dentro da bolsa. Apenas três pessoas haviam sobrevivido ao desastre - três passageiros que não tinham embarcado - e eu estava diante de uma delas. O homem disse que nunca contou para a filha porque não foi a Portugal, e confessou que desde então não teve coragem de encarar um avião.
Ainda penso nessa conversa e tento imaginar qual é a sensação que existe quando se descobre que não morreu. Alívio imediato, provavelmente. Crença em Deus ou em um poder supremo que governaria o mundo. Medo da morte.
Contei para duas pessoas a história do homem da concessionária. Meus ouvintes se surpreenderam, mas nem de perto sentiram o mesmo que eu senti no momento em que ouvi a história. Talvez eu não tenha feito a mesma expressão ou não tenha usado as mesmas palavras que o homem. Mas com certeza a falta foi minha.
Thursday, August 05, 2010
Previsibilidades Imprevisíveis
As pessoas são previsíveis. E uma das características das pessoas é achar que outras pessoas podem nos surpreender. Vez ou outra isso acontece, é verdade. Mas na maioria das vezes nós já sabemos o final da história, e só cabe à gente acreditar no prólogo ou não.
Repetimos sempre os mesmos comportamentos, as mesmas mancadas cíclicas. Dá uma raiva danada quando eu vejo que estou passando pela mesma situação que passei no mês passado por culpa exclusivamente minha. Admiro quem aprende com os erros, mas eu mesmo nunca conheci ninguém com essa capacidade. Só errando muito e várias vezes seguidas é que a gente se convence de que errou de verdade.
Eu adoro quando sou surpreendida com atitudes imprevistas - boas, é claro. Mas elas são tão raras. Eu acho uma pena. Queria uma surpresinha só de vez em quando, peloamordedeus. Alguém?
Repetimos sempre os mesmos comportamentos, as mesmas mancadas cíclicas. Dá uma raiva danada quando eu vejo que estou passando pela mesma situação que passei no mês passado por culpa exclusivamente minha. Admiro quem aprende com os erros, mas eu mesmo nunca conheci ninguém com essa capacidade. Só errando muito e várias vezes seguidas é que a gente se convence de que errou de verdade.
Eu adoro quando sou surpreendida com atitudes imprevistas - boas, é claro. Mas elas são tão raras. Eu acho uma pena. Queria uma surpresinha só de vez em quando, peloamordedeus. Alguém?
Wednesday, August 04, 2010
Olhos bem abertos
Quem sofre de insônia sabe: existe aquele micro momento em que estamos quase adormecendo e pensamos: vou conseguir dormir. Aí a gente acorda. E demora mais uma horinha looonga pra conseguir entrar no clima de novo, dessa vez tentando esvaziar a mente - o que por si só já dá um trabalho filho da puta. Insônias são contraprocentes, irritantes e angustiantes. E sempre chega a hora em que eu desisto de lutar e ligo a TV.
Não sofro de insônia. Mas, vez ou outra, por conta de ansiedade/putisse/preocupação eu acabo fritando bolinhos na cama. Aí levanto, acendo um cigarro, circulo pela casa. Mas aí é o problema, porque quando faço isso tudo estou contribuindo para que o sono não volte a se apresentar tão cedo. E quando ele chega de verdade é sempre uma hora antes do despertador tocar. É só comigo que é assim?
Daí hoje eu estou com olheiras até o umbigo, e me matei pra não dormir na aula sobre Proust. Ele também tinha insônia. E ele também acordava e achava que estava em outro lugar, às vezes. E às vezes ficava feliz, outras ficava triste por não estar onde achava que estava.
Depois de pensar "dormi" e acabar acordando, achei que estava no meu quarto de infância, na casa do meu pai. Fui abrindo os olhos e reconhecendo o fundo barulhento de Copacabana onde, não importa a hora, tem sempre um ônibus passando embaixo da minha janela. Não, eu não estava na casa do meu pai, aquele lugar tão silencioso e quieto que me dava tédio na adolescência.
E dessa vez, quando percebi que não estava lá, eu fiquei triste.
Não sofro de insônia. Mas, vez ou outra, por conta de ansiedade/putisse/preocupação eu acabo fritando bolinhos na cama. Aí levanto, acendo um cigarro, circulo pela casa. Mas aí é o problema, porque quando faço isso tudo estou contribuindo para que o sono não volte a se apresentar tão cedo. E quando ele chega de verdade é sempre uma hora antes do despertador tocar. É só comigo que é assim?
Daí hoje eu estou com olheiras até o umbigo, e me matei pra não dormir na aula sobre Proust. Ele também tinha insônia. E ele também acordava e achava que estava em outro lugar, às vezes. E às vezes ficava feliz, outras ficava triste por não estar onde achava que estava.
Depois de pensar "dormi" e acabar acordando, achei que estava no meu quarto de infância, na casa do meu pai. Fui abrindo os olhos e reconhecendo o fundo barulhento de Copacabana onde, não importa a hora, tem sempre um ônibus passando embaixo da minha janela. Não, eu não estava na casa do meu pai, aquele lugar tão silencioso e quieto que me dava tédio na adolescência.
E dessa vez, quando percebi que não estava lá, eu fiquei triste.
Tuesday, August 03, 2010
Sunday Morning
Eu devo estar a caminho do Nirvana, porque o impensável aconteceu: dispensei uma festa no sábado à noite para aproveitar a manhã de domingo. E o pior (ou melhor) é que no dia seguinte acordei sem remorço de ter perdido a festa - o que também é novo pra mim - e fui pra praia com o meu aparato de corredora-fumante. Sinto que um novo ciclo se inicia.
A manhã é a minha parte favorita do domingo. O calçadão de Copa está fechado, e parece que todas as pessoas do Rio vão pra lá pra aproveitar o sol. Eu gosto disso. Porque não sou bairrista, porque não me considero um exemplo de moradora de Copacabana (ao contrário, ta escrito na minha testa que eu sou uma outsider) e porque eu gosto de ver a vida das pessoas passando por mim.
Como antes eu tinha o chorinho da praça, agora eu tenho só pra mim aquela paisagem conhecida mundialmente. Ajeito o boné com filtro solar 60 no rosto, e vou pela ciclovia recebendo um olhar de reconhecimento de semelhante por aqueles que, como eu, decidiram que suar um pouquinho por dia faz bem. Depois, paro na casa de suco mais próxima e peço um copo de suco de uvas roxas, e me recomponho antes de voltar ao apartamento. Reluto demais em me enclausurar de novo, porque a vida de domingo no Rio é muito pulsante e muito arrebatadora, e dá até vontade de andar de patins, mesmo que você seja péssima nisso. cair na frente de todo mundo não é um problema.
Tem domingos que não acabam nunca. No último, saímos meio tarde de casa, e eu corri pra lá e pra cá enquanto ele ficou no skate. Depois, andamos alguns quilômetros até o restaurante de frutos do mar e comemos uma paella com amigos. E eles foram lá pra casa ver futebol. E só às 9h da noite eu pude tirar a minha roupa de praia e encerrar o expediente da carioca com mais cara de paulista da história de Copacabana.
A manhã é a minha parte favorita do domingo. O calçadão de Copa está fechado, e parece que todas as pessoas do Rio vão pra lá pra aproveitar o sol. Eu gosto disso. Porque não sou bairrista, porque não me considero um exemplo de moradora de Copacabana (ao contrário, ta escrito na minha testa que eu sou uma outsider) e porque eu gosto de ver a vida das pessoas passando por mim.
Como antes eu tinha o chorinho da praça, agora eu tenho só pra mim aquela paisagem conhecida mundialmente. Ajeito o boné com filtro solar 60 no rosto, e vou pela ciclovia recebendo um olhar de reconhecimento de semelhante por aqueles que, como eu, decidiram que suar um pouquinho por dia faz bem. Depois, paro na casa de suco mais próxima e peço um copo de suco de uvas roxas, e me recomponho antes de voltar ao apartamento. Reluto demais em me enclausurar de novo, porque a vida de domingo no Rio é muito pulsante e muito arrebatadora, e dá até vontade de andar de patins, mesmo que você seja péssima nisso. cair na frente de todo mundo não é um problema.
Tem domingos que não acabam nunca. No último, saímos meio tarde de casa, e eu corri pra lá e pra cá enquanto ele ficou no skate. Depois, andamos alguns quilômetros até o restaurante de frutos do mar e comemos uma paella com amigos. E eles foram lá pra casa ver futebol. E só às 9h da noite eu pude tirar a minha roupa de praia e encerrar o expediente da carioca com mais cara de paulista da história de Copacabana.
Thursday, July 29, 2010
E finalmente a caixas se vão
Faz oito meses que me mudei. Há nove meses eu era uma pessoa que dividia o apartamento com amigas, fazia festas de tendência duvidosa no fim de semana (que rendiam vídeos no Youtube e quase términos de amizade) e jantava, todos os dias, salsicha e ovo mexido. Agora eu faço compras de cinco quilos de arroz e já me acostumei a não pedir a pizza de champignon, porque lá em casa ninguém prefere esse sabor. E acabei descobrindo que nem sinto tanta falta assim dos cogumelos.
Mas as caixas da minha mudança, durante todo esse tempo, estavam encostadas em um canto da casa. Aquilo me fazia um mal que não dá pra descrever. Meus livros mal empilhados. Minha coleção do Peanuts misturada com a minha coleção do Sandman. Um caos de HQ completo.
Só que um milagre aconteceu: um dia, eu e o namorido viajamos para Itaipava, e voltamos pro Rio com um tapete para a sala. Experimentamos e o tapete pediu uma mesa de centro. Eu trouxe uma da casa do meu pai, arrumei bem no meio do tapete, e fiquei olhando praquele móvel vazio. E descobri que a minha coleção so Sandman ficaria luxuosa ali naquela mesa. E aí, finalmente, comecei a sentir que aquele apartamento estava ficando com cara de minha casa.
Outro dia, fomos comprar tecido para estofar a minha poltrona que a Catarina (a gatinha do meu antigo apartamento) tinha transformado em arranhador. Eu perguntei pro meu querido cônjuge o que vamos fazer depois que a fase da decoração acabar, e ele respondeu: vamos dar uma festa, claro. Achei a resposta muito digna de uma solução Bruna e, mais uma vez, entendi que ali é o meu lar.
Agora falta pendurar os posteres que compramos na Allposters.com. E vamos reformar a mesa anos 80 que foi presente da tia dele. Entre uma música e outra do Guitar Hero Rock Legends eu procuro enfeitinhos e coisinhas de casa que antes passavam batidas no meu passeio pelo shopping. Então é assim que se faz, né?
Achei que eu não ia aprender nunca.
Mas as caixas da minha mudança, durante todo esse tempo, estavam encostadas em um canto da casa. Aquilo me fazia um mal que não dá pra descrever. Meus livros mal empilhados. Minha coleção do Peanuts misturada com a minha coleção do Sandman. Um caos de HQ completo.
Só que um milagre aconteceu: um dia, eu e o namorido viajamos para Itaipava, e voltamos pro Rio com um tapete para a sala. Experimentamos e o tapete pediu uma mesa de centro. Eu trouxe uma da casa do meu pai, arrumei bem no meio do tapete, e fiquei olhando praquele móvel vazio. E descobri que a minha coleção so Sandman ficaria luxuosa ali naquela mesa. E aí, finalmente, comecei a sentir que aquele apartamento estava ficando com cara de minha casa.
Outro dia, fomos comprar tecido para estofar a minha poltrona que a Catarina (a gatinha do meu antigo apartamento) tinha transformado em arranhador. Eu perguntei pro meu querido cônjuge o que vamos fazer depois que a fase da decoração acabar, e ele respondeu: vamos dar uma festa, claro. Achei a resposta muito digna de uma solução Bruna e, mais uma vez, entendi que ali é o meu lar.
Agora falta pendurar os posteres que compramos na Allposters.com. E vamos reformar a mesa anos 80 que foi presente da tia dele. Entre uma música e outra do Guitar Hero Rock Legends eu procuro enfeitinhos e coisinhas de casa que antes passavam batidas no meu passeio pelo shopping. Então é assim que se faz, né?
Achei que eu não ia aprender nunca.
Wednesday, July 28, 2010
Um ídolo não pop
De tantas imagens fortes que a cobertura jornalística mundial já exibiu, a que mais me impressionou foi o Peter Jennings, âncora da ABC, em mangas de camisa e nitidamente exausto, apresentando as últimas notícias sobre os ataques de 11 de setembro. Foi depois da queda das Torres Gêmeas que Peter Jennings não quis mais sair do ar, queria ele mesmo transmitir todas as notícias do início dessa guerra, e chegou a quebrar o record de pessoa que ficou mais tempo no ar na TV.
Peter Jennings já era meu âncora favorito antes. Porque eu acabei desenvolvendo um carinho especial por ele quando, por volta de 20h, eu tinha que ouvir e transcrever o jornal de rede da ABC, nos meus tempos de estagiária de jornalismo em NY. Foi ali que descobri que existe uma forma diferente de apresentar um telejornal. Uma coisa além de Willian Bonner e muito, muito mais próxima que Cid Moreira. O estilo de Jennings de ancorar aquelas notícias era todo pessoal. Por isso que eu gostava dele.
Agora olha só, o cara era ex fumante, e depois dos ataques ao World Trade Center, voltou ao vício. Isso resultou em sua morte por câncer no pulmão, em 2005. De algum modo, eu considero o meu ídolo um mártir do jornalismo. Pelo tanto que ele se envolveu com a história do seu país. Por ele se livrar do paletó e perder a postura rígida dos apresentadores de TV, enquanto passava das 12 horas na bancada do telejornal. E a imagem que eu carrego dele é o rosto cansado na TV, os cotovelos apoiados na bancada como se ele estivesse conversando na minha casa, me contando as últimas informações que recebeu.
Diante de Peter Jennings, somos todos eternas focas.
Peter Jennings já era meu âncora favorito antes. Porque eu acabei desenvolvendo um carinho especial por ele quando, por volta de 20h, eu tinha que ouvir e transcrever o jornal de rede da ABC, nos meus tempos de estagiária de jornalismo em NY. Foi ali que descobri que existe uma forma diferente de apresentar um telejornal. Uma coisa além de Willian Bonner e muito, muito mais próxima que Cid Moreira. O estilo de Jennings de ancorar aquelas notícias era todo pessoal. Por isso que eu gostava dele.
Agora olha só, o cara era ex fumante, e depois dos ataques ao World Trade Center, voltou ao vício. Isso resultou em sua morte por câncer no pulmão, em 2005. De algum modo, eu considero o meu ídolo um mártir do jornalismo. Pelo tanto que ele se envolveu com a história do seu país. Por ele se livrar do paletó e perder a postura rígida dos apresentadores de TV, enquanto passava das 12 horas na bancada do telejornal. E a imagem que eu carrego dele é o rosto cansado na TV, os cotovelos apoiados na bancada como se ele estivesse conversando na minha casa, me contando as últimas informações que recebeu.
Diante de Peter Jennings, somos todos eternas focas.
Tuesday, July 27, 2010
Onde você estava no começo dessa década?
Eu estava em Nova York, servindo mesas, ganhando míseros dólares de gorjeta e, mesmo assim, me divertindo bastante. Falando inglês com sotaque de moradora do Brooklin, porque o dono do restaurante que eu trabalhava era de lá. Vendo as torres do World Trade Center caindo. Passeando no Central Park nos meus days off - um programa barato e aconchegante. Cozinhando arroz com micro camarões e algas japonesas. Brincando de casinha com meu então namorado.
Felipe Hirsch, o único diretor de teatro que eu respeito, me perguntou isso ontem na sua coluna do jornal O Globo. Ele queria falar de bandas que despontaram a partir de 2000: Arcade Fire, LCD Soundsystem, Artict Monkeys. Bandas que eu ouço e recomendo, porque acredito que os anos 00 tiveram uma boa contribuição artística pro mundo. Eu não queria viver em outro lugar nem em outra época: acredito que estamos passando por um ápice tecnológico, que o Brasil está cada vez melhor posicionado no cenário mundial e que as descobertas da ciência fazem com que soframos menos com as mazelas do corpo.
Houve um tempo em que eu acreditava que a melhor época da história já havia passado. Quis viver nos anos 60, depois nos 70. Cresci nos 80 ouvindo rock brasileiro e nos 90 me preparei para cair nas pistas de dança. Observei tudo isso, e agora digo com certeza: não há nada como 2010.
Felipe Hirsch, o único diretor de teatro que eu respeito, me perguntou isso ontem na sua coluna do jornal O Globo. Ele queria falar de bandas que despontaram a partir de 2000: Arcade Fire, LCD Soundsystem, Artict Monkeys. Bandas que eu ouço e recomendo, porque acredito que os anos 00 tiveram uma boa contribuição artística pro mundo. Eu não queria viver em outro lugar nem em outra época: acredito que estamos passando por um ápice tecnológico, que o Brasil está cada vez melhor posicionado no cenário mundial e que as descobertas da ciência fazem com que soframos menos com as mazelas do corpo.
Houve um tempo em que eu acreditava que a melhor época da história já havia passado. Quis viver nos anos 60, depois nos 70. Cresci nos 80 ouvindo rock brasileiro e nos 90 me preparei para cair nas pistas de dança. Observei tudo isso, e agora digo com certeza: não há nada como 2010.
Monday, July 26, 2010
Viva a melancolia
Quando eu era uma jovem universitária, era uma pessoa muito ávida por cultura. Lia pra cacete, via filmes em sessões vazias do Estação Botafogo e encarava meus colegas de período com aquele ar blasé fake de quem acha que já viu muito mais do que os outros. Pobre de mim.
Mas toda essa busca por cultura tinha uma razão de ser: a minha melancolia. Ela estava sempre lá. Não sei por quê inventei de ser melancólica (eu não tinha razão pra isso), mas o fato é que lia tanto e via tantos filmes pra conseguir algumas respostas sobre a vida.
Tinha vezes que dava certo. Foi quando assisti "O Sétimo Selo" e simplesmente pirei com o Bergman. Pensei: "Agora estou entendendo tudo!" Mas a real é que eu não estava entendendo nada. Mesmo continuando a ver filmes suecos lentíssimos.
Aí o tempo vai passando e a gente começa a trabalhar muito mais. E tem pouco tempo. E então, quando percebemos, quase não temos ido ao cinema, nem lido nada relevante, nada que nos dê um sentido. Aliás, passamos a não buscar mais esse sentido. Quando nos damos conta, estamos apenas vivendo.
E foi assim que, um dia, eu vi que estava indo pelo caminho errado. O caminho de deixar a correnteza levar, o que pode acabar fazendo com que eu bata nas pedras. Corri pra livraria e gastei uma grana considerável em três livros imprescindíveis. Era o recomeço da busca.
A minha melancolia ainda existe, mas dessa vez eu não a vejo mais como inimiga. É ela que me faz evitar a todo custo a vida no modo piloto automático. É ela que me obriga a gastar dinheiro que não tenho com coisas que vão me fazer bem. A minha melancolia é a minha melhor parte. Ainda bem que eu sempre trago comigo.
Mas toda essa busca por cultura tinha uma razão de ser: a minha melancolia. Ela estava sempre lá. Não sei por quê inventei de ser melancólica (eu não tinha razão pra isso), mas o fato é que lia tanto e via tantos filmes pra conseguir algumas respostas sobre a vida.
Tinha vezes que dava certo. Foi quando assisti "O Sétimo Selo" e simplesmente pirei com o Bergman. Pensei: "Agora estou entendendo tudo!" Mas a real é que eu não estava entendendo nada. Mesmo continuando a ver filmes suecos lentíssimos.
Aí o tempo vai passando e a gente começa a trabalhar muito mais. E tem pouco tempo. E então, quando percebemos, quase não temos ido ao cinema, nem lido nada relevante, nada que nos dê um sentido. Aliás, passamos a não buscar mais esse sentido. Quando nos damos conta, estamos apenas vivendo.
E foi assim que, um dia, eu vi que estava indo pelo caminho errado. O caminho de deixar a correnteza levar, o que pode acabar fazendo com que eu bata nas pedras. Corri pra livraria e gastei uma grana considerável em três livros imprescindíveis. Era o recomeço da busca.
A minha melancolia ainda existe, mas dessa vez eu não a vejo mais como inimiga. É ela que me faz evitar a todo custo a vida no modo piloto automático. É ela que me obriga a gastar dinheiro que não tenho com coisas que vão me fazer bem. A minha melancolia é a minha melhor parte. Ainda bem que eu sempre trago comigo.
Friday, July 23, 2010
Runners High
Quem corre direito, e não faz esse passeio medíocre que são as minhas manhãs na orla de Copa, diz que depois de 15 minutos passa a se sentir em um estado de êxtase corpóreo. É o que os corredores chamam de runners high: uma sensação de relaxamento e bem estar que se compara ao que sentimos quando usamos certos tipos de droga.
Mas a minha pergunta é: se isso só acontece após os 15 minutos iniciais de corrida, como é que ficam os pseudo atletas fumantes que não conseguem correr direto nem dez minutos? Eu tava precisando tanto de uma high dessas, só pra variar um pouquinho. Mas parece que, diferente do mundo das drogas sintéticas, essa aí a gente tem que fazer por merecer. E por enquanto eu não estou merecendo não.
Matei minha corrida de hoje. Ainda tenho a esprança de chegar em casa meia noite e dar uma volta no calçadão, só pra não fazer cair a minha meta. Porque dessa meta dependem outras metas, tipo manter o humor aturável e parar de fumar ainda esse ano.
Putz, a vida era bem mais fácil quando dava pra comprar satisfação com o playboyzinho da festa.
Mas a minha pergunta é: se isso só acontece após os 15 minutos iniciais de corrida, como é que ficam os pseudo atletas fumantes que não conseguem correr direto nem dez minutos? Eu tava precisando tanto de uma high dessas, só pra variar um pouquinho. Mas parece que, diferente do mundo das drogas sintéticas, essa aí a gente tem que fazer por merecer. E por enquanto eu não estou merecendo não.
Matei minha corrida de hoje. Ainda tenho a esprança de chegar em casa meia noite e dar uma volta no calçadão, só pra não fazer cair a minha meta. Porque dessa meta dependem outras metas, tipo manter o humor aturável e parar de fumar ainda esse ano.
Putz, a vida era bem mais fácil quando dava pra comprar satisfação com o playboyzinho da festa.
Thursday, July 22, 2010
Live and let live
Os psicólogos que trabalham com dependentes químicos avisam para a família dos seus pacientes: quando se trata de vício, o melhor é adotar o lema do Live and Let Live. Ou seja: deixa o outro se fuder um pouquinho que isso só vai ser bom pra ele, no final das contas. E, principalmente, siga com a sua própria vida.
Eu resolvi adotar esse lema pra tudo. Mesmo que eu não tenha pela frente um dependente químico, mesmo que eu não seja nem de perto uma viciada, resolvi seguir a linha do let live. É que fiquei muito tempo no estilo live and let die, o que pode parecer a mesma coisa, mas se você olhar bem de perto vê que não é. O live and let live é mais... pacifista. E eu to muito pacífica no momento.
Viver no estilo let live tira um grande peso das minhas costas. Todas vez que me vejo preocupada com outros que nem deveriam ser tão preocupantes assim, percebo que na verdade eles é que deveriam se fuder um pouquinho, como os viciados. Todo mundo que se fode aprende alguma coisa na vida. Eu já tive uma grande parcela de fodimento. Agora tá na hora de deixar os outros seguirem seu caminho.
Eu resolvi adotar esse lema pra tudo. Mesmo que eu não tenha pela frente um dependente químico, mesmo que eu não seja nem de perto uma viciada, resolvi seguir a linha do let live. É que fiquei muito tempo no estilo live and let die, o que pode parecer a mesma coisa, mas se você olhar bem de perto vê que não é. O live and let live é mais... pacifista. E eu to muito pacífica no momento.
Viver no estilo let live tira um grande peso das minhas costas. Todas vez que me vejo preocupada com outros que nem deveriam ser tão preocupantes assim, percebo que na verdade eles é que deveriam se fuder um pouquinho, como os viciados. Todo mundo que se fode aprende alguma coisa na vida. Eu já tive uma grande parcela de fodimento. Agora tá na hora de deixar os outros seguirem seu caminho.
Tuesday, July 20, 2010
Dia 1
Minha vida só funciona com metas. Me formei em jornalismo, mas seria uma ótima bibliotecária: adoro arquivar, fazer tabelas, organizar e... propor metas. A da vez é correr todos os dias, chovendo ou fazendo sol, de ressaca ou descansada, de mau humor ou bem humorada. A verdade é que correr na praia é receita pra bom humor: mesmo nos dias em que estou latindo pelo mundo, a música do Ipod e o ventinho do litoral me ajudam a virar o disco. Ainda bem.
Comecei hoje. Acordei cedo, coloquei a roupa e corri míseros 20 minutos, colocando os bofes pra fora. Fuma, vai, garota. Dá nisso. Mas aí, quando cheguei em casa e me arrumei pro trabalho, comecei a sentir os benefícios da endorfina: fui berrando Rufus Wainwright dentro do carro, os versos que eu amo de 14th street: "don´t ever change, don't ever worry, 'cause I'm comming back home tomorrow"
Correr na praia é como assistir televisão: a gente fica vendo a vida passando, fica olhando bebezinhos e animais de estimação fofos, e finge que não percebe os vovôs de Copacabana virando a cabeça pra olhar a nossa bunda. Aliás, descobri que se minha meta fosse a terceira idade, estava feita: os homens de 70 são absolutamente meus fãs. Vai ver é porque aos 32 sou para eles o que uma garota de 17 é para os quarentões.
Comecei hoje. Acordei cedo, coloquei a roupa e corri míseros 20 minutos, colocando os bofes pra fora. Fuma, vai, garota. Dá nisso. Mas aí, quando cheguei em casa e me arrumei pro trabalho, comecei a sentir os benefícios da endorfina: fui berrando Rufus Wainwright dentro do carro, os versos que eu amo de 14th street: "don´t ever change, don't ever worry, 'cause I'm comming back home tomorrow"
Correr na praia é como assistir televisão: a gente fica vendo a vida passando, fica olhando bebezinhos e animais de estimação fofos, e finge que não percebe os vovôs de Copacabana virando a cabeça pra olhar a nossa bunda. Aliás, descobri que se minha meta fosse a terceira idade, estava feita: os homens de 70 são absolutamente meus fãs. Vai ver é porque aos 32 sou para eles o que uma garota de 17 é para os quarentões.
Monday, April 05, 2010
Entre o teclado e eu
Houve uma época em que eu tinha certeza absoluta de que seria uma escritora. Não faz tanto tempo assim: eu ainda não havia virado o cabo da boa esperança dos 30 anos, e achava que tempo era o que não faltava para escrever meu livro. Enquanto isso, meus companheiros de outros blogs foram lançando livros, ganhando fama e pouco dinheiro, e hoje estão quase todos muito bem. E sobre o meu primeiro romance, nem uma linha. Virei a eterna promessa de mim mesma.
É que eu tinha (e tenho) medo de fazer algo medíocre. Sou muito boa em criticar a mediocridade, e não aguentaria o tranco de ser criticada de volta. Mas a vida vai passando e você percebe que não fez nada de relevante por você mesmo, e aí os medos começam a se transformar em outros. Foi isso o que aconteceu comigo.
Eu acho que preciso de solidão. De ficar um fim de semana isolada do mundo, de jogar meu celular no mar (como naquela cena de abertura do roteiro que eu comecei a escrever e não terminei), de ser forçada a pensar sobre a vida, mesmo que ela seja ficção.
Tá na hora de sair dessa comodidade ridícula.
É que eu tinha (e tenho) medo de fazer algo medíocre. Sou muito boa em criticar a mediocridade, e não aguentaria o tranco de ser criticada de volta. Mas a vida vai passando e você percebe que não fez nada de relevante por você mesmo, e aí os medos começam a se transformar em outros. Foi isso o que aconteceu comigo.
Eu acho que preciso de solidão. De ficar um fim de semana isolada do mundo, de jogar meu celular no mar (como naquela cena de abertura do roteiro que eu comecei a escrever e não terminei), de ser forçada a pensar sobre a vida, mesmo que ela seja ficção.
Tá na hora de sair dessa comodidade ridícula.
Wednesday, March 24, 2010
Clubbers das antigas
Outro dia fui à festa de aniversário da Giselle, uma amiga que não chega a ser amiga, mas que eu quero muito bem. Ela faz parte de um grupo de pessoas que eu conheci na específica situação de boates de música eletrônica. E o mais irônico é que você realmente pode conhecer pessoas com a música alta e enquanto dança um pouquinho e bebe um pouquinho. Depois de ser apresentada à Giselle, já fiz uns trabalhos de assessoria de imprensa pro salão que ela mantém em Ipanema. E, de vez em quando, deixo umas medeixas por lá.
Meu marido não entende muito bem essa história de amizades noturnas. Durante toda noite, cada vez que alguém me encontrava e me dispensava um daqueles abraços dignos de resgate de seqüestro ("Brunaaaaaa!!! Quanto tempo!!!!"), ele me perguntava: de onde você conhece? E eu sempre tinha a mesma resposta: da noite...
Mas deixa eu explicar melhor. No meio dos anos 90, os amantes de música eletrônica no Rio de Janeiro eram uns poucos gatos pingados, que se encontravam todo sábado na mesma boate - a única a se dedicar ao gênero no Rio - ouvindo os mesmos DJs. Não queríamos ser um clube, mas éramos. Sonhávamos com o dia em que o Brasil veria raves do tamanho das que eram feitas nos desertos norte-americanos, ou nas ruas de Berlim. As meninas usavam glitter e estrelinhas coladas na sobrancelha, e todo mundo saía de tênis porque assim era mais confortável pra dançar.
Sendo assim, depois de certo tempo reconhecendo os mesmo rostos desconhecidos, chega uma hora em que você simplesmente passa a falar com aquelas pessoas. Não sei bem como conheci o povo que estava na festa da Giselle, mas sei que foi bom reencontrar meus antigos companheiros de dancinhas. É um pessoal fácil, que fala sobre amenidades, sem maiores conseqüências. E, por isso mesmo, é bem divertido.
Tem vezes que a gente só precisa falar sobre o calor do ex-verão ou sobre se a música que está tocando é boa ou não.
Meu marido não entende muito bem essa história de amizades noturnas. Durante toda noite, cada vez que alguém me encontrava e me dispensava um daqueles abraços dignos de resgate de seqüestro ("Brunaaaaaa!!! Quanto tempo!!!!"), ele me perguntava: de onde você conhece? E eu sempre tinha a mesma resposta: da noite...
Mas deixa eu explicar melhor. No meio dos anos 90, os amantes de música eletrônica no Rio de Janeiro eram uns poucos gatos pingados, que se encontravam todo sábado na mesma boate - a única a se dedicar ao gênero no Rio - ouvindo os mesmos DJs. Não queríamos ser um clube, mas éramos. Sonhávamos com o dia em que o Brasil veria raves do tamanho das que eram feitas nos desertos norte-americanos, ou nas ruas de Berlim. As meninas usavam glitter e estrelinhas coladas na sobrancelha, e todo mundo saía de tênis porque assim era mais confortável pra dançar.
Sendo assim, depois de certo tempo reconhecendo os mesmo rostos desconhecidos, chega uma hora em que você simplesmente passa a falar com aquelas pessoas. Não sei bem como conheci o povo que estava na festa da Giselle, mas sei que foi bom reencontrar meus antigos companheiros de dancinhas. É um pessoal fácil, que fala sobre amenidades, sem maiores conseqüências. E, por isso mesmo, é bem divertido.
Tem vezes que a gente só precisa falar sobre o calor do ex-verão ou sobre se a música que está tocando é boa ou não.
Friday, February 26, 2010
Foda-se o "como"
Sou absolutamente obcecada por Lost. Por isso, quando anunciaram que essa seria a última temporada, baixei ansiosa o primeiro e segundo episódios, esperando as respostas de todos os mistérios. Eu pensei: agora eles vão ter que explicar como a fumaça preta existe. Agora eles vão ter que arrumar explicações plausíveis de como as pessoas que não andam passam a andar na ilha, e de como os mortos voltam toda hora pra dar recados, e de onde vêm todos aqueles templos perdidos na mata. Quero ver como esses roteiristas vão sair dessa.
Já nos primeiros episódios deu pra sacar que nenhuma das minhas questões seria respondida. Ao menos, que não seriam respondidas com seriedade. A fumaça preta existe e pronto. Não importa o "como". Isso é menos importante no decorrer dos acontecimentos. Os mortos voltam porque eles voltam, e é assim que é. Acostume-se a isso.
No jornalismo, existem as cinco perguntas que toda reportagem deve responder: os famosos quem, quando, onde, como e por quê. Nas histórias de ficção, a regra deveria ser bem parecida, porque assim a coisa toda vez sentido, e quem assiste "acredita" naquilo que está vendo. Bem, parece que os roteiristas de Lost estão cagando para o fato de os espectadores estarem ou não comprando a história que eles estão contando. E o mais engraçado é que, quanto mais absurdo, mais a gente assiste. No True Blood é a mesma coisa. Em um mundo em que existem vampiros, lobisomens e bruxas, tudo é possível.
Então por que a gente continua vendo e baixando loucamente todas essas séries? Nem dá vontade de esperar chegar ao Brasil: é só ser exibido nos Estados Unidos que eu já to fazendo o download, em inglês mesmo. A gente compra o absurdo por mais absurdo que ele seja. Mas eu juro que queria saber como eles conseguem isso.
Tenho medo do final da série. Medo de eles chutarem o balde no final, cansados de tantos anos de mistério, e de repente arrumarem umas razões muito meia bomba pra tudo aquilo que aconteceu em cinco anos. Volta e meia a gente vê bons filmes com finais lamentáveis. Tomara que eles, os autores, não estejam tão chafurdados nos seus milhões que não tenham tempo pra pensar em como dar um fim digno à sua mina de ouro. Porque eles podem se foder pro "como", mas a gente não pode se fuder junto não.
Monday, February 22, 2010
Enquanto as horas passam
Deixa eu contar uma verdade sobre trabalhar em casa: a menos que você já faça isso há muitos anos e já esteja esquematizada pra que a coisa role devidamente, você simplesmente não trabalha. Hoje acordei, fiz compras, trabalhei um pouquinho, dobrei a roupa do varal (mas não passei por preguiça), fiz meu almoço, comi almoço assistindo TV, lavei a louça do almoço, bati papo com o filho do meu marido, guardei as compras quando o entregador do Pão de Açúcar chegou, tomei dois copos de suco, cozinhei batatas pro jantar e só então sentei de novo na frente do computador. E aí já eram 5h.
Enquanto fico em casa sozinha, fumo muitos cigarros e atualizo de quando em quando o meu twitter. Tudo para me enganar, para que eu não pegue na labuta. O Extremamente alto, Incrivelmente perto que eu peguei pra ler de novo - porque não há nada melhor pra ler na minha casa cheia de livros - ainda está jogado no sofá. Esqueci de dizer que assisti um episódio da primeira temporada de Barrados no Baile, e escrevi no meu blog de palpites.
Aaaaiii, como eu quero que chegue logo o momento de eu voltar a trabalhar loucamente. Não fui feita pra ficar esperando as horas passarem. Tenho sono. E pressa.
Sunday, February 14, 2010
Sobre a virada dos 30
Fico passada com gente na faixa dos 40 anos que demonstra insegurança adolescente. Eu achava que quando alguém chegasse a essa etapa, a vida já tinha tratado de ensinar algumas coisinhas - e uma delas seria como lidar com a baixa auto estima. Ou como organizar melhor a impulsividade. Ou como não fazer intriga. Então, toda vez que encontro alguém de 40 e poucos que me parece que ainda não aprendeu porra nenhuma do mundo, fico pedindo baixinho pra que eu, pelo menos, não chegue lá da mesma maneira. É a minha meta de vida, mais que ser promovida, ou comprar um apartamento. Que eu não vire uma quarentona adolescente!
Mas como eu disse, as coisas não são exatamente como eu imaginava. Quando tinha 20 e poucos, achava também que aos 30 eu seria uma pessoa completamente diferente. Bem resolvida, mais paciente - mais sábia, digamos assim. Que decepção foi perceber que, na verdade, a minha paciência diminuiu deveras dos 20 e poucos pra cá. Às vezes eu penso que devoluí.
Eu também vejo a falta de paciência nas minhas amigas de trinta e poucos. Talvez isso aconteça justamente porque a gente passa os 20 anos fazendo um monte de merda, e depois, quando chega aos 30, não quer repetir tudo de novo. Quantas vezes já ouvi por aí: "vacilou uma vez, então esquece", como se ninguém fosse inocente por errar uma vez! Sou adepta do sistema das 3 chances: um vacilo, ok; dois vacilos, humm; três vacilos, beijo e não me liga.
Mas as meninas balzacas não estão tão dispostas a deixar pra lá o primeiro erro.
Pode ser que isso aconteça justamente porque a gente se acha mais malandra aos 30, mais vivida, e pronta a reconhecer comportamentos repetidos. O que nos torna umas verdadeiras biches, quando você olha mais de perto. Ou então é o relógio biológico mesmo, que fica gritando enfurecidamente que a gente não tem tempo pra besteira.
A verdade é que a sabedoria não vem de graça com a idade, como eu achava quando era mais nova. Essa coisa de amadurecer dói pra caralho, tem que dar um duro danado, e não é só porque a gente ganha uns pés de galinha e umas celulites que automaticamente passamos a entender melhor os outros. Ou a lidar melhor com os loucos.
Eu acho que o foda mesmo é perceber que nada vem de graça, e que agora é hora de correr atrás do seu próprio aprendizado, e fazer todos os esforços pra isso. Pelo menos eu já saquei como funciona a brincadeira. Agora tá na hora de começar a crescer.
Friday, February 12, 2010
Sabe quando?
Sabe quando você apaga e reescreve o começo de uma carta por que na verdade não tem coragem de dizer o que está dentro de você?
Sabe quando você percorre sozinha por mil caminhos conhecidos e se sente ainda mais sozinha quando está acompanhada?
Sabe quando você explica algo a alguém e o seu ouvinte parece não entender absolutamente nada do que você disse?
Pois é.
Essa mulher que eu vou contar a história chegou em uma festa e, olhando ao redor, descobriu que não tinha absolutamente ninguém com quem conversar.
Primeiro tentou ficar sozinha, mas parecia que todos os seus movimentos eram filmados pelos outros. Depois tentou puxar assunto, mas descobriu que tinha pouco interesse no que lhe diziam. E aí, sem muita alternativa, foi pegar um drink no bar.
Como é mágico o efeito do álcool. Ficamos fluentes em línguas que mal sabemos falar. Nos tornamos especialistas em assuntos que não dominamos e passamos a ter certeza absoluta de que somos indispensáveis para a festa.
Essa mulher de quem eu falo, em pouco tempo, circulava pelos grupos que antes ela tinha rejeitado.
Sabe quando o mundo gira muito rápido, e de uma maneira muito irônica?
As doses vão aumentando, assim como o incômodo que ela tentava sufocar. O incômodo estava sempre lá. A raiva. Essa mulher de quem eu falo é um poço de ressentimento, e ela sabe disso. Ela pensava em ir embora, mas sabia que não conseguiria ir à francesa. Ela olhava pra porta, juntava suas coisas, mas não saía do lugar.
Sabe quando isso acontece?
Wednesday, February 03, 2010
Encaixotando Bruna
Meus 32 anos podem ser resumidos em sete caixas de papelão tamanho médio. Passei o dia juntando, arrumando e fechando com fita adesiva todo o meu tesouro, que basicamente se resume a livros, CDs e pequenos souvenirs de pessoas e lugares. Encontrei a carta que a minha avó escreveu quando me formei em jornalismo e tive vontade de chorar. E outra mega carta que escrevi aos 15 anos para a minha melhor amiga, uma colagem de slogans recortados da revista Capricho, que na época eu assinava. Anos depois, essa amiga me devolveu a carta para que eu relesse e guardasse as nossas histórias ingênuas de adolescentes. Guardei. Não tenho coragem de jogar fora tantos papéis inúteis que só servem pra contar a minha história.
Mas muita coisa foi pro lixo. Pilhas de VHS. Minha matéria de faculdade sobre as festas After Ours, que "começavam às 4h da manhã e iam até depois do sol raiar"- dizia o texto do off. Essa ficou. Também ficaram os filmes Super 8 do meu primeiro aniversário, e do casamento dos meus pais. E as cartas de amigos e parentes, e alguns presentinhos de ex namorados.
Cheguei a considerar jogar fora essas lembranças de amores passados. Um snowglobe com um ursinho segurando um coração onde se lê "Eu te amo" em alemão. Aquilo não faz mais o mínimo sentido: o menino que me deu isso de presente já casou, e eu também estou casando. Nossos ursinhos segurando corações são para outras pessoas agora. Mas... não tive coragem. Eu também sou esse ursinho esquecido. Então o snowglobe voltou para a caixa de lembranças de onde não sai há muitos anos. Pobrezinho, faz tempo que não vê a luz do sol.
E todas aquelas credenciais de imprensa. Por que todo jornalista gosta de guardar as credenciais de imprensa dos eventos que cobre? Parece uma espécie de prêmio, uma medalha. A minha mais importante é a do tapete vermelho da última turnê do Michael Jackson, quando eu morava em Nova York, em 2001. Mas também tem a do Rio Parede, que eu e Ana Paula conseguimos. Não estávamos trabalhando, é óbvio. Mas subimos nos trio elétricos ao lados de nossos amigos DJs e vimos o povo dançar pela Avenida Rio Branco abaixo. E também dançamos muito. Eu sempre soube me divertir como ninguém.
Agora tudo isso está guardado em sete caixas médias, esperando para se acomodarem no apartamento novo. Não sei onde vou arrumar espaço pra tudo isso. Mas vou arrumar. O meu tesouro precisa continuar comigo. Mesmo que esteja enterrado e semi esquecido.
Thursday, January 14, 2010
Feliz ano novo
Em 2010, casei e mudei. Não tem nada mais simbólico que começar o ano com endereço novo e estado civil alterado. agora eu faço listas de compras e não janto mais um queijo quente e um copo de suco. Agora eu finalmente aprendi como se lavam verduras e legumes, e não compro mais aquelas saladas lavadas do supermercado Zona Sul. E também não frequento mais o segundo coqueirão da praia de Ipanema - se bem que isso não tem a ver com o fato de, agora, eu ser uma mulher casada.
Minhas amigas, a maioria de solteiras, me perguntam toda hora como é a vida a dois. Pois eu digo: por enquanto é uma colônia de férias. Cozinhar juntos é legal. Fazer compras juntos é legal. Lavar as cuecas do meu marido (na máquina de lavar também conta, né) e depois dobrar tudo e deixar em cima da cama é legal. Descobri que sempre fui uma Amélia incompreendida. To adorando essa história de brincar de casinha.
Fora isso, são as férias e a quase impossível missão de abrir espaço pras minhas coisas em uma casa que já está montada. Consegui negociar colocar o poster que a Luiza trouxe pra mim de uma feira de design na Alemanha na parede do banheiro, e aluguei uma garagem na esquina de casa com manobrista tudo. E de vez em quando eu vou dar uma volta na praia. Mas ainda não parei de fumar nem conheci uma cidade da América do Sul.
Tem muita coisa ainda a relizar em 2010.
Tuesday, December 15, 2009
Falta muito pro ano que vem?
Todo ano é a mesma coisa: os meses correm sem a gente perceber, mas quando chega dezembro, fica tudo leeento. Parece que dezembro é um mês café com leite: tudo o que a gente planeja, todas as mudanças e os sonhos ficam pra janeiro. A única função de dezembro, além de comer peru e gastar o que não tenho com presentinhos variados, é listar possíveis novidades para o novo ano. E contar os dias para que esse novo ano chegue logo.
É que 2010 vai ser tão diferente. Vou mudar de casa, de trabalho. De vida eu já venho mudando há um tempo, meio que me preparando pro que chega. Mas dá um frio na barriga. Um frio do tipo que é bom. Fazia bastante tempo que uma virada tão radical acontecia no final de um ano. É como uma era que se encerra.
Outro dia fui fazer compras pra minha casa nova. Estou gostando dessa história de brincar de casinha, porque meu apartamento na São Slavador acabou virando um monte de móveis doados amontoados, uma coisa nada a ver com a outra, uma coleção digna de brechó de Santa Teresa. Mas como eu gostei de morar ali. Foram dois anos e meio de muitas festas, muitos amigos gringos dormindo no sofá, muitas manhãs de domingo ouvindo chorinho na praça. Hoje a praça acorda no domingo já lotada de barracas e de gente por todos os lados. Confesso que preferia antes, quando éramos apenas alguns gatos pingados, sentados no coreto, curtindo a música. Ou quando eu chegava do trabalho e encontrava amigos na muretinha, e já ficava por lá mesmo, estragando toda a minha programação baladística do Rio de Janeiro. Eu aproveite demais o meu bairro. Saio de lá com boas lembranças.
E aí, tem o bairro novo. Que eu ainda não vou dizer qual é. Um bairro que eu aprendi a gostar ao longo de 2009, que antes eu dizia ser caótico demais pra mim, grande demais pra mim, impessoal demais pra mim. Mas que, de repente, começou a fazer algum sentido. E que já me faz sentir em casa.
Mas enquanto é dezembro, todas essas coisas ainda estão no quase. E é isso que me deixa ansiosa. Não gosto de quases, nem de nada em cima do muro. Então fico na expectativa de que os dias andem logo. Feliz com a minha casinha nova e com a vida completamente diferente que me aguarda lá. Com medo também. Mas com aquele tipo bom de medo, que precede todas as grandes mudanças pelas quais a gente passa.
É que 2010 vai ser tão diferente. Vou mudar de casa, de trabalho. De vida eu já venho mudando há um tempo, meio que me preparando pro que chega. Mas dá um frio na barriga. Um frio do tipo que é bom. Fazia bastante tempo que uma virada tão radical acontecia no final de um ano. É como uma era que se encerra.
Outro dia fui fazer compras pra minha casa nova. Estou gostando dessa história de brincar de casinha, porque meu apartamento na São Slavador acabou virando um monte de móveis doados amontoados, uma coisa nada a ver com a outra, uma coleção digna de brechó de Santa Teresa. Mas como eu gostei de morar ali. Foram dois anos e meio de muitas festas, muitos amigos gringos dormindo no sofá, muitas manhãs de domingo ouvindo chorinho na praça. Hoje a praça acorda no domingo já lotada de barracas e de gente por todos os lados. Confesso que preferia antes, quando éramos apenas alguns gatos pingados, sentados no coreto, curtindo a música. Ou quando eu chegava do trabalho e encontrava amigos na muretinha, e já ficava por lá mesmo, estragando toda a minha programação baladística do Rio de Janeiro. Eu aproveite demais o meu bairro. Saio de lá com boas lembranças.
E aí, tem o bairro novo. Que eu ainda não vou dizer qual é. Um bairro que eu aprendi a gostar ao longo de 2009, que antes eu dizia ser caótico demais pra mim, grande demais pra mim, impessoal demais pra mim. Mas que, de repente, começou a fazer algum sentido. E que já me faz sentir em casa.
Mas enquanto é dezembro, todas essas coisas ainda estão no quase. E é isso que me deixa ansiosa. Não gosto de quases, nem de nada em cima do muro. Então fico na expectativa de que os dias andem logo. Feliz com a minha casinha nova e com a vida completamente diferente que me aguarda lá. Com medo também. Mas com aquele tipo bom de medo, que precede todas as grandes mudanças pelas quais a gente passa.
Thursday, December 10, 2009
Gente que mora longe
Tenho uma amiga do peito que há pouco tempo chegou da Austrália pra passar férias no Brasil. Eu não encontrava com ela há mais de 2 anos mas, no momento em que nos vimos, foi como se tivéssemos ficado apenas uma semana sem nos falar. Foi quando eu percebi que não há distância nem tempo que separe duas grandes amigas.
Penso nisso porque descobri que existe gente muito importante pra mim que mora fora do país. Gente que eu gosto demais, e que falo de menos; que planejo visitar, mas nunca vou de fato; que marco conversas no Skype e furo. Mas é gente que eu queria ter ao meu lado no ano que vem, quando darei uma mega festa pra comemorar coisas boas. Coisas incríveis que se anunciam em 2010.
No ano passado, passei o reveillon na Espanha, com outra grande amiga. Eu, ela, a que mora na Austrália e mais uma amiga que (ainda bem) está pertinho de mim formávamos um grupo fechado no colégio. Éramos quatro meninas inseparáveis, cada uma mais diferente que a outra: a pseudo alternativa (eu), a atleta (a Sandra), a popular (a Malu) e a aluna-nota-10 (a Cris). Com o passar do tempo, cada uma foi tomando um rumo no planeta: a primeira a se desgarrar fui eu, quando fui morar em NY. Depois a Sandra, que entre idas e vindas para a Austrália, resolveu se fixar de vez por lá. Depois a Malu, que descobriu a Europa e se apaixonou perdidamente por um espanhol. E a Cris que, estudando medicina, vivia enfurnada em plantões e provas de residência.
E, mesmo assim, vez ou outra, a gente ainda consegue se encontrar.
Monday, December 07, 2009
Todos os corações ao mesmo tempo
Não gosto de futebol. Quer dizer, gosto um pouco de futebol, mas posso perfeitamente viver sem 11 homens e uma bola. Posso ficar anos sem abrir o caderno de esportes do jornal. Ou sem saber o nome do técnico do meu time. Mas nos últimos meses acontece que passei a conviver intensamente com uma pessoa que adora, idolatra, respira o Botafogo. E quando me dei conta, lá estava eu assistindo partidas domingueiras na televisão - mesmo quando dava praia.
E ontem foi a final do Brasileirão 2009, a mais animada e emocionante dos últimos tempos. Vários times precisavam de ajuda de outras partidas pra fugirem do rebaixamento ou ganharem a taça. Um amigo assistiu à partida do Flamengo na sala, e meu namorado foi ver a do Botafogo no quarto. Sem mais TVs disponíveis, acabei vendo o jogo do Flu pela internet e pelos avisos de Gol que volta e meia apareciam na tela. Aliás, a cada aviso, meu estômago revirada. É que bastava um pontinho marcado pelo oponente para que o Fluminense caísse para a segundona. Torci pelo não rebaixamento com a mesma intensidade do meu amigo flamenguista que torcia pelo título do campeonato. Eram dois campeonatos diferentes naquele apartamento de Copacabana.
Eu respeito o Flamengo, mas não gosto da torcida. Acho a maioria arrogante, mal educada e briguenta. Mas ontem, quando os urubus ganharam, admito que a festa foi bonita: mil janelas da Miguel Lemos se abriram e gritaram "Campeão!", gente nas ruas urrava de alegria, carros buzinavam. Parecia final de Copa. Pela primeira vez, fiquei feliz pelos flamenguistas e por seu time.
Depois ainda tive uns minutos de angústia com o final da partida do Fluminense. E assisti à briga ridícula da torcida do Coritiba. Essa é a parte mais babaca do futebol. E tem gente que se vangloria das brigas. Tem gente que acha que é prova de amor ao time. Tem gente que não percebe que cruzou a linha da admiração e entrou na obsessão. E eu nem me refiro apenas a futebol.
E ontem foi a final do Brasileirão 2009, a mais animada e emocionante dos últimos tempos. Vários times precisavam de ajuda de outras partidas pra fugirem do rebaixamento ou ganharem a taça. Um amigo assistiu à partida do Flamengo na sala, e meu namorado foi ver a do Botafogo no quarto. Sem mais TVs disponíveis, acabei vendo o jogo do Flu pela internet e pelos avisos de Gol que volta e meia apareciam na tela. Aliás, a cada aviso, meu estômago revirada. É que bastava um pontinho marcado pelo oponente para que o Fluminense caísse para a segundona. Torci pelo não rebaixamento com a mesma intensidade do meu amigo flamenguista que torcia pelo título do campeonato. Eram dois campeonatos diferentes naquele apartamento de Copacabana.
Eu respeito o Flamengo, mas não gosto da torcida. Acho a maioria arrogante, mal educada e briguenta. Mas ontem, quando os urubus ganharam, admito que a festa foi bonita: mil janelas da Miguel Lemos se abriram e gritaram "Campeão!", gente nas ruas urrava de alegria, carros buzinavam. Parecia final de Copa. Pela primeira vez, fiquei feliz pelos flamenguistas e por seu time.
Depois ainda tive uns minutos de angústia com o final da partida do Fluminense. E assisti à briga ridícula da torcida do Coritiba. Essa é a parte mais babaca do futebol. E tem gente que se vangloria das brigas. Tem gente que acha que é prova de amor ao time. Tem gente que não percebe que cruzou a linha da admiração e entrou na obsessão. E eu nem me refiro apenas a futebol.
Thursday, December 03, 2009
Sofá poliglota
Ontem chegou lá em casa uma menina de Cingapura,m que atende por um nome americano: Cristal. Ela vai passar uma semana dormindo no sofá da minha sala, e visitando pela segunda vez a cidade que, segundo ela, é o melhor lugar da América latina: o nosso Rio de Janeiro. Cristal está há um ano rodando pelo Brasil e pela América do Sul. Como tantos jovens estrangeiros, ela terminou o colégio, trabalhou uns seis meses pra juntar uma grana, e depois pôs a mochila nas costas. Quando ela voltar pra casa, ela vai procurar um emprego e começar uma faculdade.
Acho a tradição gringa de viajar durante um ano uma bela maneira de se despedir da vida adolescente e entrar na adulta. Toda a vida de Cristal nesse período se resume a uma mega mochila, uma outra mochila menor, e uma bolsa. Esse é todo o seu tesouro. E, vendo ela chegando lá em casa ontem, pronta pra sair pra rua mesmo depois de 10 horas de viagem de ônibus, dá pra imaginar que realmente não se precisa de muita coisa pra conhecer coisas e pessoas e lugares diferentes.
No Brasil, nosso primeiro grande sonho de viagem é conhecer a Disney. Nosso presente de 15 anos. Contei para um sueco que também dormiu no sofá da sala na semana passada (pois é, a rotatividade internacional é grande! Ainda bem que instalei um ventilador de teto, se não todos esses gringos iam passar um mega sufoco nas noites abafadas cariocas), que existe uma tradição brasileira quando se chega aos 15: ou você escolhe fazer uma grande festa, como um baile, um prom night, ou você viaja pra Disney.
Ele achou tão curiosa essa nossa história. "Mas por que a Disney", ele quis saber. E eu não sabia por quê. Minha irmã mais nova preferiu San Diego, mas minha irmã do meio e eu éramos malucas pra conhecer os parques do Mickey.
Mas nós, classe média brasileira, não temos o costume de encarar culturas e línguas completamente diferentes das nossas. E nem se pode falar de falta de dinheiro, porque essa galera que vem pra cá aos 20 e poucos também é duríssima, como são os jovens que estão começando a cair na vida real. Mas, então, por que eles podem e a gente não?
É claro que ser filho de uma moeda forte ajuda no start. Em qualquer empreguinho que se consegue, eles ganham em dólar e euro, o que facilita bastante. Mas eu acho que, mais do que a barreira econômica, existe um comodismo entre nós, que nos impede de juntar as coisas e encarar furadas.
A Cristal quase não viajou de avião durante esse ano de peregrinação. Foram horas e horas de ônibus, que ela aceitava na boa. Também não procurou grandes hotéis, nem partiu pra restaurantes muito caros. Pra se ter idéia, no Rio, o que ela gosta de fazer é ir pra Lapa: um programa barato e muito bom pros gringos, que acham aquela bagunça a coisa mais exótica do mundo.
A Cristal, com seus vinte e pouquinhos, conhece muito mais lugares da América do Sul do que eu. Com certeza ela conhece o Brasil bem mais. E olha que eu já viajei muito por aí gravando. Já fui em cada cidade inacreditável, que nem figura no mapa.
Mas ontem, quando ela me perguntou se eu conhecia as Cataratas de Iguaçu, tive que dizer que não.
Acho a tradição gringa de viajar durante um ano uma bela maneira de se despedir da vida adolescente e entrar na adulta. Toda a vida de Cristal nesse período se resume a uma mega mochila, uma outra mochila menor, e uma bolsa. Esse é todo o seu tesouro. E, vendo ela chegando lá em casa ontem, pronta pra sair pra rua mesmo depois de 10 horas de viagem de ônibus, dá pra imaginar que realmente não se precisa de muita coisa pra conhecer coisas e pessoas e lugares diferentes.
No Brasil, nosso primeiro grande sonho de viagem é conhecer a Disney. Nosso presente de 15 anos. Contei para um sueco que também dormiu no sofá da sala na semana passada (pois é, a rotatividade internacional é grande! Ainda bem que instalei um ventilador de teto, se não todos esses gringos iam passar um mega sufoco nas noites abafadas cariocas), que existe uma tradição brasileira quando se chega aos 15: ou você escolhe fazer uma grande festa, como um baile, um prom night, ou você viaja pra Disney.
Ele achou tão curiosa essa nossa história. "Mas por que a Disney", ele quis saber. E eu não sabia por quê. Minha irmã mais nova preferiu San Diego, mas minha irmã do meio e eu éramos malucas pra conhecer os parques do Mickey.
Mas nós, classe média brasileira, não temos o costume de encarar culturas e línguas completamente diferentes das nossas. E nem se pode falar de falta de dinheiro, porque essa galera que vem pra cá aos 20 e poucos também é duríssima, como são os jovens que estão começando a cair na vida real. Mas, então, por que eles podem e a gente não?
É claro que ser filho de uma moeda forte ajuda no start. Em qualquer empreguinho que se consegue, eles ganham em dólar e euro, o que facilita bastante. Mas eu acho que, mais do que a barreira econômica, existe um comodismo entre nós, que nos impede de juntar as coisas e encarar furadas.
A Cristal quase não viajou de avião durante esse ano de peregrinação. Foram horas e horas de ônibus, que ela aceitava na boa. Também não procurou grandes hotéis, nem partiu pra restaurantes muito caros. Pra se ter idéia, no Rio, o que ela gosta de fazer é ir pra Lapa: um programa barato e muito bom pros gringos, que acham aquela bagunça a coisa mais exótica do mundo.
A Cristal, com seus vinte e pouquinhos, conhece muito mais lugares da América do Sul do que eu. Com certeza ela conhece o Brasil bem mais. E olha que eu já viajei muito por aí gravando. Já fui em cada cidade inacreditável, que nem figura no mapa.
Mas ontem, quando ela me perguntou se eu conhecia as Cataratas de Iguaçu, tive que dizer que não.
Wednesday, December 02, 2009
Friday, November 27, 2009
Vantagem feminina
Hoje o cara do Detran me liberou da vistoria mesmo tendo uma lanterna queimada no carro. Eu pensei: "Tenho que aproveitar isso enquanto não chego aos 50". Porque, convenhamos, essa boa vontade do funcionalismo público só acontece quando o atendente é homem e o atendido é uma mulher relativamente jovem.
Essa é a vantagem de ser mulher. Basta um sorriso largo para que o cara do outro lado do balcão se desmanche em cavalheirismos. Parece que, quando vê uma mulher pela frente, o homem fica imediatamente mais bobo, mesmo que essa mulher não dê necessariamente um mole pra ele. Eu não dei mole pro cara do Detran. Mas ele liberou o meu carro.
Descobri a vantagem feminina muito depois das minhas amigas, quando já estava na faculdade. Foi observando o comportamento dos professores com as alunas, e depois com os alunos, que ficou claro com quem os mestres tinham mais paciência e benevolência. Mas volto a dizer que naquele jogo não havia nada de sexual - pelo menos, não explicitamente e racionalmente. Era mais como uma magia, um feitiço que a aluna, sem perceber, jogava no professor barbado e com muitos anos de praia. E essa foi a minha segunda descoberta: nesse jogo, só importa a idade da mulher, e não a do homem - velho ou novo, ele nunca resiste a um sorriso.
Claro que essa regra só se aplica a mulheres bonitas. E claro que, quanto mais bonita, menos "nãos" uma mulher recebe na vida. O que me faz lembrar de uma grande amiga minha, que também é muito bonita. Só que ela, justamente porque era bonita demais, não mostrava o seu sorriso a torto e a direito. Dizem que as mulheres muito bonitas também são muito metidas a besta. A julgar pela minha amiga, o que dizem é verdade. Ela é queridíssima, mas também metidíssima, se é que isso é possível. E ela sabe disso, e acha até engraçado.
O sorriso largo é a arma que as mulheres medianas usam, aquelas que não são nem estrelas de cinema, nem monstros do Lago Ness. É a arma que eu uso, pelo menos. O bom é que sorriso largo e simpatia não desaparecem depois dos 50. E do jeito que a coisa vai indo, quando tiver 50 anos vou ser ninja na arte de conseguir as coisas com um sorriso. É aquela velha história: tá no inferno, então abraça o capeta.
Essa é a vantagem de ser mulher. Basta um sorriso largo para que o cara do outro lado do balcão se desmanche em cavalheirismos. Parece que, quando vê uma mulher pela frente, o homem fica imediatamente mais bobo, mesmo que essa mulher não dê necessariamente um mole pra ele. Eu não dei mole pro cara do Detran. Mas ele liberou o meu carro.
Descobri a vantagem feminina muito depois das minhas amigas, quando já estava na faculdade. Foi observando o comportamento dos professores com as alunas, e depois com os alunos, que ficou claro com quem os mestres tinham mais paciência e benevolência. Mas volto a dizer que naquele jogo não havia nada de sexual - pelo menos, não explicitamente e racionalmente. Era mais como uma magia, um feitiço que a aluna, sem perceber, jogava no professor barbado e com muitos anos de praia. E essa foi a minha segunda descoberta: nesse jogo, só importa a idade da mulher, e não a do homem - velho ou novo, ele nunca resiste a um sorriso.
Claro que essa regra só se aplica a mulheres bonitas. E claro que, quanto mais bonita, menos "nãos" uma mulher recebe na vida. O que me faz lembrar de uma grande amiga minha, que também é muito bonita. Só que ela, justamente porque era bonita demais, não mostrava o seu sorriso a torto e a direito. Dizem que as mulheres muito bonitas também são muito metidas a besta. A julgar pela minha amiga, o que dizem é verdade. Ela é queridíssima, mas também metidíssima, se é que isso é possível. E ela sabe disso, e acha até engraçado.
O sorriso largo é a arma que as mulheres medianas usam, aquelas que não são nem estrelas de cinema, nem monstros do Lago Ness. É a arma que eu uso, pelo menos. O bom é que sorriso largo e simpatia não desaparecem depois dos 50. E do jeito que a coisa vai indo, quando tiver 50 anos vou ser ninja na arte de conseguir as coisas com um sorriso. É aquela velha história: tá no inferno, então abraça o capeta.
Wednesday, November 25, 2009
Os inesquecíveis de 2009
Parada no meio da estrada pra comer neve, na Espanha.
La Alhambra.
O Paquistanês do café de Barcelona.
O show do Radiohead.
Declarações de amor e castelos construídos na areia.
A primeira vez que cheirei (e achei uma merda, diga-se).
O karaokê indie e a minha redenção aos palcos da vida.
Uma conquista financeira e uma sentimental.
A volta à análise.
Meu primeiro roteiro elogiado.
Apendicite.
Gente chata x gente legal.
Gente louca.
Saudade dos amigos.
E outras coisas. Tantas outras. Pequenininhas. Todas valeram. Até as ruins. Eu agradeço todo mundo. Até quem me odeia. Até os loucos e os injustiços. Esses fizeram as coisas boas serem muito melhores! Até os loucos e os injustos merecem meus agradecimentos.
La Alhambra.
O Paquistanês do café de Barcelona.
O show do Radiohead.
Declarações de amor e castelos construídos na areia.
A primeira vez que cheirei (e achei uma merda, diga-se).
O karaokê indie e a minha redenção aos palcos da vida.
Uma conquista financeira e uma sentimental.
A volta à análise.
Meu primeiro roteiro elogiado.
Apendicite.
Gente chata x gente legal.
Gente louca.
Saudade dos amigos.
E outras coisas. Tantas outras. Pequenininhas. Todas valeram. Até as ruins. Eu agradeço todo mundo. Até quem me odeia. Até os loucos e os injustiços. Esses fizeram as coisas boas serem muito melhores! Até os loucos e os injustos merecem meus agradecimentos.
Arroz e ansiedade
Ontem eu fiz arroz. Fiz tudo direito, o arroz ficou soltinho, mas esqueci de colocar sal. Parece besteira, mas isso me resume um pouco: faço tudo bem certo, mas sempre rola uma cagada final. Tudo bem, antes pouco do que muito sal na comida. Compensei o erro com uma pitada extra com a porção já no prato. E se eu não contasse ninguém saberia que esqueci do sal. Mas eu não me satisfaço em fazer a pequena cagada do dia: eu tenho que divulgá-la e de me crucificar porque cometi o erro mais tosco do mundo fantástico das cozinheiras.
Ontem também foi o dia em que me avaliaram no trabalho. Adivinha: minha atuação supera em tudo. Mas é claro que supera, como poderia ser diferente?, eu penso. Do jeito que sou completamente viciada em trabalho, do jeito que priorizo a carreira na minha vida, impossível não superar as expectativas da chefia. Só que...
Só que eu sou ansiosa. Demais. E isso foi colocado na minha avaliação. Não entendi. Fiquei olhando a minha chefe dizendo que eu tinha que relaxar mais e fumar menos. Ela falou na boa, não foi uma bronca. Mas eu não entendi como se faz. Ela disse que eu tenho que continuar sendo uma profissional que supera expectativas, mas sem adquirir uma gastrite. Mas eu nunca tive problemas com gastrite, argumentei. Eu já tirei um apêndice, que não serve pra nada mesmo. E já fumei muitos cigarros, mas to a caminho da abstinência. Mas nunca tive nada com gastrite. Isso não. Tudo menos isso.
Fiquei olhando a minha avaliação ser preenchida com esse porém. O que passava na minha cabeça era: será que por causa disso não vou conseguir um aumento? Porque eu quero um aumento, eu mereço esse aumento, e eu não tenho a mínima vontade de continuar ganhando o que eu ganho. Portanto, é fato: vou ganhar o aumento.
Mesmo com toda a minha ansiedade.
Ontem também foi o dia em que me avaliaram no trabalho. Adivinha: minha atuação supera em tudo. Mas é claro que supera, como poderia ser diferente?, eu penso. Do jeito que sou completamente viciada em trabalho, do jeito que priorizo a carreira na minha vida, impossível não superar as expectativas da chefia. Só que...
Só que eu sou ansiosa. Demais. E isso foi colocado na minha avaliação. Não entendi. Fiquei olhando a minha chefe dizendo que eu tinha que relaxar mais e fumar menos. Ela falou na boa, não foi uma bronca. Mas eu não entendi como se faz. Ela disse que eu tenho que continuar sendo uma profissional que supera expectativas, mas sem adquirir uma gastrite. Mas eu nunca tive problemas com gastrite, argumentei. Eu já tirei um apêndice, que não serve pra nada mesmo. E já fumei muitos cigarros, mas to a caminho da abstinência. Mas nunca tive nada com gastrite. Isso não. Tudo menos isso.
Fiquei olhando a minha avaliação ser preenchida com esse porém. O que passava na minha cabeça era: será que por causa disso não vou conseguir um aumento? Porque eu quero um aumento, eu mereço esse aumento, e eu não tenho a mínima vontade de continuar ganhando o que eu ganho. Portanto, é fato: vou ganhar o aumento.
Mesmo com toda a minha ansiedade.
Tuesday, November 24, 2009
Viver sem tempos mortos
Finalmente fui ver a peça da Fernanda Montenegro. E foi tudo aquilo que eu esperava, e mais um pouco. Noi cenário, apenas uma cadeira e um canhã de luz em cima da atriz. E o texto saindo da boca de Fernanda, naquela voz rouca que ela tem. A história de Simone de Beauvoir, a mulher mais livre que já existiu no mundo. Até hoje em dia, Simone de Beauvoir seria uma mulher muito mais livre do que todas nós. Ela seria considerada uma puta, ainda hoje. O que me faz pensar que as putas sempre foram, e sempre serão, mais livres do que a maioria. Eu achava que puta era um xingamento. Agora já acho que é um elogio.
Só de uma coisa Simone não era livre: seu amor por Sartre. Ela era escravizada por esse amor, não conseguia se livrar das amarras dele. Abandonou uma grande paixão para voltar a Sartre. O mesmo que disse a ela que não a via mais com desejo. Eles continuaram juntos, mesmo sem sexo. Faziam sexo com coadjuvantes, com gente sem importância na história dos dois. Mesmo que eu viva mil anos, não vou saber nunca que tipo de amor é esse.
Quando você se dá conta, a peça acaba. Mas peraí, só se passaram 20 minutos? Não, se passou uma hora. Não sentimos. E ficamos com a sensação de que aquele texto deveria ser gravado, porque perdemos muita coisa do que é dito. Cada linha é essencial. Cada frase tem que ser carregada pra sempre. Eu não gosto de teatro. Mas gosto da Simone, e da Fernando e do Felipe.
Só de uma coisa Simone não era livre: seu amor por Sartre. Ela era escravizada por esse amor, não conseguia se livrar das amarras dele. Abandonou uma grande paixão para voltar a Sartre. O mesmo que disse a ela que não a via mais com desejo. Eles continuaram juntos, mesmo sem sexo. Faziam sexo com coadjuvantes, com gente sem importância na história dos dois. Mesmo que eu viva mil anos, não vou saber nunca que tipo de amor é esse.
Quando você se dá conta, a peça acaba. Mas peraí, só se passaram 20 minutos? Não, se passou uma hora. Não sentimos. E ficamos com a sensação de que aquele texto deveria ser gravado, porque perdemos muita coisa do que é dito. Cada linha é essencial. Cada frase tem que ser carregada pra sempre. Eu não gosto de teatro. Mas gosto da Simone, e da Fernando e do Felipe.
Wednesday, November 18, 2009
5 coisas que um homem não deve dizer a uma mulher
No jantar do primeiro encontro
1 - Puta que pariu, 200 reais!?!?
2 - Eu pago agora e você paga depois.
3 - Dá licença que eu vou dar uma seringada.
4 - Tenho que ir ao banheiro, o camarão já tá fazendo efeito.
5 - Tá explicada a conta. Só o seu prato foi R$60.
Depois do sexo
1 - Você fez tudo certinho.
2 - Foi ótimo, mas ainda não bateu a vez que eu comi aquela garota boa pra caralho lá em Porto Seguro.
3 - Minha ex-namorada chupava muito bem.
4 - Desculpa, mas eu gosto de ficar sozinho depois que gozo. Depois a gente se fala.
5 - Sabe aquela hora que eu coloquei a camisinha? Então: era mentira! Te engane-ei, te engane-ei!
No email
1 - "Gata, derrepente vc topa faser uma viajem comigo?"
2 - "FoI DiMaiXXX oNtEm Di NoIti!"
3 - "voce sabe eu queria ver voce de novo mas nao sei quando posso me liga quando vc puder ai a gente combina tenta amanha..."
4 - "Passe esse email para 20 amigos e um desejo vai se realizar. Se não passar, você vai perder as duas pernas em duas horas."
5 - "Era assim que eu queria ontem" (título do email: As Melhores Chupadas da Rede)
Apresentando pros amigos
1 - Essa aqui é a Vânia, quer dizer, a Luana.
2 - Essa aqui é a Luana. Ela que eu falei que faz aquele barulho quando ta gozando.
3 - Essa aqui é a Luana. É por causa dela que eu não faço mais porra nenhuma com a galera.
4 - Essa aqui é a Luana. To preso em casa mas to trepando bem mais que vocês!
5 - Namorada? Não, essa aqui é a Luana...
Conhecendo sua família
1 - A Luana tem essa cara de santinha, mas vou te falar que ela não é santa não!
2 - To com uma idéia incrível, ta a fim de entrar com uma grana não?
3 - Eu trouxe um livrinho da Herba Life pro pessoal dar uma olhada aí de bobeira.
4 - Passa o sal que a comida ta meio sem gosto.
5 - Bom saber que um dia tudo isso vai ser meu.
1 - Puta que pariu, 200 reais!?!?
2 - Eu pago agora e você paga depois.
3 - Dá licença que eu vou dar uma seringada.
4 - Tenho que ir ao banheiro, o camarão já tá fazendo efeito.
5 - Tá explicada a conta. Só o seu prato foi R$60.
Depois do sexo
1 - Você fez tudo certinho.
2 - Foi ótimo, mas ainda não bateu a vez que eu comi aquela garota boa pra caralho lá em Porto Seguro.
3 - Minha ex-namorada chupava muito bem.
4 - Desculpa, mas eu gosto de ficar sozinho depois que gozo. Depois a gente se fala.
5 - Sabe aquela hora que eu coloquei a camisinha? Então: era mentira! Te engane-ei, te engane-ei!
No email
1 - "Gata, derrepente vc topa faser uma viajem comigo?"
2 - "FoI DiMaiXXX oNtEm Di NoIti!"
3 - "voce sabe eu queria ver voce de novo mas nao sei quando posso me liga quando vc puder ai a gente combina tenta amanha..."
4 - "Passe esse email para 20 amigos e um desejo vai se realizar. Se não passar, você vai perder as duas pernas em duas horas."
5 - "Era assim que eu queria ontem" (título do email: As Melhores Chupadas da Rede)
Apresentando pros amigos
1 - Essa aqui é a Vânia, quer dizer, a Luana.
2 - Essa aqui é a Luana. Ela que eu falei que faz aquele barulho quando ta gozando.
3 - Essa aqui é a Luana. É por causa dela que eu não faço mais porra nenhuma com a galera.
4 - Essa aqui é a Luana. To preso em casa mas to trepando bem mais que vocês!
5 - Namorada? Não, essa aqui é a Luana...
Conhecendo sua família
1 - A Luana tem essa cara de santinha, mas vou te falar que ela não é santa não!
2 - To com uma idéia incrível, ta a fim de entrar com uma grana não?
3 - Eu trouxe um livrinho da Herba Life pro pessoal dar uma olhada aí de bobeira.
4 - Passa o sal que a comida ta meio sem gosto.
5 - Bom saber que um dia tudo isso vai ser meu.
Wednesday, November 11, 2009
Simone de Beauvoir
Conheci Simone de Beauvoir depois de achar "A Convidada" esquecido em uma prateleira empoeirada lá de casa. A minha casa tinha disso: dezenas de clássicos mal organizados onde um dia os meus pais se lambuzaram. E eu passei a adolescência desvendando essas prateleiras e, vez ou outra, descobrindo autores que me acompanhariam ao longo da vida.
Assim foi com Simone. Devorei "A Convidada" e tratei de procurar outro livro dela na minha biblioteca esquecida particular. Encontrei "Todos os homens são mortais", romance que ganhou o Nobel de Literatura. Pronto, estava decretada a paixão por essa escritora.
Mas eu não sabia que ela era feminista. Eu tinha uns 20 anos quando dei uma lida em "O Segundo Sexo", e descobri do que se tratava, na verdade, Mme Beauvoir. E nunca mais esqueci de uma frase: "A mulher só conquista quando se faz de presa". Quanta verdade! Uma verdade que eu nunca consegui seguir. Mas que eu via que dava certo, quando praticada por meninas mais sabidas e malandras que eu.
E depois eu soube que ela, mesmo feminista, e casada em casas separadas com o Sartre, escrevia pedaços do romance do marido e deixava que ele assinasse. Até a mais feminista das mulheres se rende à vida da Amélia quando está apaixonada. É como disse a Madonna: "Toda mulher quer lavar a cueca do marido". Até Simone de Beauvoir! E eu não acho errado. Acho lindo Simone lavando as cuecas do Satre. Acho uma prova de amor.
E, pensando em tudo isso, decidi pagar os R$80 do ingresso para assistir Fernanda Montenegro encenando "Viver sem tempos mortos". Sim, são R$80 reais que me farão muuuita falta. Não, eu não tenho carteira de estudante, por motivos de vergonha na cara. Sim, meus amigos e meu namorado me acham maluca de pagar tanto, e por isso eu vou sozinha.
Mas, veja bem: estamos falando de um texto baseado nas cartas de Simone a Sartre, interpretado por Fernanda Montenegro e dirigido por Felipe Hirsch! Eu não gosto de teatro. Mas eu gosto dessa combinação. E gosto de estar sozinha nessas horas, pra absorver melhor o que está acontecendo no palco.
Eu vou. E depois eu conto como foi.
Assim foi com Simone. Devorei "A Convidada" e tratei de procurar outro livro dela na minha biblioteca esquecida particular. Encontrei "Todos os homens são mortais", romance que ganhou o Nobel de Literatura. Pronto, estava decretada a paixão por essa escritora.
Mas eu não sabia que ela era feminista. Eu tinha uns 20 anos quando dei uma lida em "O Segundo Sexo", e descobri do que se tratava, na verdade, Mme Beauvoir. E nunca mais esqueci de uma frase: "A mulher só conquista quando se faz de presa". Quanta verdade! Uma verdade que eu nunca consegui seguir. Mas que eu via que dava certo, quando praticada por meninas mais sabidas e malandras que eu.
E depois eu soube que ela, mesmo feminista, e casada em casas separadas com o Sartre, escrevia pedaços do romance do marido e deixava que ele assinasse. Até a mais feminista das mulheres se rende à vida da Amélia quando está apaixonada. É como disse a Madonna: "Toda mulher quer lavar a cueca do marido". Até Simone de Beauvoir! E eu não acho errado. Acho lindo Simone lavando as cuecas do Satre. Acho uma prova de amor.
E, pensando em tudo isso, decidi pagar os R$80 do ingresso para assistir Fernanda Montenegro encenando "Viver sem tempos mortos". Sim, são R$80 reais que me farão muuuita falta. Não, eu não tenho carteira de estudante, por motivos de vergonha na cara. Sim, meus amigos e meu namorado me acham maluca de pagar tanto, e por isso eu vou sozinha.
Mas, veja bem: estamos falando de um texto baseado nas cartas de Simone a Sartre, interpretado por Fernanda Montenegro e dirigido por Felipe Hirsch! Eu não gosto de teatro. Mas eu gosto dessa combinação. E gosto de estar sozinha nessas horas, pra absorver melhor o que está acontecendo no palco.
Eu vou. E depois eu conto como foi.
Wednesday, November 04, 2009
Vizinhos
Meus vizinhos são ótimos. Não conheço ninguém pessoalmente, mas só o fato de não ter recebido uma única reclamação depois de uma dúzia de festas bombantes já me faz simpatizante dos meus companheiros de prédio. Uma vez, conheci por acaso a menina que morava no apartamento logo abaixo do meu. Ela mora lá com o avô, o que me fez ficar muito envergonhada por todos os sábados de barulheira na minha casa. Mas, para a minha surpresa, ela disse que nunca ouviu nada demais vindo do andar de cima, e eu fiquei de convidá-la para a próxima festa. Mas a verdade é que eu nunca convidei. Tipicamente carioca.
A minha vizinha da frente gosta de ouvir Ivete Sangalo bem alto. Às vezes é bem irritante, ainda mais porque é impossível ouvir a TV quando ela tem esses acessos de animação. Mas não, eu nunca pedi pra abaixar o som. Principalmente depois que uma turma de amigos alcoolicamente alterados confundiu os apartamentos e acabou tocando no lado de lá quando já era 1h da manhã. Ela não disse um ai. Então eu também não digo.
Em cima do meu apartamento mora um menino de uns cinco anos chamado Vitor. O Vitor toca o rebu toda vez que vai tomar banho: graças à acústica privilegiada do meu prédio, posso ouvir a empregada implorando pro moleque ficar quieto e parar de jogar água nela. O Vitor me faz questionar seriamente se vale a pena ter filhos. Mas a verdade é que quando o encontrei no elevador, achei aquele garotinho tão fofo que até esqueci que ele é um capeta. É assim que as crianças enganam a gente.
Uma vez, a minha vizinha do térreo distribuiu uma carta por todos os moradores da minha coluna pedindo gentilmente que parassem de jogar camisinhas usadas no quintal dela. A carta tinha um tom sarcástico que me fez querer chamar a tal vizinha pra um chá: "Fico feliz que meus vizinhos da coluna 3 tenham a vida sexualmente ativa, e mais feliz ainda de que estejam fazendo sexo com proteção. Mas o meu quintal não é lata de lixo", dizia o recado. E acho que deu certo. Ou alguém parou de fazer sexo, ou parou de jogar as camisinhas lá embaixo.
Outro dia fui pagar a minha vaga alugada na garagem do prédio e descobri que a dona da vaga tem duas irmãs absolutamente iguais a ela. São três senhorinhas baixinhas e gordinhas, que moram no prédio há muito tempo. Bem simpáticas, me convidaram pra um café e um bolo, que eu tive que recusar. Vizinho bom é vizinho distante.
Lembrei de como sou sortuda com meus companheiros de porta por causa do episódio de uma amiga que acabou de comprar um apartamento. No dia do Open House do cafofo, um chatinho que mora no prédio foi exigir o fim do encontro às 23h. E era domingo, véspera de feriado.
Que saco. Deve ser muito ruim viver cercada de gente desse tipo.
A minha vizinha da frente gosta de ouvir Ivete Sangalo bem alto. Às vezes é bem irritante, ainda mais porque é impossível ouvir a TV quando ela tem esses acessos de animação. Mas não, eu nunca pedi pra abaixar o som. Principalmente depois que uma turma de amigos alcoolicamente alterados confundiu os apartamentos e acabou tocando no lado de lá quando já era 1h da manhã. Ela não disse um ai. Então eu também não digo.
Em cima do meu apartamento mora um menino de uns cinco anos chamado Vitor. O Vitor toca o rebu toda vez que vai tomar banho: graças à acústica privilegiada do meu prédio, posso ouvir a empregada implorando pro moleque ficar quieto e parar de jogar água nela. O Vitor me faz questionar seriamente se vale a pena ter filhos. Mas a verdade é que quando o encontrei no elevador, achei aquele garotinho tão fofo que até esqueci que ele é um capeta. É assim que as crianças enganam a gente.
Uma vez, a minha vizinha do térreo distribuiu uma carta por todos os moradores da minha coluna pedindo gentilmente que parassem de jogar camisinhas usadas no quintal dela. A carta tinha um tom sarcástico que me fez querer chamar a tal vizinha pra um chá: "Fico feliz que meus vizinhos da coluna 3 tenham a vida sexualmente ativa, e mais feliz ainda de que estejam fazendo sexo com proteção. Mas o meu quintal não é lata de lixo", dizia o recado. E acho que deu certo. Ou alguém parou de fazer sexo, ou parou de jogar as camisinhas lá embaixo.
Outro dia fui pagar a minha vaga alugada na garagem do prédio e descobri que a dona da vaga tem duas irmãs absolutamente iguais a ela. São três senhorinhas baixinhas e gordinhas, que moram no prédio há muito tempo. Bem simpáticas, me convidaram pra um café e um bolo, que eu tive que recusar. Vizinho bom é vizinho distante.
Lembrei de como sou sortuda com meus companheiros de porta por causa do episódio de uma amiga que acabou de comprar um apartamento. No dia do Open House do cafofo, um chatinho que mora no prédio foi exigir o fim do encontro às 23h. E era domingo, véspera de feriado.
Que saco. Deve ser muito ruim viver cercada de gente desse tipo.
Wednesday, October 28, 2009
Faça a coisa certa
Sofro da Síndrome da Helena do Manoel Carlos: tenho a mania de querer fazer tudo bem certinho. De ser correta e ética em todos os momentos da minha vida. De trazer o bem, de fazer crescer, de ser uma pessoa quase iluminada. Mas acontece que tenho comigo uma certa dose de maldade que não me abandona.
Não é tão fácil nem tão óbvio assim fazer a coisa certa. Às vezes a gente sabe o que é certo, mas finge que não tá entendendo e acaba caindo pro errado só pela diversão.
Eu sofro com isso. Eu me culpo por escolher a diversão e não a perfeição. Até porque correr atrás da perfeição, além de inútil, é frustrante. Mas eu me culpo. E carrego uma grande cruz por ser somente mais um ser humano no mundo. Nasci pra ser milionária, mas me fizeram jornalista. Nasci pra ser Joana D'Arc, mas me fizeram Bruna Paixão. Um ser pequeno e mesquinho como qualquer outro ali da esquina. Um ser demasiadamente humano que não veio agradeciado com aquela estrela dos homens incríveis.
Não é tão fácil nem tão óbvio assim fazer a coisa certa. Às vezes a gente sabe o que é certo, mas finge que não tá entendendo e acaba caindo pro errado só pela diversão.
Eu sofro com isso. Eu me culpo por escolher a diversão e não a perfeição. Até porque correr atrás da perfeição, além de inútil, é frustrante. Mas eu me culpo. E carrego uma grande cruz por ser somente mais um ser humano no mundo. Nasci pra ser milionária, mas me fizeram jornalista. Nasci pra ser Joana D'Arc, mas me fizeram Bruna Paixão. Um ser pequeno e mesquinho como qualquer outro ali da esquina. Um ser demasiadamente humano que não veio agradeciado com aquela estrela dos homens incríveis.
Saturday, October 24, 2009
Dostoiévski
Redescobri meu escritor preferido. Foi um dia em que eu andava pela Avenida Paulista, e vi vendendo em uma banca de jornal alguns dos livros do melhor escritor de todos os tempos. Eu já tinha comprado dois livros no aeroporto do Rio, mas não resisti e acabei embolsando mais um. Dost é Dost. Não há comparação.
Comprei Notas do Submundo, um livro de contos que deu origem à Crime e Castigo, o mais maravilhoso (e perigoso) romance já escrito. É um livro bem fininho, pequenininho, mas intenso. A cada frase lida, dá vontade de reler, só pra fixar melhor o que o cara quis dizer. Dá vontade de decorar o livro pra ver se eu me torno uma pessoa menos medíocre. E, quando você termina uma página, tem a sensação de que ele levou um ano pra escrevê-la, tamanha a profundidade que o pensamento do Dost alcança. Dostoiévski é um tesão.
Com tanta coisa a dizer e tanto sendo pensado, eu juro que fiquei imaginando como era a vida dele com a mulher. Como é sentar com Dostoiévski no café da manhã, discutir para onde vão no fim de semana, preparar um jantar para os amigos. Como é trepar com Dostoiévski, pelo amor de deus? Será que ele era sempre assim, incrivelmente intenso? Será que ele tinha sempre algo indefinivelmente necessário a ser dito?
Como todos os outros gênios, ele devia sofrer. Eu admiro que escolhe o caminho do sofrimento em nome da arte. Eu não conseguiria. Nem ninguém que eu conheço. Todos os que me rodeiam, até os mais inteligentes, parecem filhotes de subpensadores quando comparados aos grandes nomes. Houve um tempo em que eu queria ser assim, grande também. Em que eu lia Clarice Lispector aos montes, e sofria, e achava que sorrir era para palhaços ou para ocasiões extremamente necessárias. Mas depois vi que não dava pra viver assim: mesmo que eu me tornasse a pessoa que menos sorria no mundo, nunca seria Clarice Lispector. Muito menos Dost. Quem sabe, forçando uma barra, eu chegava num Paulo Freire...
Mas também não importa. Eu estou aqui pra ler todos eles, sem acreditar como alguém pode ter ecsrito aquilo. Estou aqui pra perguntar na rua onde as pessoas gostam de fazer sexo. E pra tomar chopes e fazer viagens no fim do ano, que continuo pagando ano adentro.
E você acha que tá ruim assim?
Não. Tá ótimo!
Comprei Notas do Submundo, um livro de contos que deu origem à Crime e Castigo, o mais maravilhoso (e perigoso) romance já escrito. É um livro bem fininho, pequenininho, mas intenso. A cada frase lida, dá vontade de reler, só pra fixar melhor o que o cara quis dizer. Dá vontade de decorar o livro pra ver se eu me torno uma pessoa menos medíocre. E, quando você termina uma página, tem a sensação de que ele levou um ano pra escrevê-la, tamanha a profundidade que o pensamento do Dost alcança. Dostoiévski é um tesão.
Com tanta coisa a dizer e tanto sendo pensado, eu juro que fiquei imaginando como era a vida dele com a mulher. Como é sentar com Dostoiévski no café da manhã, discutir para onde vão no fim de semana, preparar um jantar para os amigos. Como é trepar com Dostoiévski, pelo amor de deus? Será que ele era sempre assim, incrivelmente intenso? Será que ele tinha sempre algo indefinivelmente necessário a ser dito?
Como todos os outros gênios, ele devia sofrer. Eu admiro que escolhe o caminho do sofrimento em nome da arte. Eu não conseguiria. Nem ninguém que eu conheço. Todos os que me rodeiam, até os mais inteligentes, parecem filhotes de subpensadores quando comparados aos grandes nomes. Houve um tempo em que eu queria ser assim, grande também. Em que eu lia Clarice Lispector aos montes, e sofria, e achava que sorrir era para palhaços ou para ocasiões extremamente necessárias. Mas depois vi que não dava pra viver assim: mesmo que eu me tornasse a pessoa que menos sorria no mundo, nunca seria Clarice Lispector. Muito menos Dost. Quem sabe, forçando uma barra, eu chegava num Paulo Freire...
Mas também não importa. Eu estou aqui pra ler todos eles, sem acreditar como alguém pode ter ecsrito aquilo. Estou aqui pra perguntar na rua onde as pessoas gostam de fazer sexo. E pra tomar chopes e fazer viagens no fim do ano, que continuo pagando ano adentro.
E você acha que tá ruim assim?
Não. Tá ótimo!
Wednesday, October 21, 2009
Não há admiração mais deliciosa que a do inimigo
Mais um texto em que o título não é meu. Dessa vez, a frase é de Nelson Rodrigues. Essa frase tem uma certa verdade maldade irresistível. Porque todos nós somos um pouco maus. Não importa o quanto a gente lute contra isso.
As pessoas que me odeiam me deixam muito intrigada. Porque eu acho que ter um inimigo é o mesmo que ter um admirador. Como Nelson Rodrigues disse, é uma admiração raivosa da parte do outro. É acreditar que seu desafeto é mais que você. E que merece a sua atenção. É lisonjeiro ter inimigos.
Eu não odeio ninguém. No máximo, classifico um desafeto como "chato". Mas querer mal, querer ver sofrer, isso eu não desejo pra ninguém. A não ser, é claro, que alguém faça mal a uma pessoa que eu ame. Aí viro um bicho cheio de garras e dentes arreganhados.
Mas é claro que tenho inimigos. Uns velados, outros de cara limpa, e esses eu respeito mais. O que eu não entendo é por que a minha vida pode despertar inveja, raiva, violência. Não sou rica, não sou famosa, não sou magra como gostaria de ser. Os meus cabelos são esticados e pintados, ganho menos do que eu acho que merecia ganhar. Tenho um namorado inteligente e com quem me divirto bastante, muitos amigos e uma família legal, é verdade. Mas isso é suficiente para incomodar alguém?
Não gosto de algumas pessoas. Não sou obrigada a gostar de todo mundo; ninguém é. Mas pra esses eu só dirijo um leve desprezo. E não deixo que participem da minha vida. Pra mim, basta uma vez pra que eu risque alguém do meu caderninho. Continuo me surpreendendo com gente que gasta tempo pensando em como me atingir. Fico assustada e... vaidosa.
As pessoas que me odeiam me deixam muito intrigada. Porque eu acho que ter um inimigo é o mesmo que ter um admirador. Como Nelson Rodrigues disse, é uma admiração raivosa da parte do outro. É acreditar que seu desafeto é mais que você. E que merece a sua atenção. É lisonjeiro ter inimigos.
Eu não odeio ninguém. No máximo, classifico um desafeto como "chato". Mas querer mal, querer ver sofrer, isso eu não desejo pra ninguém. A não ser, é claro, que alguém faça mal a uma pessoa que eu ame. Aí viro um bicho cheio de garras e dentes arreganhados.
Mas é claro que tenho inimigos. Uns velados, outros de cara limpa, e esses eu respeito mais. O que eu não entendo é por que a minha vida pode despertar inveja, raiva, violência. Não sou rica, não sou famosa, não sou magra como gostaria de ser. Os meus cabelos são esticados e pintados, ganho menos do que eu acho que merecia ganhar. Tenho um namorado inteligente e com quem me divirto bastante, muitos amigos e uma família legal, é verdade. Mas isso é suficiente para incomodar alguém?
Não gosto de algumas pessoas. Não sou obrigada a gostar de todo mundo; ninguém é. Mas pra esses eu só dirijo um leve desprezo. E não deixo que participem da minha vida. Pra mim, basta uma vez pra que eu risque alguém do meu caderninho. Continuo me surpreendendo com gente que gasta tempo pensando em como me atingir. Fico assustada e... vaidosa.
Sunday, October 11, 2009
Vestido de noiva
Hoje sonhei que ganhava um vestido de noiva de uma grande amiga que não vejo há muito tempo. Ela mora na Austrália, mas no meu sonho vinha visitar o Brasil e trazia na mala vários vestidos de noiva para presentear as amigas. Fiquei feliz ao ganhar o meu vestido, mas achei estranho ser presenteada com um tipo de roupa tão específico. "Que que eu vou fazer com isso?" - eu pensei. Mas vesti o presente mesmo assim.
Pra minha surpresa, o vestido já era usado. E, mais do que isso, ele já estava todo rasgado e remendado, velho demais pra mim. A noiva que tinha usado o vestido antes havia casado grávida, e por isso sobrava um bom pedaço de tecido na minha barriga. Enfim, o vestido era um desastre, e no sonho eu só pude me lamentar e guardar o presente sabendo que ele nunca seria usado.
Só à noite fui me dar conta do que significava esse sonho. Até o fato de a minha amiga ter aparecido acompanhada de um homem lindo e louro, e não o pai de seu filho, fez-se claro pra mim. Achei engraçado entender tudo de uma só vez, como uma pancada na cabeça. Mas o significado vai ficar só pra mim. Os curiosos que tirem as suas conclusões.
Saturday, October 10, 2009
São Paulo
Que delícia que é voltar à terra da garoa. Eu adoro São Paulo. Eu gasto muito dinheiro em São Paulo. Eu invariavelmente engordo em São paulo, porque aqui come-se bem e barato (e caríssimo também, se você preferir) todos o tipos de comida.
Hoje foi um dia de comilanças. Mal cheguei e fui me empanturrar de hambúrguer no Fifities, daqueles que a gente mal consegue segurar de tão grande. Depois fui dar uma volta no shopping, mas sem gastar um centavo - ainda pago as contas da minha última visita a essa cidade (inclusive o celular, que apareceu com uma fatura tão alta que eu tive que parcelar, que vergonha!).
Pela próxima semana esse hotel da Consolação vai ser a minha casa. Mas eu estou em casa mesmo: viveria facilmente em um hotel quatro estrelas, principalmente em um bairro como esse, cercada de amigos que revejo em momentos bissextos.
Thursday, October 08, 2009
Hamster Hamlet
Se eu tivesse um hamster, ele se chamaria Hamlet. Eu o colacaria numa daquelas gaiola de roedores com água, comida e uma roda pra ele se exercitar E se exercitando, o meu hamster ficaria filosofando: correndo no mesmo lugar e pensando sobre temas subprofundos - Ser ou não ser, heis a questão.
Não há nada que me defina melhor do que um roedor que corre no mesmo lugar e pensa sobre as dores do mundo.
Minha monografa foi sobre Hamlet. Eu descobri Shakespeare na segunda metade da faculdade, e passei a consumir avidamente todos aqueles livros de bolso que são vendidos em bancas de jornal. E me apaixonei por Hamlet. Atormentado, sombrio, triste, vingativo, rancoroso, belicoso príncipe da Dinamarca. E que odiava as mulheres. Acho que Hamlet era gay.
Minha primeira idéia foi falar sobre a visão das mulheres nas obras de Shakespeare. Depois mudei: resolvi escrever sobre as versões cinematográfias da história de Hamlet - tema que, além de pomposo, tinha tudo pra dar errado. E deu. Tirei uma nota bem aquém da que gostaria de ter tirado (queria dez, é claro), e me frustei com meu professor orientador, que mais me desonrientava que ajudava.
Mas não dá pra culpar o professor. Eu quis dar um passo maior do que as pernas, talvez, e o resultado foi medíocre. O lado bom é que conheci intimimante um dos mais importantes clássicos da humanidade.
Agora, gosto de imaginar o meu hamster atormentado. Querendo se livrar da stuação que ele mesmo criou, mas sem conseguir sair do lugar. Se eu tivesse um roedor de estimação, ele seria assim. Mas não tenho paciência para animais que não me dão carinho.
Não há nada que me defina melhor do que um roedor que corre no mesmo lugar e pensa sobre as dores do mundo.
Minha monografa foi sobre Hamlet. Eu descobri Shakespeare na segunda metade da faculdade, e passei a consumir avidamente todos aqueles livros de bolso que são vendidos em bancas de jornal. E me apaixonei por Hamlet. Atormentado, sombrio, triste, vingativo, rancoroso, belicoso príncipe da Dinamarca. E que odiava as mulheres. Acho que Hamlet era gay.
Minha primeira idéia foi falar sobre a visão das mulheres nas obras de Shakespeare. Depois mudei: resolvi escrever sobre as versões cinematográfias da história de Hamlet - tema que, além de pomposo, tinha tudo pra dar errado. E deu. Tirei uma nota bem aquém da que gostaria de ter tirado (queria dez, é claro), e me frustei com meu professor orientador, que mais me desonrientava que ajudava.
Mas não dá pra culpar o professor. Eu quis dar um passo maior do que as pernas, talvez, e o resultado foi medíocre. O lado bom é que conheci intimimante um dos mais importantes clássicos da humanidade.
Agora, gosto de imaginar o meu hamster atormentado. Querendo se livrar da stuação que ele mesmo criou, mas sem conseguir sair do lugar. Se eu tivesse um roedor de estimação, ele seria assim. Mas não tenho paciência para animais que não me dão carinho.
Wednesday, October 07, 2009
Trens
Hoje sonhei que estava indo de trem para o Alasca. Era um trem bala e eu viajava com uma família que mal conhecia. Nesse trem encontrei meu ex-namorado, mas ele não ia para o mesmo lugar que eu. Na verdade, ele falava ao telefone com a namorada nova, e por isso o nosso encontro foi rápido e meio tenso. Mas não fiquei triste: quando me dei conta já estava no Alasca, observando a paisagem que parecida editada diretamente do filme Na Natureza Selvagem.
Eu sei por que sonhei com esse trem. No livro que estou lendo há uma cena de desencontro que acontece no Eurostar. Acho que fiquei com essa cena na cabeça, porque é tão triste e tão "quase dá certo, mas na verdade dá errado", que me fez pensar sobre pequenos desencontros que podem acabar com sentimentos verdadeiros.
E também me lembrei da viagem que fiz de Barcelona e Granada. Foram 11 horas de trajeto cruzando a Espanha em um trem convencional, com curtas paradas para fumantes inveterados (como eu), e paisagens inesquecíveis. Foi um dos momentos mais especiais na minha viagem de fim de ano, um oásis no meio da loucura daqueles dias.
Da janela do trem, eu vi La Mancha. Vi os três moinhos em cima da colina, o chão verdinho apesar do inverno rigoroso, as hélices girando. Passei por inúmeras cidades minúsculas guardadas por um castelo medieval pousado em cima do morro. Passei por neve, neve e mais neve, e quando o trem parou, peguei um montinho e comi como se fosse sorvete.
Alguma coisa diferente acontece com a paisagem quando a gente a observa de dentro de um trem. Não sei se é a suavidade da viagem que deixa tudo mais poético, ou se passamos no meio de campos por onde carros nunca passariam. Mas é apaziguador e belo. E me faz bem até em sonhos.
Eu sei por que sonhei com esse trem. No livro que estou lendo há uma cena de desencontro que acontece no Eurostar. Acho que fiquei com essa cena na cabeça, porque é tão triste e tão "quase dá certo, mas na verdade dá errado", que me fez pensar sobre pequenos desencontros que podem acabar com sentimentos verdadeiros.
E também me lembrei da viagem que fiz de Barcelona e Granada. Foram 11 horas de trajeto cruzando a Espanha em um trem convencional, com curtas paradas para fumantes inveterados (como eu), e paisagens inesquecíveis. Foi um dos momentos mais especiais na minha viagem de fim de ano, um oásis no meio da loucura daqueles dias.
Da janela do trem, eu vi La Mancha. Vi os três moinhos em cima da colina, o chão verdinho apesar do inverno rigoroso, as hélices girando. Passei por inúmeras cidades minúsculas guardadas por um castelo medieval pousado em cima do morro. Passei por neve, neve e mais neve, e quando o trem parou, peguei um montinho e comi como se fosse sorvete.
Alguma coisa diferente acontece com a paisagem quando a gente a observa de dentro de um trem. Não sei se é a suavidade da viagem que deixa tudo mais poético, ou se passamos no meio de campos por onde carros nunca passariam. Mas é apaziguador e belo. E me faz bem até em sonhos.
Tuesday, October 06, 2009
Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.
A frase é da Clarice Lispector. Outro dia eu li e fiquei pensando sobre isso. Que a gente é livre pra fazer o que quer, mas na verdade somos prisioneiros de nós mesmos. Eu me senti prisioneira de mim por um longo tempo, até entender que eu era a única responsável por fazer as coisas darem certo. Cada um é seu próprio deus, e tem controle absoluto sobre o que acontece nos seus dias. Parece óbvio, mas na prática é difícil se livrar de padrões. Eu estou lutando pra isso.
Hoje gravei um povo fala sobre traição. E fiquei surpresa de ver o quanto as pessoas estão dispostas a perdoar. Inclusive os homens. Isso porque a grande maioria acredita que a traição é inevitável. Ela faz parte do amor. O perdão não está lá porque as pessoas estão se tornando melhores e mais compreensivas umas com as outras. Ele existe porque a maioria acredita que sem ele o amor se torna impossível. Vai haver traição. E, para o amor poder continuar, deve haver perdão.
Eu nunca estive disposta a perdoar uma traição. Não sou o tipo que pensa que as outras são menos importantes que eu, porque eu sou a oficial. Eu busco a fidelidade porque eu dou fidelidade e lealdade. Quero o mesmo respeito de volta. Eu mereço isso.
Aí entra essa história da liberdade. A liberdade pode ser dolorosa, porque nela existe a possibilidade de abandonar o amor que traiu. Quando não há liberdade, já está tudo resolvido: aceita-se a traição porque não há outro jeito, e aquela ferida fica ali por baixo ferindo sempre, até que a gente acostuma com ela.
Mas eu escolhi ser livre, e escolhi todos os caminhos tortuosos por onde ela me leva. A liberdade dói. Mas eu estou pronta pra essa dor.
Monday, October 05, 2009
A última noite
Assim decidiram que seria a sua última noite. Deitaram abraçados, as pernas entrelaçadas, o mais apertado que conseguiram. Não fizeram amor, só se olharam calados por longuíssimos minutos. Depois se beijaram e disseram que se amavam, disseram que eram um do outro, sem lamentações. No meio da noite ele acordou tossindo; ela se levantou e preparou uma colher de mel com limão como a vó fazia pra ela quando era criança. "Não sei se adianta, mas o gosto é bom." E ele concordou. Acordaram várias vezes e se enroscaram mais, com medo de chegar o dia seguinte. Mas o dia seguinte chegou, inevitável. Ela se levantou cedo, escovou os dentes, penteou o cabelo, e deu um beijo no rosto dele. Ele continuou calado, e ela saiu do quarto deixando pra trás o amor que não deu certo.
Thursday, October 01, 2009
Entre muitos
Tem gente que veio ao mundo preparada pra casar, ter filhos, constituir família. Assim, tudo certinho, um depois do outro. Eu não. Houve uma época em que eu achei que era um desses seres humanos pré-destinados ao núcleo familiar. Com o passar do tempo ficou muito claro que o que funciona pra mim é ficar sozinha. É ter uns 3 ou 4 grupos de amigos diferentes. É sair do trabalho às 10 da noite muito satisfeita com o fato de ter trabalhado até tarde. É viajar no fim do ano. É morar em outra cidade quando estiver a fim de morar em outra cidade. É dividir o apartamento com duas amigas, apesar do único banheiro. É tomar vinho com essas mesmas amigas enquanto assitimos novela das oito. É ficar feliz em passar uma semana trabalhando em São Paulo porque tem um milhão de amigos lá que eu não vejo há quinhentos anos.
Eu tenho muito o que fazer sozinha. Aliás, eu adoro estar sozinha.
Só que eu também gosto de me apaixonar. Estou sempre apaixonada por alguém. No momento, estou apaixonada. Até no nome carrego a cruz da paixão. Seria um problema se não fosse tão bom. É um vício.
Mas nenhum dos namorados que tive entendeu direito esse frenesi da minha vida social. Uns foram mais adaptáveis, e toparam mesclar seus amigos com os meus. Outros foram durões e não admitiram essa orgia de grupos de lugares diferentes. É difícil de entender mesmo. Tenho os amigos do colégio, os amigos da faculdade, os amigos do trabalho, os amigos dos amigos que também viraram meus amigos. Pra quem não tem saco de conhecer gente nova, realmente é chato. Eu entendo. Mas continuo gostando de sair na rua e encontrar conhecidos em tudo quanto é canto.
Na minha profissão, conhecer muita gente é um plus. Os personagens que consigo pras matérias que produzo vêm de infindávies telefonemas e emails e mensagens no Facebook. E eu sempre acho o que procuro, não importa o quão estranho seja a encomenda. Tem gente de todo tipo no mundo.
Mas não é só isso. Eu enjôo das pessoas muito fácil. Preciso ter essa possibilidade de circular entre vários mundos, ou fico entediada. Por isso, faço um rodízio de chopes. E assim tem funcionado bem.
Eu tenho muito o que fazer sozinha. Aliás, eu adoro estar sozinha.
Só que eu também gosto de me apaixonar. Estou sempre apaixonada por alguém. No momento, estou apaixonada. Até no nome carrego a cruz da paixão. Seria um problema se não fosse tão bom. É um vício.
Mas nenhum dos namorados que tive entendeu direito esse frenesi da minha vida social. Uns foram mais adaptáveis, e toparam mesclar seus amigos com os meus. Outros foram durões e não admitiram essa orgia de grupos de lugares diferentes. É difícil de entender mesmo. Tenho os amigos do colégio, os amigos da faculdade, os amigos do trabalho, os amigos dos amigos que também viraram meus amigos. Pra quem não tem saco de conhecer gente nova, realmente é chato. Eu entendo. Mas continuo gostando de sair na rua e encontrar conhecidos em tudo quanto é canto.
Na minha profissão, conhecer muita gente é um plus. Os personagens que consigo pras matérias que produzo vêm de infindávies telefonemas e emails e mensagens no Facebook. E eu sempre acho o que procuro, não importa o quão estranho seja a encomenda. Tem gente de todo tipo no mundo.
Mas não é só isso. Eu enjôo das pessoas muito fácil. Preciso ter essa possibilidade de circular entre vários mundos, ou fico entediada. Por isso, faço um rodízio de chopes. E assim tem funcionado bem.
Monday, September 28, 2009
Quando Nietzsche Chorou
Nunca li Nietzsche. Bem que tentei com Assim Falou Zaratrusta, mas desisti no meio: achei denso, hermético, pesado... Enfim, chato. Acho que na faculdade já tinha tentado ler o Anticristo, mas, da mesma maneira, fui derrotada pela escrita do filósofo, e deixei ele pra lá. Paciência: gostava das idéias, mas não engolia a linguagem. Então acabei me distanciando dele e de Lou Salomé, e de outros da mesma época.
Mas aí calhou que um dia eu ia pra São Paulo e não tinha o que ler no avião. E eu adoro comprar livro no aeroporto, e abrir o volume na primeiríssima página assim que me sento na minha poltrona. Eu adoro esse ritual, e por isso fiquei feliz de não ter o que ler na ponte aérea, porque era um pretexto pra eu voltar aos meus hábitos de ponte aérea turista.
E logo de cara vi Quando Nietzsche Chorou na estante da livraria. Que eu já tinha ouvido falar muito, que tanta gente já leu e eu, atrasadíssima, tratei de colocar em dia esse romance obrigatório. É claro que eu devorei o livro avidamente, e fiquei obcecada com a história. Pra onde ia carregava Nietzsche chorando embaixo do braço, e se dava uma brecha eu abria e lia um pouquinho.
E foi assim que eu aprendi sobre a Teoria do Eterno Retorno. Que é uma teoria cruel e prática, ao mesmo tempo. Porque Nietszche achava que o tempo é um contínuo: estamos no meio de uma linha reta, infinita; se olharmos pra trás, o passado se estende infinitamente atrás de nós, e o futuro, ao contrário, segue em frente até o horizonte. Então, pra ele, o tempo se repete, e nós vivemos uma repetição eterna do que estamos vivendo agora.
Complicado de aceitar. Mas se você encara a teoria do Eterno Retorno como uma lei, qualquer decisão a ser tomada na sua vida se torna clara. Você se pergunta: vou querer passar pelo que estou passando por toda a eternidade? Se não, então mude de vida, mude de casa, de emprego, de amor. Faça alguma coisa que valha a pena de ser vivida repetidas vezes, para sempre.
Nietzsche morreu considerado louco, depois que chorou ao ver um homem batendo em um cavalo. As almas geniais como a dele são sempre mais atormentadas. Deve ser realmente uma merda pra quem tem uma alma como essa, tão sensível e tão inteligente e tão suscetível à cruel clareza do mundo. Os geniais morrem sofrendo pra que os medianos, como eu e você, tenhamos um pouco mais de noção da verdadeira natureza da humanidade.
Mas aí calhou que um dia eu ia pra São Paulo e não tinha o que ler no avião. E eu adoro comprar livro no aeroporto, e abrir o volume na primeiríssima página assim que me sento na minha poltrona. Eu adoro esse ritual, e por isso fiquei feliz de não ter o que ler na ponte aérea, porque era um pretexto pra eu voltar aos meus hábitos de ponte aérea turista.
E logo de cara vi Quando Nietzsche Chorou na estante da livraria. Que eu já tinha ouvido falar muito, que tanta gente já leu e eu, atrasadíssima, tratei de colocar em dia esse romance obrigatório. É claro que eu devorei o livro avidamente, e fiquei obcecada com a história. Pra onde ia carregava Nietzsche chorando embaixo do braço, e se dava uma brecha eu abria e lia um pouquinho.
E foi assim que eu aprendi sobre a Teoria do Eterno Retorno. Que é uma teoria cruel e prática, ao mesmo tempo. Porque Nietszche achava que o tempo é um contínuo: estamos no meio de uma linha reta, infinita; se olharmos pra trás, o passado se estende infinitamente atrás de nós, e o futuro, ao contrário, segue em frente até o horizonte. Então, pra ele, o tempo se repete, e nós vivemos uma repetição eterna do que estamos vivendo agora.
Complicado de aceitar. Mas se você encara a teoria do Eterno Retorno como uma lei, qualquer decisão a ser tomada na sua vida se torna clara. Você se pergunta: vou querer passar pelo que estou passando por toda a eternidade? Se não, então mude de vida, mude de casa, de emprego, de amor. Faça alguma coisa que valha a pena de ser vivida repetidas vezes, para sempre.
Nietzsche morreu considerado louco, depois que chorou ao ver um homem batendo em um cavalo. As almas geniais como a dele são sempre mais atormentadas. Deve ser realmente uma merda pra quem tem uma alma como essa, tão sensível e tão inteligente e tão suscetível à cruel clareza do mundo. Os geniais morrem sofrendo pra que os medianos, como eu e você, tenhamos um pouco mais de noção da verdadeira natureza da humanidade.
Monday, June 22, 2009
Sing along
Eu sempre gostei de cantar. Mesmo com essa voz rouquinha e avessa à afinação, eu me aventurava na cantoria quando via que não tinha ninguém por perto. Na verdade, eu queria desesperadamente que alguém virasse pra mim e dissesse que eu era ótima no vocal, e que eu deveria formar uma banda e me apresentar pelos palcos da vida. Mas aí ninguém nunca me disse isso, e eu sentia atração e medo dos palcos - embora o medo tenha quase sempre falado mais alto - e nunca realizei o sonho de montar uma banda, e isso deixou um gap na minha formação até hoje. Tanto que, aos 31 anos, eu ainda gosto de cantar.
Como nunca formei uma banda, mas mantive o meu medo/fascínio de cantar em público, acabei sentindo uma atração bizarra por videokês. Ao mesmo tempo que acho brega e incômodo, não consigo ver um microfone sem cantar uma musiquinha da Rita Lee. Porque sempre tem Rita Lee nessas máquinas, e eu ainda me dou ao respeito.
(A propósito, fazem uns bons 4 anos que eu não canto em videokês. A última vez foi em um boteco horroroso de Aparecida do Norte. Eu estava fazendo um documentário sobre a cidade, e ao final do expediente, eu e o câmera decidimos beber uma cerveja pra relaxar. Tinha um boteco ao lado do nosso hotel, com 5 gatos pingados locais e um videokê no canto. Não resisti e coprei a minha ficha, e conquistei o minguado público do boteco cantando "Aquele Abraço". Foi glorioso.)
Depois do episódio do bar de Aparecida do Norte, guardei essa ligação, digamos assim, com o videokê dentro de mim. Até duas semanas atrás, quando descobri o Karaokê Indie.
Os karaokês estão na moda no Rio de Janeiro. Podem ser em lugares trash, tipo o Sal e Pimenta, na Lapa, ou acompanhados de luxuosas bandas, como no projeto Chuveiro, que já deve ter tido umas 5 temporadas. Mas a idéia de fazer um karaokê onde se canta Smiths, Pixies, Garbarge, The Clash e tantas outras milhões de bandas que eu já cantei aos berros em pistas de dança foi sedutora demais pra mim.
Eu estava deprezinha em casa, tinha brigado com o namorado, entediada com a vida, quando minha roomate veio com a proposta: vamos no karaokê hoje? Eu disse que sim, e tive medo do palco quando chegamos lá. Disse que não cantaria dessa primeira vez, e que ia ficar só olhando os corajosos.
Mas acabei encontrando amigas que não via há muito tempo, e que me chamaram pra subir no palco com elas. No final acabei topando, e fizemos uma apresentação memorável de "I think I'm Paranoid". Gostei tanto que subi mais três vezes: uma pra cantar Amy Winehouse, outra pra cantar Nancy Sinatra (These boots are made for walkin'), e uma última que eu não lembro o que eu cantei. Mas aí já eram umas 3h da manhã, então realmente não importava muito qual era o repertório.
O bacana é que o público, formado, em sua maioria, por trintões que se recusam a crescer (como eu), participa ativamente do número cantado no palco. O povo canta junto, aplaude no final, dança na platéia. É a noite mais divertida dos últimos tempos.
E foi a redenção dos meus sonhos adolescentes.
Como nunca formei uma banda, mas mantive o meu medo/fascínio de cantar em público, acabei sentindo uma atração bizarra por videokês. Ao mesmo tempo que acho brega e incômodo, não consigo ver um microfone sem cantar uma musiquinha da Rita Lee. Porque sempre tem Rita Lee nessas máquinas, e eu ainda me dou ao respeito.
(A propósito, fazem uns bons 4 anos que eu não canto em videokês. A última vez foi em um boteco horroroso de Aparecida do Norte. Eu estava fazendo um documentário sobre a cidade, e ao final do expediente, eu e o câmera decidimos beber uma cerveja pra relaxar. Tinha um boteco ao lado do nosso hotel, com 5 gatos pingados locais e um videokê no canto. Não resisti e coprei a minha ficha, e conquistei o minguado público do boteco cantando "Aquele Abraço". Foi glorioso.)
Depois do episódio do bar de Aparecida do Norte, guardei essa ligação, digamos assim, com o videokê dentro de mim. Até duas semanas atrás, quando descobri o Karaokê Indie.
Os karaokês estão na moda no Rio de Janeiro. Podem ser em lugares trash, tipo o Sal e Pimenta, na Lapa, ou acompanhados de luxuosas bandas, como no projeto Chuveiro, que já deve ter tido umas 5 temporadas. Mas a idéia de fazer um karaokê onde se canta Smiths, Pixies, Garbarge, The Clash e tantas outras milhões de bandas que eu já cantei aos berros em pistas de dança foi sedutora demais pra mim.
Eu estava deprezinha em casa, tinha brigado com o namorado, entediada com a vida, quando minha roomate veio com a proposta: vamos no karaokê hoje? Eu disse que sim, e tive medo do palco quando chegamos lá. Disse que não cantaria dessa primeira vez, e que ia ficar só olhando os corajosos.
Mas acabei encontrando amigas que não via há muito tempo, e que me chamaram pra subir no palco com elas. No final acabei topando, e fizemos uma apresentação memorável de "I think I'm Paranoid". Gostei tanto que subi mais três vezes: uma pra cantar Amy Winehouse, outra pra cantar Nancy Sinatra (These boots are made for walkin'), e uma última que eu não lembro o que eu cantei. Mas aí já eram umas 3h da manhã, então realmente não importava muito qual era o repertório.
O bacana é que o público, formado, em sua maioria, por trintões que se recusam a crescer (como eu), participa ativamente do número cantado no palco. O povo canta junto, aplaude no final, dança na platéia. É a noite mais divertida dos últimos tempos.
E foi a redenção dos meus sonhos adolescentes.
Wednesday, May 20, 2009
Todo amor que houver nessa vida
Porque nunca mais vou conseguir ouvir Cazuza do mesmo jeito que ouvia antes. Porque você dizia que sua música era Todo Amor que Houver Nesta Vida, e que a minha era Blues da Piedade. E então eu perguntei se você achava que eu era uma dessas pessoas de alma pequena e você disse que não. E depois eu perguntei se você achava que eu queria sempre o que eu não tinha, e você disse que não. Aí eu perguntei por que Blues da Piedade era a minha música, e você respondeu que eu era careta e covarde. Eu achei absurdo, mas no fundo é verdade mesmo, e também é verdade que eu sou de alma pequena e nunca satisfeita com o que tem. Vamos pedir piedade.
Naquele dia a gente deitou no escuro e ficou bebendo e ouvindo Frank Sinatra aos berros, atrapalhando a vizinhança barulhenta de Copacabana. No outro dia a gente saiu caminhando pela praia, tomou um mate com guaraná e nos sentimos as pessoas mais saudáveis do mundo. E num outro dia fizemos guerra de picolé pelo apartamento enorme, e depois brigamos. E fizemos as pazes. E terminamos e voltamos tantas vezes que eu já perdi a conta, mas você não. E pensamos como seriam nossos filhos, e nos odiamos intensamente, e nos xingamos dos piores nomes só pra depois a gente chegar à conclusão de que fomos feitos um para o outro.
Nunca tentei tanto ficar com alguém. Nunca me esforcei tanto pra dar certo. Nunca conheci um amor como esse. E nunca mais vou conhecer.
Wednesday, May 13, 2009
Solidão
Tenho passado os dias em casa, sozinha. O trabalho está fraco, por enquanto, e eu me vejo deitada na minha cama, com o lap na minha frente, sem internet. Ficar sem internet, pra mim, é o pior dos castigos. Sem poder checar os emails compulsivamente de 5 em 5 minutos, sem conseguir vaixar os últimos episódios de Lost, sem falar com ninguém virtualmente. O meu computador há muito se tornou uma peça importante na minha sociabilidade: não costumo ligar pra ninguém, nem chamar pra um chope, e a minha sorte é que tenho amigos que são muito mais animados do que eu, e me ligam volta e meia me chamando pra chopinhos sem pretenção.
Essa semana eu pude arrumar o quarto, organizar as contas que estavam fora da minha pasta sanfonada overload, assistir finalmente Z, que eu comprei de bobeira nas Lojas Americanas por R$10, e todas essas coisas que a gente faz quando tem muito tempo livre. Ah, sim, li muito. Praticamente um livro em uma semana, um livro sobre vampiros adolescentes que moram em Nova York - e quem vai me recriminar? Adoro livros adolescentes sobre vampiros, e o melhor é que depois posso dar de presente pra minha irmã de 15 anos.
Mas tem uma hora que eu canso de curtir a solidão. Geralmente é no fim do dia, quando escurece. Eu fico com aquele comichão de ir pra rua e ver pessoas e carros e cachorros vira-latas, e aí tenho que inventar um chope pra poder me entreter. Lembro de um amigo que trabalha em casa que uma vez me disse que não conseguia passar um dia sem pisar no Jobi porque ele esgotava a paciência em frente ao computador. Na época, não levei fé: "Que isso, tudo o que eu queria na vida era trabalhar em casa". Mas agora que etsou presa entre quatro paredes a maior parte do dia, reconheço que jogar conversa fora com colegas de trabalho na hora do almoço é essencial. Acreditem, não aguento mais comer macarrão, que é até onde vão meus dotes culinários, assistindo a Friends na Warner.
Ainda bem que semana que vem acaba.
Essa semana eu pude arrumar o quarto, organizar as contas que estavam fora da minha pasta sanfonada overload, assistir finalmente Z, que eu comprei de bobeira nas Lojas Americanas por R$10, e todas essas coisas que a gente faz quando tem muito tempo livre. Ah, sim, li muito. Praticamente um livro em uma semana, um livro sobre vampiros adolescentes que moram em Nova York - e quem vai me recriminar? Adoro livros adolescentes sobre vampiros, e o melhor é que depois posso dar de presente pra minha irmã de 15 anos.
Mas tem uma hora que eu canso de curtir a solidão. Geralmente é no fim do dia, quando escurece. Eu fico com aquele comichão de ir pra rua e ver pessoas e carros e cachorros vira-latas, e aí tenho que inventar um chope pra poder me entreter. Lembro de um amigo que trabalha em casa que uma vez me disse que não conseguia passar um dia sem pisar no Jobi porque ele esgotava a paciência em frente ao computador. Na época, não levei fé: "Que isso, tudo o que eu queria na vida era trabalhar em casa". Mas agora que etsou presa entre quatro paredes a maior parte do dia, reconheço que jogar conversa fora com colegas de trabalho na hora do almoço é essencial. Acreditem, não aguento mais comer macarrão, que é até onde vão meus dotes culinários, assistindo a Friends na Warner.
Ainda bem que semana que vem acaba.
Thursday, May 07, 2009
Lalala Contente e Saltitante
Há um mês eu voltei a fazer análise. Meu terapeuta é um cara bonitão, moreno, de uns 1,90 de altura, que faz questão de me cumprimentar com um aperto de mão quando eu chego ao seu consultório. Eu adoro essa distância do aperto de mão: não somos amigos, não somos nem conhecidos - ele é um profissional que eu contratei com o objetivo de me tornar menos maluca. O cara que sabe tudo da minha vida e que pode me conhecer melhor do que os meus pais tem que ser, no mínimo, alguém com quem eu não mantenha proximidade.
Na sala do meu terapeuta tem um divã e um sofá. Já me contaram que pra conquistar o divã você precisa marcar muitos pontos freudianos, e como eu sou uma novata nessa coisa de psicanálise, o sofá me cai muito bem, por enquanto. Principalmente porque quando chego estou sempre meio sem graça, não sei por onde começar a sessão e tenho a impressão de que os meus problemas são medíocres para um cara que está acostumado a tratar dependentes químicos, sua especialidade.
A terapia me fez um pouquinho mais pobre, mas muito menos histérica que o habitual. Saio de lá sempre de bom humor, achando que a vida é bela e que tem jeito pra tudo. Aliás, saio sempre com um dever de casa existencialista para colocar em prática durante a semana. E eu estou tão aplicada no intuito de manter a mente sã que faço as minhas tarefas direitinho, e de vez em quando ganho estrelinhas douradas no meu caderno de exercícios.
E foi então que eu aprendi que quando você trata os outros bem, eles também tratarão você direito. E como isso melhora sensivelmente o cotidiano, hoje acordei saltitante e cantante, fascinada na facilidade e na rapidez de resposta das pessoas quando percebem, mesmo que incoscientemente, que você quer o bem delas. Já disse uma vez que eu estou aqui na Terra pra fazer bem a outras pessoas (e levei uma bronca: "você está na Terra pra ser feliz!", me alertaram). Se o que me faz feliz é fazer os outros felizes, tá tudo certo, não tá?
Lá lá lá.
Na sala do meu terapeuta tem um divã e um sofá. Já me contaram que pra conquistar o divã você precisa marcar muitos pontos freudianos, e como eu sou uma novata nessa coisa de psicanálise, o sofá me cai muito bem, por enquanto. Principalmente porque quando chego estou sempre meio sem graça, não sei por onde começar a sessão e tenho a impressão de que os meus problemas são medíocres para um cara que está acostumado a tratar dependentes químicos, sua especialidade.
A terapia me fez um pouquinho mais pobre, mas muito menos histérica que o habitual. Saio de lá sempre de bom humor, achando que a vida é bela e que tem jeito pra tudo. Aliás, saio sempre com um dever de casa existencialista para colocar em prática durante a semana. E eu estou tão aplicada no intuito de manter a mente sã que faço as minhas tarefas direitinho, e de vez em quando ganho estrelinhas douradas no meu caderno de exercícios.
E foi então que eu aprendi que quando você trata os outros bem, eles também tratarão você direito. E como isso melhora sensivelmente o cotidiano, hoje acordei saltitante e cantante, fascinada na facilidade e na rapidez de resposta das pessoas quando percebem, mesmo que incoscientemente, que você quer o bem delas. Já disse uma vez que eu estou aqui na Terra pra fazer bem a outras pessoas (e levei uma bronca: "você está na Terra pra ser feliz!", me alertaram). Se o que me faz feliz é fazer os outros felizes, tá tudo certo, não tá?
Lá lá lá.
Tuesday, May 05, 2009
Mulher Total Flex
Passei pelo final dos anos 90 assistindo de camarote a todas aquelas meninas que experimentavam o lesbianismo de sábado à noite. Era moda, naquele tempo, beijar outras meninas nas festas de música eletrônica, se você fazia parte da ridícula (no sentido de mínima) cultura clubber que engatinhava no Rio de Janeiro. Bem, eu era uma ridícula (no sentido de patética) clubber carioca, se é que cabe rotular aqui, e posso dizer que, de todas aquelas experimentações de sábado, eu fui a única que beijou uma menina só uma vez - e achei ruim, diga-se de passagem. Sabe como é, faltou a barbinha por fazer e aquele jeito mais agressivo masculino. Enfim, faltou a virilidade. E, mesmo depois da experiência, eu passei por algum tipo de preconceito às avessas: as pessoas me olhavam torto porque eu era uma das poucas que não "fazia" garotas. Fui imediata e irrevogavelmente tachada de careta.
Os anos passam e a caravana continua, e essa história de lésbica de vez em quando ficou pra trás. Até que eu encontrei uma amiga de uns 30 e poucos que, às vésperas de fazer aniversário, disse que o importante na festa dela é que aparecessem pessoas solteiras. Porque na nossa idade todo mundo está casado ou recém-divorciado, pronto pra cair na gandaia da reconquistada vida de solteiro. No meu círculo social são poucos os amigos que deixaram a vida de adolescente pra trás e resolveram se casar. Separados, então, esses nem existem. Mas aí eu fiquei quieta, porque essa história de pós adolescente anda me envergonhando. E a minha amiga continuou a falar sobre os solteiros que deveriam aparecer na festa dela:
- Homens hétero de 30 a 50 anos
- Preferência por homens na faixa dos 38 sem filhos
- Gays que de vez em quando fiquem com garotas aqui e ali
- Mulheres dispostas a experimentações
E aí, quando ela disse isso, todo mundo riu. E alguém falou: "Mulher tem essa vantagem, pode ir e voltar. Já com o homem, se escolhido esse caminho, não volta mais". E todo mundo riu de novo, e eu fiquei tempos depois pensando que mulheres de 30 e poucos experimentam outras mulheres e podem até namorar e são muito bem resolvidas com isso. Achei curioso, porque namorar uma menina nunca foi uma opção pra mim. Meu namorado mesmo diz que eu sou a mulher mais hétero que ele conhece - e isso porque ele compartilha a opinião lamentável de que toda mulher tem um quê de lésbica. Mas quem sabe, vai ver é verdade mesmo. Nossa, seria a redenção das fantasias masculinas. E é interessante saber que as pessoas têm mais essa possibilidade. É tão... libertador.
Pena que não é da minha praia. Ainda. Vai saber, né.
Os anos passam e a caravana continua, e essa história de lésbica de vez em quando ficou pra trás. Até que eu encontrei uma amiga de uns 30 e poucos que, às vésperas de fazer aniversário, disse que o importante na festa dela é que aparecessem pessoas solteiras. Porque na nossa idade todo mundo está casado ou recém-divorciado, pronto pra cair na gandaia da reconquistada vida de solteiro. No meu círculo social são poucos os amigos que deixaram a vida de adolescente pra trás e resolveram se casar. Separados, então, esses nem existem. Mas aí eu fiquei quieta, porque essa história de pós adolescente anda me envergonhando. E a minha amiga continuou a falar sobre os solteiros que deveriam aparecer na festa dela:
- Homens hétero de 30 a 50 anos
- Preferência por homens na faixa dos 38 sem filhos
- Gays que de vez em quando fiquem com garotas aqui e ali
- Mulheres dispostas a experimentações
E aí, quando ela disse isso, todo mundo riu. E alguém falou: "Mulher tem essa vantagem, pode ir e voltar. Já com o homem, se escolhido esse caminho, não volta mais". E todo mundo riu de novo, e eu fiquei tempos depois pensando que mulheres de 30 e poucos experimentam outras mulheres e podem até namorar e são muito bem resolvidas com isso. Achei curioso, porque namorar uma menina nunca foi uma opção pra mim. Meu namorado mesmo diz que eu sou a mulher mais hétero que ele conhece - e isso porque ele compartilha a opinião lamentável de que toda mulher tem um quê de lésbica. Mas quem sabe, vai ver é verdade mesmo. Nossa, seria a redenção das fantasias masculinas. E é interessante saber que as pessoas têm mais essa possibilidade. É tão... libertador.
Pena que não é da minha praia. Ainda. Vai saber, né.
Friday, April 17, 2009
O cheiro do ralo
Essa semana passei por uma apendicite. Foi exatamente como a gente ouve falar que são as apendicites das outras pessoas: cheguei ao hospital morrendo de dor, achei que era gastrite, fui pra casa ainda com dor, voltei ao hospital e lá fiquei, dessa vez com o diagnóstico do apêndice inflamado, e com a proibição de deixar o prédio. E então me colocaram no soro, me vestiram aquela camisola aberta na bunda, me abriram e me fecharam, até que eu voltei pra casa.
Mas então acordei com um enjôo ao cheiro da água que me fazia vomitar em questao de segundos. E fiquei pensando que enjoar com o cheiro da água, que é um cheiro que nem existe, é uma espécie de maldição do apêndice retirado.
Durante meus dias de hospital, eu andava pelo corredor do meu andar carregando o suporte do soro, e me sentindo como uma figurante não do Grey's Anatomy, mas do Scrubs, principalmente quando dava a descarga no vaso ou ligava a torneira pra escovar os dentes e com isso vinha a ânsia de vômito.
Isso me fez lembrar de uma mulher que escreveu a um programa de TV pedindo ao apresentador ajuda para superar seu medo de água - a hidrofobia dos termos médicos - que a impediam de entrar em lugares absolutamente seguros, como uma bacia cheia de água. O apresentador de TV leu a carta na produção, achou genial a mulher ter procurado a sua ajuda (e não a de um, sei lá, psiquiatra), e propôs à espectadora que ela viesse ao estúdio superar seu medo em rede nacional.
A mulher recusou, é óbvio.
Quando o cheiro do ralo provoca ânsia de vômito nos outros fica tudo muito mais fácil.
Thursday, April 16, 2009
Eu já fui muito melhor do que isso
Eu já fui muito melhor do que isso. Já me joguei mais, já vi nevar e fazer sol, já chamei de escroto e depois de "meu amor" no espaço mínimo de um segundo. Todo mundo já leu isso aqui e já disse que me conhecia, e eu respondi: na na nao! Tem mais aonde o diabo se esconde. Eu já escrevi um texto de sangue por dia, já chorei e lambi, salgadinhas, as minhas próprias lágrimas. Já comprei coca-cola pra jogar na cara do gringo que passou a mão na minha bunda, e depois saí correndo pro meio da pista com medo de que ele me batesse. Já quis morrer de amor, já achei que iria morrer de amor - mas sempre sobrevivi, porque não amava droga nenhuma, era tudo uma grande viagem! Já fui xingada com razão e sem razão, mas nunca levei tapa de homem. E nao digo que nunca vou levar porque essas coisas a gente nào sabe mesmo. Já escrevi textos mulherzinhas e textos pseudo malditos que me envergonham hoje em dia. Já fui um monte de lugar comum, e outro dia me disseram que eu sou careta e covarde e eu fiquei putíssima mas, quer saber?, devo ser mesmo. E não etsou nem aí. Já fui um monte e agora não sou nada. Mas daqui a pouco volto a ser de novo.
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