Wednesday, May 23, 2007

Pensamento puros e imundos

E, a partir de agora, todos os meus pensamentos serão puros. Está decidido. Eu fico assim pendulando entre o ser santa e o ser puta, eu e todas as mulheres da Terra, mas ainda não me decidi a qual caminho seguir. Todos os meus pensamentos serão sujos. Todos os meus atos serão imundamente humanos, baixamente animais, instintivamente. Este blog está chato demais, e mesmo assim os page views vivem aumentando, e a cada dia que entro no meu orkut (e só entro quando alguém me deixa um scrap; deus me livre daquele troço), o número de visitantes está maior. Virei, de novo, uma celebridade internética? Afinal, 16 acessos na home no orkut não é um número considerável? Nego tá lá pra ver as minhas fotos, ler os meus recados e fuçar os testimonials? Acho inacreditável, porque nada é tão interessante assim. Até a minha descrição, o tal do "about me", que eu achava genial, agora me cansa. Até porque em breve terei que mudá-lo, porque daqui a muito pouco sou uma balzaquiana completa. Vou bolar outra frase genial, tenho certeza. Sou boa em "about me"s de orkut, e em nomes para blogs. Sou boa quando não há uma comissão julgadora ao meu lado, obrigando a fazer sair uma idéia brilhante. É quando estou sozinha que as idéias brilhantes vêm. Na quietude, na solidão, só eu e meu computador. Ainda bem que aqui no trabalho tenho uma sala só pra mim. Ninguém vê o que escrevo, nem o que faço, e neste exato momento deveria estar fazendo um roteiro. Mas que preguiça. Já sai no piloto automático, e não há nada mais triste do que viver assim. Gosto das coisas organizadas até um certo ponto, e depois eu reverencio o caos. Gosto quando chego em um lugar e o acaso me contempla com detalhes só percebidos por mim. Saboreio o acaso. A japinha de ontem cantando "paraíba mulher macho" em japonês foi um brinde ao caos. Pena que eu estava de mau humor. O mau humor já foi embora, talvez porque hoje seja quarta, e amanha e depois de amanha e depois de depois de amanhã eu tenha festas imperdíveis para comparecer. Quem precisa de uma noite de sono numa situação dessas? Estou a fim de ver o que quero, na hora que quero, e nesse ponto tenho sido como um animal seguindo seus instintos. Mas seguro a língua quando quero mandar alguém tomar no cu, e sorrio quando tenho à minha frente alguém que me faz uma cara feia. É tão fácil desarmar as pessoas. Todas vêm com uma bula embutida, uma explicação de como usar, tipo remédio. Pra tudo tem remédio. O mundo dá voltas. Recuperei um amigo antigo que eu desconfio que está apaixonado por mim. Mas eu não estou por ele, então me faço de desentendida. Esse meu amigo, já fui louca por ele. Hoje não sou mais. E ele está tão desesperado de solidão que se agarrou ao meu braço. Eu deixo, porque ele me faz bem. Pergunto sobre o trabalho, sobre os sonhos e os planos. Ele tem uma namorada e diz que não gosta mais dela. Eu acho isso tudo muito triste, porque ele é um cara novo e bonito e muto inteligente, mas ele tem medo de ficar sozinho. Um dia eu disse a ele que ele não precisava de nada disso, e ele ouviu calado, não respondeu nada e não mudou. Não tenho mais o que oferecer a ele além desses conslehos vazios, conselhos dados como se a minha própria vida fosse uma sucessão de acertos e conquistas.

Oh, God. Esse blog está ficando muito pessoal.

Tuesday, May 22, 2007

Vida em ângulos

Como eu disse outro dia, a mesma situação tem efeitos diferentes dependendo do ângulo enxergado. Enfim, eu estava enxergando tudo torto, escrevi coisas no blog que não acredito mais. Pensei em deletar o texto anterior, mas deletar textos é meio que admitir uma mentira. Então ele continua ali, mas eu não acredito mais em nada daquilo. Amor não vira amizade da noite para o dia, eu não viro Buda da noite para o dia, eu continuo má de vez em quando, apesar de buscar a bondade sempre. Mas eu sou má, tenho raiva, tenho inveja, falo mal de aspectos absolutamente rasos das outras pessoas, sou um ser rastejante (já disse), uma farsa, em engodo. E mesmo assim, to aqui tentando ser sincera. Que risível!

Mas eu sou assim mesmo, fazer o quê. E ainda assim, sou melhor que a grande maioria que conheço.

Agora chega, porque estou atrasada pro show da Miho Hatori. Finalmente. Tenho mais o que fazer e pouca coisa para dizer nesse blog. Viva a vida rasa.

Friday, May 18, 2007

Vous est trés belle

É engraçada a cara de pena que os amigos fazem quando ficam sabendo que o meu namoro acabou. Alguns avisam que eu vou ter que me readaptar, e que existem novas regras de pegação, o que eu acho no mínimo curioso, porque parece até que, aos olhos deles, eu acabo de sair de um casamento de vinte anos. É claro que a readaptação existe mesmo, e é lenta e meio chata de aturar, mas essa situação não é exatamente uma super novidade pra mim. Prometo que vou sobreviver.

Outros amigos procuram em mim uma revolta pelo acontecido. Mais uma vez, explico que a revolta já veio e já foi embora, e o que sobrou agora foi só uma preocupação assumidamente egoísta com o meu umbigo. E de resto o que ficou foi um monte de lembranças legais, e outras não tão legais assim - mas essas eu deixo pra lá. Já não me dizem respeito.

Hoje mesmo estava ouvindo Air - semper air - e pensando na minha viagem pra Paris. Era meu primeiro dia na cidade, eu tinha passado no hotel, largado as malas, e já estava batendo perna pelas ruas. Devia estar com uma cara de total felicidade, porque um francês ignorou a presença do meu então namorado e falou pra mim: Vous est trés belle.

Não entendo nada de francês, mas essa frase eu pesquei muito bem. Acho que eu estava mesmo bonita, porque saltitava pela Place de Republique, com um casacão rosa que só eu usava (as pessoas lá não usam roupas coloridas no inverno, depois eu descobri. Todo mundo é muito sóbrio e chique).

Pode parecer justamente o contrário, mas quando lembro dessas histórias a dois, eu não fico com pena de mim mesma. Na verdade, eu sorrio. É que eu não consigo simplesmente varrer alguém que foi importante uma determinada época, e assim eu fiquei amiga de todos os meus ex namorados.

É tudo uma questão de continuar amando a mesma pessoa. Só que de outro jeito, entende.

Wednesday, May 16, 2007

Little earthquakes

Quando eu tinha uns 16 anos, ouvia Tori Amos o dia inteiro. Eu andava com umas meninas que jogavam RPG e liam Ane Rice, e usavam cabelos compridos e vermelhos, e freqüentavam a Dr. Smith aos sábados, vestidas de preto dos pés à cabeça. Em pouco tempo me tornei uma delas: lia Augusto dos Anjos (mas só os poemas famosos) e ouvia que ouvia a Tori, com um dicionário inglês-português nas mãos que era pra não perder nada das entrelinhas das letras.

E um dia as meninas ouviam "Little Earthquakes" e cantavam juntas quando comentaram: a Bruna não sabe o que são esses pequenos terremotos. E eu fiquei com raiva. Achei que estavam me discriminando porque eu era a do grupo que menos tinha experiência sexual (pra não dizer que não tinha nenhuma experiência sexual), e então protestei, mas sem grandes resultados. E fiquei me perguntando o que elas queriam dizer com aquilo de não conhecer os littles earthquakes da vida.

Mas hoje eu sei muito bem. Aprendi, eu acho. E vi que não tem necessariamente algo a ver com sexo - embora, às vezes, tudo isso esteja ligado. E de vez em quando eu canto mentalmente "hmm, these little earthquakes, here we go again". E o que me impressiona não são os pequenos terremotos em si, mas o "here we go again", porque agora eu sei que é assim mesmo, que uma hora a gente está lá em cima, e outra hora a gente está mais embaixo, e quem disser que não é assim está mentindo pra todo mundo - inclusive pra si.

E esses altos e baixos me levam a outra associação louca, que é a Roda da Fortuna, a carta do tarô que mostra mudanças e situações opostas. Na verdade, quando eu estou embaixo eu sempre penso: here we go again, vai passar -e depois, não é que passa? E aí eu subo de novo, feliz porque to subindo, embora as subidas sejam sempre mais demoradas que as decidas. Pelo menos, parecem assim.

Por outro lado, tudo é uma questão de ângulo. De posicionamento de câmera. Na minha profissão, você tem várias maneiras de gravar uma cena: mostrando a lata de lixo ao fundo, mostrando a rua, mostrando um jardim. O negócio é encontrar o ângulo que mais vai agradar a você. Como em todas as outras coisas.

Monday, May 14, 2007

Momento casa nova

Até o fim do mês me mudo. Com um certo medinho de dormir sozinha no apartamento de três quartos, que provavelmente só terá uma cama, uma TV, uma geladeira, um microondas e um fogão. E pronto. Vão ser dias de falar no telefone e sentir a voz ecoando em espaços vazios, e eu tenho um pouco de medo porque estou acostumada com casa cheia, gente vinte e quatro horas por dia, conversas no jantar, novela das oito assistida em conjunto, essas coisas. Mas, por outro lado, to bem feliz. Mais uma meta recebeu meu checklist mental.

2007, definitivamente, é um ano especial. Nem chegamos à metade e já tenho tanta coisa acontecendo em volta de mim, daquele tipo de coisas que faz você se sentir outra pessoa, sabe como? Nesses cinco meses fui contratada, recebi um aumento, fiquei solteira, emagreci uns 4 quilos de puro trabalho e agora estou a poucos passos de morar totalmente, absolutamente, on my own. Um brinde de vinho tinto a tudo isso.

E depois vem a outra metade do ano, 30 anos, projetos de parar de fumar e de retomar a academia, de fazer uma pós, ou de viajar pro Peru (a passeio, não a trabalho!). Tem limite o que a gente planeja? Têm fim as metas que a gente estabelece? Eu acho que não.
Ainda bem... Se não, morria de tédio...

Arco-íris goiano


Prometi, e aí está.

Saturday, April 28, 2007

Texto reciclado

É muito feio reciclar um texto antigo?

Encontrei esse aí em um dos meus blogs antigos, e fiquei com vontade de postar de novo.
Só não lembro quem eu estava amando na época.

Quinta-feira, Setembro 23, 2004

Mais um texto sobre o amor

Sobre o tédio
Quase tudo já foi dito sobre o amor, quase tudo já foi escrito e pensado da pior e da melhor maneira. Este não é um tema novo. Mesmo assim, insisto no erro e no lugar comum quando sento em frente à máquina de escrever com tela: cigarro em um canto da mesa, telefone sem fio, milhões de papéis e eu amando. Nada poderia, mesmo que eu tentasse, soar mais piegas que isso. ‘Eu estou amando’. Taí uma frase que não deveria ser dita em voz alta uma única vez da vida de uma pessoa sensata – e mesmo assim é dita.

Me enrosco no edredom com muita preguiça de levantar. Da última vez que saí assim, bati em um táxi e deixei um rastro de tinta amarela no meu pára-choque pretíssimo, sinalizando para todo o mundo que eu sou uma péssima motorista. A vida deveria ser mais leve para aqueles que estão amando, para aqueles que carregam a cruz da breguice nas costas com incomensurável alegria. Mesmo assim, tenho que levantar e trabalhar e soar muito séria e muito centrada, mesmo quando preferia estar deitada na piscina admirando nuvens cor de rosa. A vida é muito, muito dura para quem está amando. Todas as pessoas parecem amargas e mal comidas perto de mim, sinto uma pena altiva dos seres humanos ao meu redor. Eles não sabem o que eu sei, eles não sentem o que eu sinto. Pobres, pobres deles.

Hoje me peguei desenhando corações enquanto falava ao telefone com o revendedor de tacos. Falando sobre preço de obras e reformas e em quanto tempo a minha casa será habitável de novo. Quando me dei conta, rasguei o papel e escondi dentro da bolsa. Ninguém deve desconfiar que estou amando, ou se sentirão ainda mais amargos e mais mal comidos do que nunca.

De todas as últimas vezes que amei, gastei o que não podia para presentear o meu amor. Aprendi minha lição: nunca parcelar presentes para amores no cartão de crédito. O romance pode acabar antes de a conta ser paga. Pois é, sim, sim, a vida é muito dura para quem esta amando de novo e de verdade.

Pessoas que passam

Às 11h da noite de ontem, eu me despedia de uma senhora de cabelos curtos que tinha lágrimas nos olhos. Ela já começava a sentir as saudades que teria das nossas gravaçoes, depois de cinco dias de convivência intensa. Eu sei que nunca mais verei essa senhorinha e, mesmo assim, embalada por latas e latas de cerveja, ela me abraçou e me deu um beijo no rosto. E convidou para voltar à Goanésia, GO, no carnaval do ano que vem.

O mais certo é que eu nunca mais volte à Goianésia. Ou a Silvânia. Ou a Pão de Açúcar. Ou até a Fernando de Noronha (que lugar absurdamente caro! Prefiro ir à Espanha e gastar a mesma quantia). Mas em todos estes lugares deixei pra trás novos amigos, de idades variadas, que acolherem à mim e à equipe como membros de uma grande família.

Uma vez, quando estava em Jericoacoara, CE (dessa vez eu fui a passeio), um israelense que havia conhecido toda a América Latina me ensinou que, para quem viva na estrada, o lance é estar desapegado das pessoas. Uma coisa assim meio budista, de deixar que o outro parta, que conclua a participação que teve na nossa vida, sem sofrer por saudades. O israelense, cujo nome já nem me lembro mais, disse que esta foi a maior lição que ele aprendeu nas suas andanças de um ano e meia pela América do Sul. E ele disse isso, é claro, quando estávamos nos despedindo.

Mas eu nunca fui muito boa em deixar as pessoas passarem. Tenho essa mania de segurar por perto quem eu considero de bem, talvez porque eu esteja de saco cheíssimo de gente chata. Esse povo que eu conheci pelo Brasil é sempre gente que tem estima por humildade e que abre as portas de sua casa com alegria e sem ressalvas. Uma situação muito difícil de acontecer no Rio.

Tirei tantas fotos de meus amigos goianenses, mas sei que daqui a um mês não me lembrarei mais do nome de ninguém. Só vai ficar na memória a imagem da senhorinha emocionada, e dos copos de vodka com coca-cola na beira da piscina depois da gravação, e do churrasco mal passado especialmente pra mim.

Thursday, April 26, 2007

Algumas imagens das minhas viagens

Mochileira na Bolívia - Cágados fazendo amor no Espírito Santo - Felino selvagem em Jundiaí - Leoes marinhos no Rio Grande do Sul - Casas em Ouro Preto, MG



Terra de arco-íris

Desde que cheguei a Goiás, já vi pelo menos três arco-íris, em situações diferentes. A razão disso, segundo a minha teoria absolutamente sem base nenhuma, é que devido às planícies do estado, a gente consegue ver a chuva lá longe, chegando, refletindo no sol que ainda está sobre o nosso carro (é que geralmente vejo esses arco-íris da estrada). Outro dia (também na estrada), consegui ver o começo e o fim de um arco-íris, um fato inédito para quem, como eu, mora em uma cidade grande, cercada de edifícios. Fiquei tirando fotos loucamente, e em breve elas estarão neste blog, quando eu recuperar o meu cabo e conseguir baixar as fotos da máquina.

Sempre gostei de presenciar arco-íris. Lembro de uma vez, quando tinha passado o reveillon fora do Rio, e tinha acabado de voltar para a cidade, que fui recebida com um lindo exemplar. Era dia 3 de janeiro de 2004, e eu achei que aquele era um sinal de que o ano ia ser muito bom.

Foi um bom ano. Como são todos eles. Não são?

Wednesday, April 25, 2007

Algumas verdades sobre a humanidade que precisam ser aprendidas

1 - Ser rotulada por um erro é fácil e rápido. Apagar a impressão que o erro causou nas outras pessoas demora meses, ou anos... Se você nunca mais errar. Se errar de novo, o julgamento virá mais forte que nunca.

2- Tentar agradar às pessoas é inútil, porque geralmente elas nunca estão satisfeitas.

3 - As fofocas servem para entreter gente que não consegue outros passatempos (e eu acho que é porque elas têm horizontes estreitos)

4 - quase ninguém olha para seu umbigo e é cruel consigo mesmo. A maioria costuma achar que está sempre certa.

5 - Pouca gente pede desculpas sinceras. E praticamente ninguém deixa de subir no salto ao ouvir desculpas pedidas com humildade.

6 - Subir um degrau na existência da espécie é gratificante, porém solitário.

Queria conhecer gente que:

- aceitasse um pedido de desculpas com um sorriso.
- fosse mais severa consigo mesmo, no sentido de fazer autocríticas.
- segurasse sua onda na hora de julgar os outros.
- reconhecesse o esforço de alguém para mudar.
- gostaria de subir um degrau na existência também.

Será que estou sendo utópica demais? Estou mais para ingenuidade que utopia.
Mas, no final, não é tudo a mesma coisa?

Tuesday, April 24, 2007

On the road

Tenho viajado pelas estradas de Goiás. Viajando e lendo o diário de Jack Kerouac, mas muito longe de ser como ele. Um dia, quem sabe... quando eu deixar de ser adolescente. Enquanto isso, admiro o céu do Centro-oeste do Brasil, um dos céus mais bonitos do mundo. Vou ouvindo Air, ou Chemical Brothers, ou a linda voz do Jim Morrison, amplificada nos meus headfones. My headphones... they've saved my life.

Passando por cidades mínimas, com uma praça, uma igreja desativada e uma em funcionamento. Jantando em casa de gente simples da cidade, mas que gosta de receber convidados. Aprendendo a andar a pé. Conversando com muitas crianças que ainda têm vontade de virar policiais quando crescerem. Outra vida, outro ritmo, e eu aqui aprendendo.

Mas com saudades do Rio.

Não tem jeito, sou amarrada a essa cidade. até quando morei em Nova York eu sentia falta, e volte achando a Lagoa Rodrigo de Freitas linda. Meus amigos todos reclamando que no Rio nao tem nada pra fazer, e eu toda babona.

Sou a carioca da gema menos bronzeada do universo.

Monday, April 23, 2007

Subindo um degrau na existência

Nunca na minha vida eu tinha sentido com tanta intensidade a subida de um degrau rumo à aprimoração da espécie. Posso falar com toda certeza de que, dados os eventos dos últimos três meses, eu não sou mais a mesma pessoa. Em um certo momento, isso foi muito ruim. Mas agora está sendo bom demais.

A questão que sempre me persegue é: por que a gente tem que passar o diabo pra aprender alguma coisa? Ou melhor: existe alguém no mundo que aprende sem sofrer?

Tive um namorado que achava que sim, que ele aprendia simplesmente observando seu erros. Eu acho que ele estava muito enganado quanto isso... E que, na verdade, ele não aprendia era nada. Mas, vamos ser honestos, quem sou eu para julgar se alguém está evoluindo ou não?

Eu só sei avaliar a minha passagem de fase. A dos outros, eu não tenho nada com isso.

O lance é que eu to orgulhosa da minha passagem. Passar de fase de maneira merecida, por esforço próprio e sem a ajuda de ninguém é uma recompensa como nenhuma outra. Não importa o quanto você se colocou na chibata, o quanto você teve que ouvir verdades de você mesma. No final, o que sobra é uma consciência tranqüila... e uma certa certeza de que, por um tempo, você será uma pessoa um pouco mais solitária. É o preço que se paga.

Mês que vem tudo é possível pra mim. Tudo pode acontecer. Eu não aguentava mais tanta estagnação na vida.
Me desejem sorte. Mas eu já sei que eu terei.

Wednesday, April 18, 2007

A membrana do presente

Ontem encontrei uma amiga que é, de longe, a pessoa mais entusiasmada que eu conheço. Ela conta histórias com tanta paixão que é impossível não prestar atenção ao que ela fala, e geralmente nossas conversas são regadas a drinks rosas em copos com design especial. É que essa minha amiga é boa em bebidinhas, e investe no assunto. Ela é o meu bar preferido.

Mas enfim, estávamos juntas ontem quando ela me contou de um curso filosófico/de desenho que ela fez no mês passado. E me ensinou a maior verdade dos últimos tempos.

Segundo o professor de desenho/filósofo da minha amiga, o tempo presente é uma membrana muito fina, na qual tentamos nos equilibrar. Só que, bobeou, estamos pendendo ou pro passado, ou pro futuro, e deixamos de viver o agora.

Fiquei completamente de cara. Mas essa é a resposta de todos os meus problemas! Viver o que está acontecendo no momento, e não ficar tantas horas, tanto tempo, pensando no que foi e em como vai ser...

Nas minhas viagens, muitas vezes fico ansiosa para voltar pra casa. Lá pelo meio do percurso morro de saudades da minha caminha, do meu travesseiro. E aí a temporada fora do Rio se transforma em algo insuportável, e qualquer dia parece se arrastar indefinidamente, como em um episódio de Além da Imaginação. Chego a ficar sem ar de tanta ansiedade, e acabo mergulhando em cigarros, noites mal dormidas e pratos rasos.

Mas a solução é poética. Ponha a sua alma no presente. Ponha você inteiro na ação que está fazendo agora, que aí você nunca mais briga com o Tempo, e você e o Tempo virarão grandes amigos. A membrana existe, mas ela é sustentável. Tem é que se ligar no equilíbrio - inclusive porque, não tem jeito, a vida é malabarismo mesmo, não é isso?

Friday, April 13, 2007

À procura de um apartamento

E, finalmente, às portas dos trinta, eu estou procurando um lugar pra morar. Já havia resolvido há algum tempo que era hora de me mudar, mas os últimos acontecimentos fizeram com que a decisão se tornasse urgente. E de repente eu me vi tomando cafés com potenciais roommates em bares do Leblon. Aliás, morar no Leblon foi quase uma opção, apesar de eu já ter escrito aqui que nesse bairro o custo-benefício não compensa. Como eu não canso de avisar, falo de novo: sou uma fraude.

O Leblon não rolou, é claro. Mas outros lugares podem ser possibilidades incríveis, e eu estou à caça de uma companhia para dividir despesas. Mas aí é que está o problema: como é que a gente sabe quem vai ser um bom roommate pra gente?

Não aguento mais ouvir conselhos, que chegam aos baldes, de todos os lados: "não more com quem você não conhece"; "morar com amigos íntimos é uma roubada"; "nunca divida o aluguel com um casal, eles unem forças contra você!"; "morar sozinho é solitário e caro, o melhor é ter uma companhia"... Enlouquecedor. Se pelo menos eu fosse o tipo de pessoa que decide tudo sozinha e foda-se o resto, estava tudo bem. Mas a verdade é que eu ouço tudo quanto é conselho, e me deixo convencer por todos eles, de modo que a minha opinião muda a cada cinco minutos.

O fato é que já arrumei um apezinho numa rua lindinha, arborizada, perto de vários cinemas, metrô, em frente à uma praça que tem um chafariz... Um lugar perfeito. Só falta mesmo conhecer o apartamento! Porque nele eu ainda não entrei - mas já etsou absolutamente convencida de que é ali que eu vou morar.

Queria muito definir tudo isso antes da minha próxima viagem. Mas que tolinha, na quarta to eu pegando a estrada de novo, rumo a Goiás e Brasília, bem no meio do Brasil. Vambora, né, minha gente. Anotei telefones de amigos que moram por aquelas bandas e avisei o proprietário do apartamento fofo: segura ele aí pra mim. E o cara vai segurar, porque é um cara legal e amigo da família e etc.

Se tudo der certo, em junho eu estou pintando uma parede de verde. E pendurando fotos na geladeira da minha cozinha.

Thursday, April 12, 2007

Retratos

Na última vez que voei de BH para o Rio, estava sentado ao meu lado um cara que segurava a foto da namorada. Ele havia baixado a mesinha e colocado o retrato em cima. Depois, fechou o tampo e pendurou a fotografia na trava da mesa, de modo que a moça da foto ficava olhando para ele. E foi nessa posição que eu pude espiar que imagem era essa que ele tanto admirava.

A foto era de uma menina sentada no banco do que parecia ser uma praça de cidade pequena. Ela sorria, com os cabelos ondulados chegando à cintura, um chapeuzinho de tricô na cabeça. O rapaz não sabia muito bem o que fazer com a foto: ele guardava no bolso esquerdo na camisa, depois tirava e ficava olhando um pouquinho, tornava a guardar, tornava a tirar e a prender na trava da mesa... Era uma dança que não tinha fim. Imagine que, a essa altura, eu já estava quase pulando em cima dele de tanta vontade de perguntar quem era a moça da foto, se ele ia ficar muito tempo longe dela, se ia encontrar com ela no Rio... Fiquei com uma baita curiosidade, mas não mexi um centímetro do rosto. Nosso único contato (fora o bom dia que eu sempre dou a quem voa ao meu lado), foi quando ele procurou, sem jeito, ajeitar o encosto da poltrona. Apontei para o botão e falei meio baixinho "tem que apertar aqui", e ele sorriu muito sem graça - e eu sorri de volta, retribuindo o acanhamento. E o retrato da moça lá, por perto.

Mas foi na hora da decolagem que eu entendi a função da fotografia. No momento em que o avião acelerou para começar a subir, o cara fez o sinal da cruz, e agarrou com força a imagem da menina sorridente. Sua respiração só voltou uns cinco minutos depois, com o avião já estável no ar.

Achei tudo tão lindo! Que manteiga derretida que eu sou. Nunca cheguei a conversar com meu vizinho de vôo e, pra falar a verdade, a lembrança dele sumiu da minha cabeça assim que pisamos na cidade maravilhosa, louca que eu estava para voltar para casa. Mas hoje, confesso que a história do homenzinho me veio à tona, meio sem razão aparente. Na verdade, eu sei bem porque esse homem ressurgiu: simplesmente hoje eu me vi como ele, olhando uma fotografia esquecida no fundo da carteira da mesma maneira que ele olhava para a foto da noiva (noiva?)

A grande diferença entre o homenzinho e eu é que ele recuperou o fôlego cinco minutos depois da decolagem.
E eu ainda estou sem ar.

Friday, March 30, 2007

Os diários de Jack

É até covardia ler os diários de Jack Kerouac quando se está às portas dos trinta anos. Quero dizer, chega a ser meio cruel observar como esse menino, na época com apenas 26 anos, se esforça para escrever seu primeiro romance, The town and The City. São longas noites de trabalho com alguns milhares de palavras escritas, madrugada por madrugada. E depois relidas. E depois datilografadas. É uma correção que não tem fim, um aprimoramento quase doentio. E eu morro de inveja.

Mas o livro “Diários de Jack Kerouac – 1947- 1954” marca a minha volta a narrativas que fazem pensar. Não dá para sair ilesa das coisas que ele diz, do que ele pensa da vida. Kerouac era um cara que não parava de pensar em nenhum momento, e que gostava de dar longas caminhadas para poder refletir melhor. Ele não se permitia descansar nunca, a não ser quando encontrava os amigos beats no sábado à noite, e enchia a cara em alguma festinha de apartamento, ou então quando levava a mãe ao cinema, nos anos que se seguiram à morte do pai. No resto do tempo, pode apostar: Jack estava solitário, fumando um cigarro, caminhando quilômetros, andando e pensando.

Outro dia ele escreveu que sua vida era uma longa sucessão de dúvidas, e que isso o deixava satisfeito. Eu fiquei totalmente extasiada, porque meu maior problema sempre foi buscar respostas, quebrar a cabeça tentando achar uma lógica, uma linha de pensamento que justifique o acaso. Até que chega Jack e diz: prefiro as dúvidas, e de repente eu me vejo também preferindo dúvidas a afirmações forçadas, enfiadas goela abaixo. Até porque as dúvidas, uma hora ou outra, se solucionam sozinhas. O segredo está no que eu nunca aprendi: em deixar rolar.

Em tempos de viagem, quando depois de um longo dia de trabalho o que me resta é um quarto de hotel compartilhado, os livros têm me salvado de muitos momentos de falta de paciência e solidão. Foi dessa forma que li em menos de um mês dois livros consideravelmente grandes, saboreando cada história entre as escalas dos vôos loucos que eu pegava. Mas outro momento também me enche de prazer, que é aquele momento em que saímos para procurar novos livros, porque já acabamos com o volume que tínhamos em mãos. É um momento delicioso, mágico, cheio de dúvidas que acabam se solucionando, como todas as outras.

Encontrei Jack em um shopping horrível de Porto Alegre, onde só havia livros de auto-ajuda. Mas ele estava ali, filho único de mãe solteira, me esperando embaixo de volumes de “Faça seu dinheiro render” e “Inteligência emocional”.

Agora durmo com Jack nos braços.

Dark side of the moon

Sempre disse que achava rock progressivo um saco. E que um dia eu faria uma camiseta onde estaria escrito “Pau no cu do Rush” (bom, essa frase é de um amigo, mas eu achei legal e sempre digo que é minha). Só que outro dia baixei Dark side of the moon, e tive que pagar por todas as minhas xingações ao progressivo.

O disco é maravilhoso. Não paro de ouvir. Tanto que consegui convencer uma amiga indecisa a me acompanhar no show do Roger Waters em São Paulo, numa coincidência linda da vida de viajante: uma folga bem no dia seguinte ao show. Não é lindo?

Sempre achei “Wish you were here” uma das músicas mais lindas de todos os tempos. E “Comfortably Numb” tão triste e desesperada e tão maravilhosa.. – ainda não entendo porque considero as coisas tristes e desesperadas como maravilhosas – e estas eram as únicas músicas que eu falava que, ok, eram do Pink Floyd e eram legais. Ah, claro, também tinha “Another Brick on the wall” e “Money”, mas essas eram composições tão clássicas que deixavam de pertencer a uma banda e a um estilo, sabe? E era redundância falar que eram boas.

Mas de resto, eu dizia que era chato demais ter que ouvir uma música que ocupava todo o lado de um disco (no tempo do vinil, minha gente!), e eu tinha ouvido falar que o Pink Floyd tinha disso. Mas, na real, eu nunca ouvi a tal da música! E agora os nossos disquinhos não têm mais lado, então essa definição de música longa fica meio perdida, meio solta por aí.

Tenho vontade de encher a cara ouvindo Pink Floyd. E de sentar na varanda e ficar olhando o céu, sabe como é? Me ausentando de todas as coisas que me aborrecem e me tiram o sono, transcendendo, sei lá como. Pink Floyd é para ouvir no headphone, com os pés pra cima e o celular desligado. Um momento só para a sua alma, numa época em que a sua alma anda esquecida por todos os compromissos que aparecem no caminho.

Pink Floyd é melhor que Rivotril.

Obs: continuo achando o Rush uma merda.
Pau no cu do Rush!

Bolívia, o estado pobre do Brasil

Um belo dia eu estava de folga em Rio Branco. E o que fazer em Rio Branco em um dia de folga? Alguém deu a idéia: vamos até Cojibo comprar muambas e afins, porque lá é baratinho. Aceitei a empreitada e nós estávamos, 2h30 depois, na Bolívia.

A cidade de Cojibo fica grudada à nossa Brasiléia, no ponto mais ocidental em que eu já estive no país (o ponto mais oriental das Américas fica no Rio Grande do Norte. É uma praia maravilhosa chamada Ponta do Seixas, e tem até plaquinha pra você tirar foto. Eu tirei, é claro). Mas então, Cojibo é ligada ao Brasil por uma ponte, e tem uma polícia alfandegária totalmente ausente – pelo menos no dia em que eu estive lá. Deixamos o carro na parte brasileira e atravessamos a pé em direção ao país vizinho.

Quando se chega ao outro lado da ponte, a impressa que se tem é de que voltamos ao Brasil agrário. As ruas são de terra, as casas de madeira, com placas toscas onde se lê: vende-se sorvete. Poderia ser uma cidade do Brasil, é verdade, não fosse o fato de que Brasiléia é muito bonitinha, asfaltada, com canteiros centrais com coqueiros e praças e bancos. O contraste fica mais cruel.

Chegando à rua principal, onde se multiplicam as lojas de eletrônicos, já vemos asfalto. Mas vemos também tiazinhas com cara de índias, o cabelo dividido em duas tranças que ultrapassam a cintura, vendendo suco de laranja espremida na hora. Enquanto isso, brasileiros sacoleiros disputam a atenção pelos vendedores bolivianos. Os preços são dados em três moedas: pesos, reais e dólares. E o câmbio é feito na hora, usando a cotação do dólar no Brasil naquele dia (ou pelo menos a gente acredita que seja aquela a cotação. Eu é que não contestei).

Comprei uma câmera digital de 6 mega pixels achando que estava sendo malandra, poupando pelo menos uns 400 reais caso comprasse no Rio de Janeiro. Tolinha. Quando fui comparar os preços na internet, surpresa: algumas lojas no centro davam exatamente o mesmo valor, só que com garantia, ao contrário da minha compra boliviana.

Apesar da compra pseudo furada, a minha ida à Bolívia não foi de todo perdida. Pelo menos pude fazer a piadinha que, de tão genial, vou repetir aqui.

“To indo pra Bolívia amanhã. Quer alguma coisa de lá?”

Acreditem, quando eu disse na primeira vez, foi engraçado.

Saturday, March 10, 2007

A terceira conquista

Existem três conquistas que completam a alma.
A primeira tem a ver com a aquisição de bens de consumo duráveis. A compra do primeiro carro com infindáveis prestações usando o parco salário do primeiro emprego, a primeira viagem ao exterior, o primeiro aluguel e - um dia chegamos lá - o primeiro apartamento próprio.

O segundo é de cunho amoroso: quando a gente pára, mesmo que momentaneamente, a procurar a cara metade. Geralmente porque conhecemos alguém legal e pensamos "agora vai", mesmo que a história desande algum tempo depois. É o fim de beijos sem sentido e sexos com pessoas que preferimos nem lembrar. O famoso sossegar o facho com uma pessoa só, sabendo que agora você tem companhia para programas de índio.

A terceira conquista foi a que consegui realizar ontem. Muita gente vai dizer que não é nada demais, e que a ordem da lista está completamente equivocada, mas o fato é que na noite de sexta-feira eu consegui, finalmente, cozinhar um risoto de funghi.

Antes que comecem os protestos, eu preciso explicar quem sou eu em realção a assuntos de economia doméstica. Peguei uma receita na internet e rumei ao Zona Sul para comprar os ingredientes. Porém, enquanto monga, não sabia que a cebola tinha que ser pesada. Achava que a gente comprava cebola por unidade, que era só colocar no saquinho e apresentar no caixa. Passei pela vergonha de perguntar para a moça do supermercado: tenho que pesar isso aqui? Ela me olhou atônita, e respondeu que sim, com a cara de quem não está acreditando no que acabou de ouvir. E eu me recolhi à minha insignificância.

Depois teve o momento da falta da manteiga. Comprei tudo direitinho, até a cebola devidamente pesada, mas esqueci da manteiga. Acionei o Ninja, homenageado da noite (o que três semanas de viagem não fazem com o seu namoro!) para comprar pra mim o item que faltava, enquanto eu vigiava as panelas que já estavam no fogo. O coitado teve que calçar o tênis, atravessar a rua e voltar com o saquinho para que eu continuasse a minha aventura culinária.

Tem horas que você acha que aquilo não vai dar certo. Que a panela está mais parecendo uma canja que um futuro risoto, ou então que a quantidade de caldo de carne está errada. Mas, para a minha surpresa, o prato foi progredindo, progredindo, até que finalmente foi servido à mesa. Adivinha só. Ficou bom pra caralho. Na verdade, o risoto de ontem foi o melhor risoto de funghi que eu já comi na vida.
Não há tempero melhor que a auto satisfação.

Pra quem quiser se aventurar a fazer um risoto de funghi como este, aí vai uma receitinha tranquilíssima, e de sucesso garantido.
Se eu consegui, mesmo sem saber pesar a cebola, você também consegue. Acredite na terceira conquista.

Tuesday, March 06, 2007

Abre a jaula do leão!

Hoje estou na cidade mais ao sul que já estive na minha vida. Chama-se Cassino, litoral gaúcho, a apenas 250 km do Uruguai. Beeem longe de casa. Mas uma coisa legal de estar beeem longe de casa é justamente ver coisas que a gente não vê sempre. Pois bem, hoje foi meu dia de ver leões marinhos.

Durante as tais viagens pelo norte, nordeste e agora sul do Brasil, aprendi que bicho feliz e bonito é bicho solto. Zoológicos me deixam deprimida (principalmente aquele do Rio, quente que nem Pão de Açúcar, talvez, e com jaulas de 2x2 para animais que precisam de espaço). Uma tristeza só. Agora, por outro lado, quem é que pode ver bicho solto de perto? Uns poucos privilegiados, com grana o suficiente para viajar. Ou gente que, como eu, ganha mal mas aproveita bem a vida.

Em Noronha tive a minha primeira experiência no mundo animal livre. Golfinhos acompanharam o nosso barco, e eram tantos, e estavam tão perto, que se esticasse a mão conseguiria tocá-los. Mas aí, enquanto turista não turista deslumbrada, não estiquei a mão, ocupada em tirar fotos de todos os ângulos possíveis. Tipo os japoneses na Disney, sabe como é?
E, ainda no arquipélago, houve aquela tartaruga enorme, quase pre-histórica, colocando ovos na areia da praia mais bonita que eu já vi. Fiquei como criança, olhando boquiaberta, esperando que a bichinha terminasse de postar para voltar, com muita dificuldade, ao mar de Noronha.

Depois disso eu vi macacos, rãs exóticas, jacaré, pacas... e, hoje, os lindíssimos leões marinhos. Acho que fiquei assim tão extasiada com esses bichos porque nunca na vida soube que eles vinham para o Brasil. Eu achava que leões marinhos viviam entre pinguins, geleiras e ursos polares. Quem poderia adivinhar que aquele casaco de peles ambulante tomaria um solzinho no sul do nosso país?
Mas, ainda bem, eles vêm, como pude ver bem de pertinho, sem barras de ferro entre nós.

Monday, March 05, 2007

Pão de Açúcar, AL

Eu disse outro dia que fui a uns 5 estados esse ano, mas afinal acho que foram mais lugares. Em cada estado eu passei por cidades que nunca conheceria se não fosse o trabalho, porque não são lugares turísticos e ficam bem no meio do Brasil. Destes municípios, o que mais me marcou foi Pão de Açúcar, a terceira cidade mais quente do Brasil, no sertão de Alagoas, às margens do Rio São Francisco.

Os próprios habitantes da cidade citam seu terceiro lugar no ranking dos inferninhos terrestres. A impressão que tive foi que, se aquela cidade é a terceira mais quente, não quero saber da segunda e da primeira do Brasil! O sol castiga, eu tinha que gravar com óculos escuros, boné, filtro solar 15 - e, mesmo assim, digamos que eu peguei um bronze não intencionado. E tudo isso em apenas um dia de gravação!

Por ser uma cidade pequena e isolada das grandes capitais, Pão de Açúcar é cheia de lendas e boatos. Toda noite, depois que a cidade está dormindo, um grupo de moradores faz a ronda nas ruas, para evitar que algum grupo de mal feitores invada a comunidade, roube, apronte sei lá o quê. Esses caras da ronda são chamado de Anjos da Guarda, e é deles que partem a grande maioria das lendas que assustam os moradores de tempos em tempos.

O Lobisomem, por exemplo, já foi visto por lá. Descreveram o bicho como um cachorro muito grande, de olhos vermelhos, um monstro mesmo. Ninguém nunca viu o Lobisomem de perto, mas muitos relatam encontros inesperados com a besta. Também existem histórias de um pneu que rodava sozinho pelas ruas de Pão de Açúcar, como se uma mão invisível o guiasse, à maneira das brincadeiras dos moleques pãodeaçucarenses.

Pão de Açúcar também tem um Cristo Redentor, de braços abertos no morro mais alto do município, quase um Corcovado alagoano. Lá de cima podemos admirar uma vista muito bonita do Rio São Francisco e, dizem, o pôr-do-sol é espetacular (não tive tempo de ver, estava louca pra tomar um banho quando acabou a gravação). O Velho Chico é a base da cidade. Naquelas águas o povo cozinha, lava roupa e mergulha nos fins de semana. A água do rio nesse ponto é bem clarinha, quase uma água de mar, diferente do São Francisco do norte de Minas, que tem água barrenta.

Depois do nome Pão de Açúcar e do Cristo Redendor, mais uma coincidência une os cariocas tão distantes àquela cidadezinha do sertão de Alagoas. Na outra margem do rio há uma cidade de Sergipe em que, parece, a maior atração é a vista para o Cristo Redentor de Pão de Açúcar.
Sabe qual é o nome da cidade?
Niterói.

Saturday, March 03, 2007

Tomando um passe indígena

Hoje é um momento histórico. Tomei um passe de uma feiticeira indígena, com direito a fumar no cachimbo da paz. Isso mesmo: fui a uma aldeia, ganhei um colar de proteção para o meu espírito, fumei o cachimbo que não tem nada a ver com maconha, e fiquei em paz com o mundo. Transcendental.

Essa foi apenas uma das atrações que 2007 me reservou. Apesar de estarmos entrando no terceiro mês do ano, já conheci pelo menos 5 estados em um mês e meio de viagem, interrompida apenas para passar o carnaval no Rio. Carnaval sem blocos e sem grandes jogações, diga-se de passagem. Apenas muitas sessões de Heroes, deitada no sofá da casa do Ninja.

Viajar a trabalho é legal porque você conhece lugares e pessoas inimagináveis, como a feiticeira indígena que me deixou na paz essa manhã. É um saco porque você fica longe do namorado, amigos e família, e o sua conta de celular ganha proporções absurdas. No momento, já passei por todos os estágios, desde saudades e saco cheio até deslumbramento. No momento, cair na estrada significa apenas mais um dia de trabalho. Só que quando você volta pra casa, não encontra a sua cama, e sim o travesseiro de penas de algum hotel quatro estrelas.

Preciso ressuscitar esse blog. É muito importante que eu conte pra alguém todas as coisas que eu ando vendo por aí, caindo na real de como realmente as coisas são fora do eixo Rio-SP. É muito importante que eu volte a escrever qualquer coisa, pra pensar na vida, sabe. Só voltei aqui porque alguém que leu o Poça me adicionou no orkut, e então eu percebi o quanto sentia falta destas linhas. Deve ser por causa do cachimbo do índio.

Wednesday, January 17, 2007

Banheiros de Paris


Vaso com lugar para pesinhos de um banheiro parisiense.
Pra quem quer fazer cocô de cócoras

'You're still doing things that i gave up years ago'

Lou Reed me dá tesão. Transformer é o disco mais afrodisíaco já lançado, com todos aqueles pianos e a voz rouquinha e meio sussurada (mesmo quando ele grita; é possível isso?) do Lou. Ele sim, ele pode falar de baixeza e do submundo, ele entendeu o que é isso, casou com um travesti e fez uma música em homenagem à heroína. É difícil tentar ser moderno depois do surgimento de Lou. Todos esses modernos wanna be que eu vejo por aí deveriam ficar envergonhados, porque ninguém, jamais, conseguiu ser como ele, Mr. Reed.

E de todas as músicas que eu ouço dele, o verso que mais cutuca a ferida é esse aí do título do texto. Ele, que já sabia que era moderno mesmo sem nunca ninguém ter dito, avisou pra quem tentasse copiar: você tá indo quando eu já estou voltando. Sacou? Dá vontade de fazer uma camiseta e sair por aí andando e cumprimentando gente que, meu deus, se prendeu a uma década. Lou é foda.

A culpa do renascimento da minha paixão por Lou Reed aconteceu quando eu comprei um MP3 player lindinho. Me rendi à tecnologia, apesar de ser uma menina do século dezenove. Eu baixei Transformer e fui suar barras de chocolate na esteira da academia ouvindo a voz de veludo do meu mais novo antigo muso, e aí percebi que, caramba, não existe mais nada depois de Satelitte of Love, ou Perfect Day. Não existe nada, quem faz música deveria parar de escrever, todo mundo já pra dentro de casa pra colocar o disco no repeat, até cansar as orelhas, até acabar a bateria do seu radinho. Todo mundo, agora, tirando a roupa e fazendo uma suruba em nome de Lou. Ele sim sabe o que é sexo.

Wednesday, January 10, 2007

Xixi d'orange

Em Paris a gente faz xixi laranja. Sei lá se é porque você tem apenas sete dias e uma lista infinita de visitas a prédios mais velhos que o seu país, ou se é porque está tão frio que vc não pensa em beber nada a não ser um ou outro chocolate quente, ou então se é porque você come muito queijo fedorentamente delicioso. Sei lá, mas o xixi em Paris é forte, nada desse mijo girlie que se vê por aqui, o negócio lá é intenso.

Essa foi a segunda coisa que percebi sobre a cidade.
A primeira foi: é verdade, eles usam chuveirinho de mão aqui; se bem que dá pra fixar na parede, de modo que fique exatamente como o chuveiro do resto do mundo.

Tirando a fixação por banheiro (eu poderia falar do vaso em que o sujeito fica de cócoras, mas deixo isso para outra ocasião), o momento em que caiu a ficha de que eu estava, de verdade, em Paris, foi quando o Sena surgiu. Toda viagem eu tenho o momento de cair a ficha: em NY foi o Times Square (óbvio), e em Paris foi o Sena e todas aquelas pontes, cada uma a seu estilo.

Ok, eu confesso: nasci pra ser francesa. Primeiro porque ADORO queijos - quanto mais fedorento, mais eu gosto - e poderia viver a vida comendo queijos de sobremesa, como eles fazem. Segundo porque eu tenho uma tendência a tomar vinho em qualquer ocasião, a qualquer hora. Vinho tinto, apenas, que eu não tenho paciência pra sofisticação muito sutil de um vinho branco. Vamos logo deixar essa língua roxa e o dente preto, ne, gente. E depois, no fim de tudo, eu adoro me vestir de cebola, com camadas e camadas de roupa, e não ligo a mínima pro frio.
Resumindo: Je m'apelle Brruná.

2007 começou em uma festa de brasileiros em um apartamento francês. Uma festa para adolescentes de trinta anos (será que isso nunca acaba? Será que eu nunca vou deixar de gostar das mesmas coisas que me faziam sair de casa aos dezessete?). A dona da casa, uma das poucas francesas do recinto, ignorava o seu piso de tábua corrida sendo manchado de cerveja. É 2007, o outro ano ficou pra trás, e agora todo mundo vai ser muito feliz.

Adoro reveillons. principalmente quando os anos começam em Paris.

Thursday, December 07, 2006

Quase lá

Estou apenas a três semanas das férias. Vinte míseros dias me separam de 2007 e de uma viagem incrível. Mal consigo dormir, mal consigo esquecer que ano que vem todas as coisas serão diferentes. Hoje mesmo dormi pessimamente; Ziggyberg, o gato, querendo um espaço na cama, me empurrando e deixando as minhas costas em forma de oito. Quando me mexia, Ziggyberg me agraciava com uma mordida de insatisfação. Mordida de amor, é verdade - mas, ainda assim, incômoda. E quando finalmente consegui cochilar aqui e ali, sonhei com trabalho. Essa fuckin' vida de workaholic.

Agora estou com um puta sono. Com uma vontade louca de ir embora, deitar em frente à TV e não pensar em nada, esquecer da viagem, esquecer de 2007, esquecer de comprar tantas coisas de natal, esquecer que ainda faltam três semanas que se arrastam indefinidamente.

Monday, December 04, 2006

Fonte da Vida

Vai embora. Tira a bunda dessa cadeira pra colocar delicadamente suas nádegas sobre outra. Feche-se numa sala escura, sozinho, desligue o celular e mande calar a boca quem tiver a ousadia de se comunicar com o mundo exterior. Leve um casaco, mesmo estando quente. Ou então assuma o gelado e agüente firme até o final. Mas sai daqui. Agora. É obrigação. Ler blogs, que porra é essa, quem é essa gente que entra aqui? Quem é essa gente que procura meu nome no Google, ou que vasculha o meu perfil ridiculamente construído no Orkut e fica tão interessado no que lê que segue o link pra cá. E ainda há piores, aqueles que sabem de cor o endereço da página e acertam em direct hit todas essas linhas que, não, não são nada, nada demais. Vai embora, vai procurar o que fazer, vai saber a verdade da morte, a morte como criação da vida, vai ouvir a música que casa tão bem com imagem, aquela que você fecha os olhos e entende tudo. A música sem letra que vale mais que mil palavras. Quem é que sabe e que segura a onda de acordar um dia depois do outro sem se isolar por duas horas do resto? Quem é que consegue passar segunda terça quarta quinta sexta, de 9 às 7, olhando o relógio com vontade de ir embora? Todos nós deveríamos ser animais nesse ponto: deu vontade, come, some, dorme, não importa aonde, não importa com quem.
Mas, que isso, somos todos muito civilizados. Eu dou bom dia e boa noite e faço questão de olhar nos olhos e sorrir pros outros, faço questão de ser simpática e agradável, faço uma questão enorme de ser aceita e aceitar os outros. Tão ridiculamente básico, essa necessidade de aceitação, tão sonolentamente previsível que eu rio por dentro.
Se existe alguém que, agora, esteja lendo todos os blogs do mundo e tenha vergonha disso; saia. Vai arrumar alguma coisa melhor pra fazer.

Friday, December 01, 2006

Meu primeiro rivotril

Eu não tomo remédios. Ou melhor, eu tomo remédios quando estou morrendo de dor, sem conseguir pensar direito, quando não há mais saída. Eu simplesmente não penso nos remédios, não sei qual é bom para o quê e não tenho na minha casa nem uma aspirina. E quando fico com dor de cabeça, deito e espero que ela passe sozinha. E, acreditem, uma hora ela vai embora.
É que não sei direito qual é a linha limite da dor que merece remédio daquela que não merece. Tem gente que não liga, que nos primeiros sintomas manda a cápsula pra dentro, mas, sei lá, eu não fui criada assim, e portanto não sou assim. No final, tudo é culpa das mães mesmo.

Mas esse ano ganhei de um amigo uma caixa de rivotril. Um amigo psquiatra. Eu é que pedi pra ele, porque achei - erroneamente - que rivotril era um remédio pra dormir. E às vezes, quando estou putíssima, ou tristíssima, ou ansiosíssima, eu tenho problemas com o sono. E aí, quando ele me deu a caixa, eu guardei para a ocasião certa.

Passaram-se semanas, meses. A caixa lá, dentro do meu armário, fechada. Mas à minha espera. E aí ontem eu decidi que este era um bom momento para chegar em casa, tomar um banho e deitar na cama, sem me relacionar com o mundo exterior. Foi uma semana de ligações de mega chefes no meu celular - e quando mega chefes ligam para o seu celular, ou eles te dão aumento, ou eles te dão esporro. Pelo rivotril da noite passada, dá pra se concluir que mais rica eu não estou. Alguém deve estar, mas não eu. Mas foram ligações curtas e grossas, somadas à ansiedade de que chegue logo o ano que vem, quando todos os meus problemas estarão resolvidos, e a viagem de reveillon que deve ser inesquecível, e o celular do Ninja sem bateria. Soma-se tudo isso e, tchan- nan, tem alguém que precisa se acalmar.

Tomei dois. Um pra dar soninho e outro pra dormir. E deitei, assistindo A Grande Família. Tudo o que não me fizesse pensar. Comecei a sentir uma molezinha, uma dormência na língua e na ponta dos dedos que era bem legal. Mas nada de sono. E daí eu liguei para um amigo, que é outro psiquiatra, perguntando se a dosagem estava certa.

Batemos um longo papo sobre todas as coisas da vida. Sobre planos e passado e presente. Mas falamos pouco do rivotril. De repente eu estava de bom humor, rindo ao telefone. Na paz, entende? Na paz interior. Que medo desse troço. Dá uma calma boa, uma coisa assim de que tudo está bem. Ou melhor: de que nada é tão sério assim. É bom... E que medo que dá.

Depois, no meio da conversa, o Ninja ligou. Ele, ao contrário de mim, adora um remédio. Sabe marcas e estilos e efeitos e dosagens. E não acha nada demais eu tomar um rivs (todo mundo que toma rivotril chama o remédio de rivs, sabiam?). Ai, se eu vou na dele... Se eu vou na dele, talvez dê certo, porque ele sabe de tanta coisa e, sei lá, vai que ele acerta nessa também. Mas dá medo. É muita paz interior pra uma pessoa só.

Hoje eu estou ótima. Bem humorada. Com a marcha um número a menos da que costumo estar. E a caixinha, ainda com muitos comprimidos, continua no meu armário. Duro vai ser esquecer por um tempo da existência dela.

Wednesday, November 29, 2006

Muito sincera

De vez em quando me bate uma urgência em dizer umas verdades. Pra quem não sabe, eu sou do tipo que sempre tem razão e, quando não tenho, custo a admitir que estava errada. Quando eu tenho, rá, é uma festa: faço questão de segurar a minha verdade como quem segura seu cetro, rainha de todos os argumentos. Ganho qualquer discussão.

Mas tem vezes que a minha verdade é usada pra brigar. Pra jogar na cara dos outros que eles estão errado, e que deveriam se envergonhar disso. Não sei bem quando isso acontece, que conjuntura inexistente dos astros me transforma de rainha em lutador de jiu-jitsu, mas de vez em quando eu uso da sinceridade como poder.

Outro dia estava com os dedos digitadores afiados. Escrevi um email esclarecedor para um grupo de amigos, que insistiam em travar uma guerra Lula x Alckmin na lista que usamos para combinar festas e churrascos. O primeiro eu relevei, o segundo eu fingi que não vi, mas no décimo... Foram frases do tipo: "Vocês falam de políticos como quem fala de celebridades de televisão. Como quem guarda recorte de jornal do seu candidato. Acho que a questão deveria ser tratada com mais seriedade".
Como resposta, o silêncio. Recebi uns dois emails de gente que estava fora da briga, e mais nada. Mas a gladiação acabou.

Depois, no mesmo dia, fiz um texto mega sobre certas dificuldades de realizar um trabalho adequado. Mandei para dois chefes, copiado para a assistente deles. Dessa vez, o resultado foi logo visto: me chamaram pra uma conversa em que pude colocar, ponto a ponto, o que estava me incomodando.

Vai ver é por essas e outras que algumas pessoas que trabalham comigo me consideram alguém "de fibra" no que tange ao profissional. Fiquei surpresa quando elas me disseram isso, porque sempre achei que passava a imagem de bebê chorão.

De tudo isso, se conclui: as pessoas vêem o que elas querem. E a sinceridade assusta.

Tuesday, November 28, 2006

Não façam isso em casa

Eu quero que 2007 chegue logo. Eu vivo e trabalho pensando em 2007 e em como o ano atual vai ficar pra trás, um ano que eu não sei dizer se foi bom ou foi ruim. Para 2007, eu reservo todos os tipos de mudança, externas e internas - eu até já comecei a comer granola no café da manhã - eu reservo promessas pessoais de aperfeiçoamento, eu reservo mais compreensão e paciência, mais sabedoria, tanta coisa a mais... Mais dinheiro, sim, isso eu também quero, mais presentes para mim mesma e não só pros outros. Quero 2007, quero o reveillon, os amigos se abraçando e esperança renovada. Estou seca de esperança.

Não é justo desejar outro dia que não seja hoje. É errado. Eu não quero viver para 2007, mas parece que a escolha não é minha. Eu treino agora para ser melhor amanhã, entende? 2007 tem a porcaria do Pan e tudo vai ficar engarrafado, e mesmo assim 2007 será um ano melhor do que este.

Acho que já sei. Eu não gostei de 2006.

Wednesday, November 22, 2006

A história da história

Comprei um livro novo. Na verdade, foi ele que me comprou, porque se postou na minha frente assim, tão oferecido, em plena rua do Catete quase esquina com Manoel e Juaquim (quem precisa saber nome de rua quando se sabe nome de bar?), no meio de uma montoeira de livros velhos e sebentos que eu adoro. Bati os olhos por acaso e segurei no braço do Ninja, pedindo - ordenando - cinco reais. Não era empréstimo, era presente. E com a nota eu adquiri o exemplar enrugado e mofado daquela obra, talvez a mais famosa, do Herman Hesse: O Lobo da Estepe.

Não faço idéia do que se trata o livro. Mas há anos eu sei que um dia iria tê-lo nas mãos. Pra ser mais precisa, tenho essa absoluta certeza desde 1999, quando ainda era uma estudante, como já disse, interessada nas coisas que eram escritas e filmadas e cantadas por pessoas mais inteligentes que eu. Que delícia que é ser uma estudante interessada. E, enfim, como uma pessoa que tem absoluta certeza de que alguma coisa vai acontecer, nunca fiz esforço algum para obter o livro. Ele seria meu. Um dia.

Entendam que existe uma história por trás da história. Poderia ser uma história de amor, mas não passa de duas ou três noites de conversas e aulas assassinadas nas mesas do bar em frente à faculdade - o famigerado bar do Seu Pires. Era começo de período, ou final de período, quando estamos todos com o saco tão cheios de tantos trabalhos a entregar, formatados com o cuidado que só o Word constrói, que a gente passava na sala, assinava a listinha, entregava aquele calhamaço, e depois ia pro bar. Pedia uma cerveja e depois um caldinho de feijão, que só custava um real. Eu nunca fui muito de cerveja - eu nunca consegui entender a cerveja e o chope - mas esse era um dia de libertação. E eu fui pro Seu Pires.

E lá eu conheci um menino. Que fazia a mesma faculdade que eu, períodos acima, e que eu nunca tinha visto na vida. E a gente conversou sobre muitas coisas que eu não lembro. Sei que uma hora eu falei do Paulo Leminski. Eu era uma estudante interessada que gostava muito do Paulo Leminski naquela época. E ele me falou um monte de coisas que eu também não faço mais idéia do que foram, mas sei que surtiram efeito.

No dia seguinte, ele me ligou. Já estávamos de férias, e ele ia pra cidade dele que não era o Rio de Janeiro, e portanto eu só o veria no ano seguinte, para descobrir que já não tinha mais nada a ver. Mas nesse dia ele me ligou e disse: "Eu to lendo um livro chamado O Lobo da Estepe, e bem ontem, depois da nossa conversa, o cara do livro conhece uma mulher. E eu pensei: é você!"
Daí eu guardei o nome. E a certeza de que um dia ia ler esse livro pra saber que mulher é essa.

Depois que passa o tempo que passou, esse episódio perde qualquer razão que ele pudesse possuir. Esse menino não foi um grande amor. Ele está mais para colega de faculdade, vamos ser sinceros. Mas eu comecei a ler o livro e descobri que ele é bom. Parece ser bom, pelo menos. E era pra ser meu.

Tuesday, November 21, 2006

Catatônico


A noite que valeu o ano inteiro

A diferença

Já disse e repeti que sentar na mesma cadeira durante anos e anos me incomoda. E que eu estou, inadmissivelmente, absolutamente cercada de pessoas assim, que há muito desistiram de realizar sonhos e de alcançar outros patamares de existência. Desistiram, apenas, porque se contentaram com salário e décimo terceiro e férias de trinta dias. Tão triste que me faz rezar todos os dias pra que papai do céu me livre da acomodação. Quero ser uma eterna incomodada! Uma eterna reclamona, cutucando com cara curta o vespeiro mais próximo. Eu rezo pra deus: "por favor, não deixe que eu fique como eles..." e dá quase pra ouvir a voz do deus respondendo: "Só depende de você, guria". Eu ouviria, se acreditasse nele e tivesse certeza de que ele é brasileiro e nasceu no sul. E que me chamaria de guria.

O ano chega ao fim e eu concluo que muito coisa não basta apenas existir, tem que se extrapolar, superar a si mesma. Não basta fazer o seu, tem que mostrar a que veio. Não basta amar alguém, tem que ter afinidade. Não basta, não basta... tem sempre um porém, um motivo além, que faz com que a gente continue pensando em frente. Ainda bem. Se eu acreditasse em deus, ele diria, sem tirar a boca do canudo do chimarrão: "Tolinha, isso tudo é calculado"; e então colocaria mais uma pedra na minha frente pra que eu, bravamente, contornasse e seguisse o meu caminho.

Thursday, November 09, 2006

Angelica no Cirque du Soleil

Não tenho o costume de ler revista de celebridade ou de assistir programa de fofoca na TV. Inclusive, a última vez que me dispus a prestar atenção a um desse tipo, fiquei arrepiada com os erros de português do off do repórter. Alô, editor-chefe, será que ninguém revisa esse texto não? Repórter pode até errar de vez em quando (o cara tá sempre com pressa, cansado e tal - e ainda por cima ganha mal), mas editor-chefe de verdade não deixa passar erro de concordância por nada nesse mundo. Enfim, vai ver nem tem esse cargo de chefia lá nos programas de fofoca da TV. Mas o lance é que eu não me importo muito em saber os últimos babados do mundo artístico.

(Prova disso foi a minha surpresa ao descobrir esse ano a separação de Caetano e Paula Lavigne. Nego do trabalho berrou: "Mas eles já brigaram há uns 2 anos, e ainda foi o maior barraco na mídia!" E eu juro, juro mesmo, que não vi nada)

Mas tem dias que a gente não consegue escapar das notícias pseudo-hollywoodianas/ projaquianas. E hoje, quando cheguei no trabalho, estava todo mundo comentando da Angelica no Cirque du Soleil.

Parece que a Angelica foi toda na soci, de vestidinho e tal, pra assistir ao espetáculo que, não sabia ela, era interativo. Foi pega por um dos palhaços para participar ativamente da apresentação. Jogaram a moça pra cima e pra baixo, deixando que a apresentadora pagasse uma calcinha nacional. E aí, Angelica, mulher casada e tal, emburrou e ficou de cara fechadíssima o resto da noite.

Teve gente que defendeu a Angelica. Disseram que, realmente, pagar calcinha (quando não é o objetivo da noite, ao contrário de outras situações que aconteceram a pouco, com outras famosas) é realmente uma situação terrível. Falaram que também fechariam o tempo. Que isso não se faz.

Eu acredito que cara feia não resolve a vida de ninguém. E que, se você está no inferno, a solução é abraçar o capeta. Portanto, se fosse Angélica, eu relaxava e gozava com as brincadeiras do circo. Já foi o tempo em que calcinha de celebridade chocava alguém.

Wednesday, November 08, 2006

Inveja da nova geração

Outro dia comprei a Rolling Stone brasileira. Foi mais barata do que eu imaginava (paguei oito e cinquenta, mas esperava que fosse pelo menos uns dez reais; ponto pra eles), e deu vontade de comprar todo mês. É que desde pequena eu tenho essa mania de ler revista sobre música e, aliás, quis ser jornalista para virar repórter musical, tendência que logo passou depois que comecei a faculdade. É que, como pude comprovar, ser jornalista musical requer uma dose de nerdice que estava além das minhas medidas e, portanto, como uma boa profissional que se deixa levar pela correnteza, acabei parando na outra margem do rio: na tv, fazendo programa infantil. Coisas da vida.

Mas então, quando eu tinha uns doze, treze anos, comprava a Bizz todos os meses. Lia a revista de cabo a rabo, até as matérias sobre bandas que eu não conhecia. Muitas vezes ficava chupando dedo, porque não tinha como ouvior sons novos a não ser me aventurando a comprar discos sem saber do que se tratavam. A coisa melhorou um pouco com a chegada da MTV no Brasil, e então eu pude conhecer pelo menos o hit de algumas das bandas faladas na Bizz antes de decidir se comprava ou não o disco dos caras.

Lembro que uma vez respondi a uma pesquisa de opinião da Abril. Eu tinha doze anos e era muito aplicada quando se falava em música. Mas então, preenchi tudinho, e ainda me dei ao trabalho de colocar a pesquisa no correio, para que os caras recebessem as minhas sugestões. E uma das minhas idéias era que a revista deveria vir com uma fita cacete contendo pelo menos uma música das bandas que haviam sido pauta naquela edição.

Tadinha de mim! Minha sugestão nunca foi ouvida - e nem sei se foi lida. E eu continuei morrendo de curiosidade de saber como eram os grupos que recheavam a minha leitura.

Com a Rolling Stone Brasil foi completamente diferente. Havia várias bandas que eu nunca tinha ouvido falar. Mas agora, maravilha, eu tenho a internet! Agora eu posso ler e ouvir e ver quem são aqueles caras. É completamente diferente de ler a Bizz do começo dos anos 90.
Pra compreender uma revista musical, o melhor é engolir os artigos perto de um computador conectado. Rapidinho você passa no Google, ou no You Tube, ou em qualquer página que possa mostrar se aquela é ou não a sua onda. Se eu fosse adolescente agora, seria uma daquelas pessoas que conhecem todas as bandas, aquele tipo de nerdice musical, sabe como é? Eu seria intragável, porém feliz.

É verdade, eu tenho inveja da nova geração. E não só dos adolescentes, que têm muito mais acesso a filmes e bandas e camisetas cool e tintas de cabelo estranhas do que eu tinha aos quinze, dezessseis anos. Eu também morro de inveja das crianças, as de cinco aninhos mesmo, que saem na rua vestidinhas de princesa. Já viu isso? A menina vai no parquinho com a roupa da Cinderela. Eu daria tudo por um vestido da Cinderela, até mesmo hoje em dia!

Quando eu era pequena, tinha uma fantasia mega tosca da Mulher Maravilha. Eu não tirava essa fantasia por nada no mundo, ia pra escola com ela e tudo, e brincava de Super Amigos no recreio. Imagina se eu tivesse um desses vestidos com anáguas e muitas camadas de saias, e tule, e estrelinhas?

Tenho medo de como serão os meus filhos...

Monday, November 06, 2006

Leis de atração

Outro dia encontrei um amigo que tinha acabado de voltar de uma mega viagem de 45 dias pela Europa, e que estava engajado na onda de que a nossa mente nos proporciona tudo o que desejamos. Falou sobre um tal de Abraham Hicks, e de como a viagem dele pelo continente velho tinha sido uma viagem mágica graças à técnica do tio Abraham. Deu exemplos de situações em que o pensamento positivo determinou o final de feliz, como a vez em que ele foi ver um show totalmente soldout da Madonna (em alguma cidade que já não me lembro qual). Ele mentalizou e imaginou ele mesmo chegando na porta do teatro e encontrando alguém vendendo um ingresso de última hora. Pois bem, depois disso, meu amigo em carne e osso e espírito se encaminhou para a porta do mega evento até que, tcha-nan, esbarrou em um carinha que precisava vender a entrada do date que não viria mais. Meu amigo, na hora e lugar certos, fechou o negócio. "Foi a força do pensamento", ele me garantiu.

Tanto o menino falou que fui conhecer o trabalho de Abraham. Até aqui pude perceber que é uma técnica de mentalização que mistura meditação, alimentação regular e uma certa dose de religião. Mas pra quem quer desesperadamente encontrar alguma coisa para depositar a sua crença, Abraham Hicks pode servir. Como eu sou uma pessoa assim, desesperada por uma causa, assinei o boletim eletrônico de uma das páginas que visitei e respirei fundo. Vamos lá, vai que dá certo? Na pior das hipóteses, eu volto a ser o que era antes.

A primeira lição de Hicks para o mundo é: você atrai o que você pensa. Se você mira o pensamento em situações desagradáveis, você, inadvertidamente, irá trazê-las. Isso geralmente acontece quando você não sabe o que quer, e acaba se confundindo nos seus desejos. Mas ora, ensina o mestre, para saber seus verdadeiros desejos, basta que você se permita guiar pelos seus sentimentos. Sentimentos ruins significam que você lá no fundo não quer uma coisa, sentimentos bons significam que você está no caminho certo, atraindo boas vibes para si.

Parece simples, né? Pra mim, não é. Eu nunca sei direito o que eu quero. Eu sei muito bem o que eu não quero, e mesmo assim essa lista muda toda hora. E, às vezes, eu sinto algo ruim por alguma coisa que eu queria muito que fosse boa, entende? Como é que se faz desse jeito? Ignoramos e tentamos transformas as sensações?

Não desisti do Hicks. Apenas comecei. Duvido muito que ele vá me convencer a parar de comer carne vermelha bem sangrenta, ou a largar o cigarro, etc. Mas, de qualquer maneira, quero aprender a respirar antes de agir. A ter aquele segundo precioso que muitas vezes faz a gente segurar a onda. Ando partindo pro ataque com muita freqüencia e, apesar de sempre ter considerado este um ponto positivo, agora estou a fim de pegar mais leve. De ficar de bem com todo mundo. De ficar na paz.

Monday, October 30, 2006

Beijo na alma

Cheguei ao Tim Festival para assistir Daft Punk com muito medo de não ter os meus anseios atendidos. Eu estava esperando esse show há tanto tempo, e a cada nova crítica que eu lia, ou a cada novo vídeo que me mandavam, eu ficava mais fascinada pelo que vinha na frente. Mas lá, na hora H, esperando que as luzes se apagassem, eu pensava: "E se eu criei tanta expectativa que acabei estragando a minha noite por antecipação?" Não seria a primeira vez, e desconfio que também não seria a última do caso.

Mas todas as minhas ridículas dúvidas se desfizeram quando a pirâmide foi acesa. E depois, mentindo descaradamente, eu falava para os amigos que estavam em volta: "Eu sabia que ia ser assim". E sorria de felicidade - porque bons shows fazem a gente ficar genuinamente feliz. Olhava em volta e via tanta gente que, como eu, sorria para o palco, e pulava, e esgoelava as letras sem sentido e pensava: sou totalmente dependente disso.

Eu tenho um grande preconceito, um preconceito que não consigo me livrar, que é contra as pessoas que vivem sem amar músicas, livros e filmes. Não consigo entender o que faz levantar da cama alguém que só ouve, lê e assiste o que lhe é facilmente empurrado. Quer dizer, eu também adoro filmes blockbuster, com explosões e atores com bíceps deliciosos, mas isso é uma parte apenas, entende? Eu preciso de outra coisa, de satisfação interna, de beijos na alma aqui e ali, para que o dia-a-dia fique menos monótono.

E depois que eu saí do Daft Punk, tão acelerada que tinha cetreza que o taxista estava correndo enlouquecido no Aterro (coitado, ele só estava a noventa...), fiquei jurando pra mim mesma que nunca, em hipótese nenhuma, mesmo que eu seja mãe de trigêmeos, mesmo que eu vire uma esposa e mãe de família - sei lá, quando se tem quase trinta a gente pensa nisso... - eu nunca vou deixar de ter a minha alma beijada. É uma promessa de vida ou morte, e todos vocês podem cobrá-la de mim.

Friday, October 27, 2006

Ninguém ganha da Morte (pelo menos no xadrez)


Entendam por que eu incluí a Morte do Sétimo Selo na minha lista de personagens.

Tudo aconteceu um dia em que eu, entediada, saí da faculdade rumo ao Estação Botafogo. Naquele mês que eu não lembro, do ano que eu não me recordo, o grupo Estação fazia uma retrospectiva com filmes de Ingmar Bergman. Só que, naquela época esquecida, eu não fazia a mínima idéia de quem vinha a ser Ingmar Bergman. Mas como era uma estudante sem estágio e com muito tempo livre, ia com certa assiduidade ao cinema.

Neste dia específico, abri o Segundo Caderno e me deparei com a Morte. De braços abertos, em frente a um tabuleiro de xadrez. Não quis saber mais nada e fui ao cinema, com certeza absoluta de que não iria me arrepender. Não quis ler a sinopse (Aliás, se tem uma coisa que me irrita, é ler sinopse de jornal. Também não me incomodo em saber o final do filme, como a grande maioria das pessoas. Sei lá, acho que o final nem é tão importante assim.) Só queria um lugar na sessão.

Deixa eu explicar uma coisa sobre a primeira sessão de um dia de semana no Estação Botafogo. Têm tipo dez pessoas no cinema. Sete são senhoras de idade. Dois são estudantes de cinema. Um é alguém como eu, que não tem mais o que fazer. Então, obviamente, eu consegui meu ingresso com facilidade. E esperei que o filme começasse.

Saí da sala pulsando, sentindo todos os meus poros, que é o que acontece quando eu vejo alguma coisa realmente incrível. Não conseguia parar de pensar no filme, e então me tornei uma obcecada por Ingmar Bergman - se surgia o nome do homem, lá estava eu na filinha de ingresso. Mas nenhuma outra obra do diretor teve a avalanche de alma que o Sétimo Selo produziu em mim. Foi um dia memorável.

No ano passado, revi o filme. Fazia muito tempo que eu não o assistia de novo. Pra falar a verdade, fiquei morrendo de medo de achar tudo chatíssimo, arrastado, decepcionante. Mas que nada, o filme é o mesmo, e por mais que eu tenha mudado, nenhuma mudança pode transformar essa trama em bobagem. Quando revi aquelas imagens, tive certeza de que O Sétimo Selo seria eterno.

Se você gosta de cinema, ou de uma boa história, ou de pensar, assista. Faça isso por você.

Wednesday, October 25, 2006

Os bastidores de um casório

Tenho uma grande amiga que está para casar. A cerimônia vai ser no próximo sábado, e eu dedico essa semana a pé e mão, escova e pesquisas de simpatias de casório que envolvem vestidos de noiva. Faço as simpatias mais pela piada do que pela fé, uma vez que tenho total noção de que casamento não faz parte do meu futuro próximo.

Mas, voltando à noiva, outro dia fizemos um chá de panela pra ela. Eu, três amigas, e todas as mulheres da família da menina. Acabou que quem comandou todas as brincadeiras (e bebedeiras) do dia fomos nós, as amigas, sob os olhares preocupados da avó da homenageada, que temia que a neta torcesse o pé e tivesse que entrar na igreja manquinha, tadinha. Se bem que foi tanta cerveja que a noiva bebeu que ela bem que poderia não só torcer o pé como cair no chão e bater com a cabeça e coisas sinistras do tipo. Eu que fiquei preocuopada, admito.

Pra quem não sabe, o chá de panela funciona da seguinte maneira: a noiva tem que adivinhar quem deu o presente; e se nao adivinhar bebe uma dose (de qualquer coisa), depois tem que adivinhar o que é o presente; e se não adivinhar, bebe outra dose. E depois de um monte de líquido goela abaixo, a noiva, tadinha de novo, já não sabia distinguir pirex de esponja de louça. Pra se ter uma idéia, terminei a tarde de domingo lavando o banheiro da casa da mãe da minha amiga.

E depois, na outra semana, a gente fez uma despedida de solteira. Não dessas de Clube das Mulheres e strippers que a gente nunca pegaria. Ao invés disso, seguimos, nós quatro, para a Inferninho do momento. Era para ser uma girls night out, e virou um evento, digamos assim, mais abrangente. Regado a Red Bull e destilados, como fazíamos nos nossos vinte e poucos anos. Cantando alto, a plenos pulmões, as músicas que todo mundo gosta.
Adoro casamentos. Ainda mais quando eu estou coladinha nos acontecimentos.

Pra alguém pode servir
Simpatia infálivel aproveitado a vez em que uma grande amiga casar

Para fazer esta, você deverá contar com a ajuda de uma boa amiga, no dia do casamento dela. Para você quer arrumar logo um casamento, quando a amiga for se casar e desde que essa sua amiga seja virgem, faça a seguinte simpatia: escreva seu nome, com uma caneta vermelha, na barra do vestido de casamento de sua amiga ou na sola do pé esquerdo do sapato dela.
Quando ela entrar na igreja, deverá repetir baixinho por três vezes a seguinte intenção:
Hoje nesta igreja entro eu,
amanhã será a vez de... (ela dirá o seu nome).

Nota: ainda bem que eu nunca pensei a recorrer a este tipo de magia. Se não, ia penar pra encontrar uma amiga nas condições adequadas..

Wednesday, October 18, 2006

As pessoas que não existem mais influentes da minha vida

Tinha que ser coisa de americano. Dois dessa espécie lançaram um livro listando os 101 personagens que mais influenciaram a sociedade norte-americana e, por tabela, a nossa também. Não sei do que o livro trata - será uma grande lista de personagens famosos? - mas desconfio que só vale pela piada. Ou alguém acredita que tenha surgido daí um trabalho antropológico e sobre a sociedade de consumo de massa?

A lista deles é encabeçada pelo cowboy do Marlboro, seguida do Grande Irmão, Rei Arthur, Papai Noel e Hamlet. O meu top 5 obviamente nunca apresentaria o homem de Marlboro como o número um dos influentes, muito menos sob a apresentação de "assassino mais famoso dos últimos 200 anos", como é dito no livro, segundo a matéria do GloboOnline. Eu começaria com Lestat, que durante a minha adolescência foi o responsável por me fazer usar preto e desejar ardentemente virar uma vampira. Ou talvez John Constantine - não o péla do filme, mas o dos quadrinhos, sempre meio deprimido e usando uma capa de chuva, charmosíssimo, andando por ruas escuras, ai, ai.

Sou péssima de listinhas e sempre me falta o último ítem. Mas se fosse fazer uma lista dos meus personagens mais influentes, seriam:

1- Constantine
2 - Sabina
3 - Morte
4 - Morte
5 - Enid

Aviso logo que essa lista não está justa. Que eu acabei escolhendo personagens que eu gosto, e não que me influenciaram. E esses nem são os cinco que eu mais gosto! São apenas uns legais que eu lembrei agora. É assim mesmo; como disse, sou péssima de listas.

Saturday, October 14, 2006

What have happened with Babe Jane?

Sábado à noite. Há seis meses eu estaria recebendo ligações de dez em dez, reunindo informações sobre os acontecimentos relevantes da cidade e repassando este conhecimento para frente. Eu era, sempre fui, alguém com informações. Alguém que recebia telefonemas de amigos que não me chamavam para sair, e sim para informar qual era a boa da data. Kinda sad, eu admito, mas não me importo muito. Eu sempre tinha o que fazer.

Não sei bem quando se deu a virada. Não vale ninguém falar que é porque eu estou namorando que a história de cair na gandaia desandou, porque o meu namorado é tão ou mais notívago que eu. Ou costumava ser, quando eu o conheci. E, por sinal, esse encontro se deu em uma boate GLS depois de eu ter bebido duas doses de cachaça em um festival de curtas, seguido de uns três copos de vinho numa festinha de despedida, até cair na inacreditável pilha das três da manhã: "vamos para o Dama!" E eu fui, porque essa era uma época em que eu fazia esse tipo de coisa. Nego chamava, eu já tava lá. Não precisava insistir. Quando cheguei na boate, pedi uma gim-tônica (para completar o cardápio alcóolico) e bati os olhos no Ninja. E então, é o que acontece até hoje.

Mantive a fama de menina noturna por bastante tempo, mesmo acompanhada. Mas agora parece que a preguiça venceu. Ontem estava tudo certo para sair e encontrar amigos de longa data, até que um cochilo estendido acabou com a noite. Hoje, estou esperando que alguém dê sinal de vida. Quase sucunbindo à segunda temporada de Twin Peaks, com ar condicionado e sem cheiro de cigarro dos outros no meu cabelo. Só o meu próprio.

Tuesday, October 10, 2006

Intensamente Bored

Hoje já estalei meu pescoço cinco vezes. Já corrigi a postura e rodei o ombro esquerdo que está doendo dez vezes. Já falei no chat do Gmail com umas três pessoas. Já escrevi uma pauta e dei um telefonema de trabalho. Almocei uma marmita mal recheada e ainda tenho fome. Ainda são 17h. Tem mais lá na frente. Li uma matéria sobre drogas e políticos italianos, fiz simulação para saber se posso comprar um quarto e sala no ano que vem (e descobri que não), encontrei amigas e bati papo, fumei uns cinco cigarros e agora o meu maço acabou. E eu não quero comprar outro.

Quando me vejo assim, esperando os ponteiros andarem, lembro da Lebre Maluca conversando com a Alice. Dizendo que não sei quem e o Tempo estavam brigados, depois que o não sei quem andou matando tempo. O Tempo briga comigo quando eu mato tempo. Não se deve matar o Tempo, é uma lição que a gente aprende mas não aplica, como aquelas de não furar sinal vermelho, não gastar dinheiro desnecessariamente e, é claro, não fumar.

Por outro lado, fico pensando que é melhor aproveitar a calmaria. Que daqui a pouco as coisas não serão tão fáceis assim e que vai ter muito trabalho sobre esses ombros que já doem só de sentar na posição errada em frente ao computador. Mas o porblema é que eu gosto dessa história de trabalhar muito. Eu gosto de acordar cedo e ir pra academia e depois chegar no trabalho e almoçar em meia hora e chegar em casa à noite e assitir novela sem prestar atenção em quem é quem. Mas isso, só ano que vem. Até lá, ombros doendo.

Thursday, October 05, 2006

30 minutos de esteira existencialista

Descobri a resposta para o meu mau humor latente: esteira. Foi uma libertação me ver assim tão fácil de se resolver, e agora eu gasto meu dinehirinho de academia feliz por ter me tornado uma pessoa mais tragável. Quando você está de mau humor e vai para a academia, é questão de minutos a melhora do clima interno: parece que tudo se esvai em suor e batimentos cardíacos acelerados. Me sinto como naquele comercial da Nike em que a mulher cospe o chefe, o trabalho e a cobrança da mãe por um casamento enquanto corre pelo parque. Esse, meus amigos, tem sido meu remédio.

Descobri a cura durante, óbvio, uma TPM. Acordei amarguíssima, chatíssima, latindo para a minha própria sombra. E fui, cheia de preguiça, rumo à academia. Daqui a pouco lá estava eu sorridente, puxando conversa com senhoras de meia idade enquanto esperava o meu aparelho de musculação da vez ser liberado, jogando endorfina nesse cérebro cheio de porcarias que eu tenho. Meu cérebro também sua: dá pra sentir quando ele expele todas as toxinas. Depois eu fico leve, descabelada e me sentindo mais magra - mesmo que não esteja de verdade.

Toda essa questão me faz chegar à seguinte conclusão: o que meninas como eu precisam de verdade é de um tanque de roupa suja pra lavar. Já posso antever comentários irados depois da frase anterior, todo mundo me chamando de machista, etc, etc. Já aconteceu outras vezes. Mas é que, se eu fico tão bem levantando pesos que eu não preciso levantar, não seria de se esperar que eu fosse feliz esfregando roupa? A infelicidade feminina de classe média veio com o advento da máquina de lavar, microondas e diarista de quinze em quinze dias. A gente deveria viver como nossas avós.

Monday, September 25, 2006

Coisas que andei pensando enquanto não tinha mais o que fazer

É legal tirar férias; acho que ninguém discorda disso. Mas o que não é nem um pouco legal é ficar de pernas pro ar, sem mais o que fazer, enquanto seu namorado, seus amigos e toda a sua família trabalham como pessoas normais. Estas férias foram esclarecedoras, porque eu sempre achei que daria uma ótima mulher de milionário, que redecoraria a casa de quinze em quinze dias e faria cursos de aquarela no parque Lage, mas de repente eu descobri que não, que não iria agüentar um milésimo dessa vida, e que eu reclamo mas o que eu gosto mesmo é de trabalhar dez horas por dia. Sendo assim, concluo: bom mesmo é trabalhar porque se gosta, e não porque é preciso - tipo aquelas pessoas que ganham na Mega sena e continuam sua vidinha normal. Aliás, existem pessoas assim?

Mas a questão toda do saco cheio dos dias vazios veio depois. Na minha primeira semana em casa eu praticamente fiz uma tabela no Excel para coordenar todas as minhas atividades. Visiteis bebês que acabaram de nascer, almocei com a minha avó que mora longe, me despedi de uma prima que vai sair do Brasil, protagonizei inúmeras girls nights - com o aval do Ninja, que é a favor de casais com eventos independentes aqui e ali - e comecei a ler um livro muito bom, um mal escrito e um clássico difícil.

Ah, sim, e decidi que não vou votar. Comuniquei aos meus amigos mais intímos a minha intenção de me abster do "direito" de escolha a um presidente, e fui recebida com um bombardeio de emails contrários à minha manifestação. É que os meus amigos são pessoas tão melhores e elevadas espiritualmente que eu que chegam a pensar em não usar a carteirinha de estudante falsificada para comprar ingressos para o Tim Festival. Eu, obviamente, nem cogito tal possibilidade.

E agora surgiu o Festival do Rio. Quando eu era uma interessada universitária, seguia os filmes favoritos, me acabava na fila do ingresso e assistia sessões improváveis que tanto poderiam ser geniais quanto furadíssimas. Depois que virei adulta, tive que deixar essa vida de lado porque nunca que eu conseguia conciliar minha vontade de ir ao cinema com os horários absurdos da minha profissão. Nesse ano, não. Comprei logo um monte de ingressos, e vou assistir a todos os medalhões. Outro dia mesmo foi a vez do novo do Wim Wenders. Uma merda, aliás. Ouvi o amigo ao meu lado dizer que ele está ficando gagá. Ou então somos nós mesmos que andamos cada vez mais impacientes.

Monday, August 21, 2006

Versão in line

Existe um submundo dos patins no Rio de Janeiro. Descobri o underground sobre rodas depois que ganhei de aniversário antecipado do Ninja um par de patins in line. Há duas semanas todos os meus sábados e domingos são dedicados a tombos com joelheiras e cotoveleiras que não protegem a minha bunda. Mas a culpa, obviamente, é minha. Eu é que tenho que cair direito.

Falando assim até parece que foi um presente de grego. Mas a verdade é que eu estou absolutamente viciada no brinquedo novo, a ponto de trocar a vida noturna pelas manhãs no Aterro do Flamengo. Eu e Ninja parecemos crentes recém convertidos e vendedores de Herba Life: não podemos ver um conhecido que tascamos a ladainha da vida sobre rodas em cima do coitado.

E não somos só nós que nos comportamos desse jeito. Quando você coloca seus patins e vai para um lugar público, pode contar que você fará contato com alguém que também gosta do esporte. Quando dois patinadores se cruzam numa pista, rola aquela olhada de reconhecimento underground: "você faz parte do clube." Mesmo que você não conheça ninguém do submundo do roller, você será (bem) recebido nesse meio e se tornará, dessa forma, um vendedor de Herba Life dos rinques de patinação.

Outro dia eu e Ninja fomos para o Parque dos Patins. Eu estava lá colocando meus equipamentos de segurança - que, no meu caso, são extremamente necessários - quando fomos abordados por um daqueles patinadores profissionais. Sabe aquele tipo de pessoa que se comporta sobre rodas como se estivesse de pé no chão? O cara se aproximou e sacou um cartão, e explicou que toda quarta tinha um grupo que se reunia ali para patinar e trocar dicas. E contou que rolava um site com datas dos encontros e lista de discussão. E convidou a gente para uma festa no sábado seguinte!

Eu e Ninja não acreditamos em tamanha hospitalidade. E fomos percebendo que em todo lugar de patins era assim: uma galera que se conhecia abraçando os novatos. Nada de gritos do tipo fora hauli. Vai ver que esse povo dos patins faz tanto exercício que é movido a endorfina. Vai ver vem daí tanto bom humor!

Tuesday, August 15, 2006

Tadinho do agricultor de Juiz de Fora



Orelhão de Ouro Fino, MG: não é fofo?

De todas as notícias terríveis e horripilantes que dominram os jornais nas últimas semanas, a que mais me emocionou foi a história do agricultor de Juiz de Fora que veio tentar a vida no Rio de Janeiro. A história dele se tornou o meu exemplo pessoal de esteriótipo de interioranos x moradores da cidade grande: os primeiros sempre ingênuos, fofos, prontos para cair no conto do vigário; os segundos sempre exxxxpertos, de olho nos otários, sem perdoar um pobrezinho recém chegado do campo.

Pra quem não sabe, a história é a seguinte: o tal agricultor veio de carroça com os dois filhos de Juiz de Fora ao Rio de Janeiro, em uma viagem que durou dois meses. Ele ficou famoso assim que chegou à cidade porque foi fotografado andando com a carrocinha no meio da avenida Presidente Vargas. O mineirinho estava com tudo preparado pra ficar na casa de uns parentes na Rocinha, mas daí falarm pra ele que se ele fosse morar lá, teria que se desfazer da carroça e da égua Darlene. Só que aí ele não quis, porque a Darlene era uma égua que tinha ajudado muito a família dele quando eles ainda moravam no roça. E aí ele resolveu ir pra um outro bairro onde a égua ficaria a salvo.

Só que é dura a vida na cidade grande. O agricultor foi até a Ceasa, em Irajá, pra ver se conseguia alguma comida para os filhos. Amarrou Darlene do lado de fora e foi à luta. Quando voltou, cadê Darlene? Ela e a carroça haviam desaparecido, fruto de algum desalmado mais rápido do que ele.

"O que eu vou fazer da minha vida agora? Como vou trabalhar", ele perguntava à repórter do Globo. Eu não sei o que ele vai fazer. Poderia voltar a Juiz de Fora e reconstruir sua vida na terra que ele conhece bem. Mas se o homem colocou os filhos pequenos em cima de uma tábua sobre rodas durante dois meses só para tentar a vida no Rio, é sinal de que as coisas na cidade dele não andavam lá essas coisas.

Eu tenho muita pena do mineirinho agricultor. Torço pra que um ricaço desses leia a sua história e o contrate como piscineiro, ou jardineiro, ou caseiro. De vez em quando a vida dá uns finais felizes assim.

Monday, August 07, 2006

O ano mais foda da minha vida

Uma vez fiz um mapa numerológico que falou que o melhor ano da minha vida seria nos meus 32 anos. Na verdade, não lembro bem se era nos 32 ou nos 34, mas com certeza era na casa dos 30. Naquela época eu era uma jovem de vinte e poucos, e achava que a casa dos trinta estava longe da minha realidade. Agora, como uma jovem de vinte e muitos, acho que o melhor ano da minha vida se aproxima perigosamente rápido.

Quer dizer, o que eu vou fazer depois que o melhor ano da minha vida passar? Vou pensar: "Ok, agora já foi, aproveitei enquanto durou. Agora vou relaxar porque nada vai bater esse ano"? Mas aí é meio chato, né, achar que você vai viver até os noventa, até os cem, que é o quanto eu quero viver - na verdade, imagino que ninguém ache que viveu o suficiente, mesmo que tenha batido a marca dos cem - e ter seu ano mais brilhante lá pelas trinta. E todos os outros anos, como é que ficam?

Por outro lado, eu meio que imagino o meu ano mais foda. Com certeza eu vou receber uma promoção ou conseguir um trabalho que pague muito melhor do que o meu do ano anterior. A julgar pela idade, estarei grávida da primeira ou segunda menina (na minha família só dá mulher, fazer o quê). A conta bancária vai bem e o casamento também, já que a gravidez é fruto direto do amor, entende?

Nossa, acabei de descobrir que o meu ano mais foda é o último capítulo de uma novela do Manoel Carlos. Bem que já disseram, e infelizmente não fui eu, que Deus é Janete Clair.

Tuesday, August 01, 2006

Texto Kerouaquiano falso traduzido pelo cara que escrevia na Bizz Letras Traduzidas

Ei, garota, você tem que acreditar que vai dar certo. Você tem que olhar em volta e vupt, apostar no que aparece. É sim, você tem. Ei, garota, você precisa se concentrar nos seus planos e não esperar que eles se realizem pelas mãos dos outros. As mãos são suas, garota! O mundo é seu. Ouça bem o que eu lhe digo, menina, e se jogue pelo mundo conhecendo pessoas tão diferentes que vão fazer você pensar melhor. A diversidade é a salvação do mundo. Sim, sim, com certeza. Garota, você precisa perceber que não está sozinha, mas que tudo depende de você. Você é que sabe o que é bom e o que é ruim, você pode salvar o universo da catástrofe de planetas perdidos colidindo, você tem a chave que abre as portas para um mundo melhor. Um mundo novinho em folha. Fique ligada, garota, que dessa vez é com você.

Wednesday, July 26, 2006

Eu já fui High School Sweetheart de alguém

Outro dia, arrumando um armário que eu não arrumava há, vamos lá, uns seis anos, encontrei minhas mixed tapes. Eu adoro mixed tapes. Aquelas fitinhas K7 gravadas com o requinte do amadorismo, mas cheias de boas intenções. Decidi que daria uma olhada nas fitas guardadas, e todo o dia eu ouço um pouco delas no som paraibinha que tem no quarto da minha irmã.

Hoje cheguei em uma gravação que ganhei de aniversário lá pelas idos de 1994. Uma criança, eu lembro bem. Quem me presenteou foi um menino que era de uma séria abaixo da minha, com quem eu geralmente passava os recreios conversando.
Na época do presente eu achei muito bonitinho da parte dele (afinal de contas, dava o maior trabalho gravar uma fita dessas), mas não percebi aí nenhum sinal de afetividade avançada. Só muitos anos mais tarde fui descobrir que o tal menino nutria por mim uma paixão secreta, que durou o segundo grau inteiro.

É engraçado quando você se vê na posição de objeto de adoração de alguém. Eu era uma musa, um ser perfeito e inantigível para esse garoto. Obviamente ele achava tudo lindo em mim, até meus ataques de pseudo-melancolia de adolescente freqüentadora de inferninhos de rock. Até o que era mais lamentável ele gostava. Eu não tinha defeitos. Era uma deusa.

Hoje, ouvindo a fita, tentei perceber se em algum momento as músicas denunciavam as intenções do meu amigo. Mas que nada, o que tinha gravado eram vários músicas de punk rock, que a gente escutava horrores na época, e uma do Renascence que eu gosto muito - e que não escutava há um tempão.

Os anos foram se passando e nós nunca perdemos o contato. Outro dia mesmo eu fui na porta da Matriz e encontrei o meu amigo perambulando com um copo de alcólico não identificado na mão. A gente combinou de se ver lá dentro, mas não deu porque estava tudo muito lotaaaado. Mas é assim. A gente se econtra, e conversa, e de vez em quando relembra da época em que ele gostava de mim e eu não sabia. E morremos de rir.
Fala a verdade. Essa é a verdadeira história de amor com final feliz.

Friday, July 21, 2006

Sem tema, sem posts

Ai, que preguiça de escrever no blog. Que preguiça. Checo a data do meu último post e - surpresa - faz um tempão. E olha que eu já pensei em um monte de assuntos pra postar, mas depois que algumas horas passam as idéias se esvaem... Por isso que eu tenho que andar com um caderno debaixo do braço. E que pena que é não poder escrever enquanto eu dirijo.

Já cogitei de escrever sobre novela, que é uma coisa boa de assistir, porque você não pensa muito e depois ainda tem sobre o que conversar no trabalho. Ando assistindo à nova novela das 9h, aquela que se passa no Leblon e que faz a gente acreditar que morar lá é tudo de maravilhoso. Só não falam que o Leblon dá uma certa preguiça (que nem a de escrever no blog, sabe) de ter tudo muito arrumadinho e plástico demais, com corpos esculturais aqui e ali, e litros de leite 30% mais caros que nos outros supermercados do Rio. Nem fui eu que disse isso, mas sim uma verdadeira moradora do bairro, que anda cansada de tanta beleza. Acho que dá pra cansar da beleza se ela não é natural, entende?

Depois pensei em escrever sobre a minha mania de chorar por tudo, o que já rendeu até o apelido dado pelo Ninja de Atriz da Globo (como se as minhas lágrimas fossem atuação! Nem todas, poxa...). O texto ia se chamar "Desidratada", e ia falar que eu choro vendo Jornal Nacional, novela (de novo) e filmes e livros e tudo o mais. Ia até ter uma parte bem bonita relacionando lágrimas com fazer amor. Mas depois eu me liguei de que não uso o termo 'fazer amor' para nada, mesmo que o faça, e daí fica falso, parecendo livro traduzido.

Ontem à noite, voltando da Matriz, me ocorreu um outro post. Seria sobre redescobrir prazeres, como festas de rock numa noite Sex and the City, beber whisky com Red Bull e voltar dirigindo a 110 por hora (sóbria, juro que sim). E enquanto eu voltava pra casa de madrugada cortando os poucos carros que ainda se aventuram à noite no Rio, escrevi mentalmente um texto lindo e bem colocado. Mas agora... Olha aí.

Tudo o que tenho é um post sobre outros possíveis posts que nunca chegarão a existir.

Tuesday, July 04, 2006

Paradinho

Quando a gente acha que não, acaba percebendo que sim. Que vem de onde não se sabe bem uma certeza e uma vontade de acreditar que vai dar certo. E vem junto com o medo. E fica assim, balançando, entre o "está tudo bem" e o "fudeu". Mas eu me recuso a pensar no "fudeu". De que me serve adiantar a catástrofe? Enquanto ela não vem eu concentro no lado bom, mezzo me enganando, mezzo colocando a prática do bem pensar em ação, para ver se a energia do cosmos acaba concordando comigo, percebe?

O fato é que agora eu quero que tudo dê certo. Quero muito, mais do que tudo. E aí, olha que estranho, tenho mais confiança no final feliz do que tinha quando estava tudo um mar de rosas. Pode isso? Uma pessoa que precisa de um quase "fudeu" para pensar no melhor? Pois é, esta sou eu, senhores.

Enquanto isso, releio emails antigos que eu tenho mania de guardar, ainda não sei bem pra quê. E descubro que é nas linhas passadas que está o meu coração piegas e brega. Tudo lá, intacto, congelado. Meu coração está pouco se lixando para seleções pseudo-hexas, CPIs que já nem sei o nome, contratos temporários x funcionária vitalícia. Meu coração pára onde não existe jornal.
E fica por lá. Paradinho.