Saturday, April 28, 2007

Texto reciclado

É muito feio reciclar um texto antigo?

Encontrei esse aí em um dos meus blogs antigos, e fiquei com vontade de postar de novo.
Só não lembro quem eu estava amando na época.

Quinta-feira, Setembro 23, 2004

Mais um texto sobre o amor

Sobre o tédio
Quase tudo já foi dito sobre o amor, quase tudo já foi escrito e pensado da pior e da melhor maneira. Este não é um tema novo. Mesmo assim, insisto no erro e no lugar comum quando sento em frente à máquina de escrever com tela: cigarro em um canto da mesa, telefone sem fio, milhões de papéis e eu amando. Nada poderia, mesmo que eu tentasse, soar mais piegas que isso. ‘Eu estou amando’. Taí uma frase que não deveria ser dita em voz alta uma única vez da vida de uma pessoa sensata – e mesmo assim é dita.

Me enrosco no edredom com muita preguiça de levantar. Da última vez que saí assim, bati em um táxi e deixei um rastro de tinta amarela no meu pára-choque pretíssimo, sinalizando para todo o mundo que eu sou uma péssima motorista. A vida deveria ser mais leve para aqueles que estão amando, para aqueles que carregam a cruz da breguice nas costas com incomensurável alegria. Mesmo assim, tenho que levantar e trabalhar e soar muito séria e muito centrada, mesmo quando preferia estar deitada na piscina admirando nuvens cor de rosa. A vida é muito, muito dura para quem está amando. Todas as pessoas parecem amargas e mal comidas perto de mim, sinto uma pena altiva dos seres humanos ao meu redor. Eles não sabem o que eu sei, eles não sentem o que eu sinto. Pobres, pobres deles.

Hoje me peguei desenhando corações enquanto falava ao telefone com o revendedor de tacos. Falando sobre preço de obras e reformas e em quanto tempo a minha casa será habitável de novo. Quando me dei conta, rasguei o papel e escondi dentro da bolsa. Ninguém deve desconfiar que estou amando, ou se sentirão ainda mais amargos e mais mal comidos do que nunca.

De todas as últimas vezes que amei, gastei o que não podia para presentear o meu amor. Aprendi minha lição: nunca parcelar presentes para amores no cartão de crédito. O romance pode acabar antes de a conta ser paga. Pois é, sim, sim, a vida é muito dura para quem esta amando de novo e de verdade.

Pessoas que passam

Às 11h da noite de ontem, eu me despedia de uma senhora de cabelos curtos que tinha lágrimas nos olhos. Ela já começava a sentir as saudades que teria das nossas gravaçoes, depois de cinco dias de convivência intensa. Eu sei que nunca mais verei essa senhorinha e, mesmo assim, embalada por latas e latas de cerveja, ela me abraçou e me deu um beijo no rosto. E convidou para voltar à Goanésia, GO, no carnaval do ano que vem.

O mais certo é que eu nunca mais volte à Goianésia. Ou a Silvânia. Ou a Pão de Açúcar. Ou até a Fernando de Noronha (que lugar absurdamente caro! Prefiro ir à Espanha e gastar a mesma quantia). Mas em todos estes lugares deixei pra trás novos amigos, de idades variadas, que acolherem à mim e à equipe como membros de uma grande família.

Uma vez, quando estava em Jericoacoara, CE (dessa vez eu fui a passeio), um israelense que havia conhecido toda a América Latina me ensinou que, para quem viva na estrada, o lance é estar desapegado das pessoas. Uma coisa assim meio budista, de deixar que o outro parta, que conclua a participação que teve na nossa vida, sem sofrer por saudades. O israelense, cujo nome já nem me lembro mais, disse que esta foi a maior lição que ele aprendeu nas suas andanças de um ano e meia pela América do Sul. E ele disse isso, é claro, quando estávamos nos despedindo.

Mas eu nunca fui muito boa em deixar as pessoas passarem. Tenho essa mania de segurar por perto quem eu considero de bem, talvez porque eu esteja de saco cheíssimo de gente chata. Esse povo que eu conheci pelo Brasil é sempre gente que tem estima por humildade e que abre as portas de sua casa com alegria e sem ressalvas. Uma situação muito difícil de acontecer no Rio.

Tirei tantas fotos de meus amigos goianenses, mas sei que daqui a um mês não me lembrarei mais do nome de ninguém. Só vai ficar na memória a imagem da senhorinha emocionada, e dos copos de vodka com coca-cola na beira da piscina depois da gravação, e do churrasco mal passado especialmente pra mim.

Thursday, April 26, 2007

Algumas imagens das minhas viagens

Mochileira na Bolívia - Cágados fazendo amor no Espírito Santo - Felino selvagem em Jundiaí - Leoes marinhos no Rio Grande do Sul - Casas em Ouro Preto, MG



Terra de arco-íris

Desde que cheguei a Goiás, já vi pelo menos três arco-íris, em situações diferentes. A razão disso, segundo a minha teoria absolutamente sem base nenhuma, é que devido às planícies do estado, a gente consegue ver a chuva lá longe, chegando, refletindo no sol que ainda está sobre o nosso carro (é que geralmente vejo esses arco-íris da estrada). Outro dia (também na estrada), consegui ver o começo e o fim de um arco-íris, um fato inédito para quem, como eu, mora em uma cidade grande, cercada de edifícios. Fiquei tirando fotos loucamente, e em breve elas estarão neste blog, quando eu recuperar o meu cabo e conseguir baixar as fotos da máquina.

Sempre gostei de presenciar arco-íris. Lembro de uma vez, quando tinha passado o reveillon fora do Rio, e tinha acabado de voltar para a cidade, que fui recebida com um lindo exemplar. Era dia 3 de janeiro de 2004, e eu achei que aquele era um sinal de que o ano ia ser muito bom.

Foi um bom ano. Como são todos eles. Não são?

Wednesday, April 25, 2007

Algumas verdades sobre a humanidade que precisam ser aprendidas

1 - Ser rotulada por um erro é fácil e rápido. Apagar a impressão que o erro causou nas outras pessoas demora meses, ou anos... Se você nunca mais errar. Se errar de novo, o julgamento virá mais forte que nunca.

2- Tentar agradar às pessoas é inútil, porque geralmente elas nunca estão satisfeitas.

3 - As fofocas servem para entreter gente que não consegue outros passatempos (e eu acho que é porque elas têm horizontes estreitos)

4 - quase ninguém olha para seu umbigo e é cruel consigo mesmo. A maioria costuma achar que está sempre certa.

5 - Pouca gente pede desculpas sinceras. E praticamente ninguém deixa de subir no salto ao ouvir desculpas pedidas com humildade.

6 - Subir um degrau na existência da espécie é gratificante, porém solitário.

Queria conhecer gente que:

- aceitasse um pedido de desculpas com um sorriso.
- fosse mais severa consigo mesmo, no sentido de fazer autocríticas.
- segurasse sua onda na hora de julgar os outros.
- reconhecesse o esforço de alguém para mudar.
- gostaria de subir um degrau na existência também.

Será que estou sendo utópica demais? Estou mais para ingenuidade que utopia.
Mas, no final, não é tudo a mesma coisa?

Tuesday, April 24, 2007

On the road

Tenho viajado pelas estradas de Goiás. Viajando e lendo o diário de Jack Kerouac, mas muito longe de ser como ele. Um dia, quem sabe... quando eu deixar de ser adolescente. Enquanto isso, admiro o céu do Centro-oeste do Brasil, um dos céus mais bonitos do mundo. Vou ouvindo Air, ou Chemical Brothers, ou a linda voz do Jim Morrison, amplificada nos meus headfones. My headphones... they've saved my life.

Passando por cidades mínimas, com uma praça, uma igreja desativada e uma em funcionamento. Jantando em casa de gente simples da cidade, mas que gosta de receber convidados. Aprendendo a andar a pé. Conversando com muitas crianças que ainda têm vontade de virar policiais quando crescerem. Outra vida, outro ritmo, e eu aqui aprendendo.

Mas com saudades do Rio.

Não tem jeito, sou amarrada a essa cidade. até quando morei em Nova York eu sentia falta, e volte achando a Lagoa Rodrigo de Freitas linda. Meus amigos todos reclamando que no Rio nao tem nada pra fazer, e eu toda babona.

Sou a carioca da gema menos bronzeada do universo.

Monday, April 23, 2007

Subindo um degrau na existência

Nunca na minha vida eu tinha sentido com tanta intensidade a subida de um degrau rumo à aprimoração da espécie. Posso falar com toda certeza de que, dados os eventos dos últimos três meses, eu não sou mais a mesma pessoa. Em um certo momento, isso foi muito ruim. Mas agora está sendo bom demais.

A questão que sempre me persegue é: por que a gente tem que passar o diabo pra aprender alguma coisa? Ou melhor: existe alguém no mundo que aprende sem sofrer?

Tive um namorado que achava que sim, que ele aprendia simplesmente observando seu erros. Eu acho que ele estava muito enganado quanto isso... E que, na verdade, ele não aprendia era nada. Mas, vamos ser honestos, quem sou eu para julgar se alguém está evoluindo ou não?

Eu só sei avaliar a minha passagem de fase. A dos outros, eu não tenho nada com isso.

O lance é que eu to orgulhosa da minha passagem. Passar de fase de maneira merecida, por esforço próprio e sem a ajuda de ninguém é uma recompensa como nenhuma outra. Não importa o quanto você se colocou na chibata, o quanto você teve que ouvir verdades de você mesma. No final, o que sobra é uma consciência tranqüila... e uma certa certeza de que, por um tempo, você será uma pessoa um pouco mais solitária. É o preço que se paga.

Mês que vem tudo é possível pra mim. Tudo pode acontecer. Eu não aguentava mais tanta estagnação na vida.
Me desejem sorte. Mas eu já sei que eu terei.

Wednesday, April 18, 2007

A membrana do presente

Ontem encontrei uma amiga que é, de longe, a pessoa mais entusiasmada que eu conheço. Ela conta histórias com tanta paixão que é impossível não prestar atenção ao que ela fala, e geralmente nossas conversas são regadas a drinks rosas em copos com design especial. É que essa minha amiga é boa em bebidinhas, e investe no assunto. Ela é o meu bar preferido.

Mas enfim, estávamos juntas ontem quando ela me contou de um curso filosófico/de desenho que ela fez no mês passado. E me ensinou a maior verdade dos últimos tempos.

Segundo o professor de desenho/filósofo da minha amiga, o tempo presente é uma membrana muito fina, na qual tentamos nos equilibrar. Só que, bobeou, estamos pendendo ou pro passado, ou pro futuro, e deixamos de viver o agora.

Fiquei completamente de cara. Mas essa é a resposta de todos os meus problemas! Viver o que está acontecendo no momento, e não ficar tantas horas, tanto tempo, pensando no que foi e em como vai ser...

Nas minhas viagens, muitas vezes fico ansiosa para voltar pra casa. Lá pelo meio do percurso morro de saudades da minha caminha, do meu travesseiro. E aí a temporada fora do Rio se transforma em algo insuportável, e qualquer dia parece se arrastar indefinidamente, como em um episódio de Além da Imaginação. Chego a ficar sem ar de tanta ansiedade, e acabo mergulhando em cigarros, noites mal dormidas e pratos rasos.

Mas a solução é poética. Ponha a sua alma no presente. Ponha você inteiro na ação que está fazendo agora, que aí você nunca mais briga com o Tempo, e você e o Tempo virarão grandes amigos. A membrana existe, mas ela é sustentável. Tem é que se ligar no equilíbrio - inclusive porque, não tem jeito, a vida é malabarismo mesmo, não é isso?

Friday, April 13, 2007

À procura de um apartamento

E, finalmente, às portas dos trinta, eu estou procurando um lugar pra morar. Já havia resolvido há algum tempo que era hora de me mudar, mas os últimos acontecimentos fizeram com que a decisão se tornasse urgente. E de repente eu me vi tomando cafés com potenciais roommates em bares do Leblon. Aliás, morar no Leblon foi quase uma opção, apesar de eu já ter escrito aqui que nesse bairro o custo-benefício não compensa. Como eu não canso de avisar, falo de novo: sou uma fraude.

O Leblon não rolou, é claro. Mas outros lugares podem ser possibilidades incríveis, e eu estou à caça de uma companhia para dividir despesas. Mas aí é que está o problema: como é que a gente sabe quem vai ser um bom roommate pra gente?

Não aguento mais ouvir conselhos, que chegam aos baldes, de todos os lados: "não more com quem você não conhece"; "morar com amigos íntimos é uma roubada"; "nunca divida o aluguel com um casal, eles unem forças contra você!"; "morar sozinho é solitário e caro, o melhor é ter uma companhia"... Enlouquecedor. Se pelo menos eu fosse o tipo de pessoa que decide tudo sozinha e foda-se o resto, estava tudo bem. Mas a verdade é que eu ouço tudo quanto é conselho, e me deixo convencer por todos eles, de modo que a minha opinião muda a cada cinco minutos.

O fato é que já arrumei um apezinho numa rua lindinha, arborizada, perto de vários cinemas, metrô, em frente à uma praça que tem um chafariz... Um lugar perfeito. Só falta mesmo conhecer o apartamento! Porque nele eu ainda não entrei - mas já etsou absolutamente convencida de que é ali que eu vou morar.

Queria muito definir tudo isso antes da minha próxima viagem. Mas que tolinha, na quarta to eu pegando a estrada de novo, rumo a Goiás e Brasília, bem no meio do Brasil. Vambora, né, minha gente. Anotei telefones de amigos que moram por aquelas bandas e avisei o proprietário do apartamento fofo: segura ele aí pra mim. E o cara vai segurar, porque é um cara legal e amigo da família e etc.

Se tudo der certo, em junho eu estou pintando uma parede de verde. E pendurando fotos na geladeira da minha cozinha.

Thursday, April 12, 2007

Retratos

Na última vez que voei de BH para o Rio, estava sentado ao meu lado um cara que segurava a foto da namorada. Ele havia baixado a mesinha e colocado o retrato em cima. Depois, fechou o tampo e pendurou a fotografia na trava da mesa, de modo que a moça da foto ficava olhando para ele. E foi nessa posição que eu pude espiar que imagem era essa que ele tanto admirava.

A foto era de uma menina sentada no banco do que parecia ser uma praça de cidade pequena. Ela sorria, com os cabelos ondulados chegando à cintura, um chapeuzinho de tricô na cabeça. O rapaz não sabia muito bem o que fazer com a foto: ele guardava no bolso esquerdo na camisa, depois tirava e ficava olhando um pouquinho, tornava a guardar, tornava a tirar e a prender na trava da mesa... Era uma dança que não tinha fim. Imagine que, a essa altura, eu já estava quase pulando em cima dele de tanta vontade de perguntar quem era a moça da foto, se ele ia ficar muito tempo longe dela, se ia encontrar com ela no Rio... Fiquei com uma baita curiosidade, mas não mexi um centímetro do rosto. Nosso único contato (fora o bom dia que eu sempre dou a quem voa ao meu lado), foi quando ele procurou, sem jeito, ajeitar o encosto da poltrona. Apontei para o botão e falei meio baixinho "tem que apertar aqui", e ele sorriu muito sem graça - e eu sorri de volta, retribuindo o acanhamento. E o retrato da moça lá, por perto.

Mas foi na hora da decolagem que eu entendi a função da fotografia. No momento em que o avião acelerou para começar a subir, o cara fez o sinal da cruz, e agarrou com força a imagem da menina sorridente. Sua respiração só voltou uns cinco minutos depois, com o avião já estável no ar.

Achei tudo tão lindo! Que manteiga derretida que eu sou. Nunca cheguei a conversar com meu vizinho de vôo e, pra falar a verdade, a lembrança dele sumiu da minha cabeça assim que pisamos na cidade maravilhosa, louca que eu estava para voltar para casa. Mas hoje, confesso que a história do homenzinho me veio à tona, meio sem razão aparente. Na verdade, eu sei bem porque esse homem ressurgiu: simplesmente hoje eu me vi como ele, olhando uma fotografia esquecida no fundo da carteira da mesma maneira que ele olhava para a foto da noiva (noiva?)

A grande diferença entre o homenzinho e eu é que ele recuperou o fôlego cinco minutos depois da decolagem.
E eu ainda estou sem ar.

Friday, March 30, 2007

Os diários de Jack

É até covardia ler os diários de Jack Kerouac quando se está às portas dos trinta anos. Quero dizer, chega a ser meio cruel observar como esse menino, na época com apenas 26 anos, se esforça para escrever seu primeiro romance, The town and The City. São longas noites de trabalho com alguns milhares de palavras escritas, madrugada por madrugada. E depois relidas. E depois datilografadas. É uma correção que não tem fim, um aprimoramento quase doentio. E eu morro de inveja.

Mas o livro “Diários de Jack Kerouac – 1947- 1954” marca a minha volta a narrativas que fazem pensar. Não dá para sair ilesa das coisas que ele diz, do que ele pensa da vida. Kerouac era um cara que não parava de pensar em nenhum momento, e que gostava de dar longas caminhadas para poder refletir melhor. Ele não se permitia descansar nunca, a não ser quando encontrava os amigos beats no sábado à noite, e enchia a cara em alguma festinha de apartamento, ou então quando levava a mãe ao cinema, nos anos que se seguiram à morte do pai. No resto do tempo, pode apostar: Jack estava solitário, fumando um cigarro, caminhando quilômetros, andando e pensando.

Outro dia ele escreveu que sua vida era uma longa sucessão de dúvidas, e que isso o deixava satisfeito. Eu fiquei totalmente extasiada, porque meu maior problema sempre foi buscar respostas, quebrar a cabeça tentando achar uma lógica, uma linha de pensamento que justifique o acaso. Até que chega Jack e diz: prefiro as dúvidas, e de repente eu me vejo também preferindo dúvidas a afirmações forçadas, enfiadas goela abaixo. Até porque as dúvidas, uma hora ou outra, se solucionam sozinhas. O segredo está no que eu nunca aprendi: em deixar rolar.

Em tempos de viagem, quando depois de um longo dia de trabalho o que me resta é um quarto de hotel compartilhado, os livros têm me salvado de muitos momentos de falta de paciência e solidão. Foi dessa forma que li em menos de um mês dois livros consideravelmente grandes, saboreando cada história entre as escalas dos vôos loucos que eu pegava. Mas outro momento também me enche de prazer, que é aquele momento em que saímos para procurar novos livros, porque já acabamos com o volume que tínhamos em mãos. É um momento delicioso, mágico, cheio de dúvidas que acabam se solucionando, como todas as outras.

Encontrei Jack em um shopping horrível de Porto Alegre, onde só havia livros de auto-ajuda. Mas ele estava ali, filho único de mãe solteira, me esperando embaixo de volumes de “Faça seu dinheiro render” e “Inteligência emocional”.

Agora durmo com Jack nos braços.

Dark side of the moon

Sempre disse que achava rock progressivo um saco. E que um dia eu faria uma camiseta onde estaria escrito “Pau no cu do Rush” (bom, essa frase é de um amigo, mas eu achei legal e sempre digo que é minha). Só que outro dia baixei Dark side of the moon, e tive que pagar por todas as minhas xingações ao progressivo.

O disco é maravilhoso. Não paro de ouvir. Tanto que consegui convencer uma amiga indecisa a me acompanhar no show do Roger Waters em São Paulo, numa coincidência linda da vida de viajante: uma folga bem no dia seguinte ao show. Não é lindo?

Sempre achei “Wish you were here” uma das músicas mais lindas de todos os tempos. E “Comfortably Numb” tão triste e desesperada e tão maravilhosa.. – ainda não entendo porque considero as coisas tristes e desesperadas como maravilhosas – e estas eram as únicas músicas que eu falava que, ok, eram do Pink Floyd e eram legais. Ah, claro, também tinha “Another Brick on the wall” e “Money”, mas essas eram composições tão clássicas que deixavam de pertencer a uma banda e a um estilo, sabe? E era redundância falar que eram boas.

Mas de resto, eu dizia que era chato demais ter que ouvir uma música que ocupava todo o lado de um disco (no tempo do vinil, minha gente!), e eu tinha ouvido falar que o Pink Floyd tinha disso. Mas, na real, eu nunca ouvi a tal da música! E agora os nossos disquinhos não têm mais lado, então essa definição de música longa fica meio perdida, meio solta por aí.

Tenho vontade de encher a cara ouvindo Pink Floyd. E de sentar na varanda e ficar olhando o céu, sabe como é? Me ausentando de todas as coisas que me aborrecem e me tiram o sono, transcendendo, sei lá como. Pink Floyd é para ouvir no headphone, com os pés pra cima e o celular desligado. Um momento só para a sua alma, numa época em que a sua alma anda esquecida por todos os compromissos que aparecem no caminho.

Pink Floyd é melhor que Rivotril.

Obs: continuo achando o Rush uma merda.
Pau no cu do Rush!

Bolívia, o estado pobre do Brasil

Um belo dia eu estava de folga em Rio Branco. E o que fazer em Rio Branco em um dia de folga? Alguém deu a idéia: vamos até Cojibo comprar muambas e afins, porque lá é baratinho. Aceitei a empreitada e nós estávamos, 2h30 depois, na Bolívia.

A cidade de Cojibo fica grudada à nossa Brasiléia, no ponto mais ocidental em que eu já estive no país (o ponto mais oriental das Américas fica no Rio Grande do Norte. É uma praia maravilhosa chamada Ponta do Seixas, e tem até plaquinha pra você tirar foto. Eu tirei, é claro). Mas então, Cojibo é ligada ao Brasil por uma ponte, e tem uma polícia alfandegária totalmente ausente – pelo menos no dia em que eu estive lá. Deixamos o carro na parte brasileira e atravessamos a pé em direção ao país vizinho.

Quando se chega ao outro lado da ponte, a impressa que se tem é de que voltamos ao Brasil agrário. As ruas são de terra, as casas de madeira, com placas toscas onde se lê: vende-se sorvete. Poderia ser uma cidade do Brasil, é verdade, não fosse o fato de que Brasiléia é muito bonitinha, asfaltada, com canteiros centrais com coqueiros e praças e bancos. O contraste fica mais cruel.

Chegando à rua principal, onde se multiplicam as lojas de eletrônicos, já vemos asfalto. Mas vemos também tiazinhas com cara de índias, o cabelo dividido em duas tranças que ultrapassam a cintura, vendendo suco de laranja espremida na hora. Enquanto isso, brasileiros sacoleiros disputam a atenção pelos vendedores bolivianos. Os preços são dados em três moedas: pesos, reais e dólares. E o câmbio é feito na hora, usando a cotação do dólar no Brasil naquele dia (ou pelo menos a gente acredita que seja aquela a cotação. Eu é que não contestei).

Comprei uma câmera digital de 6 mega pixels achando que estava sendo malandra, poupando pelo menos uns 400 reais caso comprasse no Rio de Janeiro. Tolinha. Quando fui comparar os preços na internet, surpresa: algumas lojas no centro davam exatamente o mesmo valor, só que com garantia, ao contrário da minha compra boliviana.

Apesar da compra pseudo furada, a minha ida à Bolívia não foi de todo perdida. Pelo menos pude fazer a piadinha que, de tão genial, vou repetir aqui.

“To indo pra Bolívia amanhã. Quer alguma coisa de lá?”

Acreditem, quando eu disse na primeira vez, foi engraçado.

Saturday, March 10, 2007

A terceira conquista

Existem três conquistas que completam a alma.
A primeira tem a ver com a aquisição de bens de consumo duráveis. A compra do primeiro carro com infindáveis prestações usando o parco salário do primeiro emprego, a primeira viagem ao exterior, o primeiro aluguel e - um dia chegamos lá - o primeiro apartamento próprio.

O segundo é de cunho amoroso: quando a gente pára, mesmo que momentaneamente, a procurar a cara metade. Geralmente porque conhecemos alguém legal e pensamos "agora vai", mesmo que a história desande algum tempo depois. É o fim de beijos sem sentido e sexos com pessoas que preferimos nem lembrar. O famoso sossegar o facho com uma pessoa só, sabendo que agora você tem companhia para programas de índio.

A terceira conquista foi a que consegui realizar ontem. Muita gente vai dizer que não é nada demais, e que a ordem da lista está completamente equivocada, mas o fato é que na noite de sexta-feira eu consegui, finalmente, cozinhar um risoto de funghi.

Antes que comecem os protestos, eu preciso explicar quem sou eu em realção a assuntos de economia doméstica. Peguei uma receita na internet e rumei ao Zona Sul para comprar os ingredientes. Porém, enquanto monga, não sabia que a cebola tinha que ser pesada. Achava que a gente comprava cebola por unidade, que era só colocar no saquinho e apresentar no caixa. Passei pela vergonha de perguntar para a moça do supermercado: tenho que pesar isso aqui? Ela me olhou atônita, e respondeu que sim, com a cara de quem não está acreditando no que acabou de ouvir. E eu me recolhi à minha insignificância.

Depois teve o momento da falta da manteiga. Comprei tudo direitinho, até a cebola devidamente pesada, mas esqueci da manteiga. Acionei o Ninja, homenageado da noite (o que três semanas de viagem não fazem com o seu namoro!) para comprar pra mim o item que faltava, enquanto eu vigiava as panelas que já estavam no fogo. O coitado teve que calçar o tênis, atravessar a rua e voltar com o saquinho para que eu continuasse a minha aventura culinária.

Tem horas que você acha que aquilo não vai dar certo. Que a panela está mais parecendo uma canja que um futuro risoto, ou então que a quantidade de caldo de carne está errada. Mas, para a minha surpresa, o prato foi progredindo, progredindo, até que finalmente foi servido à mesa. Adivinha só. Ficou bom pra caralho. Na verdade, o risoto de ontem foi o melhor risoto de funghi que eu já comi na vida.
Não há tempero melhor que a auto satisfação.

Pra quem quiser se aventurar a fazer um risoto de funghi como este, aí vai uma receitinha tranquilíssima, e de sucesso garantido.
Se eu consegui, mesmo sem saber pesar a cebola, você também consegue. Acredite na terceira conquista.

Tuesday, March 06, 2007

Abre a jaula do leão!

Hoje estou na cidade mais ao sul que já estive na minha vida. Chama-se Cassino, litoral gaúcho, a apenas 250 km do Uruguai. Beeem longe de casa. Mas uma coisa legal de estar beeem longe de casa é justamente ver coisas que a gente não vê sempre. Pois bem, hoje foi meu dia de ver leões marinhos.

Durante as tais viagens pelo norte, nordeste e agora sul do Brasil, aprendi que bicho feliz e bonito é bicho solto. Zoológicos me deixam deprimida (principalmente aquele do Rio, quente que nem Pão de Açúcar, talvez, e com jaulas de 2x2 para animais que precisam de espaço). Uma tristeza só. Agora, por outro lado, quem é que pode ver bicho solto de perto? Uns poucos privilegiados, com grana o suficiente para viajar. Ou gente que, como eu, ganha mal mas aproveita bem a vida.

Em Noronha tive a minha primeira experiência no mundo animal livre. Golfinhos acompanharam o nosso barco, e eram tantos, e estavam tão perto, que se esticasse a mão conseguiria tocá-los. Mas aí, enquanto turista não turista deslumbrada, não estiquei a mão, ocupada em tirar fotos de todos os ângulos possíveis. Tipo os japoneses na Disney, sabe como é?
E, ainda no arquipélago, houve aquela tartaruga enorme, quase pre-histórica, colocando ovos na areia da praia mais bonita que eu já vi. Fiquei como criança, olhando boquiaberta, esperando que a bichinha terminasse de postar para voltar, com muita dificuldade, ao mar de Noronha.

Depois disso eu vi macacos, rãs exóticas, jacaré, pacas... e, hoje, os lindíssimos leões marinhos. Acho que fiquei assim tão extasiada com esses bichos porque nunca na vida soube que eles vinham para o Brasil. Eu achava que leões marinhos viviam entre pinguins, geleiras e ursos polares. Quem poderia adivinhar que aquele casaco de peles ambulante tomaria um solzinho no sul do nosso país?
Mas, ainda bem, eles vêm, como pude ver bem de pertinho, sem barras de ferro entre nós.

Monday, March 05, 2007

Pão de Açúcar, AL

Eu disse outro dia que fui a uns 5 estados esse ano, mas afinal acho que foram mais lugares. Em cada estado eu passei por cidades que nunca conheceria se não fosse o trabalho, porque não são lugares turísticos e ficam bem no meio do Brasil. Destes municípios, o que mais me marcou foi Pão de Açúcar, a terceira cidade mais quente do Brasil, no sertão de Alagoas, às margens do Rio São Francisco.

Os próprios habitantes da cidade citam seu terceiro lugar no ranking dos inferninhos terrestres. A impressão que tive foi que, se aquela cidade é a terceira mais quente, não quero saber da segunda e da primeira do Brasil! O sol castiga, eu tinha que gravar com óculos escuros, boné, filtro solar 15 - e, mesmo assim, digamos que eu peguei um bronze não intencionado. E tudo isso em apenas um dia de gravação!

Por ser uma cidade pequena e isolada das grandes capitais, Pão de Açúcar é cheia de lendas e boatos. Toda noite, depois que a cidade está dormindo, um grupo de moradores faz a ronda nas ruas, para evitar que algum grupo de mal feitores invada a comunidade, roube, apronte sei lá o quê. Esses caras da ronda são chamado de Anjos da Guarda, e é deles que partem a grande maioria das lendas que assustam os moradores de tempos em tempos.

O Lobisomem, por exemplo, já foi visto por lá. Descreveram o bicho como um cachorro muito grande, de olhos vermelhos, um monstro mesmo. Ninguém nunca viu o Lobisomem de perto, mas muitos relatam encontros inesperados com a besta. Também existem histórias de um pneu que rodava sozinho pelas ruas de Pão de Açúcar, como se uma mão invisível o guiasse, à maneira das brincadeiras dos moleques pãodeaçucarenses.

Pão de Açúcar também tem um Cristo Redentor, de braços abertos no morro mais alto do município, quase um Corcovado alagoano. Lá de cima podemos admirar uma vista muito bonita do Rio São Francisco e, dizem, o pôr-do-sol é espetacular (não tive tempo de ver, estava louca pra tomar um banho quando acabou a gravação). O Velho Chico é a base da cidade. Naquelas águas o povo cozinha, lava roupa e mergulha nos fins de semana. A água do rio nesse ponto é bem clarinha, quase uma água de mar, diferente do São Francisco do norte de Minas, que tem água barrenta.

Depois do nome Pão de Açúcar e do Cristo Redendor, mais uma coincidência une os cariocas tão distantes àquela cidadezinha do sertão de Alagoas. Na outra margem do rio há uma cidade de Sergipe em que, parece, a maior atração é a vista para o Cristo Redentor de Pão de Açúcar.
Sabe qual é o nome da cidade?
Niterói.

Saturday, March 03, 2007

Tomando um passe indígena

Hoje é um momento histórico. Tomei um passe de uma feiticeira indígena, com direito a fumar no cachimbo da paz. Isso mesmo: fui a uma aldeia, ganhei um colar de proteção para o meu espírito, fumei o cachimbo que não tem nada a ver com maconha, e fiquei em paz com o mundo. Transcendental.

Essa foi apenas uma das atrações que 2007 me reservou. Apesar de estarmos entrando no terceiro mês do ano, já conheci pelo menos 5 estados em um mês e meio de viagem, interrompida apenas para passar o carnaval no Rio. Carnaval sem blocos e sem grandes jogações, diga-se de passagem. Apenas muitas sessões de Heroes, deitada no sofá da casa do Ninja.

Viajar a trabalho é legal porque você conhece lugares e pessoas inimagináveis, como a feiticeira indígena que me deixou na paz essa manhã. É um saco porque você fica longe do namorado, amigos e família, e o sua conta de celular ganha proporções absurdas. No momento, já passei por todos os estágios, desde saudades e saco cheio até deslumbramento. No momento, cair na estrada significa apenas mais um dia de trabalho. Só que quando você volta pra casa, não encontra a sua cama, e sim o travesseiro de penas de algum hotel quatro estrelas.

Preciso ressuscitar esse blog. É muito importante que eu conte pra alguém todas as coisas que eu ando vendo por aí, caindo na real de como realmente as coisas são fora do eixo Rio-SP. É muito importante que eu volte a escrever qualquer coisa, pra pensar na vida, sabe. Só voltei aqui porque alguém que leu o Poça me adicionou no orkut, e então eu percebi o quanto sentia falta destas linhas. Deve ser por causa do cachimbo do índio.

Wednesday, January 17, 2007

Banheiros de Paris


Vaso com lugar para pesinhos de um banheiro parisiense.
Pra quem quer fazer cocô de cócoras

'You're still doing things that i gave up years ago'

Lou Reed me dá tesão. Transformer é o disco mais afrodisíaco já lançado, com todos aqueles pianos e a voz rouquinha e meio sussurada (mesmo quando ele grita; é possível isso?) do Lou. Ele sim, ele pode falar de baixeza e do submundo, ele entendeu o que é isso, casou com um travesti e fez uma música em homenagem à heroína. É difícil tentar ser moderno depois do surgimento de Lou. Todos esses modernos wanna be que eu vejo por aí deveriam ficar envergonhados, porque ninguém, jamais, conseguiu ser como ele, Mr. Reed.

E de todas as músicas que eu ouço dele, o verso que mais cutuca a ferida é esse aí do título do texto. Ele, que já sabia que era moderno mesmo sem nunca ninguém ter dito, avisou pra quem tentasse copiar: você tá indo quando eu já estou voltando. Sacou? Dá vontade de fazer uma camiseta e sair por aí andando e cumprimentando gente que, meu deus, se prendeu a uma década. Lou é foda.

A culpa do renascimento da minha paixão por Lou Reed aconteceu quando eu comprei um MP3 player lindinho. Me rendi à tecnologia, apesar de ser uma menina do século dezenove. Eu baixei Transformer e fui suar barras de chocolate na esteira da academia ouvindo a voz de veludo do meu mais novo antigo muso, e aí percebi que, caramba, não existe mais nada depois de Satelitte of Love, ou Perfect Day. Não existe nada, quem faz música deveria parar de escrever, todo mundo já pra dentro de casa pra colocar o disco no repeat, até cansar as orelhas, até acabar a bateria do seu radinho. Todo mundo, agora, tirando a roupa e fazendo uma suruba em nome de Lou. Ele sim sabe o que é sexo.

Wednesday, January 10, 2007

Xixi d'orange

Em Paris a gente faz xixi laranja. Sei lá se é porque você tem apenas sete dias e uma lista infinita de visitas a prédios mais velhos que o seu país, ou se é porque está tão frio que vc não pensa em beber nada a não ser um ou outro chocolate quente, ou então se é porque você come muito queijo fedorentamente delicioso. Sei lá, mas o xixi em Paris é forte, nada desse mijo girlie que se vê por aqui, o negócio lá é intenso.

Essa foi a segunda coisa que percebi sobre a cidade.
A primeira foi: é verdade, eles usam chuveirinho de mão aqui; se bem que dá pra fixar na parede, de modo que fique exatamente como o chuveiro do resto do mundo.

Tirando a fixação por banheiro (eu poderia falar do vaso em que o sujeito fica de cócoras, mas deixo isso para outra ocasião), o momento em que caiu a ficha de que eu estava, de verdade, em Paris, foi quando o Sena surgiu. Toda viagem eu tenho o momento de cair a ficha: em NY foi o Times Square (óbvio), e em Paris foi o Sena e todas aquelas pontes, cada uma a seu estilo.

Ok, eu confesso: nasci pra ser francesa. Primeiro porque ADORO queijos - quanto mais fedorento, mais eu gosto - e poderia viver a vida comendo queijos de sobremesa, como eles fazem. Segundo porque eu tenho uma tendência a tomar vinho em qualquer ocasião, a qualquer hora. Vinho tinto, apenas, que eu não tenho paciência pra sofisticação muito sutil de um vinho branco. Vamos logo deixar essa língua roxa e o dente preto, ne, gente. E depois, no fim de tudo, eu adoro me vestir de cebola, com camadas e camadas de roupa, e não ligo a mínima pro frio.
Resumindo: Je m'apelle Brruná.

2007 começou em uma festa de brasileiros em um apartamento francês. Uma festa para adolescentes de trinta anos (será que isso nunca acaba? Será que eu nunca vou deixar de gostar das mesmas coisas que me faziam sair de casa aos dezessete?). A dona da casa, uma das poucas francesas do recinto, ignorava o seu piso de tábua corrida sendo manchado de cerveja. É 2007, o outro ano ficou pra trás, e agora todo mundo vai ser muito feliz.

Adoro reveillons. principalmente quando os anos começam em Paris.