Monday, December 10, 2007

Férias Coccoon

Estou de férias, ou o que poderia ser chamado disso. Não são férias de verdade porque eu não recebi adiantamento de salário nem a garantia de que tenho trabalho no ano que vem, mas mesmo assim gastei o que tinha e o que não tinha redecorando a casa. Ou decorando, apenas, porque o meu apartamento, até mês passado, era conhecido pela ausência total de decoração. Uma coisa assim minimalista, entende.

E agora eu tenho dias livres e consciência pesada para sair e me divertir gastando dinheiro. Então inaugurei um novo estilo de férias: as férias Coccoon. Aquela em que eu passo o dia inteiro dentro de casa apenas navegando na internet, conversando no msn e baixando séries. Baixei Heroes todinho e assisti em dois dias. Agora me dedico a Lost.

Baixo, gravo, assisto, deleto. Da hora que eu acordo à hora que vou dormir. Pode parecer chato - às vezes é... - mas eu tenho me divertido com o meu momento casulo. Dando um tempo do resto da humanidade em um momento que não tenho paciência para a maioria dos humanos.
Às vezes faz bem ficar em casa.

Saturday, December 08, 2007

Passeio de helicóptero pelo Rio

A arte de amar - Manuel Bandeira

Durante muitos anos, esse foi o meu poema preferido.
Eu copiei em uma folha de papel e preguei na parede do meu quarto adolescente, em meio aos posters de hard rock dos anos 90.
Não satisfeita, pintei o primeiro verso atrás da porta, em letras tortas de quem não tem nenhum jeito para atividades manuais.
É esse aqui:

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

Fazendo

Bebendo vodca sozinha. Preparando a maquiagem. Fumando muitos cigarros, nunca tantos. Esperando a campainha tocar. Admirando minhas novas cortinas. Pensando em mandar tomar no cu. Imaginando que a maioria é ignorante e não entende ironia. Segurando para não mandar neguinho tomar no cu. Repetindo "que se foda" como se fosse um mantra. Falando muitos palavrões. Sentindo saudade. Imaginando como seria se fosse. Sentindo saudade. Imaginando como será quando. Sentindo saudade. Testando o mau humor contra a humanidade. Buscando conversas quaisquer, em qualquer lugar. Ouvindo histórias. Sentindo saudade. Sentindo saudade. Sentindo saudade.

Thursday, November 29, 2007

Carmen, a Fêmea Alfa

Depois de uns cinco anos sem pisar no Theatro Municipal, 2007 foi um ano de muitos eventos culturais naquele local. Começou com o show da Madeleine Peyroux, depois teve o Bolshoi Brasil e, finalmente, o concerto da ópera Carmen.

De todas as óperas, talvez Carmen seja a mais pop. Mesmo quem não conhece nada de música erudita reconhece uma das árias da cigana. Já foram tantas as repetições em filmes e publicidades diversas que é difícil não cantarolar junto as melodias.

Eu, pessoalmente, acho Carmen fodíssima. Imagina uma mulher que, em pleno século XVIII, era livre, cobiçada e sensual. "As paixões de Carmen não duram mais que seis meses", avisa o toureiro ao mané D. José, que não se conforma com o pé na bunda que levou da protagonista, depois de ser expulso do exército e cair na clandestinidade - tudo por causa dela.

Carmen é o tipo de personagem que mantém discussões em mesas de bar, como se ela fosse uma pessoa de verdade. Quando o concerto terminou, um homem que estava ao meu lado lançou a observação que dá título a esse post: "Carmen é a fêmea alfa!" Achei incrível e anotei mentalmente, pra poder roubar e usar mais tarde (como estou fazendo agora). Esse mesmo homem disse que já viu mais de quinze versões cinematográficas da obra, com visões que vão desde Charles Chaplin a Goddard.

Saí do teatro com vontade de usar saia rodada e salto alto, mas logo tive que me conformar com a minha rotina jeans & tênis. Não adianta: quem nasce Billie Jean nunca será Carmenzita.

Wednesday, November 28, 2007

Sobre pessoas e livros em cinco minutos

Vou tentar disfarçar e dizer que quando entrei na sua casa não reparei que havia livros espalhados por todos os cantos: no banheiro, no quarto, na mesa de jantar e até na cozinha (e nem era um livro de culinária, o que me deixou muito intrigada. O que é que você lê na cozinha? Lê enquanto prepara o almoço?). Vou disfarçar e tentar convencer você de que não reparei que existia um livro aberto em cima do sofá, uma página marcada, que deve ter sido deixado de lado no exato momento em que toquei a campainha e interrompi a sua leitura. Mas como não consigo disfarçar porcaria nenhuma, como sou absolutamente transparente - e ainda não descobri se isso é bom ou ruim - acabei perguntando: "que livro é esse?". E você respondeu: "... blá blá blá Satre", e eu só entendi que tinha Sartre no título, mas que não era um livro do Sartre. E aí não falei mais nada, porque nunca tinha ouvido falar do tal livro, mas achei que devia ser interessante, porque a capa era legal. E eu julgo livros pela capa.

E tem mais: eu percebi que nenhum daqueles volumes estavam em português. Tinham uns em inglês, outros em francês e outros em espanhol, e eu secretamente fiquei orgulhosa. Não tem nada mais turn on pra mim do que inteligência.

E então você abriu a geladeira pra pegar alguma coisa pra gente beber e eu espiei lá dentro e vi que não era uma geladeira típica de casa de homem, com cerveja, água e ketchup e nada mais. Ao contrário, era uma geladeira muito mais preparada pra vida que a minha: tinha temperos e frutas e alguns ingredientes já cortados do que comporia o jantar de mais tarde que, na verdade, nunca aconteceu. E eu pedi a receita e você disse que não dava, depois disse que não tinha receita e que você cozinhava com o que tinha em casa, esquecendo que antes tinha me dito que havia saído pra comprar os ingredientes do prato, em uma contradição deliciosa em busca da valorização de qualidades.

Depois observei que as fotos do seu computador eram, na maioria, auto-retratos, e achei engraçada essa vaidade adolescente em meio a tantas qualidades maduras. Nada melhor do que acabar de conhecer uma pessoa e considerar engraçados os potenciais defeitos dela. Mas antes que eu desse continuidade à essa lógica, você me mostrou a sua coleção de mp3, e disse que pensava em redecorar o apartamento, e me convidou pra sentar e nem reclamou quando eu, espaçosa, tirei os sapatos.

Isso é que dá abrir as portas da sua casa pra uma virginiana.

Friday, November 23, 2007

Brincadeira do Copo

Eu sempre tive medo de histórias de fantasmas e almas e possessões. Fui ver a nova versão do Exorcista no cinema e quase morri do coração. Depois, foi a vez de amarelar ao assistir um trecho de "O exorcismo de Emily Rose" na TV: na hora em que o namorado acorda e encontra a Emily toda retorcida no chão, eu tive que mudar de canal. Era isso ou não conseguir dormir à noite.

Se agora que eu sou velha eu ainda tenho medo do sobrenatural, imagina quando era mais nova. Não tinha a mínima possibilidade de participar daquelas brincadeiras com copos e tesouras que todo mundo fazia - ou falava que fazia. E, pra falar a verdade, eu nunca soube se aquilo tudo que me contavam era real ou não. Devia ser uma grande mentira que eu, menina inocente, acreditava e morria de medo.

Tinha o caso do copo que saui voando do tabuleiro e bateu na parede, depois que um espírito brincalhão ficou irritado com as perguntas da roda. Os meus amigos me explicavam que espíritos brincalhões são os mais perigosos, e que sempre devemos perguntar primeiro se a entidade quer estava ali era séria ou não. Outra pergunta necessária era saber se a brincadeira poderia parar em determinado momento, já que os espíritos não gostavam dessa história de serem entrevistados e depois dispensados sem maiores explicações. Tudo deveria ser feito com grande respeito.

Uma vez, eu e minhas amigas estávamos na casa de uma delas, em Miguel Pereira, e resolvemos conversar com um espírito através do pêndulo. O lance era parecido com a brincadeira do copo: a gente fazia uma roda e falava: "espírito, mostre o seu sim", e aí o pêndulo balançava pra um lado. Depois, só pra confirmar, a gente falava: "espírito, mostre seu não", e o pêndulo deveria balançar para o lado oposto. Enfim, nesse dia a gente perguntou se aquela era uma alma brincalhona e o pêndulo disse que sim, e imediatamente todas as meninas ficaram morrendo de medo. Pedimos então para parar com a brincadeira e tivemos a nossa vontade concedida, para alívio geral.
Pelo visto o espírito brincalhão tava sem o mínimo saco de brincar com a gente.

Thursday, November 22, 2007

Top 5 dos Melhores e Piores de 2007

(sob a minha visão altamente influenciável)

Melhores Shows:
1 - LCDSoundsystem no Circo
2 - Bjork no Tim Festival
3 - Nouvelle Vague no Circo
4 - Devo no Planeta Terra
5 - Los Hermanos na Fundição Progresso

Planos não realizados:
1 - Parar de fumar
2 - Entrar para uma academia
3 - Guardar dinheiro
4 - Mobiliar o apartamento novo
5 - Aproveitar mais o dia

Programa de fim de semana (dia):
1 - Paineiras
2 - Segundo Coqueirão de Ipanema (estacionando no Leblon e andando pelo calçadão até o posto 9)
3 - Café da manhã à uma da tarde no Leblon
4 - Almoço às cinco da tarde em Santa Teresa
5 - Cerveja na muretinha do Bar Urca

Programa de fim de semana (noite):
1 - Fix
2 - Cerveja na muretinha da São Salvador
3 - Festa de música black
4 - Aniversários de amigos e amigos dos amigos
5 - Festa na casa do Marinho

Viagens incríveis (trabalho e/ou lazer):
1 - Paris
2 - Fernando de Noronha
3 - Despedida de Vera Cruz
4 - Búzios com chuva
5 - Fim de semana gastação em sp

Wednesday, November 14, 2007

Falling in love for an android with delayed reaction

Eu me apaixonei por um robô com reações retardadas. Aliás, eu venho me apaixonando por tipos assim nos últimos cinco anos, o que me faz pensar sobre os padrões que a gente escolhe nessa vida. Eles não sabem que são robôs com defeito, e eu não sei que são do mesmo jeito de sempre quando me apaixono por eles. Só depois de um tempo é que a falha vem à tona - como todos os outros defeitos de fabricação - e aí já é tarde demais para se escapar das garras do amor. No fim das contas, amar é só a capacidade de aturar, com mais paciência do que o usual, os defeitos alheios.

Porque ele era um andróide incrivelmente lindo, com grandes e tímidos olhos azuis e um sotaque característico de sua condição de máquina, à princípio o delay das reações era só mais um de seus charmes. Eu mandava emails apaixonados que nunca recebiam respostas. Eu ligava e não era atendida e, nas raras ocasiões em que recebia uma resposta imediata no aparelhinho de celular, eram sempre evasivas e esquivas. Mas a única saída para quem se apaixona por um robô com reações retardadas é esperar que seus circuitos finalmente se consertem. Sozinhos.

Eu criava ferramentas imaginárias para tentar consertar meu irresistível cyborg de olhos azuis. Explicava a mesma coisa repetidas vezes pra ver se ele entendia bem. Mas, coitado, devido à sua condição de mal fabricado, de nada adiantavam as minhas soluções inventadas. Em questão de tempo - muito tempo - o charme do andróide perdeu a graça e as minhas ferramentas se amontoaram inúteis em um canto da garagem.

Agora ele entende tudo. Mas agora não dá mais tempo.
É esse o resultado de se apaixonar por andróides com reações retardadas.

Tuesday, November 13, 2007

Android with delayed reaction

Às vezes tenho uns ímpetos incontroláveis de dizer a verdade, mesmo que o outro lado não queira ouvir. E digo sem ser convidada, mesmo que a verdade seja apenas temporária - minhas verdades são mutáveis, assim como as minhas paixões: leviandade, teu nome é mulher.

E quando ouvem verdades, os que não querem ouvir se fazem de surdos, de desentendidos e de burros. Eu mesma já apliquei tantas vezes essa tática, meu bem. A grande diferença está na parte do saber: eu sei que quando eles não ouvem é mentira, enquanto que eu, quando não me faço ouvir, estou plenamente consciente de que aquilo é uma farsa. Deu pra sacar?

São todos uns robôs com mecanismo retardado. Todos eles programados para não responderem na hora, sofrendo um tremendo de um timing errado, entendendo a regra quando o jogo já acabou. Cyborgs com defeito, todos eles.

A grande merda é que eu sou obrigada a conviver com isso.

Sunday, November 04, 2007

Taxi Driver

- Boa noite. Lapa, por favor.

Pega o celular e disca pra qualquer número, porque não suporta silêncio de táxi, nem conversa com o taxista. Se bem que tem uns que são legais. Vontade de fumar um cigarro, vontade de comer uma bala, e o primeiro número não atende. Olha pela janela todas as luzes e todas as faunas e o taxista avisa:

- Não vai esquecer o celular em cima do banco, hein, boneca.

Diz que não, pode deixar, já tá na bolsa - mas, na verdade, estava ligando pra outro número e pensando: "só tenho uma nota de cinquenta, será que esse cara tem troco?"
Toca o alerta da mensagem dizendo que já chegaram, o cigarro está ali, luminoso, falta só mais um sinal e depois um pouquinho de engarrafamento, pela janela vai vendo televisão, quase chegando, o celular já tá guardado, o dinheiro tá na mão.

- Boa noite, bom divertimento pra você, princesa.

- Boa noite pro senhor.

E fecha a porta.

Paineiras

Enquanto sinto o ar mais fresco nas minhas bochechas, vou suando morro acima. No caminho, um muro de pedra para fazer rapel, o Cristo bem pertinho, bicicleta e skate, vai mais devagar que você anda muito rápido, assim as minhas coxas ficam doídas o resto da semana, aqui tem uma vista boa da Lagoa, repara só como essa árvore caiu mas ainda está viva (vai viver assim ainda por muitos e muitos anos), fila pra entrar embaixo do cano, água gelada que aperta o peito e tira o fôlego, não quis sair ontem porque queria ouvir Nouvelle Vague aqui em cima, as mulheres contam para as amigas sua vida sexual com detalhes, tá falando sério?, suas bochechas são musculosas, deve ser porque eu vivo rindo que nem boba, vocês vão subir pro Cristo?, vocês querem uma van?, do you want a car?, vontade de comer arroz com brócolis e lula, eu prefiro mesa de ferro e cerveja de garrafa e piadas masculinas a mesa de restaurante japonês cheio de mulheres, tá falando sério?, se quiser eu dirijo pra você curtir a vista, você tem cara de alemã, tenho?, por que você não me chamou antes?, não conheço mais ninguém que goste de passear aqui, meus amigos só saem à noite, to virando eremita - mas pelo menos o iPod tá sempre comigo, já viu que louco esse bicho aqui?, tomara que ele não venha pousar em mim, acho que to virando hippie, mas hoje à noite tem festa de eletrônico, né? Tem... Sempre tem.

Céu de Santa Teresa


Quase mar.

Wednesday, October 31, 2007

Domingo de sol

Eu adoro São Paulo. Gosto de passar fim de semanas insanos, de quase não dormir em 48h de noites paulistanas, de visitar a Liberdade e comprar sapatos totalmente dispensáveis na Galeria Ouro Fino. Mas não troco, por nada nesse mundo, o Rio de Janeiro. Nem por NY, nem por Paris. Sou viciada demais nas situações da minha cidade.

Domingo acordei com a voz rouca de incontáveis cigarros da noite anterior. Ainda com a voz cavernosa, telefonei para o número certo, que iria me proporcionar programas divertidos e baratos. E aí, peguei o carro e me mandei pra Santa Teresa, pra almoçar frutos do mar em um restaurante cheio de artesanato do nordeste.

Próxima parada: Paineiras. Meu guia me avisou que a boa não é aquele cano grudado na pedra que nego chama de cachoeira, e sim uma trilhazinha no meio do mato, subindo pedras e passando por teias de aranha. Mesmo chiliquenta e totalmente urbana, decidi inovar e aceitei o desafio de me embrenhar mata adentro, e o resultado foi um banho revigorante em águas totalmente geladas. Diz a lenda que a cachoeira tem um código secreto em que dois grupos desconhecidos nunca se encontram: quando sobe uma primeira galera, os outros ferquentadores só aparecem no momento da descida. Toda a organização é feita metafisicamente, através da mística das águas do Parque Nacional Floresta da Tijuca. Quando eu voltava ao asfalto das Paineiras, não deu outra: encontrei um casal subindo, pronto para pegar o nosso posto. Achei incrível.

Depois dei um pulo no Parque das Ruínas pra ver uma exposição moderninha, e aproveitei pra tirar fotos do céu de Santa e ainda comer um salgadinho natureba. E mesmo com toda a intensidade da programação, ainda estava sol. Fiquei com muita vontade de aproveitar mais os dias que as noites nos fins de semana - mas a verdade é que sempre me rendo ao primeiro telefonema nortuno, e acabo acordando muito tarde no dia seguinte.

Mas fala sério, é ou não é uma cidade incrível o Rio de Janeiro?
Deixa eu pegar o crachá aqui na bolsa.

Tuesday, October 30, 2007

State of Emergency

Hoje eu estava lendo o blog da Kamille quando me deparei com esse texto maravilhoso sobre o show da Bjork. E fiquei com vontade de escrever sobre música e sobre como a minha vida é toda baseada em sons, e até o meu tempo é dividido por canções: com essa eu vou arrumar a cama, com essa eu vou preparar o meu sanduíche/jantar e com essa eu vou ficar lendo, deitada na cama.

(Agora estou ouvindo She's leaving home, dos Beatles.)

Eu fui no show da Bjork. Numa puta má vontade, é verdade, mas fui. Já vi a cantora outras duas vezes - minha estréia no FreeJazz, inclusive, foi na apresentação dela, em longínquos 1996, quando eu ainda era jovem. Dessa vez eu achei que o show não ia ser nada demais, porque nem gostei tanto assim do disco Volta, e comprei só porque uma amiga estava na fila e se ofereceu pra comprar pra mim.

(Agora estou ouvindo The warning, do Nine Inch Nails.)

Ainda bem que eu fui, ainda bem. Acho que não existe situação mais específica em que eu sinto a alma satisfeita que depois de assistir a um bom show. Exceto, talvez, algumas vezes em que leio uma certa passagem realmente incrível de um livro (acontecia toda hora com Incrivelmente Perto...), mas aí a história toda é muito solitária, muito você e o papel, sabe? Em um show a coisa é diferente, é como se fosse uma satisfação coletiva, com todas aquelas pessoas fazendo coro e gritando de prazer, literalmente.

(Ouvindo Glória, do Tom Zé.)

No caso da Bjork, as músicas foram repletas de lembranças de casos passados, de eventos e de historinhas inesquecíveis dos meus twenty somethings. Saudosista até o último fio de cabelo, eu cantava o refrão de Joga, o tal do state of emergency, how beautiful to be, versos que sempre entendi muito bem e sempre achei incríveis, e que durante anos figuraram na mensagem de abertura do meu celular tijolão, só pra me lembrar que eu não devo ficar encostada no muro vendo o povo passar - a menos, é claro, que eu esteja saboreando infinitamente esse momento.

(Ever Fallen in Love, do Nouvelle Vague)

Depois do show, o que mais tem pra fazer? Eu estava morrendo de sono e feliz e satisfeita, e havia uma chuva que empurrava todo mundo pra baixo das poucas coberturas do local, e era uma guerra pra conseguir uma cerveja.
Fui pra casa. Quando a coisa ta no auge eu me retiro, que é pra não perder tempo com a decadência.

(Próxima: Essa passou, Chico Buarque)

Vida sonora

Durante toda a minha vida eu fui viciada em música. Lembro de pegar uns disquinhos da Rita Lee que eram da minha mãe e colocar pra tocar naquelas vitrolas infantis que já vêm com caixa de som, e quando você dobra elas viram uma maleta. E depois, um pouco mais velha, comecei a fuçar a coleção de vinis de jazz do meu pai, e assim descobri Janis Joplin, Ella Fitzgerald e Chet Baker. E ainda teve as fases college rock e guitar band, uma curta passagem pelo heavy metal e pelo punk rock, até chegar ao injustificável e polêmico bate-estaca. Hoje em dia eu misturo tudo isso e ainda acrescento samba e MPB. Imagino que o povo do SoulSeek que vasculha a minha pasta de mp3 deve me achar uma louca, considerando que bem ao lado do Daft Punk existe uma lista extensa de Chico Buarques de todos os tempos.

Durante todos esses anos, o walkman (com todas as suas variações) virou o meu melhor amigo. Outro dia roubaram o rádio do meu carro e eu entrei em desespero, porque sabia que não aguentaria uma horinha de engarrafamento sem ter com que distrair meus ouvidos e a minha cabeça, sempre pronta a pensar um monte de besteiras. Mas aí, a solução foi dirigir de fone, burlando qualquer tipo de lei de trânsito que me prive de ter prazer. Saquei o iPod que mora na minha bolsa e me mandei para os meus 35km diários a caminho do trabalho.

O problema é que, desde então, não consigo mais tirar os fones do ouvido. Sabe como é, a vida fica muito mais interessante. Hoje mesmo, depois do trabalho, tive que passar no insuportável supermercado estreito e mega cheio que existe na minha rua. Não tive a menor dúvida: aumentei o volume do LCDSoundSystem que reinava no mp3 player a ponto de cobrir aqueles ordinários sons externos da vida cotidiana, sabe como é? E fui procurar margarina, requeijão, leite, etc, morrendo de vontade de dançar pelos corredores estreitos do Zona Sul, transformando todos os movimentos da menina do caixa em coreografia de videoclipe, fechando os olhos de vez em quando para me transportar pra fora daquela fila de no máximo 15 ítens (mas que todo mundo engana) e pensando que, não tem jeito, a minha sina é pagar duzentos reais no ingresso do show dos caras no Circo.
Essa necessidade de ter a alma beijada nunca vai me permitir virar milionária.

Tuesday, October 23, 2007

Pseudo malandragem

Tenho uma grande amiga que está de malas prontas pra morar em Madri. O plano é fazer um doutorado - 4 anos, minha gente... - e voltar com a tese debaixo do braço. Se bem que eu acho que ela vai terminar o doutorado e arrumar um trabalho em alguma universidade madrilenha, e conhecer um espanhol bem gato e se casar e ter dois filhos lindinhos e espanhoizinhos, que irão chamá-la de madrecita. E acho também que ela vai ser bem feliz lá, e de vez em quando ela virá pro Rio no carnaval, enquanto eu vou ter que ficar um tempão juntando dinheiro pro poder visitá-la, porque vou continuar ganhando míseros reais que nada valem no Velho Continente.

Tenho uma outra grande amiga, a única que conheço precisamente desde que nasci (ela nasceu dia 29 de abril e eu 29 de agosto, olha que simpático) que resolveu morar na Austrália, e já avisou que de lá ela não volta nunca mais. Lá vou eu juntar mais e mais ridículos reais para comprar essa passagem de avião mega cara que é a Rio - Sidney - Rio só para poder rever a minha amiga do coração.
Deve ser por isso que tenho problemas de abandono.

Eu e essas duas meninas costumávamos passar juntas todas as tardes depois do colégio. Fazíamos vários tipos de merdas, tipo roubar o carro do pai de uma delas pra ficar dando voltas pelo bairro, ter a cara de pau de pegar um filme de sacanagem pra ver como é que era e ficar com nojinho das cenas (porque o filme era feito de várias situações, mas todas terminavam com uma mulher sendo comida por cinco caras ao mesmo tempo), ou fumar os primeiros baseados de uma série, hábito que se estendeu por alguns anos.

Existe também a história clássica do arrombamento do armário. Uma das minhas amigas ficava o dia inteiro sozinha em casa, sem família e sem empregada, e por isso aquele lugar foi escolhido como a base do nosso pequeno clube. E a gente passava o dia inteiro comendo leite condensado com nescau e vendo televisão e ouvindo música, ou qualquer outro tipo de eventos não produtivos do dia-a-dia. Estudar, só se fosse na véspera da prova, ou nas provas finais. O que a gente queria era falar bastante besteira e andar de carro por aí.

Mas aí, a madrasta dessa amiga percebeu que os víveres do mês estavam acabando cada vez mais rápido. Mal sabia ela que alimentava duas bocas extras. E a madrasta passou a trancar o armário da despensa.
Nós três achamos um absurdo. Mas logo descobrimos um jeito de arrombar o armário sem que ninguém percebesse. E continuamos enchendo nossas barrigas de brigadeiros e biscoitos recheados de chocolate. Não sei como não ficamos obesas.

Anos depois, descobrimos que o pai da amiga de quem roubávamos o carro sempre soube do nosso truque. Perecebeu por causa da quilometragem. E a madrasta também sabia dos nossos assaltos à despensa. Provavelmente também sabiam dos baseados, mas isso a gente deixa quieto, né?
A gente se considerava tão malandra! Bons tempos esses de adolescentes de subúrbio. Pelo menos a pseudo-malandragem ficou pra trás...
E adolescência serve pra isso mesmo. Pra fazer coisas que ficariam ridículas se a gente fizesse quando adultos.

Monday, October 22, 2007

Grupos que vão crescendo

Um dia desses eu estava conversando com um parisiense e ele me revelou a mais estranha mania dos franceses: a de não fazer novos amigos. A declaração se deu em meio a uma conversa sobre como ele chegou ao Rio de Janeiro conhecendo apenas uma menina, e saiu de lá com uma lista de novas amizades. E toda essa conversa aconteceu no apartamento dele em Paris, quando um grupo de brasileiros comemorava o ano novo com uma moqueca de peixe mega improvisada (imagina tentar achar os ingredientes corretos pra fazer uma moqueca em plena Paris! Tem que rolar uma licença poética, né...)

Segundo nosso amigo, os franceses - principalmente os parisienses - conhecem na infância o grupo com quem irão se relacionar o resto da vida. Muito raramente um ou outro membro é adicionado ao grupo original. E os programas de sábado à noite são jantares e noitadinhas básicas, mas nada de grandes festas de aniversário com amigos dos amigos convidados. É uma galera bem restrita, essa de Paris.

A história de David (o parisiense em questão) no Brasil foi a seguinte: ele chegou para trabalhar no Rio de Janeiro com apenas um contato na mão. Esse contato arrumou uma casa pra ele morar em Santa Teresa, onde moravam mais duas pessoas. Os dois roommates deram festas no apartamento do trio e apresentaram David para outros amigos. David arrumou uma namorada brasileira e se apaixonou por mais uma dezena de cariocas - embora continuasse fiel à sua namorada. Meses depois, quando ele já estava de volta à França, foi surpreendido com o email de uma das novas amizades do Rio, avisando que passaria o reveillon em Paris, e que ficaria hospedada na casa dele. Pois é, a nova amizade, no melhor estilo brasileiro de ser, avisou que se hospedaria lá - não esperou por nenhum convite. E foi com mais duas amigas. E recebeu visitas de mais um casal de brasileiros que estava hospedado em um hotel ali perto. E na noite de 31 de setembro, David se viu cercado de uma mesa com pessoas que ele havia conhecido há menos de um ano.

E ele ficou maravilhado. Porque isso não existe lá.

Os meus amigos são exatamente o contrário dos amigos do David. O povo que eu conheço há uns 15 anos gosta de agregar cada vez mais gente - embora, de vez em quando, exista uma certa má vontade em relação a alguns namorados e namoradas dos membros do grupo. Mas acho que isso é normal, né? Em determinadas situações, a preguiça social com os acompanhantes dos amigos é altamente justificável. Mas, de uma maneira geral, o meu grupo não é assim. Aliás, ele cresceu tanto que acabou englobando outros grupos, e tudo virou uma gigantesca bolha da amizade, sabe como é?
Tipo a Bolha Assassina. Só que trabalhando para o bem.

Wednesday, October 17, 2007

Recebendo gente em casa

Uma das situações mais legais de ter uma casa só sua é que você pode encher o lugar de gente. No último feriado fui surpreendida com a presença de um paulista e um argentino, amigos de uma amiga, que chegaram no Rio para passar o fim de semana e encontraram todos os albergues da cidade lotados. Chamei as figuras pra ficarem lá em casa, mesmo não tendo a mínima idéia de quem se tratavam. Poderiam ser duas malas, mas eu dei sorte: os dois eram bem bacanas e me fizeram passar dias mega divertidos.

O lance de receber convidados é que o ritmo fica acelerado. Em se tratando de paulistas (ou sub-paulistas, como é o caso do argentino que mora em SP), a coisa fica mais complicada, porque de repente eu tive que levá-los pra um milhão de eventos que tinham a cara da cidade maravilhosa. Não conseguimos ir à praia, mas fizemos noitadas memoráveis. E o resultado disso tudo é que eu fiquei doente na segunda-feira.

Quando a poeira baixa, o corpo pede arrego.

Na sexta à noite fomos para a casa de um amigo em Ipanema, e depois paramos em uma boate recém reformada, que eu há muito já tinha riscado da minha lista de lugares visitáveis. No sábado, fomos tomar café da manhã no Leblon, almoço em Santa Teresa e caímos na gandaia em Botafogo. Domingo ainda deu tempo de um passeio rápido pela Urca, e depois uma merecida soneca à tarde, antes que meus novos amigos encarassem a estrada. Depois que eles acordaram e foram embora, a casa ficou tão vazia e silenciosa que me deixou um pouquinho deprimida.

Mas não tem nada não. Dá próxima vez que eu for a Sampa, já tenho muitos lugares pra ficar. E, melhor do que isso, tenho novos amigos que já moram no meu coração. E que eles me esperem no próximo mês! To chegando de mala e cuia.

Monday, October 15, 2007

Muretinhas

Alguém pode explicar qual é a atração irresistível que os cariocas sentem por uma muretinha? Basta que exista um muro baixo, daqueles que ficam no nível certo pra gente sentar, que logo surge um grupo de amigos, uma cerveja de garrafa e uns copinhos de vidro estilo botequim. E o papo começa ali mesmo, e vai se estendendo noite adentro, e se você não tomar cuidado pode ver seu sábado à noite ir por água abaixo porque você passou o dia bebendo na mureta. É um problema sem solução. Uma vez que se chega à muretinha, ninguém mais sai.

A maldição da muretinha me pegou na quinta passada. Como era véspera de feriado, já tinha traçado uma programação incrível que incluía lançamentos de livros, festas com gente interessante, noite com destilados e pouca ressaca no dia seguinte. Só que, chegando do trabalho, me deparei com um amigo que bebia cerveja na mureta da praça da minha rua. Resultado: parei por ali, com bolsa mega cheia de material de produção a tiracolo, e me deliciei com um copinho do que os paulistas chamam de breja.

E o copinho chamou mais um, que chamou outro, que chamou uma nova garrafa. Eu esperava uma amiga chegar de São Paulo, e ficava me repetindo que, quando ela chegasse, eu ia pra casa tomar um banho, jantar, fazer uma maquiagem legal - todas essas coisas que as pessoas normais fazem antes de cair na noite.

Mas a minha amiga chegou e eu continuei lá. E daí que a gente foi parar em Santa Teresa, e depois em um bar de Laranjeiras, e eu dei adeus ao meu programa de destilados e festas de lançamento de obras literárias.

A minha mureta preferida é a que fica em frente ao Bar Urca. Esse ano descobri que existe um verdadeiro séquito do muro da Urca, gente que passa o fim de semana inteiro comendo pastel e curtindo uma das vistas mais bonitas do Rio de Janeiro. Tem gente que leva cadeira de praia e fica ali na calçada, mas eu, tradicionalíssima, prefiro descansar o bumbum na base de pedra. Não é muito confortável, mas é mega carioca.

Nesse feriado, recebi em casa dois paulistas e um argentino. Passei três dias tentando levá-los na muretinha da Urca, mas ninguém me deu ouvidos. No último dia, tentamos almoçar no Bar Urca que, obviamente, estava lotado. Fomos embora sem aproveitar a tarde totalmente decepcionados. Mas os paulistas já avisaram: na próxima viagem ao Rio, aquele murinho será prioridade.

A mureta do Bar Urca também já foi responsável pelo fim de um sábado à noite - mas dessa vez eu nem reclamo, porque foi realmente uma tarde bem legal. Quer dizer, eu reclamei um pouquinho na hora, mas agora já nem me lamento tanto. Às vezes é uma opção sábia trocar a luz do estrobo pela luz do sol.