Tuesday, July 20, 2010

Dia 1

Minha vida só funciona com metas. Me formei em jornalismo, mas seria uma ótima bibliotecária: adoro arquivar, fazer tabelas, organizar e... propor metas. A da vez é correr todos os dias, chovendo ou fazendo sol, de ressaca ou descansada, de mau humor ou bem humorada. A verdade é que correr na praia é receita pra bom humor: mesmo nos dias em que estou latindo pelo mundo, a música do Ipod e o ventinho do litoral me ajudam a virar o disco. Ainda bem.

Comecei hoje. Acordei cedo, coloquei a roupa e corri míseros 20 minutos, colocando os bofes pra fora. Fuma, vai, garota. Dá nisso. Mas aí, quando cheguei em casa e me arrumei pro trabalho, comecei a sentir os benefícios da endorfina: fui berrando Rufus Wainwright dentro do carro, os versos que eu amo de 14th street: "don´t ever change, don't ever worry, 'cause I'm comming back home tomorrow"

Correr na praia é como assistir televisão: a gente fica vendo a vida passando, fica olhando bebezinhos e animais de estimação fofos, e finge que não percebe os vovôs de Copacabana virando a cabeça pra olhar a nossa bunda. Aliás, descobri que se minha meta fosse a terceira idade, estava feita: os homens de 70 são absolutamente meus fãs. Vai ver é porque aos 32 sou para eles o que uma garota de 17 é para os quarentões.

Monday, April 05, 2010

Entre o teclado e eu

Houve uma época em que eu tinha certeza absoluta de que seria uma escritora. Não faz tanto tempo assim: eu ainda não havia virado o cabo da boa esperança dos 30 anos, e achava que tempo era o que não faltava para escrever meu livro. Enquanto isso, meus companheiros de outros blogs foram lançando livros, ganhando fama e pouco dinheiro, e hoje estão quase todos muito bem. E sobre o meu primeiro romance, nem uma linha. Virei a eterna promessa de mim mesma.

É que eu tinha (e tenho) medo de fazer algo medíocre. Sou muito boa em criticar a mediocridade, e não aguentaria o tranco de ser criticada de volta. Mas a vida vai passando e você percebe que não fez nada de relevante por você mesmo, e aí os medos começam a se transformar em outros. Foi isso o que aconteceu comigo.

Eu acho que preciso de solidão. De ficar um fim de semana isolada do mundo, de jogar meu celular no mar (como naquela cena de abertura do roteiro que eu comecei a escrever e não terminei), de ser forçada a pensar sobre a vida, mesmo que ela seja ficção.
Tá na hora de sair dessa comodidade ridícula.

Wednesday, March 24, 2010

Clubbers das antigas

Outro dia fui à festa de aniversário da Giselle, uma amiga que não chega a ser amiga, mas que eu quero muito bem. Ela faz parte de um grupo de pessoas que eu conheci na específica situação de boates de música eletrônica. E o mais irônico é que você realmente pode conhecer pessoas com a música alta e enquanto dança um pouquinho e bebe um pouquinho. Depois de ser apresentada à Giselle, já fiz uns trabalhos de assessoria de imprensa pro salão que ela mantém em Ipanema. E, de vez em quando, deixo umas medeixas por lá.

Meu marido não entende muito bem essa história de amizades noturnas. Durante toda noite, cada vez que alguém me encontrava e me dispensava um daqueles abraços dignos de resgate de seqüestro ("Brunaaaaaa!!! Quanto tempo!!!!"), ele me perguntava: de onde você conhece? E eu sempre tinha a mesma resposta: da noite...

Mas deixa eu explicar melhor. No meio dos anos 90, os amantes de música eletrônica no Rio de Janeiro eram uns poucos gatos pingados, que se encontravam todo sábado na mesma boate - a única a se dedicar ao gênero no Rio - ouvindo os mesmos DJs. Não queríamos ser um clube, mas éramos. Sonhávamos com o dia em que o Brasil veria raves do tamanho das que eram feitas nos desertos norte-americanos, ou nas ruas de Berlim. As meninas usavam glitter e estrelinhas coladas na sobrancelha, e todo mundo saía de tênis porque assim era mais confortável pra dançar.

Sendo assim, depois de certo tempo reconhecendo os mesmo rostos desconhecidos, chega uma hora em que você simplesmente passa a falar com aquelas pessoas. Não sei bem como conheci o povo que estava na festa da Giselle, mas sei que foi bom reencontrar meus antigos companheiros de dancinhas. É um pessoal fácil, que fala sobre amenidades, sem maiores conseqüências. E, por isso mesmo, é bem divertido.
Tem vezes que a gente só precisa falar sobre o calor do ex-verão ou sobre se a música que está tocando é boa ou não.

Friday, February 26, 2010

Foda-se o "como"

Sou absolutamente obcecada por Lost. Por isso, quando anunciaram que essa seria a última temporada, baixei ansiosa o primeiro e segundo episódios, esperando as respostas de todos os mistérios. Eu pensei: agora eles vão ter que explicar como a fumaça preta existe. Agora eles vão ter que arrumar explicações plausíveis de como as pessoas que não andam passam a andar na ilha, e de como os mortos voltam toda hora pra dar recados, e de onde vêm todos aqueles templos perdidos na mata. Quero ver como esses roteiristas vão sair dessa.

Já nos primeiros episódios deu pra sacar que nenhuma das minhas questões seria respondida. Ao menos, que não seriam respondidas com seriedade. A fumaça preta existe e pronto. Não importa o "como". Isso é menos importante no decorrer dos acontecimentos. Os mortos voltam porque eles voltam, e é assim que é. Acostume-se a isso.

No jornalismo, existem as cinco perguntas que toda reportagem deve responder: os famosos quem, quando, onde, como e por quê. Nas histórias de ficção, a regra deveria ser bem parecida, porque assim a coisa toda vez sentido, e quem assiste "acredita" naquilo que está vendo. Bem, parece que os roteiristas de Lost estão cagando para o fato de os espectadores estarem ou não comprando a história que eles estão contando. E o mais engraçado é que, quanto mais absurdo, mais a gente assiste. No True Blood é a mesma coisa. Em um mundo em que existem vampiros, lobisomens e bruxas, tudo é possível.

Então por que a gente continua vendo e baixando loucamente todas essas séries? Nem dá vontade de esperar chegar ao Brasil: é só ser exibido nos Estados Unidos que eu já to fazendo o download, em inglês mesmo. A gente compra o absurdo por mais absurdo que ele seja. Mas eu juro que queria saber como eles conseguem isso.

Tenho medo do final da série. Medo de eles chutarem o balde no final, cansados de tantos anos de mistério, e de repente arrumarem umas razões muito meia bomba pra tudo aquilo que aconteceu em cinco anos. Volta e meia a gente vê bons filmes com finais lamentáveis. Tomara que eles, os autores, não estejam tão chafurdados nos seus milhões que não tenham tempo pra pensar em como dar um fim digno à sua mina de ouro. Porque eles podem se foder pro "como", mas a gente não pode se fuder junto não.

Monday, February 22, 2010

Enquanto as horas passam

Deixa eu contar uma verdade sobre trabalhar em casa: a menos que você já faça isso há muitos anos e já esteja esquematizada pra que a coisa role devidamente, você simplesmente não trabalha. Hoje acordei, fiz compras, trabalhei um pouquinho, dobrei a roupa do varal (mas não passei por preguiça), fiz meu almoço, comi almoço assistindo TV, lavei a louça do almoço, bati papo com o filho do meu marido, guardei as compras quando o entregador do Pão de Açúcar chegou, tomei dois copos de suco, cozinhei batatas pro jantar e só então sentei de novo na frente do computador. E aí já eram 5h.

Enquanto fico em casa sozinha, fumo muitos cigarros e atualizo de quando em quando o meu twitter. Tudo para me enganar, para que eu não pegue na labuta. O Extremamente alto, Incrivelmente perto que eu peguei pra ler de novo - porque não há nada melhor pra ler na minha casa cheia de livros - ainda está jogado no sofá. Esqueci de dizer que assisti um episódio da primeira temporada de Barrados no Baile, e escrevi no meu blog de palpites.

Aaaaiii, como eu quero que chegue logo o momento de eu voltar a trabalhar loucamente. Não fui feita pra ficar esperando as horas passarem. Tenho sono. E pressa.

Sunday, February 14, 2010

Sobre a virada dos 30

Fico passada com gente na faixa dos 40 anos que demonstra insegurança adolescente. Eu achava que quando alguém chegasse a essa etapa, a vida já tinha tratado de ensinar algumas coisinhas - e uma delas seria como lidar com a baixa auto estima. Ou como organizar melhor a impulsividade. Ou como não fazer intriga. Então, toda vez que encontro alguém de 40 e poucos que me parece que ainda não aprendeu porra nenhuma do mundo, fico pedindo baixinho pra que eu, pelo menos, não chegue lá da mesma maneira. É a minha meta de vida, mais que ser promovida, ou comprar um apartamento. Que eu não vire uma quarentona adolescente!

Mas como eu disse, as coisas não são exatamente como eu imaginava. Quando tinha 20 e poucos, achava também que aos 30 eu seria uma pessoa completamente diferente. Bem resolvida, mais paciente - mais sábia, digamos assim. Que decepção foi perceber que, na verdade, a minha paciência diminuiu deveras dos 20 e poucos pra cá. Às vezes eu penso que devoluí.

Eu também vejo a falta de paciência nas minhas amigas de trinta e poucos. Talvez isso aconteça justamente porque a gente passa os 20 anos fazendo um monte de merda, e depois, quando chega aos 30, não quer repetir tudo de novo. Quantas vezes já ouvi por aí: "vacilou uma vez, então esquece", como se ninguém fosse inocente por errar uma vez! Sou adepta do sistema das 3 chances: um vacilo, ok; dois vacilos, humm; três vacilos, beijo e não me liga.
Mas as meninas balzacas não estão tão dispostas a deixar pra lá o primeiro erro.

Pode ser que isso aconteça justamente porque a gente se acha mais malandra aos 30, mais vivida, e pronta a reconhecer comportamentos repetidos. O que nos torna umas verdadeiras biches, quando você olha mais de perto. Ou então é o relógio biológico mesmo, que fica gritando enfurecidamente que a gente não tem tempo pra besteira.

A verdade é que a sabedoria não vem de graça com a idade, como eu achava quando era mais nova. Essa coisa de amadurecer dói pra caralho, tem que dar um duro danado, e não é só porque a gente ganha uns pés de galinha e umas celulites que automaticamente passamos a entender melhor os outros. Ou a lidar melhor com os loucos.
Eu acho que o foda mesmo é perceber que nada vem de graça, e que agora é hora de correr atrás do seu próprio aprendizado, e fazer todos os esforços pra isso. Pelo menos eu já saquei como funciona a brincadeira. Agora tá na hora de começar a crescer.

Friday, February 12, 2010

Sabe quando?

Sabe quando você apaga e reescreve o começo de uma carta por que na verdade não tem coragem de dizer o que está dentro de você?
Sabe quando você percorre sozinha por mil caminhos conhecidos e se sente ainda mais sozinha quando está acompanhada?
Sabe quando você explica algo a alguém e o seu ouvinte parece não entender absolutamente nada do que você disse?
Pois é.

Essa mulher que eu vou contar a história chegou em uma festa e, olhando ao redor, descobriu que não tinha absolutamente ninguém com quem conversar.
Primeiro tentou ficar sozinha, mas parecia que todos os seus movimentos eram filmados pelos outros. Depois tentou puxar assunto, mas descobriu que tinha pouco interesse no que lhe diziam. E aí, sem muita alternativa, foi pegar um drink no bar.

Como é mágico o efeito do álcool. Ficamos fluentes em línguas que mal sabemos falar. Nos tornamos especialistas em assuntos que não dominamos e passamos a ter certeza absoluta de que somos indispensáveis para a festa.
Essa mulher de quem eu falo, em pouco tempo, circulava pelos grupos que antes ela tinha rejeitado.

Sabe quando o mundo gira muito rápido, e de uma maneira muito irônica?

As doses vão aumentando, assim como o incômodo que ela tentava sufocar. O incômodo estava sempre lá. A raiva. Essa mulher de quem eu falo é um poço de ressentimento, e ela sabe disso. Ela pensava em ir embora, mas sabia que não conseguiria ir à francesa. Ela olhava pra porta, juntava suas coisas, mas não saía do lugar.

Sabe quando isso acontece?

Wednesday, February 03, 2010

Encaixotando Bruna

Meus 32 anos podem ser resumidos em sete caixas de papelão tamanho médio. Passei o dia juntando, arrumando e fechando com fita adesiva todo o meu tesouro, que basicamente se resume a livros, CDs e pequenos souvenirs de pessoas e lugares. Encontrei a carta que a minha avó escreveu quando me formei em jornalismo e tive vontade de chorar. E outra mega carta que escrevi aos 15 anos para a minha melhor amiga, uma colagem de slogans recortados da revista Capricho, que na época eu assinava. Anos depois, essa amiga me devolveu a carta para que eu relesse e guardasse as nossas histórias ingênuas de adolescentes. Guardei. Não tenho coragem de jogar fora tantos papéis inúteis que só servem pra contar a minha história.

Mas muita coisa foi pro lixo. Pilhas de VHS. Minha matéria de faculdade sobre as festas After Ours, que "começavam às 4h da manhã e iam até depois do sol raiar"- dizia o texto do off. Essa ficou. Também ficaram os filmes Super 8 do meu primeiro aniversário, e do casamento dos meus pais. E as cartas de amigos e parentes, e alguns presentinhos de ex namorados.

Cheguei a considerar jogar fora essas lembranças de amores passados. Um snowglobe com um ursinho segurando um coração onde se lê "Eu te amo" em alemão. Aquilo não faz mais o mínimo sentido: o menino que me deu isso de presente já casou, e eu também estou casando. Nossos ursinhos segurando corações são para outras pessoas agora. Mas... não tive coragem. Eu também sou esse ursinho esquecido. Então o snowglobe voltou para a caixa de lembranças de onde não sai há muitos anos. Pobrezinho, faz tempo que não vê a luz do sol.

E todas aquelas credenciais de imprensa. Por que todo jornalista gosta de guardar as credenciais de imprensa dos eventos que cobre? Parece uma espécie de prêmio, uma medalha. A minha mais importante é a do tapete vermelho da última turnê do Michael Jackson, quando eu morava em Nova York, em 2001. Mas também tem a do Rio Parede, que eu e Ana Paula conseguimos. Não estávamos trabalhando, é óbvio. Mas subimos nos trio elétricos ao lados de nossos amigos DJs e vimos o povo dançar pela Avenida Rio Branco abaixo. E também dançamos muito. Eu sempre soube me divertir como ninguém.

Agora tudo isso está guardado em sete caixas médias, esperando para se acomodarem no apartamento novo. Não sei onde vou arrumar espaço pra tudo isso. Mas vou arrumar. O meu tesouro precisa continuar comigo. Mesmo que esteja enterrado e semi esquecido.

Thursday, January 14, 2010

Mais Palpite

Texto novo no www.palpiteria.blogspot.com

Feliz ano novo

Em 2010, casei e mudei. Não tem nada mais simbólico que começar o ano com endereço novo e estado civil alterado. agora eu faço listas de compras e não janto mais um queijo quente e um copo de suco. Agora eu finalmente aprendi como se lavam verduras e legumes, e não compro mais aquelas saladas lavadas do supermercado Zona Sul. E também não frequento mais o segundo coqueirão da praia de Ipanema - se bem que isso não tem a ver com o fato de, agora, eu ser uma mulher casada.

Minhas amigas, a maioria de solteiras, me perguntam toda hora como é a vida a dois. Pois eu digo: por enquanto é uma colônia de férias. Cozinhar juntos é legal. Fazer compras juntos é legal. Lavar as cuecas do meu marido (na máquina de lavar também conta, né) e depois dobrar tudo e deixar em cima da cama é legal. Descobri que sempre fui uma Amélia incompreendida. To adorando essa história de brincar de casinha.

Fora isso, são as férias e a quase impossível missão de abrir espaço pras minhas coisas em uma casa que já está montada. Consegui negociar colocar o poster que a Luiza trouxe pra mim de uma feira de design na Alemanha na parede do banheiro, e aluguei uma garagem na esquina de casa com manobrista tudo. E de vez em quando eu vou dar uma volta na praia. Mas ainda não parei de fumar nem conheci uma cidade da América do Sul.

Tem muita coisa ainda a relizar em 2010.

Tuesday, December 15, 2009

Falta muito pro ano que vem?

Todo ano é a mesma coisa: os meses correm sem a gente perceber, mas quando chega dezembro, fica tudo leeento. Parece que dezembro é um mês café com leite: tudo o que a gente planeja, todas as mudanças e os sonhos ficam pra janeiro. A única função de dezembro, além de comer peru e gastar o que não tenho com presentinhos variados, é listar possíveis novidades para o novo ano. E contar os dias para que esse novo ano chegue logo.

É que 2010 vai ser tão diferente. Vou mudar de casa, de trabalho. De vida eu já venho mudando há um tempo, meio que me preparando pro que chega. Mas dá um frio na barriga. Um frio do tipo que é bom. Fazia bastante tempo que uma virada tão radical acontecia no final de um ano. É como uma era que se encerra.

Outro dia fui fazer compras pra minha casa nova. Estou gostando dessa história de brincar de casinha, porque meu apartamento na São Slavador acabou virando um monte de móveis doados amontoados, uma coisa nada a ver com a outra, uma coleção digna de brechó de Santa Teresa. Mas como eu gostei de morar ali. Foram dois anos e meio de muitas festas, muitos amigos gringos dormindo no sofá, muitas manhãs de domingo ouvindo chorinho na praça. Hoje a praça acorda no domingo já lotada de barracas e de gente por todos os lados. Confesso que preferia antes, quando éramos apenas alguns gatos pingados, sentados no coreto, curtindo a música. Ou quando eu chegava do trabalho e encontrava amigos na muretinha, e já ficava por lá mesmo, estragando toda a minha programação baladística do Rio de Janeiro. Eu aproveite demais o meu bairro. Saio de lá com boas lembranças.

E aí, tem o bairro novo. Que eu ainda não vou dizer qual é. Um bairro que eu aprendi a gostar ao longo de 2009, que antes eu dizia ser caótico demais pra mim, grande demais pra mim, impessoal demais pra mim. Mas que, de repente, começou a fazer algum sentido. E que já me faz sentir em casa.

Mas enquanto é dezembro, todas essas coisas ainda estão no quase. E é isso que me deixa ansiosa. Não gosto de quases, nem de nada em cima do muro. Então fico na expectativa de que os dias andem logo. Feliz com a minha casinha nova e com a vida completamente diferente que me aguarda lá. Com medo também. Mas com aquele tipo bom de medo, que precede todas as grandes mudanças pelas quais a gente passa.

Thursday, December 10, 2009

Gente que mora longe

Tenho uma amiga do peito que há pouco tempo chegou da Austrália pra passar férias no Brasil. Eu não encontrava com ela há mais de 2 anos mas, no momento em que nos vimos, foi como se tivéssemos ficado apenas uma semana sem nos falar. Foi quando eu percebi que não há distância nem tempo que separe duas grandes amigas.

Penso nisso porque descobri que existe gente muito importante pra mim que mora fora do país. Gente que eu gosto demais, e que falo de menos; que planejo visitar, mas nunca vou de fato; que marco conversas no Skype e furo. Mas é gente que eu queria ter ao meu lado no ano que vem, quando darei uma mega festa pra comemorar coisas boas. Coisas incríveis que se anunciam em 2010.

No ano passado, passei o reveillon na Espanha, com outra grande amiga. Eu, ela, a que mora na Austrália e mais uma amiga que (ainda bem) está pertinho de mim formávamos um grupo fechado no colégio. Éramos quatro meninas inseparáveis, cada uma mais diferente que a outra: a pseudo alternativa (eu), a atleta (a Sandra), a popular (a Malu) e a aluna-nota-10 (a Cris). Com o passar do tempo, cada uma foi tomando um rumo no planeta: a primeira a se desgarrar fui eu, quando fui morar em NY. Depois a Sandra, que entre idas e vindas para a Austrália, resolveu se fixar de vez por lá. Depois a Malu, que descobriu a Europa e se apaixonou perdidamente por um espanhol. E a Cris que, estudando medicina, vivia enfurnada em plantões e provas de residência.

E, mesmo assim, vez ou outra, a gente ainda consegue se encontrar.

Monday, December 07, 2009

Todos os corações ao mesmo tempo

Não gosto de futebol. Quer dizer, gosto um pouco de futebol, mas posso perfeitamente viver sem 11 homens e uma bola. Posso ficar anos sem abrir o caderno de esportes do jornal. Ou sem saber o nome do técnico do meu time. Mas nos últimos meses acontece que passei a conviver intensamente com uma pessoa que adora, idolatra, respira o Botafogo. E quando me dei conta, lá estava eu assistindo partidas domingueiras na televisão - mesmo quando dava praia.

E ontem foi a final do Brasileirão 2009, a mais animada e emocionante dos últimos tempos. Vários times precisavam de ajuda de outras partidas pra fugirem do rebaixamento ou ganharem a taça. Um amigo assistiu à partida do Flamengo na sala, e meu namorado foi ver a do Botafogo no quarto. Sem mais TVs disponíveis, acabei vendo o jogo do Flu pela internet e pelos avisos de Gol que volta e meia apareciam na tela. Aliás, a cada aviso, meu estômago revirada. É que bastava um pontinho marcado pelo oponente para que o Fluminense caísse para a segundona. Torci pelo não rebaixamento com a mesma intensidade do meu amigo flamenguista que torcia pelo título do campeonato. Eram dois campeonatos diferentes naquele apartamento de Copacabana.

Eu respeito o Flamengo, mas não gosto da torcida. Acho a maioria arrogante, mal educada e briguenta. Mas ontem, quando os urubus ganharam, admito que a festa foi bonita: mil janelas da Miguel Lemos se abriram e gritaram "Campeão!", gente nas ruas urrava de alegria, carros buzinavam. Parecia final de Copa. Pela primeira vez, fiquei feliz pelos flamenguistas e por seu time.

Depois ainda tive uns minutos de angústia com o final da partida do Fluminense. E assisti à briga ridícula da torcida do Coritiba. Essa é a parte mais babaca do futebol. E tem gente que se vangloria das brigas. Tem gente que acha que é prova de amor ao time. Tem gente que não percebe que cruzou a linha da admiração e entrou na obsessão. E eu nem me refiro apenas a futebol.

Thursday, December 03, 2009

Mais um

Texto novo no Palpiteira

Sofá poliglota

Ontem chegou lá em casa uma menina de Cingapura,m que atende por um nome americano: Cristal. Ela vai passar uma semana dormindo no sofá da minha sala, e visitando pela segunda vez a cidade que, segundo ela, é o melhor lugar da América latina: o nosso Rio de Janeiro. Cristal está há um ano rodando pelo Brasil e pela América do Sul. Como tantos jovens estrangeiros, ela terminou o colégio, trabalhou uns seis meses pra juntar uma grana, e depois pôs a mochila nas costas. Quando ela voltar pra casa, ela vai procurar um emprego e começar uma faculdade.

Acho a tradição gringa de viajar durante um ano uma bela maneira de se despedir da vida adolescente e entrar na adulta. Toda a vida de Cristal nesse período se resume a uma mega mochila, uma outra mochila menor, e uma bolsa. Esse é todo o seu tesouro. E, vendo ela chegando lá em casa ontem, pronta pra sair pra rua mesmo depois de 10 horas de viagem de ônibus, dá pra imaginar que realmente não se precisa de muita coisa pra conhecer coisas e pessoas e lugares diferentes.

No Brasil, nosso primeiro grande sonho de viagem é conhecer a Disney. Nosso presente de 15 anos. Contei para um sueco que também dormiu no sofá da sala na semana passada (pois é, a rotatividade internacional é grande! Ainda bem que instalei um ventilador de teto, se não todos esses gringos iam passar um mega sufoco nas noites abafadas cariocas), que existe uma tradição brasileira quando se chega aos 15: ou você escolhe fazer uma grande festa, como um baile, um prom night, ou você viaja pra Disney.

Ele achou tão curiosa essa nossa história. "Mas por que a Disney", ele quis saber. E eu não sabia por quê. Minha irmã mais nova preferiu San Diego, mas minha irmã do meio e eu éramos malucas pra conhecer os parques do Mickey.

Mas nós, classe média brasileira, não temos o costume de encarar culturas e línguas completamente diferentes das nossas. E nem se pode falar de falta de dinheiro, porque essa galera que vem pra cá aos 20 e poucos também é duríssima, como são os jovens que estão começando a cair na vida real. Mas, então, por que eles podem e a gente não?

É claro que ser filho de uma moeda forte ajuda no start. Em qualquer empreguinho que se consegue, eles ganham em dólar e euro, o que facilita bastante. Mas eu acho que, mais do que a barreira econômica, existe um comodismo entre nós, que nos impede de juntar as coisas e encarar furadas.

A Cristal quase não viajou de avião durante esse ano de peregrinação. Foram horas e horas de ônibus, que ela aceitava na boa. Também não procurou grandes hotéis, nem partiu pra restaurantes muito caros. Pra se ter idéia, no Rio, o que ela gosta de fazer é ir pra Lapa: um programa barato e muito bom pros gringos, que acham aquela bagunça a coisa mais exótica do mundo.

A Cristal, com seus vinte e pouquinhos, conhece muito mais lugares da América do Sul do que eu. Com certeza ela conhece o Brasil bem mais. E olha que eu já viajei muito por aí gravando. Já fui em cada cidade inacreditável, que nem figura no mapa.
Mas ontem, quando ela me perguntou se eu conhecia as Cataratas de Iguaçu, tive que dizer que não.

Wednesday, December 02, 2009

Blog novo

A louca, compulsiva por blogs, acabou de inventar outro.
É esse aqui: Palpiteira

Friday, November 27, 2009

Vantagem feminina

Hoje o cara do Detran me liberou da vistoria mesmo tendo uma lanterna queimada no carro. Eu pensei: "Tenho que aproveitar isso enquanto não chego aos 50". Porque, convenhamos, essa boa vontade do funcionalismo público só acontece quando o atendente é homem e o atendido é uma mulher relativamente jovem.

Essa é a vantagem de ser mulher. Basta um sorriso largo para que o cara do outro lado do balcão se desmanche em cavalheirismos. Parece que, quando vê uma mulher pela frente, o homem fica imediatamente mais bobo, mesmo que essa mulher não dê necessariamente um mole pra ele. Eu não dei mole pro cara do Detran. Mas ele liberou o meu carro.

Descobri a vantagem feminina muito depois das minhas amigas, quando já estava na faculdade. Foi observando o comportamento dos professores com as alunas, e depois com os alunos, que ficou claro com quem os mestres tinham mais paciência e benevolência. Mas volto a dizer que naquele jogo não havia nada de sexual - pelo menos, não explicitamente e racionalmente. Era mais como uma magia, um feitiço que a aluna, sem perceber, jogava no professor barbado e com muitos anos de praia. E essa foi a minha segunda descoberta: nesse jogo, só importa a idade da mulher, e não a do homem - velho ou novo, ele nunca resiste a um sorriso.

Claro que essa regra só se aplica a mulheres bonitas. E claro que, quanto mais bonita, menos "nãos" uma mulher recebe na vida. O que me faz lembrar de uma grande amiga minha, que também é muito bonita. Só que ela, justamente porque era bonita demais, não mostrava o seu sorriso a torto e a direito. Dizem que as mulheres muito bonitas também são muito metidas a besta. A julgar pela minha amiga, o que dizem é verdade. Ela é queridíssima, mas também metidíssima, se é que isso é possível. E ela sabe disso, e acha até engraçado.

O sorriso largo é a arma que as mulheres medianas usam, aquelas que não são nem estrelas de cinema, nem monstros do Lago Ness. É a arma que eu uso, pelo menos. O bom é que sorriso largo e simpatia não desaparecem depois dos 50. E do jeito que a coisa vai indo, quando tiver 50 anos vou ser ninja na arte de conseguir as coisas com um sorriso. É aquela velha história: tá no inferno, então abraça o capeta.

Wednesday, November 25, 2009

Os inesquecíveis de 2009

Parada no meio da estrada pra comer neve, na Espanha.
La Alhambra.
O Paquistanês do café de Barcelona.
O show do Radiohead.
Declarações de amor e castelos construídos na areia.
A primeira vez que cheirei (e achei uma merda, diga-se).
O karaokê indie e a minha redenção aos palcos da vida.
Uma conquista financeira e uma sentimental.
A volta à análise.
Meu primeiro roteiro elogiado.
Apendicite.
Gente chata x gente legal.
Gente louca.
Saudade dos amigos.
E outras coisas. Tantas outras. Pequenininhas. Todas valeram. Até as ruins. Eu agradeço todo mundo. Até quem me odeia. Até os loucos e os injustiços. Esses fizeram as coisas boas serem muito melhores! Até os loucos e os injustos merecem meus agradecimentos.

Arroz e ansiedade

Ontem eu fiz arroz. Fiz tudo direito, o arroz ficou soltinho, mas esqueci de colocar sal. Parece besteira, mas isso me resume um pouco: faço tudo bem certo, mas sempre rola uma cagada final. Tudo bem, antes pouco do que muito sal na comida. Compensei o erro com uma pitada extra com a porção já no prato. E se eu não contasse ninguém saberia que esqueci do sal. Mas eu não me satisfaço em fazer a pequena cagada do dia: eu tenho que divulgá-la e de me crucificar porque cometi o erro mais tosco do mundo fantástico das cozinheiras.

Ontem também foi o dia em que me avaliaram no trabalho. Adivinha: minha atuação supera em tudo. Mas é claro que supera, como poderia ser diferente?, eu penso. Do jeito que sou completamente viciada em trabalho, do jeito que priorizo a carreira na minha vida, impossível não superar as expectativas da chefia. Só que...

Só que eu sou ansiosa. Demais. E isso foi colocado na minha avaliação. Não entendi. Fiquei olhando a minha chefe dizendo que eu tinha que relaxar mais e fumar menos. Ela falou na boa, não foi uma bronca. Mas eu não entendi como se faz. Ela disse que eu tenho que continuar sendo uma profissional que supera expectativas, mas sem adquirir uma gastrite. Mas eu nunca tive problemas com gastrite, argumentei. Eu já tirei um apêndice, que não serve pra nada mesmo. E já fumei muitos cigarros, mas to a caminho da abstinência. Mas nunca tive nada com gastrite. Isso não. Tudo menos isso.

Fiquei olhando a minha avaliação ser preenchida com esse porém. O que passava na minha cabeça era: será que por causa disso não vou conseguir um aumento? Porque eu quero um aumento, eu mereço esse aumento, e eu não tenho a mínima vontade de continuar ganhando o que eu ganho. Portanto, é fato: vou ganhar o aumento.

Mesmo com toda a minha ansiedade.

Tuesday, November 24, 2009

Viver sem tempos mortos

Finalmente fui ver a peça da Fernanda Montenegro. E foi tudo aquilo que eu esperava, e mais um pouco. Noi cenário, apenas uma cadeira e um canhã de luz em cima da atriz. E o texto saindo da boca de Fernanda, naquela voz rouca que ela tem. A história de Simone de Beauvoir, a mulher mais livre que já existiu no mundo. Até hoje em dia, Simone de Beauvoir seria uma mulher muito mais livre do que todas nós. Ela seria considerada uma puta, ainda hoje. O que me faz pensar que as putas sempre foram, e sempre serão, mais livres do que a maioria. Eu achava que puta era um xingamento. Agora já acho que é um elogio.

Só de uma coisa Simone não era livre: seu amor por Sartre. Ela era escravizada por esse amor, não conseguia se livrar das amarras dele. Abandonou uma grande paixão para voltar a Sartre. O mesmo que disse a ela que não a via mais com desejo. Eles continuaram juntos, mesmo sem sexo. Faziam sexo com coadjuvantes, com gente sem importância na história dos dois. Mesmo que eu viva mil anos, não vou saber nunca que tipo de amor é esse.

Quando você se dá conta, a peça acaba. Mas peraí, só se passaram 20 minutos? Não, se passou uma hora. Não sentimos. E ficamos com a sensação de que aquele texto deveria ser gravado, porque perdemos muita coisa do que é dito. Cada linha é essencial. Cada frase tem que ser carregada pra sempre. Eu não gosto de teatro. Mas gosto da Simone, e da Fernando e do Felipe.

Wednesday, November 18, 2009

5 coisas que um homem não deve dizer a uma mulher

No jantar do primeiro encontro
1 - Puta que pariu, 200 reais!?!?
2 - Eu pago agora e você paga depois.
3 - Dá licença que eu vou dar uma seringada.
4 - Tenho que ir ao banheiro, o camarão já tá fazendo efeito.
5 - Tá explicada a conta. Só o seu prato foi R$60.

Depois do sexo
1 - Você fez tudo certinho.
2 - Foi ótimo, mas ainda não bateu a vez que eu comi aquela garota boa pra caralho lá em Porto Seguro.
3 - Minha ex-namorada chupava muito bem.
4 - Desculpa, mas eu gosto de ficar sozinho depois que gozo. Depois a gente se fala.
5 - Sabe aquela hora que eu coloquei a camisinha? Então: era mentira! Te engane-ei, te engane-ei!

No email
1 - "Gata, derrepente vc topa faser uma viajem comigo?"
2 - "FoI DiMaiXXX oNtEm Di NoIti!"
3 - "voce sabe eu queria ver voce de novo mas nao sei quando posso me liga quando vc puder ai a gente combina tenta amanha..."
4 - "Passe esse email para 20 amigos e um desejo vai se realizar. Se não passar, você vai perder as duas pernas em duas horas."
5 - "Era assim que eu queria ontem" (título do email: As Melhores Chupadas da Rede)

Apresentando pros amigos
1 - Essa aqui é a Vânia, quer dizer, a Luana.
2 - Essa aqui é a Luana. Ela que eu falei que faz aquele barulho quando ta gozando.
3 - Essa aqui é a Luana. É por causa dela que eu não faço mais porra nenhuma com a galera.
4 - Essa aqui é a Luana. To preso em casa mas to trepando bem mais que vocês!
5 - Namorada? Não, essa aqui é a Luana...

Conhecendo sua família
1 - A Luana tem essa cara de santinha, mas vou te falar que ela não é santa não!
2 - To com uma idéia incrível, ta a fim de entrar com uma grana não?
3 - Eu trouxe um livrinho da Herba Life pro pessoal dar uma olhada aí de bobeira.
4 - Passa o sal que a comida ta meio sem gosto.
5 - Bom saber que um dia tudo isso vai ser meu.

Wednesday, November 11, 2009

Simone de Beauvoir

Conheci Simone de Beauvoir depois de achar "A Convidada" esquecido em uma prateleira empoeirada lá de casa. A minha casa tinha disso: dezenas de clássicos mal organizados onde um dia os meus pais se lambuzaram. E eu passei a adolescência desvendando essas prateleiras e, vez ou outra, descobrindo autores que me acompanhariam ao longo da vida.

Assim foi com Simone. Devorei "A Convidada" e tratei de procurar outro livro dela na minha biblioteca esquecida particular. Encontrei "Todos os homens são mortais", romance que ganhou o Nobel de Literatura. Pronto, estava decretada a paixão por essa escritora.

Mas eu não sabia que ela era feminista. Eu tinha uns 20 anos quando dei uma lida em "O Segundo Sexo", e descobri do que se tratava, na verdade, Mme Beauvoir. E nunca mais esqueci de uma frase: "A mulher só conquista quando se faz de presa". Quanta verdade! Uma verdade que eu nunca consegui seguir. Mas que eu via que dava certo, quando praticada por meninas mais sabidas e malandras que eu.

E depois eu soube que ela, mesmo feminista, e casada em casas separadas com o Sartre, escrevia pedaços do romance do marido e deixava que ele assinasse. Até a mais feminista das mulheres se rende à vida da Amélia quando está apaixonada. É como disse a Madonna: "Toda mulher quer lavar a cueca do marido". Até Simone de Beauvoir! E eu não acho errado. Acho lindo Simone lavando as cuecas do Satre. Acho uma prova de amor.

E, pensando em tudo isso, decidi pagar os R$80 do ingresso para assistir Fernanda Montenegro encenando "Viver sem tempos mortos". Sim, são R$80 reais que me farão muuuita falta. Não, eu não tenho carteira de estudante, por motivos de vergonha na cara. Sim, meus amigos e meu namorado me acham maluca de pagar tanto, e por isso eu vou sozinha.

Mas, veja bem: estamos falando de um texto baseado nas cartas de Simone a Sartre, interpretado por Fernanda Montenegro e dirigido por Felipe Hirsch! Eu não gosto de teatro. Mas eu gosto dessa combinação. E gosto de estar sozinha nessas horas, pra absorver melhor o que está acontecendo no palco.
Eu vou. E depois eu conto como foi.

Wednesday, November 04, 2009

Vizinhos

Meus vizinhos são ótimos. Não conheço ninguém pessoalmente, mas só o fato de não ter recebido uma única reclamação depois de uma dúzia de festas bombantes já me faz simpatizante dos meus companheiros de prédio. Uma vez, conheci por acaso a menina que morava no apartamento logo abaixo do meu. Ela mora lá com o avô, o que me fez ficar muito envergonhada por todos os sábados de barulheira na minha casa. Mas, para a minha surpresa, ela disse que nunca ouviu nada demais vindo do andar de cima, e eu fiquei de convidá-la para a próxima festa. Mas a verdade é que eu nunca convidei. Tipicamente carioca.

A minha vizinha da frente gosta de ouvir Ivete Sangalo bem alto. Às vezes é bem irritante, ainda mais porque é impossível ouvir a TV quando ela tem esses acessos de animação. Mas não, eu nunca pedi pra abaixar o som. Principalmente depois que uma turma de amigos alcoolicamente alterados confundiu os apartamentos e acabou tocando no lado de lá quando já era 1h da manhã. Ela não disse um ai. Então eu também não digo.

Em cima do meu apartamento mora um menino de uns cinco anos chamado Vitor. O Vitor toca o rebu toda vez que vai tomar banho: graças à acústica privilegiada do meu prédio, posso ouvir a empregada implorando pro moleque ficar quieto e parar de jogar água nela. O Vitor me faz questionar seriamente se vale a pena ter filhos. Mas a verdade é que quando o encontrei no elevador, achei aquele garotinho tão fofo que até esqueci que ele é um capeta. É assim que as crianças enganam a gente.

Uma vez, a minha vizinha do térreo distribuiu uma carta por todos os moradores da minha coluna pedindo gentilmente que parassem de jogar camisinhas usadas no quintal dela. A carta tinha um tom sarcástico que me fez querer chamar a tal vizinha pra um chá: "Fico feliz que meus vizinhos da coluna 3 tenham a vida sexualmente ativa, e mais feliz ainda de que estejam fazendo sexo com proteção. Mas o meu quintal não é lata de lixo", dizia o recado. E acho que deu certo. Ou alguém parou de fazer sexo, ou parou de jogar as camisinhas lá embaixo.

Outro dia fui pagar a minha vaga alugada na garagem do prédio e descobri que a dona da vaga tem duas irmãs absolutamente iguais a ela. São três senhorinhas baixinhas e gordinhas, que moram no prédio há muito tempo. Bem simpáticas, me convidaram pra um café e um bolo, que eu tive que recusar. Vizinho bom é vizinho distante.

Lembrei de como sou sortuda com meus companheiros de porta por causa do episódio de uma amiga que acabou de comprar um apartamento. No dia do Open House do cafofo, um chatinho que mora no prédio foi exigir o fim do encontro às 23h. E era domingo, véspera de feriado.
Que saco. Deve ser muito ruim viver cercada de gente desse tipo.

Wednesday, October 28, 2009

Faça a coisa certa

Sofro da Síndrome da Helena do Manoel Carlos: tenho a mania de querer fazer tudo bem certinho. De ser correta e ética em todos os momentos da minha vida. De trazer o bem, de fazer crescer, de ser uma pessoa quase iluminada. Mas acontece que tenho comigo uma certa dose de maldade que não me abandona.

Não é tão fácil nem tão óbvio assim fazer a coisa certa. Às vezes a gente sabe o que é certo, mas finge que não tá entendendo e acaba caindo pro errado só pela diversão.

Eu sofro com isso. Eu me culpo por escolher a diversão e não a perfeição. Até porque correr atrás da perfeição, além de inútil, é frustrante. Mas eu me culpo. E carrego uma grande cruz por ser somente mais um ser humano no mundo. Nasci pra ser milionária, mas me fizeram jornalista. Nasci pra ser Joana D'Arc, mas me fizeram Bruna Paixão. Um ser pequeno e mesquinho como qualquer outro ali da esquina. Um ser demasiadamente humano que não veio agradeciado com aquela estrela dos homens incríveis.

Saturday, October 24, 2009

Dostoiévski

Redescobri meu escritor preferido. Foi um dia em que eu andava pela Avenida Paulista, e vi vendendo em uma banca de jornal alguns dos livros do melhor escritor de todos os tempos. Eu já tinha comprado dois livros no aeroporto do Rio, mas não resisti e acabei embolsando mais um. Dost é Dost. Não há comparação.

Comprei Notas do Submundo, um livro de contos que deu origem à Crime e Castigo, o mais maravilhoso (e perigoso) romance já escrito. É um livro bem fininho, pequenininho, mas intenso. A cada frase lida, dá vontade de reler, só pra fixar melhor o que o cara quis dizer. Dá vontade de decorar o livro pra ver se eu me torno uma pessoa menos medíocre. E, quando você termina uma página, tem a sensação de que ele levou um ano pra escrevê-la, tamanha a profundidade que o pensamento do Dost alcança. Dostoiévski é um tesão.

Com tanta coisa a dizer e tanto sendo pensado, eu juro que fiquei imaginando como era a vida dele com a mulher. Como é sentar com Dostoiévski no café da manhã, discutir para onde vão no fim de semana, preparar um jantar para os amigos. Como é trepar com Dostoiévski, pelo amor de deus? Será que ele era sempre assim, incrivelmente intenso? Será que ele tinha sempre algo indefinivelmente necessário a ser dito?

Como todos os outros gênios, ele devia sofrer. Eu admiro que escolhe o caminho do sofrimento em nome da arte. Eu não conseguiria. Nem ninguém que eu conheço. Todos os que me rodeiam, até os mais inteligentes, parecem filhotes de subpensadores quando comparados aos grandes nomes. Houve um tempo em que eu queria ser assim, grande também. Em que eu lia Clarice Lispector aos montes, e sofria, e achava que sorrir era para palhaços ou para ocasiões extremamente necessárias. Mas depois vi que não dava pra viver assim: mesmo que eu me tornasse a pessoa que menos sorria no mundo, nunca seria Clarice Lispector. Muito menos Dost. Quem sabe, forçando uma barra, eu chegava num Paulo Freire...

Mas também não importa. Eu estou aqui pra ler todos eles, sem acreditar como alguém pode ter ecsrito aquilo. Estou aqui pra perguntar na rua onde as pessoas gostam de fazer sexo. E pra tomar chopes e fazer viagens no fim do ano, que continuo pagando ano adentro.
E você acha que tá ruim assim?
Não. Tá ótimo!

Wednesday, October 21, 2009

Não há admiração mais deliciosa que a do inimigo

Mais um texto em que o título não é meu. Dessa vez, a frase é de Nelson Rodrigues. Essa frase tem uma certa verdade maldade irresistível. Porque todos nós somos um pouco maus. Não importa o quanto a gente lute contra isso.

As pessoas que me odeiam me deixam muito intrigada. Porque eu acho que ter um inimigo é o mesmo que ter um admirador. Como Nelson Rodrigues disse, é uma admiração raivosa da parte do outro. É acreditar que seu desafeto é mais que você. E que merece a sua atenção. É lisonjeiro ter inimigos.

Eu não odeio ninguém. No máximo, classifico um desafeto como "chato". Mas querer mal, querer ver sofrer, isso eu não desejo pra ninguém. A não ser, é claro, que alguém faça mal a uma pessoa que eu ame. Aí viro um bicho cheio de garras e dentes arreganhados.

Mas é claro que tenho inimigos. Uns velados, outros de cara limpa, e esses eu respeito mais. O que eu não entendo é por que a minha vida pode despertar inveja, raiva, violência. Não sou rica, não sou famosa, não sou magra como gostaria de ser. Os meus cabelos são esticados e pintados, ganho menos do que eu acho que merecia ganhar. Tenho um namorado inteligente e com quem me divirto bastante, muitos amigos e uma família legal, é verdade. Mas isso é suficiente para incomodar alguém?

Não gosto de algumas pessoas. Não sou obrigada a gostar de todo mundo; ninguém é. Mas pra esses eu só dirijo um leve desprezo. E não deixo que participem da minha vida. Pra mim, basta uma vez pra que eu risque alguém do meu caderninho. Continuo me surpreendendo com gente que gasta tempo pensando em como me atingir. Fico assustada e... vaidosa.

Sunday, October 11, 2009

Vestido de noiva

Hoje sonhei que ganhava um vestido de noiva de uma grande amiga que não vejo há muito tempo. Ela mora na Austrália, mas no meu sonho vinha visitar o Brasil e trazia na mala vários vestidos de noiva para presentear as amigas. Fiquei feliz ao ganhar o meu vestido, mas achei estranho ser presenteada com um tipo de roupa tão específico. "Que que eu vou fazer com isso?" - eu pensei. Mas vesti o presente mesmo assim.

Pra minha surpresa, o vestido já era usado. E, mais do que isso, ele já estava todo rasgado e remendado, velho demais pra mim. A noiva que tinha usado o vestido antes havia casado grávida, e por isso sobrava um bom pedaço de tecido na minha barriga. Enfim, o vestido era um desastre, e no sonho eu só pude me lamentar e guardar o presente sabendo que ele nunca seria usado.

Só à noite fui me dar conta do que significava esse sonho. Até o fato de a minha amiga ter aparecido acompanhada de um homem lindo e louro, e não o pai de seu filho, fez-se claro pra mim. Achei engraçado entender tudo de uma só vez, como uma pancada na cabeça. Mas o significado vai ficar só pra mim. Os curiosos que tirem as suas conclusões.

Saturday, October 10, 2009

São Paulo

Que delícia que é voltar à terra da garoa. Eu adoro São Paulo. Eu gasto muito dinheiro em São Paulo. Eu invariavelmente engordo em São paulo, porque aqui come-se bem e barato (e caríssimo também, se você preferir) todos o tipos de comida.

Hoje foi um dia de comilanças. Mal cheguei e fui me empanturrar de hambúrguer no Fifities, daqueles que a gente mal consegue segurar de tão grande. Depois fui dar uma volta no shopping, mas sem gastar um centavo - ainda pago as contas da minha última visita a essa cidade (inclusive o celular, que apareceu com uma fatura tão alta que eu tive que parcelar, que vergonha!).

Pela próxima semana esse hotel da Consolação vai ser a minha casa. Mas eu estou em casa mesmo: viveria facilmente em um hotel quatro estrelas, principalmente em um bairro como esse, cercada de amigos que revejo em momentos bissextos.

Thursday, October 08, 2009

Hamster Hamlet

Se eu tivesse um hamster, ele se chamaria Hamlet. Eu o colacaria numa daquelas gaiola de roedores com água, comida e uma roda pra ele se exercitar E se exercitando, o meu hamster ficaria filosofando: correndo no mesmo lugar e pensando sobre temas subprofundos - Ser ou não ser, heis a questão.
Não há nada que me defina melhor do que um roedor que corre no mesmo lugar e pensa sobre as dores do mundo.

Minha monografa foi sobre Hamlet. Eu descobri Shakespeare na segunda metade da faculdade, e passei a consumir avidamente todos aqueles livros de bolso que são vendidos em bancas de jornal. E me apaixonei por Hamlet. Atormentado, sombrio, triste, vingativo, rancoroso, belicoso príncipe da Dinamarca. E que odiava as mulheres. Acho que Hamlet era gay.

Minha primeira idéia foi falar sobre a visão das mulheres nas obras de Shakespeare. Depois mudei: resolvi escrever sobre as versões cinematográfias da história de Hamlet - tema que, além de pomposo, tinha tudo pra dar errado. E deu. Tirei uma nota bem aquém da que gostaria de ter tirado (queria dez, é claro), e me frustei com meu professor orientador, que mais me desonrientava que ajudava.

Mas não dá pra culpar o professor. Eu quis dar um passo maior do que as pernas, talvez, e o resultado foi medíocre. O lado bom é que conheci intimimante um dos mais importantes clássicos da humanidade.

Agora, gosto de imaginar o meu hamster atormentado. Querendo se livrar da stuação que ele mesmo criou, mas sem conseguir sair do lugar. Se eu tivesse um roedor de estimação, ele seria assim. Mas não tenho paciência para animais que não me dão carinho.

Wednesday, October 07, 2009

Trens

Hoje sonhei que estava indo de trem para o Alasca. Era um trem bala e eu viajava com uma família que mal conhecia. Nesse trem encontrei meu ex-namorado, mas ele não ia para o mesmo lugar que eu. Na verdade, ele falava ao telefone com a namorada nova, e por isso o nosso encontro foi rápido e meio tenso. Mas não fiquei triste: quando me dei conta já estava no Alasca, observando a paisagem que parecida editada diretamente do filme Na Natureza Selvagem.

Eu sei por que sonhei com esse trem. No livro que estou lendo há uma cena de desencontro que acontece no Eurostar. Acho que fiquei com essa cena na cabeça, porque é tão triste e tão "quase dá certo, mas na verdade dá errado", que me fez pensar sobre pequenos desencontros que podem acabar com sentimentos verdadeiros.

E também me lembrei da viagem que fiz de Barcelona e Granada. Foram 11 horas de trajeto cruzando a Espanha em um trem convencional, com curtas paradas para fumantes inveterados (como eu), e paisagens inesquecíveis. Foi um dos momentos mais especiais na minha viagem de fim de ano, um oásis no meio da loucura daqueles dias.

Da janela do trem, eu vi La Mancha. Vi os três moinhos em cima da colina, o chão verdinho apesar do inverno rigoroso, as hélices girando. Passei por inúmeras cidades minúsculas guardadas por um castelo medieval pousado em cima do morro. Passei por neve, neve e mais neve, e quando o trem parou, peguei um montinho e comi como se fosse sorvete.

Alguma coisa diferente acontece com a paisagem quando a gente a observa de dentro de um trem. Não sei se é a suavidade da viagem que deixa tudo mais poético, ou se passamos no meio de campos por onde carros nunca passariam. Mas é apaziguador e belo. E me faz bem até em sonhos.

Tuesday, October 06, 2009

Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.

A frase é da Clarice Lispector. Outro dia eu li e fiquei pensando sobre isso. Que a gente é livre pra fazer o que quer, mas na verdade somos prisioneiros de nós mesmos. Eu me senti prisioneira de mim por um longo tempo, até entender que eu era a única responsável por fazer as coisas darem certo. Cada um é seu próprio deus, e tem controle absoluto sobre o que acontece nos seus dias. Parece óbvio, mas na prática é difícil se livrar de padrões. Eu estou lutando pra isso.

Hoje gravei um povo fala sobre traição. E fiquei surpresa de ver o quanto as pessoas estão dispostas a perdoar. Inclusive os homens. Isso porque a grande maioria acredita que a traição é inevitável. Ela faz parte do amor. O perdão não está lá porque as pessoas estão se tornando melhores e mais compreensivas umas com as outras. Ele existe porque a maioria acredita que sem ele o amor se torna impossível. Vai haver traição. E, para o amor poder continuar, deve haver perdão.

Eu nunca estive disposta a perdoar uma traição. Não sou o tipo que pensa que as outras são menos importantes que eu, porque eu sou a oficial. Eu busco a fidelidade porque eu dou fidelidade e lealdade. Quero o mesmo respeito de volta. Eu mereço isso.

Aí entra essa história da liberdade. A liberdade pode ser dolorosa, porque nela existe a possibilidade de abandonar o amor que traiu. Quando não há liberdade, já está tudo resolvido: aceita-se a traição porque não há outro jeito, e aquela ferida fica ali por baixo ferindo sempre, até que a gente acostuma com ela.

Mas eu escolhi ser livre, e escolhi todos os caminhos tortuosos por onde ela me leva. A liberdade dói. Mas eu estou pronta pra essa dor.

Monday, October 05, 2009

A última noite

Assim decidiram que seria a sua última noite. Deitaram abraçados, as pernas entrelaçadas, o mais apertado que conseguiram. Não fizeram amor, só se olharam calados por longuíssimos minutos. Depois se beijaram e disseram que se amavam, disseram que eram um do outro, sem lamentações. No meio da noite ele acordou tossindo; ela se levantou e preparou uma colher de mel com limão como a vó fazia pra ela quando era criança. "Não sei se adianta, mas o gosto é bom." E ele concordou. Acordaram várias vezes e se enroscaram mais, com medo de chegar o dia seguinte. Mas o dia seguinte chegou, inevitável. Ela se levantou cedo, escovou os dentes, penteou o cabelo, e deu um beijo no rosto dele. Ele continuou calado, e ela saiu do quarto deixando pra trás o amor que não deu certo.

Thursday, October 01, 2009

Entre muitos

Tem gente que veio ao mundo preparada pra casar, ter filhos, constituir família. Assim, tudo certinho, um depois do outro. Eu não. Houve uma época em que eu achei que era um desses seres humanos pré-destinados ao núcleo familiar. Com o passar do tempo ficou muito claro que o que funciona pra mim é ficar sozinha. É ter uns 3 ou 4 grupos de amigos diferentes. É sair do trabalho às 10 da noite muito satisfeita com o fato de ter trabalhado até tarde. É viajar no fim do ano. É morar em outra cidade quando estiver a fim de morar em outra cidade. É dividir o apartamento com duas amigas, apesar do único banheiro. É tomar vinho com essas mesmas amigas enquanto assitimos novela das oito. É ficar feliz em passar uma semana trabalhando em São Paulo porque tem um milhão de amigos lá que eu não vejo há quinhentos anos.
Eu tenho muito o que fazer sozinha. Aliás, eu adoro estar sozinha.

Só que eu também gosto de me apaixonar. Estou sempre apaixonada por alguém. No momento, estou apaixonada. Até no nome carrego a cruz da paixão. Seria um problema se não fosse tão bom. É um vício.

Mas nenhum dos namorados que tive entendeu direito esse frenesi da minha vida social. Uns foram mais adaptáveis, e toparam mesclar seus amigos com os meus. Outros foram durões e não admitiram essa orgia de grupos de lugares diferentes. É difícil de entender mesmo. Tenho os amigos do colégio, os amigos da faculdade, os amigos do trabalho, os amigos dos amigos que também viraram meus amigos. Pra quem não tem saco de conhecer gente nova, realmente é chato. Eu entendo. Mas continuo gostando de sair na rua e encontrar conhecidos em tudo quanto é canto.

Na minha profissão, conhecer muita gente é um plus. Os personagens que consigo pras matérias que produzo vêm de infindávies telefonemas e emails e mensagens no Facebook. E eu sempre acho o que procuro, não importa o quão estranho seja a encomenda. Tem gente de todo tipo no mundo.

Mas não é só isso. Eu enjôo das pessoas muito fácil. Preciso ter essa possibilidade de circular entre vários mundos, ou fico entediada. Por isso, faço um rodízio de chopes. E assim tem funcionado bem.

Monday, September 28, 2009

Quando Nietzsche Chorou

Nunca li Nietzsche. Bem que tentei com Assim Falou Zaratrusta, mas desisti no meio: achei denso, hermético, pesado... Enfim, chato. Acho que na faculdade já tinha tentado ler o Anticristo, mas, da mesma maneira, fui derrotada pela escrita do filósofo, e deixei ele pra lá. Paciência: gostava das idéias, mas não engolia a linguagem. Então acabei me distanciando dele e de Lou Salomé, e de outros da mesma época.

Mas aí calhou que um dia eu ia pra São Paulo e não tinha o que ler no avião. E eu adoro comprar livro no aeroporto, e abrir o volume na primeiríssima página assim que me sento na minha poltrona. Eu adoro esse ritual, e por isso fiquei feliz de não ter o que ler na ponte aérea, porque era um pretexto pra eu voltar aos meus hábitos de ponte aérea turista.

E logo de cara vi Quando Nietzsche Chorou na estante da livraria. Que eu já tinha ouvido falar muito, que tanta gente já leu e eu, atrasadíssima, tratei de colocar em dia esse romance obrigatório. É claro que eu devorei o livro avidamente, e fiquei obcecada com a história. Pra onde ia carregava Nietzsche chorando embaixo do braço, e se dava uma brecha eu abria e lia um pouquinho.

E foi assim que eu aprendi sobre a Teoria do Eterno Retorno. Que é uma teoria cruel e prática, ao mesmo tempo. Porque Nietszche achava que o tempo é um contínuo: estamos no meio de uma linha reta, infinita; se olharmos pra trás, o passado se estende infinitamente atrás de nós, e o futuro, ao contrário, segue em frente até o horizonte. Então, pra ele, o tempo se repete, e nós vivemos uma repetição eterna do que estamos vivendo agora.

Complicado de aceitar. Mas se você encara a teoria do Eterno Retorno como uma lei, qualquer decisão a ser tomada na sua vida se torna clara. Você se pergunta: vou querer passar pelo que estou passando por toda a eternidade? Se não, então mude de vida, mude de casa, de emprego, de amor. Faça alguma coisa que valha a pena de ser vivida repetidas vezes, para sempre.

Nietzsche morreu considerado louco, depois que chorou ao ver um homem batendo em um cavalo. As almas geniais como a dele são sempre mais atormentadas. Deve ser realmente uma merda pra quem tem uma alma como essa, tão sensível e tão inteligente e tão suscetível à cruel clareza do mundo. Os geniais morrem sofrendo pra que os medianos, como eu e você, tenhamos um pouco mais de noção da verdadeira natureza da humanidade.

Monday, June 22, 2009

Sing along

Eu sempre gostei de cantar. Mesmo com essa voz rouquinha e avessa à afinação, eu me aventurava na cantoria quando via que não tinha ninguém por perto. Na verdade, eu queria desesperadamente que alguém virasse pra mim e dissesse que eu era ótima no vocal, e que eu deveria formar uma banda e me apresentar pelos palcos da vida. Mas aí ninguém nunca me disse isso, e eu sentia atração e medo dos palcos - embora o medo tenha quase sempre falado mais alto - e nunca realizei o sonho de montar uma banda, e isso deixou um gap na minha formação até hoje. Tanto que, aos 31 anos, eu ainda gosto de cantar.

Como nunca formei uma banda, mas mantive o meu medo/fascínio de cantar em público, acabei sentindo uma atração bizarra por videokês. Ao mesmo tempo que acho brega e incômodo, não consigo ver um microfone sem cantar uma musiquinha da Rita Lee. Porque sempre tem Rita Lee nessas máquinas, e eu ainda me dou ao respeito.

(A propósito, fazem uns bons 4 anos que eu não canto em videokês. A última vez foi em um boteco horroroso de Aparecida do Norte. Eu estava fazendo um documentário sobre a cidade, e ao final do expediente, eu e o câmera decidimos beber uma cerveja pra relaxar. Tinha um boteco ao lado do nosso hotel, com 5 gatos pingados locais e um videokê no canto. Não resisti e coprei a minha ficha, e conquistei o minguado público do boteco cantando "Aquele Abraço". Foi glorioso.)

Depois do episódio do bar de Aparecida do Norte, guardei essa ligação, digamos assim, com o videokê dentro de mim. Até duas semanas atrás, quando descobri o Karaokê Indie.

Os karaokês estão na moda no Rio de Janeiro. Podem ser em lugares trash, tipo o Sal e Pimenta, na Lapa, ou acompanhados de luxuosas bandas, como no projeto Chuveiro, que já deve ter tido umas 5 temporadas. Mas a idéia de fazer um karaokê onde se canta Smiths, Pixies, Garbarge, The Clash e tantas outras milhões de bandas que eu já cantei aos berros em pistas de dança foi sedutora demais pra mim.

Eu estava deprezinha em casa, tinha brigado com o namorado, entediada com a vida, quando minha roomate veio com a proposta: vamos no karaokê hoje? Eu disse que sim, e tive medo do palco quando chegamos lá. Disse que não cantaria dessa primeira vez, e que ia ficar só olhando os corajosos.

Mas acabei encontrando amigas que não via há muito tempo, e que me chamaram pra subir no palco com elas. No final acabei topando, e fizemos uma apresentação memorável de "I think I'm Paranoid". Gostei tanto que subi mais três vezes: uma pra cantar Amy Winehouse, outra pra cantar Nancy Sinatra (These boots are made for walkin'), e uma última que eu não lembro o que eu cantei. Mas aí já eram umas 3h da manhã, então realmente não importava muito qual era o repertório.

O bacana é que o público, formado, em sua maioria, por trintões que se recusam a crescer (como eu), participa ativamente do número cantado no palco. O povo canta junto, aplaude no final, dança na platéia. É a noite mais divertida dos últimos tempos.

E foi a redenção dos meus sonhos adolescentes.

Wednesday, May 20, 2009

Todo amor que houver nessa vida

Porque nunca mais vou conseguir ouvir Cazuza do mesmo jeito que ouvia antes. Porque você dizia que sua música era Todo Amor que Houver Nesta Vida, e que a minha era Blues da Piedade. E então eu perguntei se você achava que eu era uma dessas pessoas de alma pequena e você disse que não. E depois eu perguntei se você achava que eu queria sempre o que eu não tinha, e você disse que não. Aí eu perguntei por que Blues da Piedade era a minha música, e você respondeu que eu era careta e covarde. Eu achei absurdo, mas no fundo é verdade mesmo, e também é verdade que eu sou de alma pequena e nunca satisfeita com o que tem. Vamos pedir piedade.

Naquele dia a gente deitou no escuro e ficou bebendo e ouvindo Frank Sinatra aos berros, atrapalhando a vizinhança barulhenta de Copacabana. No outro dia a gente saiu caminhando pela praia, tomou um mate com guaraná e nos sentimos as pessoas mais saudáveis do mundo. E num outro dia fizemos guerra de picolé pelo apartamento enorme, e depois brigamos. E fizemos as pazes. E terminamos e voltamos tantas vezes que eu já perdi a conta, mas você não. E pensamos como seriam nossos filhos, e nos odiamos intensamente, e nos xingamos dos piores nomes só pra depois a gente chegar à conclusão de que fomos feitos um para o outro.

Nunca tentei tanto ficar com alguém. Nunca me esforcei tanto pra dar certo. Nunca conheci um amor como esse. E nunca mais vou conhecer.

Wednesday, May 13, 2009

Solidão

Tenho passado os dias em casa, sozinha. O trabalho está fraco, por enquanto, e eu me vejo deitada na minha cama, com o lap na minha frente, sem internet. Ficar sem internet, pra mim, é o pior dos castigos. Sem poder checar os emails compulsivamente de 5 em 5 minutos, sem conseguir vaixar os últimos episódios de Lost, sem falar com ninguém virtualmente. O meu computador há muito se tornou uma peça importante na minha sociabilidade: não costumo ligar pra ninguém, nem chamar pra um chope, e a minha sorte é que tenho amigos que são muito mais animados do que eu, e me ligam volta e meia me chamando pra chopinhos sem pretenção.



Essa semana eu pude arrumar o quarto, organizar as contas que estavam fora da minha pasta sanfonada overload, assistir finalmente Z, que eu comprei de bobeira nas Lojas Americanas por R$10, e todas essas coisas que a gente faz quando tem muito tempo livre. Ah, sim, li muito. Praticamente um livro em uma semana, um livro sobre vampiros adolescentes que moram em Nova York - e quem vai me recriminar? Adoro livros adolescentes sobre vampiros, e o melhor é que depois posso dar de presente pra minha irmã de 15 anos.



Mas tem uma hora que eu canso de curtir a solidão. Geralmente é no fim do dia, quando escurece. Eu fico com aquele comichão de ir pra rua e ver pessoas e carros e cachorros vira-latas, e aí tenho que inventar um chope pra poder me entreter. Lembro de um amigo que trabalha em casa que uma vez me disse que não conseguia passar um dia sem pisar no Jobi porque ele esgotava a paciência em frente ao computador. Na época, não levei fé: "Que isso, tudo o que eu queria na vida era trabalhar em casa". Mas agora que etsou presa entre quatro paredes a maior parte do dia, reconheço que jogar conversa fora com colegas de trabalho na hora do almoço é essencial. Acreditem, não aguento mais comer macarrão, que é até onde vão meus dotes culinários, assistindo a Friends na Warner.

Ainda bem que semana que vem acaba.

Thursday, May 07, 2009

Lalala Contente e Saltitante

Há um mês eu voltei a fazer análise. Meu terapeuta é um cara bonitão, moreno, de uns 1,90 de altura, que faz questão de me cumprimentar com um aperto de mão quando eu chego ao seu consultório. Eu adoro essa distância do aperto de mão: não somos amigos, não somos nem conhecidos - ele é um profissional que eu contratei com o objetivo de me tornar menos maluca. O cara que sabe tudo da minha vida e que pode me conhecer melhor do que os meus pais tem que ser, no mínimo, alguém com quem eu não mantenha proximidade.

Na sala do meu terapeuta tem um divã e um sofá. Já me contaram que pra conquistar o divã você precisa marcar muitos pontos freudianos, e como eu sou uma novata nessa coisa de psicanálise, o sofá me cai muito bem, por enquanto. Principalmente porque quando chego estou sempre meio sem graça, não sei por onde começar a sessão e tenho a impressão de que os meus problemas são medíocres para um cara que está acostumado a tratar dependentes químicos, sua especialidade.

A terapia me fez um pouquinho mais pobre, mas muito menos histérica que o habitual. Saio de lá sempre de bom humor, achando que a vida é bela e que tem jeito pra tudo. Aliás, saio sempre com um dever de casa existencialista para colocar em prática durante a semana. E eu estou tão aplicada no intuito de manter a mente sã que faço as minhas tarefas direitinho, e de vez em quando ganho estrelinhas douradas no meu caderno de exercícios.

E foi então que eu aprendi que quando você trata os outros bem, eles também tratarão você direito. E como isso melhora sensivelmente o cotidiano, hoje acordei saltitante e cantante, fascinada na facilidade e na rapidez de resposta das pessoas quando percebem, mesmo que incoscientemente, que você quer o bem delas. Já disse uma vez que eu estou aqui na Terra pra fazer bem a outras pessoas (e levei uma bronca: "você está na Terra pra ser feliz!", me alertaram). Se o que me faz feliz é fazer os outros felizes, tá tudo certo, não tá?

Lá lá lá.

Tuesday, May 05, 2009

Mulher Total Flex

Passei pelo final dos anos 90 assistindo de camarote a todas aquelas meninas que experimentavam o lesbianismo de sábado à noite. Era moda, naquele tempo, beijar outras meninas nas festas de música eletrônica, se você fazia parte da ridícula (no sentido de mínima) cultura clubber que engatinhava no Rio de Janeiro. Bem, eu era uma ridícula (no sentido de patética) clubber carioca, se é que cabe rotular aqui, e posso dizer que, de todas aquelas experimentações de sábado, eu fui a única que beijou uma menina só uma vez - e achei ruim, diga-se de passagem. Sabe como é, faltou a barbinha por fazer e aquele jeito mais agressivo masculino. Enfim, faltou a virilidade. E, mesmo depois da experiência, eu passei por algum tipo de preconceito às avessas: as pessoas me olhavam torto porque eu era uma das poucas que não "fazia" garotas. Fui imediata e irrevogavelmente tachada de careta.

Os anos passam e a caravana continua, e essa história de lésbica de vez em quando ficou pra trás. Até que eu encontrei uma amiga de uns 30 e poucos que, às vésperas de fazer aniversário, disse que o importante na festa dela é que aparecessem pessoas solteiras. Porque na nossa idade todo mundo está casado ou recém-divorciado, pronto pra cair na gandaia da reconquistada vida de solteiro. No meu círculo social são poucos os amigos que deixaram a vida de adolescente pra trás e resolveram se casar. Separados, então, esses nem existem. Mas aí eu fiquei quieta, porque essa história de pós adolescente anda me envergonhando. E a minha amiga continuou a falar sobre os solteiros que deveriam aparecer na festa dela:

- Homens hétero de 30 a 50 anos
- Preferência por homens na faixa dos 38 sem filhos
- Gays que de vez em quando fiquem com garotas aqui e ali
- Mulheres dispostas a experimentações

E aí, quando ela disse isso, todo mundo riu. E alguém falou: "Mulher tem essa vantagem, pode ir e voltar. Já com o homem, se escolhido esse caminho, não volta mais". E todo mundo riu de novo, e eu fiquei tempos depois pensando que mulheres de 30 e poucos experimentam outras mulheres e podem até namorar e são muito bem resolvidas com isso. Achei curioso, porque namorar uma menina nunca foi uma opção pra mim. Meu namorado mesmo diz que eu sou a mulher mais hétero que ele conhece - e isso porque ele compartilha a opinião lamentável de que toda mulher tem um quê de lésbica. Mas quem sabe, vai ver é verdade mesmo. Nossa, seria a redenção das fantasias masculinas. E é interessante saber que as pessoas têm mais essa possibilidade. É tão... libertador.
Pena que não é da minha praia. Ainda. Vai saber, né.

Friday, April 17, 2009

O cheiro do ralo

Essa semana passei por uma apendicite. Foi exatamente como a gente ouve falar que são as apendicites das outras pessoas: cheguei ao hospital morrendo de dor, achei que era gastrite, fui pra casa ainda com dor, voltei ao hospital e lá fiquei, dessa vez com o diagnóstico do apêndice inflamado, e com a proibição de deixar o prédio. E então me colocaram no soro, me vestiram aquela camisola aberta na bunda, me abriram e me fecharam, até que eu voltei pra casa.

Mas então acordei com um enjôo ao cheiro da água que me fazia vomitar em questao de segundos. E fiquei pensando que enjoar com o cheiro da água, que é um cheiro que nem existe, é uma espécie de maldição do apêndice retirado.

Durante meus dias de hospital, eu andava pelo corredor do meu andar carregando o suporte do soro, e me sentindo como uma figurante não do Grey's Anatomy, mas do Scrubs, principalmente quando dava a descarga no vaso ou ligava a torneira pra escovar os dentes e com isso vinha a ânsia de vômito.

Isso me fez lembrar de uma mulher que escreveu a um programa de TV pedindo ao apresentador ajuda para superar seu medo de água - a hidrofobia dos termos médicos - que a impediam de entrar em lugares absolutamente seguros, como uma bacia cheia de água. O apresentador de TV leu a carta na produção, achou genial a mulher ter procurado a sua ajuda (e não a de um, sei lá, psiquiatra), e propôs à espectadora que ela viesse ao estúdio superar seu medo em rede nacional.

A mulher recusou, é óbvio.
Quando o cheiro do ralo provoca ânsia de vômito nos outros fica tudo muito mais fácil.

Thursday, April 16, 2009

Eu já fui muito melhor do que isso

Eu já fui muito melhor do que isso. Já me joguei mais, já vi nevar e fazer sol, já chamei de escroto e depois de "meu amor" no espaço mínimo de um segundo. Todo mundo já leu isso aqui e já disse que me conhecia, e eu respondi: na na nao! Tem mais aonde o diabo se esconde. Eu já escrevi um texto de sangue por dia, já chorei e lambi, salgadinhas, as minhas próprias lágrimas. Já comprei coca-cola pra jogar na cara do gringo que passou a mão na minha bunda, e depois saí correndo pro meio da pista com medo de que ele me batesse. Já quis morrer de amor, já achei que iria morrer de amor - mas sempre sobrevivi, porque não amava droga nenhuma, era tudo uma grande viagem! Já fui xingada com razão e sem razão, mas nunca levei tapa de homem. E nao digo que nunca vou levar porque essas coisas a gente nào sabe mesmo. Já escrevi textos mulherzinhas e textos pseudo malditos que me envergonham hoje em dia. Já fui um monte de lugar comum, e outro dia me disseram que eu sou careta e covarde e eu fiquei putíssima mas, quer saber?, devo ser mesmo. E não etsou nem aí. Já fui um monte e agora não sou nada. Mas daqui a pouco volto a ser de novo.

Friday, March 13, 2009

Rebajas!

O verdadeiro Natal espanhol é comemorado não no dia 25 de dezembro, mas no 6 de janeiro, Dia de Reis. Nessa data, as famílias se reúnem, trocam presentes, e comem uma rosca tamanho ficante que eles chamam de roscón. Dentro dessa rosca tem um brinde, e quem acha o brinde fica sendo o rei da mesa: senta na cabeceira e usa uma coroa de papel dourado. Não importa a idade ou a classe social - quem é rei usa a caroa.

Logo depois do Dia de Reis, o comércio espanhol entra em promoção, como no Brasil acontece na época pós Natal. Começa o período conhecido como "rebajas", quando TODAS as lojas de TODA a Espanha entram em promoção, e assim ficam até o começo de fevereiro. E o esquema é o seguinte: na primeira semana, os descontos são de 40%; na segunda, de 60%, e assim vão indo com os preços abaixando e os descontos aumentando, sucessivamente.

É impossível não entrar em um delírio consumista quando se encara a época das rebajas. Eu comprei uma saia de uma grife maravilhosa chamada Desigual por apenas $54 euros. Se você for do tipo que tem paciência de procurar mil peças e experimentar tudo no meio da loucura que são essas mega promoções espanholas, pode conseguir se dar bem nos achados.

A maluquice de compras é tanta que o governo espanhol foi obrigado a lançar uma campanha para que o povo não se endividasse o resto do ano. Cartazes de "Consumo consciente" foram espalhados pelas cidades, lembrando os espanhóis de que é preciso comprar só mesmo o que você precisa. Isso porque existe uma estatística que mostra que o número de inadimplentes aumenta depois das rebajas, por conta das inúmeras compras feitas no cartão de crédito.

Mas olhando as mega lojas do Corte Inglés completamente lotadas, eu pensava que essa propagando do governo não tem a mínima moral. E depois parava de pensar pra disputar com as espanholas um espaço na loja da Desigual.

Friday, February 27, 2009

Soul Bar

Eu andava levíssima e alegreinha de vinho espanhol, flutuando pelas Ramblas e me sentindo incrivelmente bem por estar em Barcelona, em pleno sábado à noite, na zona mais movimentada da cidade. Eu queria conhecer as pessoas e dançar qualquer lugar que tocasse soul, ou jazz, ou whatever, e então fomos parar em um bar - adivinhem - chamado Soul Bar. Coisas que só acontecem em viagem. Estava escrito na filipeta que ali se ouviam os estilos que eu queria ouvir, e ainda Bossa Nova, e eu nem acreditei nisso. Mas depois que entramos, era verdade: tocaram lá umas músicas da Elis Regina, e alguma coisa do Jorge Ben.

Com Jorge Ben eu me levantei pra dançar, enquanto o bar inteiro ainda estava sentado. Era pouco mais de meia-noite, e o público ainda estava chegando, mas eu não estava muito preocupada. Era Barcelona, e era sábado à noite, e foi tudo o que eu precisava pra levantar e começar a sambar. Uma menina que estava com o namorado se levantou e sambou comigo, e eu perguntei no meu espanhol intragável como ela havia aprendido, e ela explicou: minha mãe é brasileira. Quando a música terminou, sorrimos uma pra outra e voltamos aos nossos lugares, sem a menor necessidade de fixar um papo frouxo em nome da simpatia.

Depois desse dia, tentamos em vão achar de novo o Soul Bar. Percorremos as ruas medievais, estreitas e muito iguais que formam o Bairro Gótico, mas parecia que a gente só andava no mesmo quarteirão, sem nunca chegar a lugar nenhum. E nada do bar aparecer. Parece que naquele dia se abriu um portal e de lá saiu o bar/boate, sumindo novamente com o nascer do sol do dia seguinte. Um bar bissexto, ou um bar-Harley, que só aparece de tempos em tempos pra fazer uma ruiva de farmácia feliz.

Wednesday, February 18, 2009

Ninguém esperava a Inquisição Espanhola

Andei por Barcelona sozinha à procura de um café com leite, minha bebida preferida naqueles tempos de poucos graus positivos. Achava bom porque em quase todos os lugares era permitido fumar, e com isso eu podia me sentar em uma mesa protegida do frio, pedir a minha xícara e acender um maço de Pall Mall azul. Esse era o plano: ficar sozinha em ruas estrangeiras, em paz pelo menos uns minutinhos, conversando com estranhos no pior espanhol de todos os tempos e esquecendo que, dali a pouco, eu teria que exorcizar mais uns demoninhos diários. Foi uma tradição espanhol, exorcizar demônios. Ninguém esperava a Inquisição Espanhola!

E aí eu passei naquele café que ficava bem ali na rua do meu hotel, e tinha um paquistanês e ninguém mais. A máquina de cigarros estava com um aviso de "No Cigarrillos", mas era mentira. Depois me explicaram que os donos dos cafés faziam isso pra que os adolescentes não conseguissem comprar cigarros - e lá essa lei se cumpre, em detrimento de tantas outras.

Me sentei ao balcão e pedi o café com leite, comprei um maço e aspirei a nicotina com aquela vontade de primeiro cigarro do dia. Só quem é fumante entende. O paquistanês enxugava uns copos, e como só eu e ele estávamos ali, me senti na obrigação de conversar com ele, nem que fosse pra quebrar o silêncio.

Naquele dia, eu estava muito triste. Quando estou triste, as coisas mínimas me chamam a atenção: risadas e objetos coloridos, crianças agasalhadas que nem um embrulho de roupas e também histórias de estrangeiros imigrantes. E foi então que eu conversei com o paquistanês do café.

Ele disse que no país dele faz 45 graus no verão. E que ele tinha chegado a Barcelona há seis meses, portanto aquele era seu primeiro inverno lá. Ele era gentil e servil, como eu também sou muitas vezes, e eu não pude deixar de pensar que o dono do café deveria pagar um salário bosta praquele cara, só porque ele era bonzinho. Eu contei que no Brasil os verões são de 40 graus, e o inverno no Rio raramente passava de 20. Depois comentamos como estávamos sofrendo com o frio espanhol, e às vezes se erguiam silêncios que eu ou ele quebrávamos com algum assunto morno.

Meu café terminou e eu me despedi e ele me desejou boa sorte com o frio e eu pensei:"ah, que se foda, eu sou uma pessoa legal!", porque eu já tinha dúvidas se realmente era, e vesti minha luvas e encarei o frio da rua e o caminho de volta pros meus demônios e suas inquisições.

Monday, February 16, 2009

Tem coisas que acabam depois dos 30

Tenho a sensação muito forte de que algumas delícias gastronômicas acabaram pra mim, a essa altura da vida. A batata frita, por exemplo, é um entupidor de veias que há muitos anos foi deixado pra trás. Se tem batata frita no prato do restaurante, peço pra trocar por uma saladinha. É meio triste, mas é real: não há molho ceaser que substitua a fritura deliciosa daquelas tirinhas de batata.

Outro ítem que já era: torta de chocolate. Prefiro pensar que elas nem existem, que ninguém nunca inventou. Me contento em admistrar o meu vício em cacau com ridículas barrinhas de cereal. Obviamente, não é a mesma coisa. Eu preferia mil vezes chafurdar em uma bacia de chocolate amargo derretido.

Chega uma hora na vida da gente em que as opções não se apresentam como escolhas, mas como ruas sem saída. Se for ´por ali, fudeu. E por ali também. Só resta uma avenida, bem larga, de pista dupla, pra você seguir em frente. O problema é que pra encarar essa via, só enchendo com muito azeite e sal. No mínimo.

Thursday, January 29, 2009

Soy madrileño y me cago en todo

Uma das expressões mais usadas pelos mardilenhos é o "me cago en...". Eles podem se cagar para el transito, ou para el frío, ou para los putos. Só não diga a um madrilenho que você se caga en sus muertos, que esse é o pior xingamento que alguém pode fazer pra outro alguém na Espanha. Isso e cuspir nos pés dos outros. Aí é praticamente chamar pra porrada.

O sentido do "me cago en" é bem diferente do nosso "caguei". Eles dizem isso quando estão realmente muito putos com alguma coisa ou alguém. Um taxista que pega um engarrafamento pode falar na frente de um passageiro que se caga en el transito. É algo do tipo: "que saco essa porcaria de trânsito." Não chega a ser um palavrão, mas tampouco é uma expressão bonita. Mas até os velhos gostam de dizer que se cagan en algo, só para reclamar da vida.

O madrilenho é um reclamão por natureza. Mesmo quando é simpático, é reclamão. Para nós, brasileños, acostumados em puxar papo com tudo quanto é gente por aí, a estranhesa é imediata. Depois de um tempo, a gente se acostuma, e acaba por dar muita trela pra carranquice deles.
Se uma pessoa é legal logo de cara em Madri, pode apostar: você está conversando com um latino.

Desnecessário dizer a quantidade de latinos que se bandeiam para a Espanha. Os argentinos estão por toda parte - assim como os brasileiros em Portugal - trabalhando em feiras, em lojinhas de souveniers e restaurantes. A Espanha se tornou o sonho dourado pra quem fala espanhol e quer ganhar em euros. Quer dizer, isso já não funciona desse jeito, porque agora o país atravessa a maior crise dos últimos anos, inclusive com recorde de desemprego.

Mesmo com tantas diferenças, imagino que os madrilenhos sejam como os parisienses: uma vez que se perfura o muro invisível que os separa do resto da humanidade e se penetra no restrito círculo social, eles se revelem pessoas bacanas e animadas. Mas isso só suponho porque, honestamente, não conversei com nenhum madrilenho quando estive em Madri.

Friday, January 16, 2009

Entre tapas e vinhos

Viajar para a Espanha e não voltar alguns quilos mais gordinha é tarefa quase impossível. Trata-se de uma viagem gastronômica, porque a comida espanhola é simplesmente delicisa - e barata, se comparada a outras partes da europa. Comi lula e polvo até ficar enjoada, e camarão do tipo grande também. Mas o que merece um capítulo à parte são as tapas.

Tapas são espécies de canapés gigantes, servidos com a bebida. Em lugares não turísticos, ou em cidades pequenas, basta você pedir uma copa de viño (mais barato que uma coca-cola!), que já recebe, à sua escolha, a tapa que vai acompanhar a bebida. Com isso bebe-se mais, e não se fica bêbado! Simplesmente genial.

As melhores tapas que comi foram a dos bares bascos. Não fui na parte basca, mas Madri reserva vários pedacinhos da Espanha pra quem não tem tempo (nem dinheiro) para conhecer cara a cara tantos estilos diferentes. O bar Tchilimilli, que significa garoa (será que se escreve assim mesmo? Malu, ajuda ae), ganhou o prêmio das melhores tapas: comi uma de carne de caranguejo enrolada no salmão defumado que me levou aos céus. Mas esse bar, que é bombado na capital espanhola, cobra todas as tapas.

Já em Granada a história foi diferente. Descobri um bar que tinha tapas incríveis, de graça, e que eram disputadíssimas entre os granadenses (?). A que me cativou foi uma com anchovas, alcachofra e aspargos. Aliás, como esse povo gosta de alcachofra. Vai ver foi por isso que me senti gastronomicamente em casa.

Thursday, January 15, 2009

A primeira vez que vi neve

Foi em uma viagem de trem atravessando a Espanha, quando saí de Barcelona e seguia para Granada. A duração do trajeto era de 11 horas, parando em estações a todo o momento, de cidades tão mínimas e desconhecidas que eu, obviamente, não lembro o nome.
Passei pro campos verdinhos e ensolarados, por moinhos de vento no alto do morro, por ruínas de castelos e igrejas. E por neve, muita neve. Planícies e mais planícies cobertas de branco, fazendo meu coraçãozinho tropical torcer por uma amostra daquele gelo, só por um pequeno momento.

E a oportunidade veio, quando o trem fez uma rápida parada na estação de uma cidadezinha quaquer. Tudo gelado. Os passageirs fumantes logo se aglomeraram na porta aberta do trem, segurando com mãos roxas de frio seus cigarros de tragos rápidos. Todos olhavam deliciados aquele tapete branco à sua frente - até os espanhóis, teoricamente mais acostumados com o espetáculo. Uma senhora espanhola disse que não via neve há muitos anos, e contou que quando era criança, gostava de fazer uma bolinha e comer o gelo. Alguém foi lá fora e troxe um pouco de neve pra mim. Eu fiz a bolinha e mordi, como a velha havia dito, e logo todos os fumantes pularam pra foram do vagão e pegaram suas pequenas porções de gelo.

Eu quis ir também. Meter a mão naquele congelador gigante, e depois voltar correndo pro trem com medo dele ir embora e me deixar no meio do tapete branco. E uma hora realmente ele se foi, mas comigo lá dentro, sem a possibilidade de tirar uma foto estirada no chão, ou de jogar neve no trem, ou de fazer um boneco com braços de graveto, que nem nos desenhos do Charlie Brown.
Mesmo assim, naqueles cinco minutos, eu gostei da neve. E ela entrou na lista das minhas "primeiras vezes" realizadas na viagem, junto com conhecer uma cidade medieval murada, andar de trem e entrar na Sagrada Família.

Wednesday, January 14, 2009

Vovó Maria

Chego de férias seriamente individadoras na Espanha e recebo a notícia de que a minha avó morreu enquanto eu estava lá. Que sensação estranha que é você sair do país com sua avó viva e voltar ao país com a sua avó morta. Parece que é mentira, e que daqui a pouco vou pra casa dela comer doce de abóbora, e empada de queijo, e macarronada com molho de tomate. E ela vai reclamar que eu não uso maquiagem nem cuido do cabelo.

Desde que soube, não derramei uma lágrima.

O cruelmente irônico da história é que coloquei o ítem "visitar a minha avó uma vez por mês" na lista de resoluções de ano novo. Eu faço listas de ano novo, com dez ítens, e no correr do ano eu dou algumas olhadinhas na lista e coloco OK nos objetivos alcançados. E é ótimo dar o OK dos objetivos alcançados, porque dá a impressão de que você está andando pra frente, quando na verdade o que acontece é que a gente sempre anda pra frente, mesmo quando não quer.

Mas a minha avó nem conseguiu esperar eu colocar em prática as resoluções de ano novo, e partiu bem rapidinho, a tempo de não se tornar uma velha apática e dependente, que era tudo o que ela não queria da vida.

E agora eu não tenho mais avós, mas não faço dramas: aproveitei bastante das minhas, comi muito doce de abóbora, ganhei muito presente e muito colo, vi muitas fotos em preto e branco, ouvi muitas histórias - tive uma vida completa de neta, com tudo o que ela pode reservar.

Wednesday, October 22, 2008

Nem todo Mercadão é em Madureira

Sábado foi dia de conhecer o Mercado Municipal de São Paulo, um passeio que eu queria fazer há muito tempo mas estava sempre com preguiça. É que tudo em SP demanda tempo e paciência, porque ao colocarmos o nariz pra fora de casa já sabemos que vamos gastar dinheiro, pegar trânsito, ter que procurar uma vaga e encarar uma chuvinha, daquele tipo que nunca cai de verdade mesmo, mas é suficiente pra deixar alguns fios incovinientemente arrepiados. Mas o jeito é abrir o peito e encarar a fera, porque depois de domada, São Paulo é diversão total.

Quem visita o Mercado Municipal pela primeira vez tem obrigação de comer um pastel ou um sanduíche de mortadela. Você tem que escolher entre um e outro, porque encarar as das opções no mesmo dia é uma tarefa heróica. O sanduba de mortadela chega a ser pornográfico de tão grande, e eu desafio aquele que conseguir comer um inteiro, sem dividir com ninguém. Vários paulistas da Mooca (maneira de dizer, porque eu não conheço ninguém da Mooca) me confidenciaram que nunca encararam o pão com mortadela sozinhos. Vai ver é por isso que aquele Mercadão é tão lotado no fim de semana: você tem que ir em dupla pra dar conta da comidaria.

Mas a verdade é que eu nem cheguei na parte da mortadela. Parei nos pastéis de camarão e tomate seco. Eu pedi dois. Foi um  grande erro, porque o segundo pastel desceu com dificuldade, e depois disso eu fiquei bem umas oito horas sem comer mais nada.
Se quer encarar o pastel ao invés do sanduíche de mortadela, escolha o de bacalhau, que é o mais tradicional do mercadão. E esteja preparado pra enfrentar uma fila longa e uma disputa acirrada por um lugar ao balcão. Mas se você é turista, com certeza vai achar tudo peculiar e bem paulistano - portanto, vai se divertir.

Acabado o evento do pastel, que tomou quase a metade do nosso dia, eu e Japanimation fomos passear pelo resto da feira. Resistimos bravamente à tentação de comprar temperos cheirosos que jamais iríamos usar, uma vez que nenhum dos dois é um grande ás da cozinha. Mesmo assim, me rendi a uma massa caseira de spagetti que cozinhei no dia seguinte e que me lembrou muito o macarrão da Geralda, cozinheira da minha avó. Gostinho de infância.

Como o dia estava popularesco demais e eu sou, assumidamente, besta, terminamos a tarde de sábado bebendo vinho no café da Pinacoteca - um dos meus lugares favoritos em Sampa. Depois um bêbado desenhou uma caricatura absolutamente nada a ver com o Japanimation, e ele foi presenteado com mais 5 reais só pra gastar numa branquinha, sorrindo meio de satisfação e meio de bebice.
Fazer alegria de bêbado também é fazer o bem pra humanidade.

Tuesday, October 14, 2008

Eu estou boiando no Neuromancer

Neuromancer faz 25 anos em 2008. Um romance que criou um novo estilo de ficção científica, que influenciou Blade Runner e Matrix e que foi amplamente copiado e chupado por gente menos criativa que Willian Gibson, o autor. Nos meus tradicionais passeios a livrarias, em que, invariavelmente, nunca saio de mãos abanando, acabei me rendendo à curiosidade de ler Neuromancer. Meus amigos nerds gritaram uhu, e eu entrei, definitivamente, para aquele grupo de pessoas muito informadas sobre Heroes, Lost, o Video Games Live e outras atividades de gente que usa óculos. 

O que eu não contava é que eu não ia entender nada. Nadinha. E que, o pouco que consigo acompanhar da história é graças aos filmes que assisti, e que me dão uma boa noção daquela ambientação.

No começo eu me senti muito burra, mas aí um dia encontrei uma amiga no ônibus, e comentei que estava lendo Neuromancer, quando ela mandou na lata que não tinha entendido nada também. Além de ser absurdamente confuso, o livro tem um vocabulário todo próprio, que só quem se formou em Ciências da Computação deve entender.

O pior é que a edição brasileira traz um glossário na parte final do livro que não serve pra absolutamente nada. Quer dizer, descobri o que era ICE pelo glossário, mas por que eles explicaram ali o que era Ganja? Quer dizer, todo mundo sabe o que é Ganja, não sabe? E é muito frustrante procurar palavras absurdas da história no glossário do final e descobrir que não existe uma explicação, e que a gente mesmo tem que ir sacando por aproximação o que o autor quis dizer. É meio como ler um livro em uma língua que você não domina muito bem.

Bom, vá lá, to insistindo. Que pra mim, desistir de um livro no meio é tipo a pior das tragédias. Eu abandono salas de cinema sem o menor pudor, mas parar de ler um romance sem chegar ao final é algo que não sei fazer. Então vai rolando assim, entendendo aqui e sem sacar nada ali, até que um dia a onda acaba. 
O duro é aguentar o Mario Vargas Llosa novinho me olhando em cima da mesa. Tentador.

Perdas e ganhos

Tenho tido vontade de fumar. Depois de pensar sobre isso, descobri que a saudade da nicotina está diretamente ligada ao aumento considerável de chopes consumidos durante a semana, companhias de seriedade duvidosa e ausência de visitas à academia. Parece que tudo o que eu conquistei nos últimos meses está se perdendo - menos os meus quilos, é claro. Esses eu só continuo ganhando.



Wednesday, October 08, 2008

SkolBeats aos 31

Sem sombra de dúvida, o SKolBeats é um evento adolescente: suas tendas espalhadas não me deixam mentir, porque só um jovem pra agüentar andar de um lado pro outro, das 18h às 8h do dia seguinte.
Também podemos considerar o SkolBeats um mega show bem paulistão, meu - tanto que, ao invés de summer hits (o que seria de se esperar de um evento desse tipo se ele tivesse sido locado no Rio), o que se ouvia era música eletrônica sob um frio de uns 13 graus.
Dito isso, o que estaria fazendo por lá uma carioca de 31 anos, que resolve conhecer o festival de música eletrônica já na fase balzaquiana?
Pesquisando comportamentos urbamos, é claro.

Pra começo de conversa, a diversidade de público é, no mínimo, curiosa. Os cybermanos teens e seus cabelos espetados vibravam ao drum n bass do Marky, enquanto que as meninas de psyboots pra fora da calça (aquelas botas com plataformas que todas as ouvintes de trance resolveram descobrir ao mesmo tempo) preferiam encarar enormes filas pro banheiro feminino quando bem ao lado cabines limpinhas e cheirosinhas e cheias de papel higiênico (luxo total!) estavam às moscas.
Mas não pra carioca balzaquiana aqui, que nunca mais pegou fila no Sambódramo depois que descobriu a malandragem do banheiro oculto.

Aliás, mais bizarro que carnaval de paulista é sambódramo de paulista: uma imitação da Apoteose, só que sem o arco final, parecendo que o Niemayer estava sem saco e plagiou ele mesmo ao projetar aquela avenida de samba. Aquilo ali tem clima de pseudo, de segundo lugar do carnaval brasileiro - e olha que eu nem gosto de carnaval, apesar de ser bairrista como quase todo carioca.
Convenhamos: sambódromo em São Paulo é bom pra fazer festa de música eletrônica.

Entre uma observação e outra da fauna urbana, consegui ver os shows do Justice e do Digitalism, que foram bem divertidos e valeram meu ingresso.
Fiquei com a impressão cruel de que cheguei à festa certa dez anos depois, mas realmente a sensação não foi suficiente pra acabar com a minha diversão. E até quando o Japanimation e eu quase fomos parados numa blitz - o que seria trágico, diga-se - eu estava totalmente satisfeita por ter, finalmente, participado do evento que povoou o meu sonho clubber no início da década.
Antes tarde do que nunca!

Tuesday, September 30, 2008

One of the guys

Tenho as unhas descascando porque considero uma espécie de tortura chinesa fazer os pés na pedicure. E não é que outro dia descobri que está na moda usar as unhas descascando, e que estrelas louquinhas e bebinhas de Hollywood pagam dinheiro para ficarem com as unhas exatamente na mesma situação que as minhas, mesmo que as minhas tenham sido apenas descaso e as delas tenham sido milimetricamente descascadas? Primeiro pensei: que moda ridícula, mas depois pensei: ótimo, estou na moda, e por último pensei: que se foda, semana que vem não vai ser mais moda mesmo, então é melhor marcar logo a sessão de tortura.

Devido à minha assumida preguiça de fazer as unhas e cuidar dos cabelos e frequentar saloes de beleza, de vez em quando penso que queria ser homem. É um desejo antigo, remonta da época dos twenty something e nada tem a ver com sexualidade, mas sim com a admiração pela facilidade com que os participantes do gênero masculino levam a vida. Eu bem que queria acordar, olhar pra uma mega bunda e ficar, instantaneamente, de bom humor. Mas não, eu tinha que nascer mulher, e precisar de uma bela bunda masculina pra olhar de manhã, e mais umas roupas novas, uns quilos a menos, um cabelo menos ressecado e um salário melhor. Ah, sim, e precisaria também, além da bunda e de tudo mais, de um bom livro e um bom filme e alguma promessa de satisfação da alma para que o meu dia comece bem e, com isso, eu fique de bom humor.

Se bem que, de vez em quando, me entrego aos simples prazeres da vida masculina quando sento em uma mesa de bar e ouço os comentários e desfilos piadas de quinta série, mas que naquele momento fazem sucesso e, quando percebo, eu praticamente tenho um saco. Mas é tudo mentira, é claro: eu continuo sendo menina, mas imagino que tenho um saco e rio de piadas de salão com uma satisfação sincera.

Fiz balé na infância, gostava da Cinderela e queria casar na igreja, de véu e grinalda e vestido de bolo. De algum jeito, não sei bem como, tudo isso desapareceu e deu lugar às olheiras e ao dente escuro e às unhas descascadas segurando um copo, ou gesticulando e derrubando a tulipa, ou sentando em cima do calcanhar para ouvir histórias alheias.
É libertador ter me livrado da torre do castelo, mas não conta pra ninguém que eu ainda gosto de usar luvas até o cotovelo, e aproveito as festas à fantasia pra vestir a minha roupa de Breakfast at Tiffany's.

Wednesday, September 24, 2008

Lista de fim de ano

Uma das coisas que mais tem me animado ultimamente é o planejamento da minha viagem de reveillon. Vou passar o año nuevo em Buenos Aires, pela primeira vez pisando em terras portenhas, armada de uma lista de lugares pra conhecer e gente pra procurar e restaurantes e bares e boates. E Montevidéu. Porque quem foi a Buenos Aires e não pegou o barquinho para o Uruguai, deu mole.

É claro que o Japa já conhece a Argentina - foi no friozinho, bebeu vinhos e comeu alfajor, dançou tango e tudo mais. Mas agora ele resolveu me acompanhar em outro tipo de viagem a BsAs: o do calor do verão sulamericano, com direito a idas a shows de rock de bandas locais desconhecidas, jantares em restaurante mega caros de Puerto Madero, ouvindo Kevin Johansen e gastando tudo nas outlets da Puma e da Nike.

O foda é que a viagem a Buenos Aires é um dos tópicos que consegui riscar das coisas a realizar em 2008. É uma mania minha fazer listas com dez ítens de planos para o ano novo. Eu escrevo, e deixo a lista guardadinha, e de vez em quando dou uma olhada pra ver a quantas andam as minhas realizações.

Qual não foi a minha surpresa ao consultar a lista de descobrir que a viagem a BsAs seria o sétimo tópico realizado de 2008 ("conhecer uma cidade da América do Sul"). Mais que isso: com a ida a Montevidéu, vou conhecer duas cidades com uma cajadada só. E isso dá um orgulhinho, uma pequena satisfação - ainda mais pra mim, que tenho a péssima mania de não valorizar minhas conquistas.
Sou dependente das listinhas oficiais de ano novo pra lembrar que eu queria muito alguma coisa que consegui.

Wednesday, September 10, 2008

Coletivos

Andar de ônibus na zona sul do Rio - desde que fora do horário de rush - é como assistir televisão ao vivo, na sua janela: mãe passeando com carrinhos de bebê, cachorros com vestidinhos de inverno e suas donas solteironas, aqui e ali algum conhecido dos tempos de faculdade, gente mal vestida, gente bem vestida, gente bonita, gente feia, gente pobre e gente rica. Um montão de gente.

É por isso que há uma semana eu resolvi deixar o carro na garagem. Vou pro ponto de ônibus, pago a passagem, entro e leio meu livrinho de bolso. De vez em quando canso e olho pela janela pra ver a televisão ao vivo, e depois me entedio de novo e volto pro livro. Caminho do ponto de ônibus até a minha casa, prestando atenção aos prédios art decó da zona sul do Rio, esticando a vista pra ver a decoração de certos apartamentos e descobrindo lojinhas que estão ali há anos, e que eu nunca tinha visto.

É bom passear pelo meu bairro.

Tuesday, August 05, 2008

De volta à 1998

Pra que tudo isso? Por que as raízes brancas no alto da cabeça? Pra que a dor de estômago e o livro que há duas semanas parou na mesma página? E os discos que eu baixei, pra que baixei, se só ouço no pequeno espaço de tempo reservado para meus MP3, quando saio do banho e escolho a roupa e tento, de alguma maneira, arrumar o quarto? E por que os convites recusados, e a minha avó que já tem mais de 90 anos e pra quem eu não dou um telefonema sequer, e pra que a minha afilhada que eu só vejo de seis em seis meses, quando muito, e que nem me chama de 'dinda'? E pra que o diploma e a faculdade, e todos os anos de mensalidades, pra que servem agora?

Ainda espero o furo inacreditável da minha carreira de jornalista.
O meu livro a ser laçado.
O documentário.

Eu não consigo nem mais escrever no blog. E pra quê?

Não estou mais rica.
Não descobri a cura da AIDS.
Não adotei uma criança pobre.
Não fiz bem pra ninguém, a não ser a um minúsculo número de socialmente relativos.

Se eu pudesse recomeçar, faria tudo diferente. Ou ficava podre de rica, ou pobre e satisfeita.
Nunca esse meio termo escroto a que todo o rebanho se acostumou.

Saturday, July 26, 2008

Catarina, The Cat

Agora tenho uma gata no meu apartamento: Catarina, the cat. No primeiro dia, tentei me aproximar e ela se arrepiou de desconfiança. No segundo dia, se escondeu embaixo da cama da sua dona, de vez em quando procurando de onde vinha a voz estranha que conversava perto dela. No terceiro dia, ficou na porta do meu quarto até ganhar coragem e entrar. Quando entrou, cheirou meus vestidos e minhas bolsas, cheirou minha cama, meus sapatos, meus livros, cheirou minha pilha de papéis inúteis, minha sacola de fotografias erradas dos anos 90, cheirou o Massashi que estava deitado, cheirou o cesto de roupa sujas e mais um monte de livros sujos, e quando se cansou de cheirar tudo, Catarina se enroscou perto de mim e se deitou, ocupando o espaço perto do meu travesseiro.
Foi paixão imediata.

Monday, July 14, 2008

Nascimentos

Mãos e orelhas de bebês me fazem querer parir. Talvez porque as mãos sejam pequenas e busquem qualquer coisa que consigam segurar com aquelas minúsiculas palmas. Ou porque as orelhas sejam cópias exatas das orelhas dos adultos, só que na versão mini: mini-orelhinhas, mini-dedinhos, mini-unhinhas, e uma vontade mega de colocar aquele ser no meu colo e protegê-lo de todos os bichos papões. Nem todas as mulheres nasceram par ser mãe. Eu nasci.

Também nasci pra ter um marido, e para vasculhar a Tok Stok pensando na decoração da sala. Nasci pra jogar pro alto, mesmo morrendo de medo, meu apartamento mobiliado com móveis de segunda mão para comprar tudo novo em um outro na Avenida Paulista. E também pra achar semelhança entre os pais naqueles bebês que ainda têm cara de joelho, porque nem bem chegaram ao mundo, e nem bem abriram os olhos, e já estou eu procurando e encontrando uma sombra do pai, da mãe e etc.

Definitivamente, eu nasci pra fazer uma puta festa de casamento - mas não nasci pra padre nem igreja, nem véu e grinalda.
Nasci pra fazer lista de presentes em lojas caras, acreditando que meus amigos vão se juntar em uma vaquinha e me darão um sofá. Mas deixando opções mais acessíveis para aqueles que estão na segunda faculdade.

Não sabia, até ontem, mas agora descobri: nasci pra adotar uma criança, de preferência aquela que ninguém quer porque é negra, mas que tem a orelhinha e a mãozinha que tanto me encantam em bebês.
Nasci pra fazer planos de viagens para as quais não tenho dinheiro. E para tentar aprender novas línguas, mantendo a pronúncia horrorosa do meu espanhol iniciante.

Nasci pra ser boa de garfo e ruim de panela.
Pra ser preguiçosa, mas vencer a preguiça de arrumar a casa.
Pra ter eternamente 5 quilos a mais do que gostaria.
Pra ser egoísta e ciumenta e cegamente legal, como um cachorro - com amigos ou namorado.