Thursday, October 08, 2009

Hamster Hamlet

Se eu tivesse um hamster, ele se chamaria Hamlet. Eu o colacaria numa daquelas gaiola de roedores com água, comida e uma roda pra ele se exercitar E se exercitando, o meu hamster ficaria filosofando: correndo no mesmo lugar e pensando sobre temas subprofundos - Ser ou não ser, heis a questão.
Não há nada que me defina melhor do que um roedor que corre no mesmo lugar e pensa sobre as dores do mundo.

Minha monografa foi sobre Hamlet. Eu descobri Shakespeare na segunda metade da faculdade, e passei a consumir avidamente todos aqueles livros de bolso que são vendidos em bancas de jornal. E me apaixonei por Hamlet. Atormentado, sombrio, triste, vingativo, rancoroso, belicoso príncipe da Dinamarca. E que odiava as mulheres. Acho que Hamlet era gay.

Minha primeira idéia foi falar sobre a visão das mulheres nas obras de Shakespeare. Depois mudei: resolvi escrever sobre as versões cinematográfias da história de Hamlet - tema que, além de pomposo, tinha tudo pra dar errado. E deu. Tirei uma nota bem aquém da que gostaria de ter tirado (queria dez, é claro), e me frustei com meu professor orientador, que mais me desonrientava que ajudava.

Mas não dá pra culpar o professor. Eu quis dar um passo maior do que as pernas, talvez, e o resultado foi medíocre. O lado bom é que conheci intimimante um dos mais importantes clássicos da humanidade.

Agora, gosto de imaginar o meu hamster atormentado. Querendo se livrar da stuação que ele mesmo criou, mas sem conseguir sair do lugar. Se eu tivesse um roedor de estimação, ele seria assim. Mas não tenho paciência para animais que não me dão carinho.

Wednesday, October 07, 2009

Trens

Hoje sonhei que estava indo de trem para o Alasca. Era um trem bala e eu viajava com uma família que mal conhecia. Nesse trem encontrei meu ex-namorado, mas ele não ia para o mesmo lugar que eu. Na verdade, ele falava ao telefone com a namorada nova, e por isso o nosso encontro foi rápido e meio tenso. Mas não fiquei triste: quando me dei conta já estava no Alasca, observando a paisagem que parecida editada diretamente do filme Na Natureza Selvagem.

Eu sei por que sonhei com esse trem. No livro que estou lendo há uma cena de desencontro que acontece no Eurostar. Acho que fiquei com essa cena na cabeça, porque é tão triste e tão "quase dá certo, mas na verdade dá errado", que me fez pensar sobre pequenos desencontros que podem acabar com sentimentos verdadeiros.

E também me lembrei da viagem que fiz de Barcelona e Granada. Foram 11 horas de trajeto cruzando a Espanha em um trem convencional, com curtas paradas para fumantes inveterados (como eu), e paisagens inesquecíveis. Foi um dos momentos mais especiais na minha viagem de fim de ano, um oásis no meio da loucura daqueles dias.

Da janela do trem, eu vi La Mancha. Vi os três moinhos em cima da colina, o chão verdinho apesar do inverno rigoroso, as hélices girando. Passei por inúmeras cidades minúsculas guardadas por um castelo medieval pousado em cima do morro. Passei por neve, neve e mais neve, e quando o trem parou, peguei um montinho e comi como se fosse sorvete.

Alguma coisa diferente acontece com a paisagem quando a gente a observa de dentro de um trem. Não sei se é a suavidade da viagem que deixa tudo mais poético, ou se passamos no meio de campos por onde carros nunca passariam. Mas é apaziguador e belo. E me faz bem até em sonhos.

Tuesday, October 06, 2009

Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.

A frase é da Clarice Lispector. Outro dia eu li e fiquei pensando sobre isso. Que a gente é livre pra fazer o que quer, mas na verdade somos prisioneiros de nós mesmos. Eu me senti prisioneira de mim por um longo tempo, até entender que eu era a única responsável por fazer as coisas darem certo. Cada um é seu próprio deus, e tem controle absoluto sobre o que acontece nos seus dias. Parece óbvio, mas na prática é difícil se livrar de padrões. Eu estou lutando pra isso.

Hoje gravei um povo fala sobre traição. E fiquei surpresa de ver o quanto as pessoas estão dispostas a perdoar. Inclusive os homens. Isso porque a grande maioria acredita que a traição é inevitável. Ela faz parte do amor. O perdão não está lá porque as pessoas estão se tornando melhores e mais compreensivas umas com as outras. Ele existe porque a maioria acredita que sem ele o amor se torna impossível. Vai haver traição. E, para o amor poder continuar, deve haver perdão.

Eu nunca estive disposta a perdoar uma traição. Não sou o tipo que pensa que as outras são menos importantes que eu, porque eu sou a oficial. Eu busco a fidelidade porque eu dou fidelidade e lealdade. Quero o mesmo respeito de volta. Eu mereço isso.

Aí entra essa história da liberdade. A liberdade pode ser dolorosa, porque nela existe a possibilidade de abandonar o amor que traiu. Quando não há liberdade, já está tudo resolvido: aceita-se a traição porque não há outro jeito, e aquela ferida fica ali por baixo ferindo sempre, até que a gente acostuma com ela.

Mas eu escolhi ser livre, e escolhi todos os caminhos tortuosos por onde ela me leva. A liberdade dói. Mas eu estou pronta pra essa dor.

Monday, October 05, 2009

A última noite

Assim decidiram que seria a sua última noite. Deitaram abraçados, as pernas entrelaçadas, o mais apertado que conseguiram. Não fizeram amor, só se olharam calados por longuíssimos minutos. Depois se beijaram e disseram que se amavam, disseram que eram um do outro, sem lamentações. No meio da noite ele acordou tossindo; ela se levantou e preparou uma colher de mel com limão como a vó fazia pra ela quando era criança. "Não sei se adianta, mas o gosto é bom." E ele concordou. Acordaram várias vezes e se enroscaram mais, com medo de chegar o dia seguinte. Mas o dia seguinte chegou, inevitável. Ela se levantou cedo, escovou os dentes, penteou o cabelo, e deu um beijo no rosto dele. Ele continuou calado, e ela saiu do quarto deixando pra trás o amor que não deu certo.

Thursday, October 01, 2009

Entre muitos

Tem gente que veio ao mundo preparada pra casar, ter filhos, constituir família. Assim, tudo certinho, um depois do outro. Eu não. Houve uma época em que eu achei que era um desses seres humanos pré-destinados ao núcleo familiar. Com o passar do tempo ficou muito claro que o que funciona pra mim é ficar sozinha. É ter uns 3 ou 4 grupos de amigos diferentes. É sair do trabalho às 10 da noite muito satisfeita com o fato de ter trabalhado até tarde. É viajar no fim do ano. É morar em outra cidade quando estiver a fim de morar em outra cidade. É dividir o apartamento com duas amigas, apesar do único banheiro. É tomar vinho com essas mesmas amigas enquanto assitimos novela das oito. É ficar feliz em passar uma semana trabalhando em São Paulo porque tem um milhão de amigos lá que eu não vejo há quinhentos anos.
Eu tenho muito o que fazer sozinha. Aliás, eu adoro estar sozinha.

Só que eu também gosto de me apaixonar. Estou sempre apaixonada por alguém. No momento, estou apaixonada. Até no nome carrego a cruz da paixão. Seria um problema se não fosse tão bom. É um vício.

Mas nenhum dos namorados que tive entendeu direito esse frenesi da minha vida social. Uns foram mais adaptáveis, e toparam mesclar seus amigos com os meus. Outros foram durões e não admitiram essa orgia de grupos de lugares diferentes. É difícil de entender mesmo. Tenho os amigos do colégio, os amigos da faculdade, os amigos do trabalho, os amigos dos amigos que também viraram meus amigos. Pra quem não tem saco de conhecer gente nova, realmente é chato. Eu entendo. Mas continuo gostando de sair na rua e encontrar conhecidos em tudo quanto é canto.

Na minha profissão, conhecer muita gente é um plus. Os personagens que consigo pras matérias que produzo vêm de infindávies telefonemas e emails e mensagens no Facebook. E eu sempre acho o que procuro, não importa o quão estranho seja a encomenda. Tem gente de todo tipo no mundo.

Mas não é só isso. Eu enjôo das pessoas muito fácil. Preciso ter essa possibilidade de circular entre vários mundos, ou fico entediada. Por isso, faço um rodízio de chopes. E assim tem funcionado bem.

Monday, September 28, 2009

Quando Nietzsche Chorou

Nunca li Nietzsche. Bem que tentei com Assim Falou Zaratrusta, mas desisti no meio: achei denso, hermético, pesado... Enfim, chato. Acho que na faculdade já tinha tentado ler o Anticristo, mas, da mesma maneira, fui derrotada pela escrita do filósofo, e deixei ele pra lá. Paciência: gostava das idéias, mas não engolia a linguagem. Então acabei me distanciando dele e de Lou Salomé, e de outros da mesma época.

Mas aí calhou que um dia eu ia pra São Paulo e não tinha o que ler no avião. E eu adoro comprar livro no aeroporto, e abrir o volume na primeiríssima página assim que me sento na minha poltrona. Eu adoro esse ritual, e por isso fiquei feliz de não ter o que ler na ponte aérea, porque era um pretexto pra eu voltar aos meus hábitos de ponte aérea turista.

E logo de cara vi Quando Nietzsche Chorou na estante da livraria. Que eu já tinha ouvido falar muito, que tanta gente já leu e eu, atrasadíssima, tratei de colocar em dia esse romance obrigatório. É claro que eu devorei o livro avidamente, e fiquei obcecada com a história. Pra onde ia carregava Nietzsche chorando embaixo do braço, e se dava uma brecha eu abria e lia um pouquinho.

E foi assim que eu aprendi sobre a Teoria do Eterno Retorno. Que é uma teoria cruel e prática, ao mesmo tempo. Porque Nietszche achava que o tempo é um contínuo: estamos no meio de uma linha reta, infinita; se olharmos pra trás, o passado se estende infinitamente atrás de nós, e o futuro, ao contrário, segue em frente até o horizonte. Então, pra ele, o tempo se repete, e nós vivemos uma repetição eterna do que estamos vivendo agora.

Complicado de aceitar. Mas se você encara a teoria do Eterno Retorno como uma lei, qualquer decisão a ser tomada na sua vida se torna clara. Você se pergunta: vou querer passar pelo que estou passando por toda a eternidade? Se não, então mude de vida, mude de casa, de emprego, de amor. Faça alguma coisa que valha a pena de ser vivida repetidas vezes, para sempre.

Nietzsche morreu considerado louco, depois que chorou ao ver um homem batendo em um cavalo. As almas geniais como a dele são sempre mais atormentadas. Deve ser realmente uma merda pra quem tem uma alma como essa, tão sensível e tão inteligente e tão suscetível à cruel clareza do mundo. Os geniais morrem sofrendo pra que os medianos, como eu e você, tenhamos um pouco mais de noção da verdadeira natureza da humanidade.

Monday, June 22, 2009

Sing along

Eu sempre gostei de cantar. Mesmo com essa voz rouquinha e avessa à afinação, eu me aventurava na cantoria quando via que não tinha ninguém por perto. Na verdade, eu queria desesperadamente que alguém virasse pra mim e dissesse que eu era ótima no vocal, e que eu deveria formar uma banda e me apresentar pelos palcos da vida. Mas aí ninguém nunca me disse isso, e eu sentia atração e medo dos palcos - embora o medo tenha quase sempre falado mais alto - e nunca realizei o sonho de montar uma banda, e isso deixou um gap na minha formação até hoje. Tanto que, aos 31 anos, eu ainda gosto de cantar.

Como nunca formei uma banda, mas mantive o meu medo/fascínio de cantar em público, acabei sentindo uma atração bizarra por videokês. Ao mesmo tempo que acho brega e incômodo, não consigo ver um microfone sem cantar uma musiquinha da Rita Lee. Porque sempre tem Rita Lee nessas máquinas, e eu ainda me dou ao respeito.

(A propósito, fazem uns bons 4 anos que eu não canto em videokês. A última vez foi em um boteco horroroso de Aparecida do Norte. Eu estava fazendo um documentário sobre a cidade, e ao final do expediente, eu e o câmera decidimos beber uma cerveja pra relaxar. Tinha um boteco ao lado do nosso hotel, com 5 gatos pingados locais e um videokê no canto. Não resisti e coprei a minha ficha, e conquistei o minguado público do boteco cantando "Aquele Abraço". Foi glorioso.)

Depois do episódio do bar de Aparecida do Norte, guardei essa ligação, digamos assim, com o videokê dentro de mim. Até duas semanas atrás, quando descobri o Karaokê Indie.

Os karaokês estão na moda no Rio de Janeiro. Podem ser em lugares trash, tipo o Sal e Pimenta, na Lapa, ou acompanhados de luxuosas bandas, como no projeto Chuveiro, que já deve ter tido umas 5 temporadas. Mas a idéia de fazer um karaokê onde se canta Smiths, Pixies, Garbarge, The Clash e tantas outras milhões de bandas que eu já cantei aos berros em pistas de dança foi sedutora demais pra mim.

Eu estava deprezinha em casa, tinha brigado com o namorado, entediada com a vida, quando minha roomate veio com a proposta: vamos no karaokê hoje? Eu disse que sim, e tive medo do palco quando chegamos lá. Disse que não cantaria dessa primeira vez, e que ia ficar só olhando os corajosos.

Mas acabei encontrando amigas que não via há muito tempo, e que me chamaram pra subir no palco com elas. No final acabei topando, e fizemos uma apresentação memorável de "I think I'm Paranoid". Gostei tanto que subi mais três vezes: uma pra cantar Amy Winehouse, outra pra cantar Nancy Sinatra (These boots are made for walkin'), e uma última que eu não lembro o que eu cantei. Mas aí já eram umas 3h da manhã, então realmente não importava muito qual era o repertório.

O bacana é que o público, formado, em sua maioria, por trintões que se recusam a crescer (como eu), participa ativamente do número cantado no palco. O povo canta junto, aplaude no final, dança na platéia. É a noite mais divertida dos últimos tempos.

E foi a redenção dos meus sonhos adolescentes.

Wednesday, May 20, 2009

Todo amor que houver nessa vida

Porque nunca mais vou conseguir ouvir Cazuza do mesmo jeito que ouvia antes. Porque você dizia que sua música era Todo Amor que Houver Nesta Vida, e que a minha era Blues da Piedade. E então eu perguntei se você achava que eu era uma dessas pessoas de alma pequena e você disse que não. E depois eu perguntei se você achava que eu queria sempre o que eu não tinha, e você disse que não. Aí eu perguntei por que Blues da Piedade era a minha música, e você respondeu que eu era careta e covarde. Eu achei absurdo, mas no fundo é verdade mesmo, e também é verdade que eu sou de alma pequena e nunca satisfeita com o que tem. Vamos pedir piedade.

Naquele dia a gente deitou no escuro e ficou bebendo e ouvindo Frank Sinatra aos berros, atrapalhando a vizinhança barulhenta de Copacabana. No outro dia a gente saiu caminhando pela praia, tomou um mate com guaraná e nos sentimos as pessoas mais saudáveis do mundo. E num outro dia fizemos guerra de picolé pelo apartamento enorme, e depois brigamos. E fizemos as pazes. E terminamos e voltamos tantas vezes que eu já perdi a conta, mas você não. E pensamos como seriam nossos filhos, e nos odiamos intensamente, e nos xingamos dos piores nomes só pra depois a gente chegar à conclusão de que fomos feitos um para o outro.

Nunca tentei tanto ficar com alguém. Nunca me esforcei tanto pra dar certo. Nunca conheci um amor como esse. E nunca mais vou conhecer.

Wednesday, May 13, 2009

Solidão

Tenho passado os dias em casa, sozinha. O trabalho está fraco, por enquanto, e eu me vejo deitada na minha cama, com o lap na minha frente, sem internet. Ficar sem internet, pra mim, é o pior dos castigos. Sem poder checar os emails compulsivamente de 5 em 5 minutos, sem conseguir vaixar os últimos episódios de Lost, sem falar com ninguém virtualmente. O meu computador há muito se tornou uma peça importante na minha sociabilidade: não costumo ligar pra ninguém, nem chamar pra um chope, e a minha sorte é que tenho amigos que são muito mais animados do que eu, e me ligam volta e meia me chamando pra chopinhos sem pretenção.



Essa semana eu pude arrumar o quarto, organizar as contas que estavam fora da minha pasta sanfonada overload, assistir finalmente Z, que eu comprei de bobeira nas Lojas Americanas por R$10, e todas essas coisas que a gente faz quando tem muito tempo livre. Ah, sim, li muito. Praticamente um livro em uma semana, um livro sobre vampiros adolescentes que moram em Nova York - e quem vai me recriminar? Adoro livros adolescentes sobre vampiros, e o melhor é que depois posso dar de presente pra minha irmã de 15 anos.



Mas tem uma hora que eu canso de curtir a solidão. Geralmente é no fim do dia, quando escurece. Eu fico com aquele comichão de ir pra rua e ver pessoas e carros e cachorros vira-latas, e aí tenho que inventar um chope pra poder me entreter. Lembro de um amigo que trabalha em casa que uma vez me disse que não conseguia passar um dia sem pisar no Jobi porque ele esgotava a paciência em frente ao computador. Na época, não levei fé: "Que isso, tudo o que eu queria na vida era trabalhar em casa". Mas agora que etsou presa entre quatro paredes a maior parte do dia, reconheço que jogar conversa fora com colegas de trabalho na hora do almoço é essencial. Acreditem, não aguento mais comer macarrão, que é até onde vão meus dotes culinários, assistindo a Friends na Warner.

Ainda bem que semana que vem acaba.

Thursday, May 07, 2009

Lalala Contente e Saltitante

Há um mês eu voltei a fazer análise. Meu terapeuta é um cara bonitão, moreno, de uns 1,90 de altura, que faz questão de me cumprimentar com um aperto de mão quando eu chego ao seu consultório. Eu adoro essa distância do aperto de mão: não somos amigos, não somos nem conhecidos - ele é um profissional que eu contratei com o objetivo de me tornar menos maluca. O cara que sabe tudo da minha vida e que pode me conhecer melhor do que os meus pais tem que ser, no mínimo, alguém com quem eu não mantenha proximidade.

Na sala do meu terapeuta tem um divã e um sofá. Já me contaram que pra conquistar o divã você precisa marcar muitos pontos freudianos, e como eu sou uma novata nessa coisa de psicanálise, o sofá me cai muito bem, por enquanto. Principalmente porque quando chego estou sempre meio sem graça, não sei por onde começar a sessão e tenho a impressão de que os meus problemas são medíocres para um cara que está acostumado a tratar dependentes químicos, sua especialidade.

A terapia me fez um pouquinho mais pobre, mas muito menos histérica que o habitual. Saio de lá sempre de bom humor, achando que a vida é bela e que tem jeito pra tudo. Aliás, saio sempre com um dever de casa existencialista para colocar em prática durante a semana. E eu estou tão aplicada no intuito de manter a mente sã que faço as minhas tarefas direitinho, e de vez em quando ganho estrelinhas douradas no meu caderno de exercícios.

E foi então que eu aprendi que quando você trata os outros bem, eles também tratarão você direito. E como isso melhora sensivelmente o cotidiano, hoje acordei saltitante e cantante, fascinada na facilidade e na rapidez de resposta das pessoas quando percebem, mesmo que incoscientemente, que você quer o bem delas. Já disse uma vez que eu estou aqui na Terra pra fazer bem a outras pessoas (e levei uma bronca: "você está na Terra pra ser feliz!", me alertaram). Se o que me faz feliz é fazer os outros felizes, tá tudo certo, não tá?

Lá lá lá.

Tuesday, May 05, 2009

Mulher Total Flex

Passei pelo final dos anos 90 assistindo de camarote a todas aquelas meninas que experimentavam o lesbianismo de sábado à noite. Era moda, naquele tempo, beijar outras meninas nas festas de música eletrônica, se você fazia parte da ridícula (no sentido de mínima) cultura clubber que engatinhava no Rio de Janeiro. Bem, eu era uma ridícula (no sentido de patética) clubber carioca, se é que cabe rotular aqui, e posso dizer que, de todas aquelas experimentações de sábado, eu fui a única que beijou uma menina só uma vez - e achei ruim, diga-se de passagem. Sabe como é, faltou a barbinha por fazer e aquele jeito mais agressivo masculino. Enfim, faltou a virilidade. E, mesmo depois da experiência, eu passei por algum tipo de preconceito às avessas: as pessoas me olhavam torto porque eu era uma das poucas que não "fazia" garotas. Fui imediata e irrevogavelmente tachada de careta.

Os anos passam e a caravana continua, e essa história de lésbica de vez em quando ficou pra trás. Até que eu encontrei uma amiga de uns 30 e poucos que, às vésperas de fazer aniversário, disse que o importante na festa dela é que aparecessem pessoas solteiras. Porque na nossa idade todo mundo está casado ou recém-divorciado, pronto pra cair na gandaia da reconquistada vida de solteiro. No meu círculo social são poucos os amigos que deixaram a vida de adolescente pra trás e resolveram se casar. Separados, então, esses nem existem. Mas aí eu fiquei quieta, porque essa história de pós adolescente anda me envergonhando. E a minha amiga continuou a falar sobre os solteiros que deveriam aparecer na festa dela:

- Homens hétero de 30 a 50 anos
- Preferência por homens na faixa dos 38 sem filhos
- Gays que de vez em quando fiquem com garotas aqui e ali
- Mulheres dispostas a experimentações

E aí, quando ela disse isso, todo mundo riu. E alguém falou: "Mulher tem essa vantagem, pode ir e voltar. Já com o homem, se escolhido esse caminho, não volta mais". E todo mundo riu de novo, e eu fiquei tempos depois pensando que mulheres de 30 e poucos experimentam outras mulheres e podem até namorar e são muito bem resolvidas com isso. Achei curioso, porque namorar uma menina nunca foi uma opção pra mim. Meu namorado mesmo diz que eu sou a mulher mais hétero que ele conhece - e isso porque ele compartilha a opinião lamentável de que toda mulher tem um quê de lésbica. Mas quem sabe, vai ver é verdade mesmo. Nossa, seria a redenção das fantasias masculinas. E é interessante saber que as pessoas têm mais essa possibilidade. É tão... libertador.
Pena que não é da minha praia. Ainda. Vai saber, né.

Friday, April 17, 2009

O cheiro do ralo

Essa semana passei por uma apendicite. Foi exatamente como a gente ouve falar que são as apendicites das outras pessoas: cheguei ao hospital morrendo de dor, achei que era gastrite, fui pra casa ainda com dor, voltei ao hospital e lá fiquei, dessa vez com o diagnóstico do apêndice inflamado, e com a proibição de deixar o prédio. E então me colocaram no soro, me vestiram aquela camisola aberta na bunda, me abriram e me fecharam, até que eu voltei pra casa.

Mas então acordei com um enjôo ao cheiro da água que me fazia vomitar em questao de segundos. E fiquei pensando que enjoar com o cheiro da água, que é um cheiro que nem existe, é uma espécie de maldição do apêndice retirado.

Durante meus dias de hospital, eu andava pelo corredor do meu andar carregando o suporte do soro, e me sentindo como uma figurante não do Grey's Anatomy, mas do Scrubs, principalmente quando dava a descarga no vaso ou ligava a torneira pra escovar os dentes e com isso vinha a ânsia de vômito.

Isso me fez lembrar de uma mulher que escreveu a um programa de TV pedindo ao apresentador ajuda para superar seu medo de água - a hidrofobia dos termos médicos - que a impediam de entrar em lugares absolutamente seguros, como uma bacia cheia de água. O apresentador de TV leu a carta na produção, achou genial a mulher ter procurado a sua ajuda (e não a de um, sei lá, psiquiatra), e propôs à espectadora que ela viesse ao estúdio superar seu medo em rede nacional.

A mulher recusou, é óbvio.
Quando o cheiro do ralo provoca ânsia de vômito nos outros fica tudo muito mais fácil.

Thursday, April 16, 2009

Eu já fui muito melhor do que isso

Eu já fui muito melhor do que isso. Já me joguei mais, já vi nevar e fazer sol, já chamei de escroto e depois de "meu amor" no espaço mínimo de um segundo. Todo mundo já leu isso aqui e já disse que me conhecia, e eu respondi: na na nao! Tem mais aonde o diabo se esconde. Eu já escrevi um texto de sangue por dia, já chorei e lambi, salgadinhas, as minhas próprias lágrimas. Já comprei coca-cola pra jogar na cara do gringo que passou a mão na minha bunda, e depois saí correndo pro meio da pista com medo de que ele me batesse. Já quis morrer de amor, já achei que iria morrer de amor - mas sempre sobrevivi, porque não amava droga nenhuma, era tudo uma grande viagem! Já fui xingada com razão e sem razão, mas nunca levei tapa de homem. E nao digo que nunca vou levar porque essas coisas a gente nào sabe mesmo. Já escrevi textos mulherzinhas e textos pseudo malditos que me envergonham hoje em dia. Já fui um monte de lugar comum, e outro dia me disseram que eu sou careta e covarde e eu fiquei putíssima mas, quer saber?, devo ser mesmo. E não etsou nem aí. Já fui um monte e agora não sou nada. Mas daqui a pouco volto a ser de novo.

Friday, March 13, 2009

Rebajas!

O verdadeiro Natal espanhol é comemorado não no dia 25 de dezembro, mas no 6 de janeiro, Dia de Reis. Nessa data, as famílias se reúnem, trocam presentes, e comem uma rosca tamanho ficante que eles chamam de roscón. Dentro dessa rosca tem um brinde, e quem acha o brinde fica sendo o rei da mesa: senta na cabeceira e usa uma coroa de papel dourado. Não importa a idade ou a classe social - quem é rei usa a caroa.

Logo depois do Dia de Reis, o comércio espanhol entra em promoção, como no Brasil acontece na época pós Natal. Começa o período conhecido como "rebajas", quando TODAS as lojas de TODA a Espanha entram em promoção, e assim ficam até o começo de fevereiro. E o esquema é o seguinte: na primeira semana, os descontos são de 40%; na segunda, de 60%, e assim vão indo com os preços abaixando e os descontos aumentando, sucessivamente.

É impossível não entrar em um delírio consumista quando se encara a época das rebajas. Eu comprei uma saia de uma grife maravilhosa chamada Desigual por apenas $54 euros. Se você for do tipo que tem paciência de procurar mil peças e experimentar tudo no meio da loucura que são essas mega promoções espanholas, pode conseguir se dar bem nos achados.

A maluquice de compras é tanta que o governo espanhol foi obrigado a lançar uma campanha para que o povo não se endividasse o resto do ano. Cartazes de "Consumo consciente" foram espalhados pelas cidades, lembrando os espanhóis de que é preciso comprar só mesmo o que você precisa. Isso porque existe uma estatística que mostra que o número de inadimplentes aumenta depois das rebajas, por conta das inúmeras compras feitas no cartão de crédito.

Mas olhando as mega lojas do Corte Inglés completamente lotadas, eu pensava que essa propagando do governo não tem a mínima moral. E depois parava de pensar pra disputar com as espanholas um espaço na loja da Desigual.

Friday, February 27, 2009

Soul Bar

Eu andava levíssima e alegreinha de vinho espanhol, flutuando pelas Ramblas e me sentindo incrivelmente bem por estar em Barcelona, em pleno sábado à noite, na zona mais movimentada da cidade. Eu queria conhecer as pessoas e dançar qualquer lugar que tocasse soul, ou jazz, ou whatever, e então fomos parar em um bar - adivinhem - chamado Soul Bar. Coisas que só acontecem em viagem. Estava escrito na filipeta que ali se ouviam os estilos que eu queria ouvir, e ainda Bossa Nova, e eu nem acreditei nisso. Mas depois que entramos, era verdade: tocaram lá umas músicas da Elis Regina, e alguma coisa do Jorge Ben.

Com Jorge Ben eu me levantei pra dançar, enquanto o bar inteiro ainda estava sentado. Era pouco mais de meia-noite, e o público ainda estava chegando, mas eu não estava muito preocupada. Era Barcelona, e era sábado à noite, e foi tudo o que eu precisava pra levantar e começar a sambar. Uma menina que estava com o namorado se levantou e sambou comigo, e eu perguntei no meu espanhol intragável como ela havia aprendido, e ela explicou: minha mãe é brasileira. Quando a música terminou, sorrimos uma pra outra e voltamos aos nossos lugares, sem a menor necessidade de fixar um papo frouxo em nome da simpatia.

Depois desse dia, tentamos em vão achar de novo o Soul Bar. Percorremos as ruas medievais, estreitas e muito iguais que formam o Bairro Gótico, mas parecia que a gente só andava no mesmo quarteirão, sem nunca chegar a lugar nenhum. E nada do bar aparecer. Parece que naquele dia se abriu um portal e de lá saiu o bar/boate, sumindo novamente com o nascer do sol do dia seguinte. Um bar bissexto, ou um bar-Harley, que só aparece de tempos em tempos pra fazer uma ruiva de farmácia feliz.

Wednesday, February 18, 2009

Ninguém esperava a Inquisição Espanhola

Andei por Barcelona sozinha à procura de um café com leite, minha bebida preferida naqueles tempos de poucos graus positivos. Achava bom porque em quase todos os lugares era permitido fumar, e com isso eu podia me sentar em uma mesa protegida do frio, pedir a minha xícara e acender um maço de Pall Mall azul. Esse era o plano: ficar sozinha em ruas estrangeiras, em paz pelo menos uns minutinhos, conversando com estranhos no pior espanhol de todos os tempos e esquecendo que, dali a pouco, eu teria que exorcizar mais uns demoninhos diários. Foi uma tradição espanhol, exorcizar demônios. Ninguém esperava a Inquisição Espanhola!

E aí eu passei naquele café que ficava bem ali na rua do meu hotel, e tinha um paquistanês e ninguém mais. A máquina de cigarros estava com um aviso de "No Cigarrillos", mas era mentira. Depois me explicaram que os donos dos cafés faziam isso pra que os adolescentes não conseguissem comprar cigarros - e lá essa lei se cumpre, em detrimento de tantas outras.

Me sentei ao balcão e pedi o café com leite, comprei um maço e aspirei a nicotina com aquela vontade de primeiro cigarro do dia. Só quem é fumante entende. O paquistanês enxugava uns copos, e como só eu e ele estávamos ali, me senti na obrigação de conversar com ele, nem que fosse pra quebrar o silêncio.

Naquele dia, eu estava muito triste. Quando estou triste, as coisas mínimas me chamam a atenção: risadas e objetos coloridos, crianças agasalhadas que nem um embrulho de roupas e também histórias de estrangeiros imigrantes. E foi então que eu conversei com o paquistanês do café.

Ele disse que no país dele faz 45 graus no verão. E que ele tinha chegado a Barcelona há seis meses, portanto aquele era seu primeiro inverno lá. Ele era gentil e servil, como eu também sou muitas vezes, e eu não pude deixar de pensar que o dono do café deveria pagar um salário bosta praquele cara, só porque ele era bonzinho. Eu contei que no Brasil os verões são de 40 graus, e o inverno no Rio raramente passava de 20. Depois comentamos como estávamos sofrendo com o frio espanhol, e às vezes se erguiam silêncios que eu ou ele quebrávamos com algum assunto morno.

Meu café terminou e eu me despedi e ele me desejou boa sorte com o frio e eu pensei:"ah, que se foda, eu sou uma pessoa legal!", porque eu já tinha dúvidas se realmente era, e vesti minha luvas e encarei o frio da rua e o caminho de volta pros meus demônios e suas inquisições.

Monday, February 16, 2009

Tem coisas que acabam depois dos 30

Tenho a sensação muito forte de que algumas delícias gastronômicas acabaram pra mim, a essa altura da vida. A batata frita, por exemplo, é um entupidor de veias que há muitos anos foi deixado pra trás. Se tem batata frita no prato do restaurante, peço pra trocar por uma saladinha. É meio triste, mas é real: não há molho ceaser que substitua a fritura deliciosa daquelas tirinhas de batata.

Outro ítem que já era: torta de chocolate. Prefiro pensar que elas nem existem, que ninguém nunca inventou. Me contento em admistrar o meu vício em cacau com ridículas barrinhas de cereal. Obviamente, não é a mesma coisa. Eu preferia mil vezes chafurdar em uma bacia de chocolate amargo derretido.

Chega uma hora na vida da gente em que as opções não se apresentam como escolhas, mas como ruas sem saída. Se for ´por ali, fudeu. E por ali também. Só resta uma avenida, bem larga, de pista dupla, pra você seguir em frente. O problema é que pra encarar essa via, só enchendo com muito azeite e sal. No mínimo.

Thursday, January 29, 2009

Soy madrileño y me cago en todo

Uma das expressões mais usadas pelos mardilenhos é o "me cago en...". Eles podem se cagar para el transito, ou para el frío, ou para los putos. Só não diga a um madrilenho que você se caga en sus muertos, que esse é o pior xingamento que alguém pode fazer pra outro alguém na Espanha. Isso e cuspir nos pés dos outros. Aí é praticamente chamar pra porrada.

O sentido do "me cago en" é bem diferente do nosso "caguei". Eles dizem isso quando estão realmente muito putos com alguma coisa ou alguém. Um taxista que pega um engarrafamento pode falar na frente de um passageiro que se caga en el transito. É algo do tipo: "que saco essa porcaria de trânsito." Não chega a ser um palavrão, mas tampouco é uma expressão bonita. Mas até os velhos gostam de dizer que se cagan en algo, só para reclamar da vida.

O madrilenho é um reclamão por natureza. Mesmo quando é simpático, é reclamão. Para nós, brasileños, acostumados em puxar papo com tudo quanto é gente por aí, a estranhesa é imediata. Depois de um tempo, a gente se acostuma, e acaba por dar muita trela pra carranquice deles.
Se uma pessoa é legal logo de cara em Madri, pode apostar: você está conversando com um latino.

Desnecessário dizer a quantidade de latinos que se bandeiam para a Espanha. Os argentinos estão por toda parte - assim como os brasileiros em Portugal - trabalhando em feiras, em lojinhas de souveniers e restaurantes. A Espanha se tornou o sonho dourado pra quem fala espanhol e quer ganhar em euros. Quer dizer, isso já não funciona desse jeito, porque agora o país atravessa a maior crise dos últimos anos, inclusive com recorde de desemprego.

Mesmo com tantas diferenças, imagino que os madrilenhos sejam como os parisienses: uma vez que se perfura o muro invisível que os separa do resto da humanidade e se penetra no restrito círculo social, eles se revelem pessoas bacanas e animadas. Mas isso só suponho porque, honestamente, não conversei com nenhum madrilenho quando estive em Madri.

Friday, January 16, 2009

Entre tapas e vinhos

Viajar para a Espanha e não voltar alguns quilos mais gordinha é tarefa quase impossível. Trata-se de uma viagem gastronômica, porque a comida espanhola é simplesmente delicisa - e barata, se comparada a outras partes da europa. Comi lula e polvo até ficar enjoada, e camarão do tipo grande também. Mas o que merece um capítulo à parte são as tapas.

Tapas são espécies de canapés gigantes, servidos com a bebida. Em lugares não turísticos, ou em cidades pequenas, basta você pedir uma copa de viño (mais barato que uma coca-cola!), que já recebe, à sua escolha, a tapa que vai acompanhar a bebida. Com isso bebe-se mais, e não se fica bêbado! Simplesmente genial.

As melhores tapas que comi foram a dos bares bascos. Não fui na parte basca, mas Madri reserva vários pedacinhos da Espanha pra quem não tem tempo (nem dinheiro) para conhecer cara a cara tantos estilos diferentes. O bar Tchilimilli, que significa garoa (será que se escreve assim mesmo? Malu, ajuda ae), ganhou o prêmio das melhores tapas: comi uma de carne de caranguejo enrolada no salmão defumado que me levou aos céus. Mas esse bar, que é bombado na capital espanhola, cobra todas as tapas.

Já em Granada a história foi diferente. Descobri um bar que tinha tapas incríveis, de graça, e que eram disputadíssimas entre os granadenses (?). A que me cativou foi uma com anchovas, alcachofra e aspargos. Aliás, como esse povo gosta de alcachofra. Vai ver foi por isso que me senti gastronomicamente em casa.

Thursday, January 15, 2009

A primeira vez que vi neve

Foi em uma viagem de trem atravessando a Espanha, quando saí de Barcelona e seguia para Granada. A duração do trajeto era de 11 horas, parando em estações a todo o momento, de cidades tão mínimas e desconhecidas que eu, obviamente, não lembro o nome.
Passei pro campos verdinhos e ensolarados, por moinhos de vento no alto do morro, por ruínas de castelos e igrejas. E por neve, muita neve. Planícies e mais planícies cobertas de branco, fazendo meu coraçãozinho tropical torcer por uma amostra daquele gelo, só por um pequeno momento.

E a oportunidade veio, quando o trem fez uma rápida parada na estação de uma cidadezinha quaquer. Tudo gelado. Os passageirs fumantes logo se aglomeraram na porta aberta do trem, segurando com mãos roxas de frio seus cigarros de tragos rápidos. Todos olhavam deliciados aquele tapete branco à sua frente - até os espanhóis, teoricamente mais acostumados com o espetáculo. Uma senhora espanhola disse que não via neve há muitos anos, e contou que quando era criança, gostava de fazer uma bolinha e comer o gelo. Alguém foi lá fora e troxe um pouco de neve pra mim. Eu fiz a bolinha e mordi, como a velha havia dito, e logo todos os fumantes pularam pra foram do vagão e pegaram suas pequenas porções de gelo.

Eu quis ir também. Meter a mão naquele congelador gigante, e depois voltar correndo pro trem com medo dele ir embora e me deixar no meio do tapete branco. E uma hora realmente ele se foi, mas comigo lá dentro, sem a possibilidade de tirar uma foto estirada no chão, ou de jogar neve no trem, ou de fazer um boneco com braços de graveto, que nem nos desenhos do Charlie Brown.
Mesmo assim, naqueles cinco minutos, eu gostei da neve. E ela entrou na lista das minhas "primeiras vezes" realizadas na viagem, junto com conhecer uma cidade medieval murada, andar de trem e entrar na Sagrada Família.

Wednesday, January 14, 2009

Vovó Maria

Chego de férias seriamente individadoras na Espanha e recebo a notícia de que a minha avó morreu enquanto eu estava lá. Que sensação estranha que é você sair do país com sua avó viva e voltar ao país com a sua avó morta. Parece que é mentira, e que daqui a pouco vou pra casa dela comer doce de abóbora, e empada de queijo, e macarronada com molho de tomate. E ela vai reclamar que eu não uso maquiagem nem cuido do cabelo.

Desde que soube, não derramei uma lágrima.

O cruelmente irônico da história é que coloquei o ítem "visitar a minha avó uma vez por mês" na lista de resoluções de ano novo. Eu faço listas de ano novo, com dez ítens, e no correr do ano eu dou algumas olhadinhas na lista e coloco OK nos objetivos alcançados. E é ótimo dar o OK dos objetivos alcançados, porque dá a impressão de que você está andando pra frente, quando na verdade o que acontece é que a gente sempre anda pra frente, mesmo quando não quer.

Mas a minha avó nem conseguiu esperar eu colocar em prática as resoluções de ano novo, e partiu bem rapidinho, a tempo de não se tornar uma velha apática e dependente, que era tudo o que ela não queria da vida.

E agora eu não tenho mais avós, mas não faço dramas: aproveitei bastante das minhas, comi muito doce de abóbora, ganhei muito presente e muito colo, vi muitas fotos em preto e branco, ouvi muitas histórias - tive uma vida completa de neta, com tudo o que ela pode reservar.

Wednesday, October 22, 2008

Nem todo Mercadão é em Madureira

Sábado foi dia de conhecer o Mercado Municipal de São Paulo, um passeio que eu queria fazer há muito tempo mas estava sempre com preguiça. É que tudo em SP demanda tempo e paciência, porque ao colocarmos o nariz pra fora de casa já sabemos que vamos gastar dinheiro, pegar trânsito, ter que procurar uma vaga e encarar uma chuvinha, daquele tipo que nunca cai de verdade mesmo, mas é suficiente pra deixar alguns fios incovinientemente arrepiados. Mas o jeito é abrir o peito e encarar a fera, porque depois de domada, São Paulo é diversão total.

Quem visita o Mercado Municipal pela primeira vez tem obrigação de comer um pastel ou um sanduíche de mortadela. Você tem que escolher entre um e outro, porque encarar as das opções no mesmo dia é uma tarefa heróica. O sanduba de mortadela chega a ser pornográfico de tão grande, e eu desafio aquele que conseguir comer um inteiro, sem dividir com ninguém. Vários paulistas da Mooca (maneira de dizer, porque eu não conheço ninguém da Mooca) me confidenciaram que nunca encararam o pão com mortadela sozinhos. Vai ver é por isso que aquele Mercadão é tão lotado no fim de semana: você tem que ir em dupla pra dar conta da comidaria.

Mas a verdade é que eu nem cheguei na parte da mortadela. Parei nos pastéis de camarão e tomate seco. Eu pedi dois. Foi um  grande erro, porque o segundo pastel desceu com dificuldade, e depois disso eu fiquei bem umas oito horas sem comer mais nada.
Se quer encarar o pastel ao invés do sanduíche de mortadela, escolha o de bacalhau, que é o mais tradicional do mercadão. E esteja preparado pra enfrentar uma fila longa e uma disputa acirrada por um lugar ao balcão. Mas se você é turista, com certeza vai achar tudo peculiar e bem paulistano - portanto, vai se divertir.

Acabado o evento do pastel, que tomou quase a metade do nosso dia, eu e Japanimation fomos passear pelo resto da feira. Resistimos bravamente à tentação de comprar temperos cheirosos que jamais iríamos usar, uma vez que nenhum dos dois é um grande ás da cozinha. Mesmo assim, me rendi a uma massa caseira de spagetti que cozinhei no dia seguinte e que me lembrou muito o macarrão da Geralda, cozinheira da minha avó. Gostinho de infância.

Como o dia estava popularesco demais e eu sou, assumidamente, besta, terminamos a tarde de sábado bebendo vinho no café da Pinacoteca - um dos meus lugares favoritos em Sampa. Depois um bêbado desenhou uma caricatura absolutamente nada a ver com o Japanimation, e ele foi presenteado com mais 5 reais só pra gastar numa branquinha, sorrindo meio de satisfação e meio de bebice.
Fazer alegria de bêbado também é fazer o bem pra humanidade.

Tuesday, October 14, 2008

Eu estou boiando no Neuromancer

Neuromancer faz 25 anos em 2008. Um romance que criou um novo estilo de ficção científica, que influenciou Blade Runner e Matrix e que foi amplamente copiado e chupado por gente menos criativa que Willian Gibson, o autor. Nos meus tradicionais passeios a livrarias, em que, invariavelmente, nunca saio de mãos abanando, acabei me rendendo à curiosidade de ler Neuromancer. Meus amigos nerds gritaram uhu, e eu entrei, definitivamente, para aquele grupo de pessoas muito informadas sobre Heroes, Lost, o Video Games Live e outras atividades de gente que usa óculos. 

O que eu não contava é que eu não ia entender nada. Nadinha. E que, o pouco que consigo acompanhar da história é graças aos filmes que assisti, e que me dão uma boa noção daquela ambientação.

No começo eu me senti muito burra, mas aí um dia encontrei uma amiga no ônibus, e comentei que estava lendo Neuromancer, quando ela mandou na lata que não tinha entendido nada também. Além de ser absurdamente confuso, o livro tem um vocabulário todo próprio, que só quem se formou em Ciências da Computação deve entender.

O pior é que a edição brasileira traz um glossário na parte final do livro que não serve pra absolutamente nada. Quer dizer, descobri o que era ICE pelo glossário, mas por que eles explicaram ali o que era Ganja? Quer dizer, todo mundo sabe o que é Ganja, não sabe? E é muito frustrante procurar palavras absurdas da história no glossário do final e descobrir que não existe uma explicação, e que a gente mesmo tem que ir sacando por aproximação o que o autor quis dizer. É meio como ler um livro em uma língua que você não domina muito bem.

Bom, vá lá, to insistindo. Que pra mim, desistir de um livro no meio é tipo a pior das tragédias. Eu abandono salas de cinema sem o menor pudor, mas parar de ler um romance sem chegar ao final é algo que não sei fazer. Então vai rolando assim, entendendo aqui e sem sacar nada ali, até que um dia a onda acaba. 
O duro é aguentar o Mario Vargas Llosa novinho me olhando em cima da mesa. Tentador.

Perdas e ganhos

Tenho tido vontade de fumar. Depois de pensar sobre isso, descobri que a saudade da nicotina está diretamente ligada ao aumento considerável de chopes consumidos durante a semana, companhias de seriedade duvidosa e ausência de visitas à academia. Parece que tudo o que eu conquistei nos últimos meses está se perdendo - menos os meus quilos, é claro. Esses eu só continuo ganhando.



Wednesday, October 08, 2008

SkolBeats aos 31

Sem sombra de dúvida, o SKolBeats é um evento adolescente: suas tendas espalhadas não me deixam mentir, porque só um jovem pra agüentar andar de um lado pro outro, das 18h às 8h do dia seguinte.
Também podemos considerar o SkolBeats um mega show bem paulistão, meu - tanto que, ao invés de summer hits (o que seria de se esperar de um evento desse tipo se ele tivesse sido locado no Rio), o que se ouvia era música eletrônica sob um frio de uns 13 graus.
Dito isso, o que estaria fazendo por lá uma carioca de 31 anos, que resolve conhecer o festival de música eletrônica já na fase balzaquiana?
Pesquisando comportamentos urbamos, é claro.

Pra começo de conversa, a diversidade de público é, no mínimo, curiosa. Os cybermanos teens e seus cabelos espetados vibravam ao drum n bass do Marky, enquanto que as meninas de psyboots pra fora da calça (aquelas botas com plataformas que todas as ouvintes de trance resolveram descobrir ao mesmo tempo) preferiam encarar enormes filas pro banheiro feminino quando bem ao lado cabines limpinhas e cheirosinhas e cheias de papel higiênico (luxo total!) estavam às moscas.
Mas não pra carioca balzaquiana aqui, que nunca mais pegou fila no Sambódramo depois que descobriu a malandragem do banheiro oculto.

Aliás, mais bizarro que carnaval de paulista é sambódramo de paulista: uma imitação da Apoteose, só que sem o arco final, parecendo que o Niemayer estava sem saco e plagiou ele mesmo ao projetar aquela avenida de samba. Aquilo ali tem clima de pseudo, de segundo lugar do carnaval brasileiro - e olha que eu nem gosto de carnaval, apesar de ser bairrista como quase todo carioca.
Convenhamos: sambódromo em São Paulo é bom pra fazer festa de música eletrônica.

Entre uma observação e outra da fauna urbana, consegui ver os shows do Justice e do Digitalism, que foram bem divertidos e valeram meu ingresso.
Fiquei com a impressão cruel de que cheguei à festa certa dez anos depois, mas realmente a sensação não foi suficiente pra acabar com a minha diversão. E até quando o Japanimation e eu quase fomos parados numa blitz - o que seria trágico, diga-se - eu estava totalmente satisfeita por ter, finalmente, participado do evento que povoou o meu sonho clubber no início da década.
Antes tarde do que nunca!

Tuesday, September 30, 2008

One of the guys

Tenho as unhas descascando porque considero uma espécie de tortura chinesa fazer os pés na pedicure. E não é que outro dia descobri que está na moda usar as unhas descascando, e que estrelas louquinhas e bebinhas de Hollywood pagam dinheiro para ficarem com as unhas exatamente na mesma situação que as minhas, mesmo que as minhas tenham sido apenas descaso e as delas tenham sido milimetricamente descascadas? Primeiro pensei: que moda ridícula, mas depois pensei: ótimo, estou na moda, e por último pensei: que se foda, semana que vem não vai ser mais moda mesmo, então é melhor marcar logo a sessão de tortura.

Devido à minha assumida preguiça de fazer as unhas e cuidar dos cabelos e frequentar saloes de beleza, de vez em quando penso que queria ser homem. É um desejo antigo, remonta da época dos twenty something e nada tem a ver com sexualidade, mas sim com a admiração pela facilidade com que os participantes do gênero masculino levam a vida. Eu bem que queria acordar, olhar pra uma mega bunda e ficar, instantaneamente, de bom humor. Mas não, eu tinha que nascer mulher, e precisar de uma bela bunda masculina pra olhar de manhã, e mais umas roupas novas, uns quilos a menos, um cabelo menos ressecado e um salário melhor. Ah, sim, e precisaria também, além da bunda e de tudo mais, de um bom livro e um bom filme e alguma promessa de satisfação da alma para que o meu dia comece bem e, com isso, eu fique de bom humor.

Se bem que, de vez em quando, me entrego aos simples prazeres da vida masculina quando sento em uma mesa de bar e ouço os comentários e desfilos piadas de quinta série, mas que naquele momento fazem sucesso e, quando percebo, eu praticamente tenho um saco. Mas é tudo mentira, é claro: eu continuo sendo menina, mas imagino que tenho um saco e rio de piadas de salão com uma satisfação sincera.

Fiz balé na infância, gostava da Cinderela e queria casar na igreja, de véu e grinalda e vestido de bolo. De algum jeito, não sei bem como, tudo isso desapareceu e deu lugar às olheiras e ao dente escuro e às unhas descascadas segurando um copo, ou gesticulando e derrubando a tulipa, ou sentando em cima do calcanhar para ouvir histórias alheias.
É libertador ter me livrado da torre do castelo, mas não conta pra ninguém que eu ainda gosto de usar luvas até o cotovelo, e aproveito as festas à fantasia pra vestir a minha roupa de Breakfast at Tiffany's.

Wednesday, September 24, 2008

Lista de fim de ano

Uma das coisas que mais tem me animado ultimamente é o planejamento da minha viagem de reveillon. Vou passar o año nuevo em Buenos Aires, pela primeira vez pisando em terras portenhas, armada de uma lista de lugares pra conhecer e gente pra procurar e restaurantes e bares e boates. E Montevidéu. Porque quem foi a Buenos Aires e não pegou o barquinho para o Uruguai, deu mole.

É claro que o Japa já conhece a Argentina - foi no friozinho, bebeu vinhos e comeu alfajor, dançou tango e tudo mais. Mas agora ele resolveu me acompanhar em outro tipo de viagem a BsAs: o do calor do verão sulamericano, com direito a idas a shows de rock de bandas locais desconhecidas, jantares em restaurante mega caros de Puerto Madero, ouvindo Kevin Johansen e gastando tudo nas outlets da Puma e da Nike.

O foda é que a viagem a Buenos Aires é um dos tópicos que consegui riscar das coisas a realizar em 2008. É uma mania minha fazer listas com dez ítens de planos para o ano novo. Eu escrevo, e deixo a lista guardadinha, e de vez em quando dou uma olhada pra ver a quantas andam as minhas realizações.

Qual não foi a minha surpresa ao consultar a lista de descobrir que a viagem a BsAs seria o sétimo tópico realizado de 2008 ("conhecer uma cidade da América do Sul"). Mais que isso: com a ida a Montevidéu, vou conhecer duas cidades com uma cajadada só. E isso dá um orgulhinho, uma pequena satisfação - ainda mais pra mim, que tenho a péssima mania de não valorizar minhas conquistas.
Sou dependente das listinhas oficiais de ano novo pra lembrar que eu queria muito alguma coisa que consegui.

Wednesday, September 10, 2008

Coletivos

Andar de ônibus na zona sul do Rio - desde que fora do horário de rush - é como assistir televisão ao vivo, na sua janela: mãe passeando com carrinhos de bebê, cachorros com vestidinhos de inverno e suas donas solteironas, aqui e ali algum conhecido dos tempos de faculdade, gente mal vestida, gente bem vestida, gente bonita, gente feia, gente pobre e gente rica. Um montão de gente.

É por isso que há uma semana eu resolvi deixar o carro na garagem. Vou pro ponto de ônibus, pago a passagem, entro e leio meu livrinho de bolso. De vez em quando canso e olho pela janela pra ver a televisão ao vivo, e depois me entedio de novo e volto pro livro. Caminho do ponto de ônibus até a minha casa, prestando atenção aos prédios art decó da zona sul do Rio, esticando a vista pra ver a decoração de certos apartamentos e descobrindo lojinhas que estão ali há anos, e que eu nunca tinha visto.

É bom passear pelo meu bairro.

Tuesday, August 05, 2008

De volta à 1998

Pra que tudo isso? Por que as raízes brancas no alto da cabeça? Pra que a dor de estômago e o livro que há duas semanas parou na mesma página? E os discos que eu baixei, pra que baixei, se só ouço no pequeno espaço de tempo reservado para meus MP3, quando saio do banho e escolho a roupa e tento, de alguma maneira, arrumar o quarto? E por que os convites recusados, e a minha avó que já tem mais de 90 anos e pra quem eu não dou um telefonema sequer, e pra que a minha afilhada que eu só vejo de seis em seis meses, quando muito, e que nem me chama de 'dinda'? E pra que o diploma e a faculdade, e todos os anos de mensalidades, pra que servem agora?

Ainda espero o furo inacreditável da minha carreira de jornalista.
O meu livro a ser laçado.
O documentário.

Eu não consigo nem mais escrever no blog. E pra quê?

Não estou mais rica.
Não descobri a cura da AIDS.
Não adotei uma criança pobre.
Não fiz bem pra ninguém, a não ser a um minúsculo número de socialmente relativos.

Se eu pudesse recomeçar, faria tudo diferente. Ou ficava podre de rica, ou pobre e satisfeita.
Nunca esse meio termo escroto a que todo o rebanho se acostumou.

Saturday, July 26, 2008

Catarina, The Cat

Agora tenho uma gata no meu apartamento: Catarina, the cat. No primeiro dia, tentei me aproximar e ela se arrepiou de desconfiança. No segundo dia, se escondeu embaixo da cama da sua dona, de vez em quando procurando de onde vinha a voz estranha que conversava perto dela. No terceiro dia, ficou na porta do meu quarto até ganhar coragem e entrar. Quando entrou, cheirou meus vestidos e minhas bolsas, cheirou minha cama, meus sapatos, meus livros, cheirou minha pilha de papéis inúteis, minha sacola de fotografias erradas dos anos 90, cheirou o Massashi que estava deitado, cheirou o cesto de roupa sujas e mais um monte de livros sujos, e quando se cansou de cheirar tudo, Catarina se enroscou perto de mim e se deitou, ocupando o espaço perto do meu travesseiro.
Foi paixão imediata.

Monday, July 14, 2008

Nascimentos

Mãos e orelhas de bebês me fazem querer parir. Talvez porque as mãos sejam pequenas e busquem qualquer coisa que consigam segurar com aquelas minúsiculas palmas. Ou porque as orelhas sejam cópias exatas das orelhas dos adultos, só que na versão mini: mini-orelhinhas, mini-dedinhos, mini-unhinhas, e uma vontade mega de colocar aquele ser no meu colo e protegê-lo de todos os bichos papões. Nem todas as mulheres nasceram par ser mãe. Eu nasci.

Também nasci pra ter um marido, e para vasculhar a Tok Stok pensando na decoração da sala. Nasci pra jogar pro alto, mesmo morrendo de medo, meu apartamento mobiliado com móveis de segunda mão para comprar tudo novo em um outro na Avenida Paulista. E também pra achar semelhança entre os pais naqueles bebês que ainda têm cara de joelho, porque nem bem chegaram ao mundo, e nem bem abriram os olhos, e já estou eu procurando e encontrando uma sombra do pai, da mãe e etc.

Definitivamente, eu nasci pra fazer uma puta festa de casamento - mas não nasci pra padre nem igreja, nem véu e grinalda.
Nasci pra fazer lista de presentes em lojas caras, acreditando que meus amigos vão se juntar em uma vaquinha e me darão um sofá. Mas deixando opções mais acessíveis para aqueles que estão na segunda faculdade.

Não sabia, até ontem, mas agora descobri: nasci pra adotar uma criança, de preferência aquela que ninguém quer porque é negra, mas que tem a orelhinha e a mãozinha que tanto me encantam em bebês.
Nasci pra fazer planos de viagens para as quais não tenho dinheiro. E para tentar aprender novas línguas, mantendo a pronúncia horrorosa do meu espanhol iniciante.

Nasci pra ser boa de garfo e ruim de panela.
Pra ser preguiçosa, mas vencer a preguiça de arrumar a casa.
Pra ter eternamente 5 quilos a mais do que gostaria.
Pra ser egoísta e ciumenta e cegamente legal, como um cachorro - com amigos ou namorado.

Friday, July 11, 2008

Sobre Calcinhas Novas

Outro dia comprei calcinhas novas. Não daquelas confortáveis, que se vende nas Lojas Americanas. Mas aquelas do tipo que se paga uma grana por elas, e que incomodam, mas são incrivelmente lindas. E percebi que a calcinha resume a essência de ser mulher: a gente prefere se sentir ligeiramente desconfortável, porém linda, do que se sentir gorda ou mal vestida em calças aconchegantes. Nem que seja apenas em público.

E hoje, coloquei as calcinhas novas e abri um vinho. Assim, com as calcinhas e com a taça na mão, e o meu dente quebrado metade falso que cisma em ficar meio preto toda vez que bebo vinho. Acaba com qualquer glamour. E só porque bebi três taças e estou sozinha em casa numa sexta-feira, o que seria inadmissível há seis meses, ouvindo o shuffle do iTunes e selecionando qual música merece 3 ou 4 estrelinhas, e raramente colocando as cinco máximas estrelas, e ouvindo Nina Simone na semi-escuridão, esperando que a maçaneta gire e pela porta entre o meu namorado, para quem eu comprei calcinhas novas e bebi três taças de vinho.

Eu sou uma observadora do comportamento humano da zona sul carioca, e por isso digo com toda certeza que calcinhas lindas e desconfortáveis e extremamente overpriced servem para entreter namorados; e que roupas de grife servem para valorizar curvas não esqueléticas e deixar com certa inveja inimigas escrotas, e que tudo isso se faz sorrindo e fingindo que foi por acaso. Mulheres são gênios do mal quando não estão apaixonadas. Quando estão apaixonadas, a menos que sejam a Nina Simone, elas ficam idiotas e viram pequenos fantoches, da mesma maneira que os homens ficam quando estão apaixonados (com a vantagem de que eles não têm que comprar novas e caras e desconfortáveis calcinhas para impressionar seus pares).

Monday, July 07, 2008

Viajar é preciso 2

Aqui vai uma lista dos lugares por onde passei nos últimos 3 anos:

1 - Canoa Quebrada, CE
Fiz uma matéria com uma escola de circo que se inspirava no Cirque de Soleil. Era uma ONG chamada Canoa Criança. Eu já gtinha estado em Canoa Quebrada, mas isso não diminuiu a vontade de passar pelo menos uma noite lá. Só que não deu, fazer o que. Ainda não fotografei a Lua e a Estrela que são símbolos da cidade, encrustradas nas falésias. Fica para minha terceira ida a Canoa, se um dia ela rolar.

2 - Genipabu, RN
Gravei com os dromedários do Dromedunas, uma empresa que faz passeios nas corcovas dos bichinhos. É claro que eu também dei meu passeio, devidamente fotografado. Mas antes de chegar nos dromedários, consegui fazer uma viagem com bugres no estilo "com emoção" pelas dunas. Dá um medinho, mas é bem legal.

3 - Cabedelo, PB
Uma das surpresas que tive na vida foi a Paraíba. Que lugar lindo! E olha que antes de conhecer eu nunca iria considerar a minha primeira opção de viagem. Gravei com a ONG Tartarugas Urbanas, peguei uma tartaruguinha na mão, fiquei vendo aqueles bichinhos correndo pro mar. Faltou conhecer o pôr-do-sol do Jacaré, e tantas outras milhões de praias.

4 - Itamaracá, PE
É um paraíso, e eu só passei por lá. Não fui no forte, nao mergulhei no mar. Estava um calor sinistro, e a gente tinha acabado de gravar com o Projeto Peixe-boi. Tínhamos que voltar pra Recife pra pegar um vôo em dierção à proxima cidade. Um dia.

5 - Praia do Francês, Maceió, AL
Fui duas vezes. A primeira foi em dia de semana, numa brechinha que tivemos entre uma matéria e outra. Foi maravilhoso: não tinha quase ninguém na praia, era tudo só pra gente. O Francês é uma praia fechada por um coral. As ondas quebram no coral e formam uma piscininha entre o coral e a areia.
Na segunda vez fui em um domingo. Péssima experiência, programa tipo Posto 9 de Ipanema ao meio dia, no carnaval. Tudo lotado, sem lugar pra sentar, gente por todos os lados.

Já me deu vontade de viajar de novo, só de lembrar desses lugares. E tem muita história pra contar ainda... Outro dia eu continuo. É que só de pensar em todos os lugares que ainda terei que lsitar, fico com uma preguiça. E ando muito preguiçosa para textos ultimamente.
Outro dia falo de outros lugares. Por hoje é só p-p-p-pessoal.

Viajar é preciso

Fazem uns cinco meses que não viajo. Não conto as minhas idas a Sampa, cidade que já virou segunda casa, e onde muitas vezes nem saio do apartamento (nem do quarto) do Japanimation, enfurnada vendo séries e filmes downloadiados no estilo pirateiro de ser. Quando reclamo (reclamo?) que não viajo há cinco meses, me refiro àqueles retiros de fim de semana quebrando a rotina, em pontos em que o celular não pega, conhecendo gente e lugares novos. Adoro pisar em terras nunca antes pisadas (por mim).

Essa noite sonhei que ia para a Polônia a trabalho. Não sei por quê o país do sonho foi a Polônia: não tenho nenhuma vontade de conhecer esse lugar - por enquanto - e não há a menor possibilidade de eu viajar para o exterior a trabalho. Quer dizer, isso eu já não digo com tanta certeza, porque uma das características da minha profissão é justamente a imprevisibilidade de compromissos, o que tanto pode significar o cancelamento da minha festa de aniversário quanto uma viagem pra Nova York com tudo pago pela empresa. Essa última opção nunca rolou, mas quem sabe um dia?

A verdade é que conheci quase o Brasil inteiro por causa do meu trabalho. E conheci de uma maneira interessante, proque não foi através da visão do turista, mas sim através do povo que mora no lugar. Agora, tinha vezes que eu ficava com água na boca de visitar melhor a cidade que estava no momento. Porque, ao contrário do que alguns pensam, viajar a trabalho não significa fazer turismo de graça. Se trabalha muito mais do que em casa e, se dá tempo de passear um pouquinho, é só um pouquinho mesmo. Na Chapada Diamantina, eu ficava doída de tanta vontade de fazer aquelas trilhas. Em Itamaracá, eu não dei um mergulho naquele mar maravilhoso. Em Ouro Preto, nem rolou de beber uma cachaça mineira. Fiquei só na vontade, em todos esses lugares - apesar de tantos convites dos nativos para me juntar a alguma farra. Pena que não deu...

Quando eu viajava a trabalho, gostava de sentar no banco da frente do carro que nos buscava no aeroporto, para poder ver as ruas e as placas melhor. Pra mim, essa sensação de olhar pela primeira vez um lugar é incomparável. Até o cheiro é diferente. As pessoas na rua, a arquitetura, os sotaques. Eu gosto de reparar em tudo nesse primeiro momento em que, felizmente, sou uma etsrangeira. Porque depois esse momento vai embora e nós, também felzimente, passamos a fazer parte daquela nova paisagem, mesmo que por apenas alguns dias.

Friday, July 04, 2008

A segunda metade do ano

Não sei explicar exatamente por que isso ocorre, mas quando chega julho parece que finalmente as coisas começam a acontecer no mundo. E quando passamos a marca dos seis meses, o ano sai correndo que nem um maluco em direção ao reveillón. Isso me faz lembrar o quanto eu estou parecida com o meu pai e com todas as pessoas adultas que conheço, porque são essas pessoas que costumavam falar "nossa, como o tempo passa rápido!" Quando eu era criança, achava muito estranho que falassem que o tempo estava correndo, porque pra mim o tempo passava igual em qualquer dia e em qualquer mês.

O negócio é que as festas mais legais e os melhores shows e o meu aniversário, todos ficam para a segunda metade do ano. No final de agosto faço 31 (31!!!), e já penso em festas alucinadas, amigos DJs, lista de convidados e roupas novas. Por mais que eu faça 31, a minha comemoração de aniversário continua basicamente a mesma desde os 20.

Além disso, há o fato dos milhares de shows que povoarão o Brasil na segunda metade de 2008: estou esperando Radiohead, Nine Inch Nails, o tradicional Tim Festival e tantas outras bandas que eu ainda não conheço mas que na véspera do show vou baixar e cismar de assistir à apresentação. É assim que se faz.

O problema é que, atualmente, shows são meu maior custo-benefício no quesito lazer. Outro dia mesmo fui ver The Go! Team no Ibirapuera (tudo bem que esse foi de graça, mas vamos lá) e foi tãão bom, e eu saí com a alma tãão lavada que me fez pensar sobre ganhar e gastar dinheiro com coisas que valem a pena.

Shows valem a pena. Aniversários valem a pena. Roupas novas para festas de 31 anos também valem a pena.
É tudo uma questão de critério.

Thursday, July 03, 2008

Eu coração isso

Descobrir coisas legais na internet é um hobby que tem ganhado proporções. Por isso não largo o Twitter nem um dia na vida: quando descubro um site legal, corro pra passar o endereço adiante, e adoro quando alguém me passa um site, e por aí vai. E foi nessas idas e vindas de informação cyber que eu descobri o We Heart It, o site de um designer brasileiro chamado Fabio Giolito, que tem uns 20 e poucos e já inventou uma coisa muito legal.

Funciona assim: você faz um cadasttro no site e cria uma conta, e chama os seus amigos pra fazerem o mesmo, e aí você tem a sua pequena comunidade We Heart It (é isso aó, internet sem rede social não é internet, não é mesmo?) Aí você baixa pro seu computador (o termo correto não é baixar, é mais instalar, mas também não é isso, exatamente) a ferramenta que permita que você ame imagens muito legais que encontrar por aí.

Você pode amar qualquer tipo de imagem que, sem nenhuma explicação, você goste. E todas as imagens que você amou vão para o site, e outras pessoas podem amá-las também. Quando nos damos conta, estamos cercados de imagens legais, que dariam ótimas camisetas. E que não servem mais pra nada, a não ser para serem amadas. E não tem nada melhor que amar uma imagem.
E quando você percebe, adquiriu, através das imagens que você ama, uma descrição engraçada e inesperada de si mesmo.
Eu sou assim.

Feliz Aniversário (Para o Japanimation)

Acordei bem cedo pra estudar espanhol e lá estava você ao meu lado: os olhos fechados que pareciam sorrir, a barba eternamente por fazer, um nariz aquilino e um pouco torto, os cabelos de sempre e o cheiro de sempre. Me enrosquei no braço que estava solto e você semi-acordou. Me puxou pra mais perto, me deu um beijo e eu te disse "parabéns". De novo você me pediu em casamento e de novo eu disse que sim; de novo eu falei que quero ter uma filha e de novo você disse que também quer. De novo a gente fez as contas e chegou à conclusão de que só daqui a cinco anos. De novo falamos sobre ir ao Japão. De novo imaginamos como vai ser quando morarmos na mesma cidade. De novo beijamos e nos enroscamos e de novo eu reclamei de ter que acordar cedo.
A vida tem sido uma reprise deliciosa.

Tuesday, June 17, 2008

A Flor da Inglaterra

Finalmente terminei de ler "A Flor da Inglaterra", o livro mais fraquinho do George Orwell que eu já li. Tudo bem que eu não sou expert em nenhum autor, mas até que já me rendi a vários dos títulos de Sir Orwell: o óbvio "A Revolta dos bichos", o clássico "1984", o autobiográfico "Na pior em Paris e Londres"... Aliás, "A Flor da Inglaterra" parece muito este último, com a diferença de que o "Na pior..." fala da época em que George Orwell ainda se chamava Eric Arthur Blair, e tentava ganhar a vida como escritor, enquanto que "A Flor" é total e absoluta ficção.

Bom, mas vamos aos fatos. "A Flor da Inglaterra" tem um personagem principal chatíssimo. Acho que, na verdade, eu gostei do livro; não gostei é do protagonista! Gordon Comstock é um cara que declara guerra ao dinheiro, mas vive tão obcecado pela falta do vil metal que acaba se tornando seu escravo. Ele repudia com todas as forças a burguesia inglesa (a burguesia fede... a burguesia vai ficar rica... sou só eu ou todo mundo que fala - ou escreve - a palavra 'burguesia' começa a cantar a música do Cazuza?), representada no livro pela aspidistra, uma planta que figura na sala de estar de toda a classe média da Inglaterra.

Pra piorar a chatice do Comstock, ele ainda é poeta, e mal sucedido (é claro). Então a amargura dele é financeira e profissional, porque a poesia dele é ignorada pelos literatos. O livro tem como pano de fundo pensões sem o mínimo conforto, plebe que lê livros de mistério, ricos que são socialistas e slogans publicitários lamentáveis. Pois é, Orwell sacou muito antes de todo mundo (o romance é de 1936) a grande porcaria que é a publicidade. Sorte dele não ter que aturar o meio da propaganda em plenos anos 00, com essa lista de prêmios, e de conceitos de que "publicidade é arte" que se vê por aí (e que só os publicitários acreditam, é claro).

Mas não foi horrível ler a "Flor da Inglaterra". Na verdade, todas as minhas reclamações a Gordon Comstock são, na verdade, elogios ao autor. Só quem é um gênio da literatura consegue fazer viver um ser que instiga tanta antipatia. Gordom é o verdadeiro anti-herói, o cara que você quer ver quebrar a cara, de tão tacanho que ele é. E o livro tem aquela escrita característica do nosso G.O., que faz as páginas serem viradas com facilidade, escorrendo palavras adentro.

Vale a pena, desde que você já tenha lido "A Revolução dos Bichos", "1984" e "Na pior em Paris e Londres".

A louca vida uma produtora de reportagem

Tanta loucura rolando que não consigo mais atualizar o blog. Tenho mil idéias para posts que se perdem por aí, ou então que viram micro ensaios no Twitter. Mas a verdade é que nem do Twitter tenho participado muito, me contentando em seguir uns amigos aqui e ali.

O meu trabalho às vezes parece uma gincana. E mesmo assim, eu gosto. É uma espécie de masoquismo, mas eu adoro essa loucura de achar gente completamente diferente do habitual para participar de uma matéria na TV. Porque a televisão é um plus! Fazer matéria para a TV nem de longe significa fazer matéria pra jornal, em que o repórter conversa por telefone e acaba "preservando" muito mais o entrevistado. Televisão não tem dessa: quem aceita dar a entrevista tem que colocar a cara ali na telinha pra gente do Brasil inteiro assistir; tem que falar bem e ter todos os dentes (isso mesmo, entrevistado desdentado, só se for em matéria denúncia); tem que ser bem resolvido com as questões mais cabeludas (porque, obviamente, o repórter vai querer saber sobre os detalhes sórdidos). Enfim, tem que preencher um milhão de pré-requisitos e, ainda por cima, tem que ter a ver com a matéria.

De vez em quando mando uns emails para todos os meus amigos (mesmo os que nem são tão amigos assim, incluindo aí ex-namorados, ex-ficantes, ex-colegas de ex-trabalhos, etc) com pedidos insanos, do tipo: quem aí ainda tem gás natural em casa? Geralmente, já começo esses emails me desculpando. E o pior é que é sempre através dos emails que eu consigo chegar ao perfil que procuro.

Minha última tarefa foi achar um casal que seja casado e more em casas separadas. Estou procurando, ainda, com algumas possibilidades de sucesso. Já achei gente que não queria falar, já achei gente que queria falar mas que não agradou à alta cúpula da reportagem. Uma busca que deve agradar a gregos e troianos.

Bom, vou aproveitar pra buscar aqui também (se é que todo mundo que lê isso aqui já não está ciente) alguns dos personagens que procuro.

- Um casal que seja casado, tenha filhos e more em casas separadas.
- Uma mulher em torno de 65, 70 anos, que tenha se divorciado e só então começado uma carreira.
- Um casal homossexual que esteja buscando a dupla paternidade/ maternidade com os filhos adotados. E que tenha escolhido adotar uma criança negra, ou portadora de deficiência...

Isso aí, ta valendo a gincana. Quem responder por último é a mulher do padre. Um do lá si e já!

Friday, June 06, 2008

Sonhos coloridos

De vez em quando ela sonha, e o dia seguinte carrega sempre as cores do sonho da noite anterior. Tem vezes que as horas passam roxas de angústia, ou amarelas de canções saltitantes, ou ainda verdes de relaxamento, ou azuis, cinzas e violetas. As horas têm cores ditadas pelos sonhos, e isso ela nunca conseguiu explicar para ninguém, pois ninguém há de entender que o roxo é da angústia e o verde é que é da paz, e não o branco, que na verdade é uma cor muito confusa porque é, ao mesmo tempo, todos os espectros de cores juntos e a total ausência de pigmentos de cor. O branco é tudo e nada de uma só vez.

E por causa dos sonhos de cores muito intensas, ela acordou um pouco triste outro dia. Lembrava vagamente de por quê se sentia melancólica. Talvez fosse a saudade, que de vez em quando aparece inexplicável, aperta bem o peito e foge momentos depois, sem dar explicação. Ou então é a noção de que tem coisas guardadas bem fundo que só são remexidas à noite, contra a sua vontade, e a poeira das mágoas empacotadas ainda faz espirrar pela manhã.
Os sonhos são cruéis demais, e tinha dias que ela odiava sonhar.

Mas depois esquecia do ódio e sonhava em amarelo, e ficava tudo bem porque então ela colocava uma canção bem saltitante e assim, aos pulinhos, começava tudo de novo.

Um texto antigo redescoberto

Japanimation me mostrou um texto antigo, que ele descobriu garimpando meus 357 blogs. Eu, que nem lembrava do texto, reli e gostei. E olha que eu quase nunca gosto de nada que eu escrevo. Vai ver eu escrevia muito melhor naquela época...


Terça-feira, Agosto 24, 2004

Medo
Sobre o tédio

Sentou ao lado dela e começou a explicação: “... é que eu já tive algumas decepções e agora não quero mais me apaixonar”. Ela tragou o cigarro, olhou para ele e sorriu:
- Quantos anos você tem mesmo?
- 23
- Então eu devo te avisar: isso é só o começo.
Os dois então se calaram. Um em frente ao outro e tantas outras distâncias, muito mais que uma cadeira mais dois palmos entre um joelho e outro, e tantas coisinhas que precisavam ser entendidas, mas que não eram ditas porque nem tudo pode e deve soar pelos ares – até que ela arriscou e mandou:
- Vou te ligar um dia desses.
Ele fez cara de quem acha que aí já é demais, que aí já é muita interferência:
- É que eu não sou um bom partido.
- Quem disse que eu acho que você é um bom partido?
Ele riu do comentário e puxou a cadeira dela pra perto. Os joelhos se tocaram, mas as outras distâncias continuavam as mesmas. Ela fez que não entendeu, fez que esqueceu do que já sabe, jogou o cabelo pra trás e riu muito mesmo.
- Você ta bêbado!
Depois ela se cansou e deu uma olhada no relógio, e já era quase tempo de virar abóbora e perder o sapatinho.
- Ei, ei, tudo bem se eu te ligar? Ou você vai ficar tenso?
- Não vou ficar tenso. Tudo bem.
Ela levantou, rodeou a cadeira, chegou por trás dele e lhe segurou a cabeça. Deu um beijo na testa e ia dizer algo, mas decidiu não dizer nada. Catou a bolsa e foi embora, deixando ele lá sentadinho, no topo de seu monte de dúvidas, de seus 23 anos, de sua incerteza e de suas infinitas e assustadoras possibilidades.

posted by bruna paixão at 12:48 PM

Lutas de espada sem sangue

Fui assistir "Crônicas de Nárnia: o Príncipe Caspian", porque assumo mesmo que adoro filminhos em ambientação medieval, com magia, castelos, príncipes, princesas e lutas com espadas. São resquícios dos meus tempos de jogadora de RPG, em que minha personagem, Ayla, era uma feiticeira mediana e uma péssima atiradora de funda. E mesmo assim eu me divertia, vejam só. Daí eu não nego essas sagas, mesmo que elas sejam produzidas para um público algumas décadas mais novo que eu, como foi o caso deste segundo filme sobre Nárnia.

Não me importo com narrativas infantis, mas dessa vez confesso que perdi um pouco da minha paciência habitual. Não sei se foi a menina que interpreta a Lucy que, de tanto que se leva a sério, parece até uma daquelas crianças do programa Raul Gil. Ou se foi o climinha forçosamente criado entre o príncipe Caspian e a Susan. Ou, ainda, se foram as lutas de espada em que não se via sangue.

Depois que percebi que as mortes por espada eram as mais limpas da história do cinema - tanto que as lâminas não apresentavam nem um resquício de líquido vermelho depois que eram retiradas dos corpos dos inimigos - fiquei absolutamente obcecada pela maneira como os guerreiros morriam no filme. Alguns tinham a garganta cortada, mas o plano era feito pelas costas da vítima, de modo a não mostrar o ferimento de frente. Outros levavam flechadas ou eram esmagados por pedras das catapultas. Nenhuma morte era suja, e nem a noção de que isso acontecia para preservar a classificação livre do filme aplacava o meu incômodo.

Acho que fiquei tão incomodada porque esse episódio de Nárnia apresenta muito mais lutas que o primeiro, quando eles descobrem o mundo mágico. Nas 2h20 de história, tudo era luta, guerra, conquista. Como no segundo Senhor dos Anéis, mas mirando em uma faixa etária muito menor.

Queria saber se outras pessoas perceberam a ausência de sangue nas lâminas das espadas. E queria saber, mais ainda, se só eu me incomodei com isso. Mas, apesar de todas as minhas reclamações, foi bem divertido ir ao cinema na quarta pra ver Crônicas de Nárnia. Comprei um pacote de pipoca e um copo de mate com limão e me deixei levar pela história dos cinco pentelhinhos ingleses. Porque todo mundo sabe que eles são pentelhos, certo? Ou eu estou implicando de novo?

Tuesday, June 03, 2008

Sempre uma grande diversão

Foi culpa da Bárbara eu ter desenterrado o meu DVD de Crepúsculo dos Deuses, comprado nas Lojas Americanas por uns R$12, para assistir pela décima primeira vez. Nessa última sessão eu tinha o Japanimation ao lado, que nunca havia assistido antes, e eu praticamente já estava estragando tudo pra ele, de tanto que falava que era incrível. Eu tenho esse dom: quando me apaixono por um filme, uma música ou um livro falo tanto deles pros outros que crio uma expectativa absurda e, inevitavelmente, os amigos não acham minhas sugestões tão incríveis assim. E eu tinha medo de ter feito o mesmo com o Japa.

Mas nem mesmo minha língua maior que a boca é capaz de estragar esse filme. Crepúsculo dos Deuses é uma daquelas obras que todos os professores de cinema da minha faculdade diziam ser filmografia básica. Mesmo assim, demorei a ver. Lembro que uma vez aluguei na locadora, levei pra casa junto com outros filmes e, quando fui assitir, não soube settar o DVD pra ver sem notas. Juro por deus: devolvi o disquinho sem saber do que se tratava, roxa de curiosidade e de vergonha por não ter resolvido uma questão tão primária.

Hoje tenho na cortiça do meu quarto (esse é um hábito adolescente que nunca consegui me desfazer, o de ter um quadro de cortiça no quarto) uma lista de 100 filmes que são obrigação na vida de qualquer ser humano. Ganhei a lista no curso de assistência de direção. Confesso que me dá uma certa angústia ler aquela lista e descobrir que vi muito pouco dos 100 títulos listados. Dá a impressão de que nunca vou conseguir terminar esta tarefa, ainda mais porque a lista inevitavelmente aumenta e se transforma a cada estréia de sexta-feira.

Faz duas semanas que não vou ao cinema. Me sinto um pouco menos inteligente, confesso. Ou melhor: me sinto menos atualizada. Não vi Indiana Jones, e todo mundo só fala de Indiana Jones. Eu fico quieta. Sem graça de admitir que faz duas semanas que não vou ao cinema. Que tenho visto muito Seinfeld, muito Lost, muita Ugly Betty e todas essas coisas que eu adoro ver e que o Japanimation baixa pra mim.

Friday, May 30, 2008

Tudo se encontra na capital

Devo admitir que São Paulo tem uma carcaterística que me seduz quase que completamente: a diversidade cultural. Qualquer tipo de comida, artesanato, música, arte, teatro e filme produzidos em qualquer canto do Brasil pode ser encotrado em Sampa. E eu, que já andei por muitos cantos brasileiros e acabei me apegando por manias regionais, gosto de saber que logo ali tem um gostinho do Rio Grande do Sul, ou do Ceará, ou do Acre. Me lembra, mesmo que só um pouquinho, da época em que morei em NY e conseguia encontrar Nescau e bombons Garoto pra vender no supermercado do meu bairro. Eu achava que NY era incrível porque não era o lar de ninguém mas, ao mesmo tempo, era o que mais se aproximava de qualquer tipo de cultura situada fora de seu país natal. Em uma escala muito menor, São Paulo também é assim.

Outro dia eu estava na casa do Japanimation. Faziam uns 12 graus na rua, chovia, ventava e o edredom era o melhor lugar do mundo, quando não sei por que, me lembrei da existência da cuca. A cuca vem a ser um pão doce alemão que é muito popular no RS - principalmente na cidade de Novo Hamburgo - e que é simplesmente uma tentação divina, quase pornográfico de tão gostoso. Eu fiquei viciada em cuca de chocolate (tem de vários sabores, minha gente) quando passei uma longa temporada de trabalho nas terras gaúchas. Pronto, me ferrei: cuca só se vende no sul, e mesmo assim só no RS, porque nem Santa Catarina, nem Paraná têm o costume de produzir essa delícia. Não sei o que me deu - talvez tenha sido o frio - que fiquei com uma vontade louca de comer uma cuca de chocolate como aquelas que viraram mania em Novo Hamburgo.

Googling "cuca alemã de chocolate em São Paulo", descobri um blog que citava um supermercado gaúcho que tinha aberto filial em Sampa. E, acreditem, vendia cuca de todos os sabores.
Corremos pro supermercado, compramos mais um milhão de coisas calóricas e irresistíveis, e afundamos no edredom. São Paulo é frio e bom pra comprar comida de todos os cantos do Brasil - então vamos aderir e na segunda a gente corre atrás do prejuízo.

Wednesday, May 28, 2008

Com o futebol ninguém se sente sozinho

Eu já fui futeboleira, do tipo que escutava mesa redonda no rádio e ia ao Maracanã. Graças a deus essa fase passou, depois que o meu time perdeu de virada em pleno Maraca, e eu tive que percorrer praticamente toda Tijuca atrás do meu carro estacionado sabe-se lá aonde, cabisbaixa e mal humorada com a virada do jogo.

Mas agora que eu moro no bairro mais tricolor do Rio de Janeiro, mesmo quando eu não to interessada, acabo participando da festa. Explico melhor: pela minha janela, cercada de outras janelas por todos os lados, ecoam gritos de júbilo a cada gol do Fluminense. E, a partir do primeiro, uma espécie de comunicação é estabelecida entre os torcedores: eu grito Nense aqui e outro alguém grita Nense lá, e soa uma corneta, e uivam os mais animados. Quando o adversário faz gol, já é diferente: a gente ouve um 'mengo' aqui e ali, provando que a maior torcida do mundo é realmente a do Flamengo, principalmente quando eles estão fora do campeonato e só querem que os outros times cariocas percam.

Para quem cresceu ali bem pertinho do clube das Laranjeiras, é praticamente impossível não ser tricolor. Até os flamenguistas da São Salvador devem ter aprendido a nadar da piscina de 50 metros do Fluminense, escondendo isso dos outros amigos que é pra não ser zoado na escola. Mas tem jeito? Se você mora em Laranjeiras ou no Flamengo, não vai nadar lá na Gávea, certo? Então, uma hora ou outra, mesmo os rivais do pó de arroz têm que pisar no clube inimigo.

Como não tenho saco pra assistir 90 minutos de bola rolando, minha tática pra saber o placar é muito simples: nego gritou, eu dou uma olhada na internet e fico por dentro da pontuação. Semana passada o Fluminense ganhou e teve até comemoração na praça. Mas como eu me defino como "tricolor não praticante", fiquei morrendo de preguiça da bebedeira da vitória, apesar feliz pela conquista. É que mesmo na minha curta carreira de torcedora eu aprendi que não vale a pena sair do sério por causa de time de futebol. Mesmo que a alegria entre ecoando pela minha janela.

Tuesday, May 20, 2008

Vale dos Templos




Um dos passeios mais legais que eu fiz desde que passei a, digamos assim, freqüentar São Paulo, foi conhecer o Vale dos Templos. É um refúgio em Itapecerica da Serra, a uma hora de Sampa, mas que parece estar muitos quilômetros de distância da capital paulista. Primeiro porque quando a gente chega lá, percorre ruazinhas de terra que lembram caminhos para casas de campo. Segundo que, passando o portal da entrada, temos a impressão de que entramos em outra dimensão, tal é o silêncio e a paz daquele lugar.

Não sou budista. Até admiro a filosofia de Buda aqui e ali, mas nada que me faça acompanhar os cultos ou tentar meditar. Mas quando a gente chega lá, a história é outra. Antes de chegarmos aos templos, na descida do morro, há um cemitério japonês, com lápides luxuosas que lembram um pouco aquele monolito de "2001" - sendo que nas lápides há uma escritura em japonês com o nome da família do morto. É incrível, porque você não espera encontrar um negócio daqueles no meio da mata. Uma surpresa.

E assim são todos os momentos do passeio. Cada esquininha que você vira, cada árvore que você percebe, guardam uma pequena admiração.

Compramos comidinhas pro piquenique (e eu levei um vinho, é claro, porque não sou nem um pouco espiritualizada...), estendemos o lençol e curtimos o resto do tempo no parque , que fecha às 17h e, obviamente, a gente só conseguiu chegar lá umas 16h. Uma outra família estava reunida um pouco mais adiante, e tinham umas crianças que corriam pra lá e pra cá.

E tinham uns patos que roubavam a ração que a gente comprou pra alimentar as carpas. E ainda um monge que eu acho que fez voto de silêncio, porque quando eu disse boa tarde ele só acenou com a cabeça. E um friozinho de 16 graus, que eu não senti porque bebi a garrafa de vinho quase inteira. E as cinzas do Cassio Gabus Mendes. E um monte de origamis pendurados sobre um anjo japonês. E cheiro de insenso dentro dos templos. E queijo brie com geléia de mirtilo.

Ai, ai, como a vida é boa.

Monday, May 19, 2008

Todos unidos contra o mal

Alguém em falou que, quando em perrengue, seres humanos tendem a se unir e se tonar solidários uns com os outros. Realmente, quando uma cidade passa por uma catástrofe, ou por uma guerra, de repente todos aqueles que antes nem olhavam para a cara dos seus vizinhos passam a se preocupar e ajudar ao próximo. Como se caísse a ficha de que todo mundo está morando na mesma canoa furada.

Em São Paulo, essa solidariedade do perrengue pode ser vista no trânsito. Todos os esforços estão voltados para avisar os companheiros sobre qual caminho está engarrafado, qual está livre, quantos quilômetros de trânsito foram verificados... Uma estação de rádio, a Sulamérica FM, apresenta de manhã um programa que não toca músicas, só dá boletim de trânsito. E a galera participa ativamente, liga pra lá e avisa: "olha, eu to parado aqui na avenida tal, ta tudo ruim, então é melhor que os ouvintes que vão pra zona x que sigam pela rua y", ou então mandam emails através do WAP do celular sugerindo melhores caminhos e dando os panoramas da região.
Enfim, é um povo unido contra um mal.

Outra situação curiosa é aquela que diz que são tantos os quilômetros de engarrafamento. Nunca entendi que cálculo era aquele, porque eralmente imaginava uma fila dos tais quilômetros só de carros parados. Mas então o Japanimation me explicou que esse cálculo é feito da seguinte forma: eles pegam todos os trechos da cidade que estão engarrafados, medem a distância de cada pequeno engarrafamento e somam. E daí, o número de quilômetros divulgado é importante para que o pobre do paulista possa calcular quanto tempo ele vai demorar para chegar em determinado endereço.

No caminho que faço da casa do Japanimation pro aeroporto, ficamos sempre engarrafados no trecho inicial. Na avenida próxima ao apartamento do Japa, há um muro com um grafite, onde se lê "Você é escravo do trânsito". Tudo bem, é verdade, mas dá uma deprê danada ler aquilo às 7h30, com medo de perder o avião, contando carros incontáveis freando na sua frente.
Você é escravo do trânsito, e o trânsito manda em São Paulo. Solução? Se muda por Rio.

Friday, May 16, 2008

Parando no auge

Alguém já disse, uma vez, que uma coisa boa de trilogias é que no terceiro acaba. Realmente, a julgar pelas infindáveis seqüências de certos títulos cinematográficos, cada uma com menos qualidade que a anterior, é de se comemorar um final, tipo: ai, que bom, estou livre. Eu me senti assim com Matrix: o primeiro foi aquela coisa incrível, figurinos de vinil, Neo tudo de bom, etc e tal. O segundo já desceu bem mais quadrado, mas eu até dei um desconto, porque uma história tinha que ser contada ali, e tinha que deixar um gancho pro grand finale. Mas o terceiro... ui. Arrepio só de lembrar.

Mas algumas continuações funcionaram tão bem que deixaram até saudade. Lembro que quando assisti o primeiro do Senhor dos Anéis, saí do cinema ansiosa para a segunda parte. E quando vi o terceiro e último filme da série, rolou uma certa melancolia de perceber que tinha acabado ali. Quer dizer, eu não ia mais ficar esperando o lançamento no próximo ano, lendo a respeito, contando os dias...

O mesmo aconteceu com Kill Bill. Achei muito foda o Quentin Tarantino não ter se dobrado a mais uma trilogia ao dividir a saga de Beatrice Kiddo em duas partes apenas. E na minha opinião os filmes são tão equilibrados que é difícil separá-los de contexto. Pra mim, o 1 e o 2 são o mesmo filme, não há divisão. Por isso achava mega estranho quando alguém vinha me perguntar de qual dos dois Kill Bill eu gostei mais. Eu pensava: puts, esse cara não entendeu nada!

Mas, pelo visto, quem não entendeu nada fui eu. Porque ontem (quantos anos depois do lançamento do primeiro KB? Uns 4?), Tarantino anunciou que vai fazer o Kill Bill 3. Confesso que... dei uma brochada.

Eu queria ter o Kill Bill como aquela seqüência perfeita, dois filmes clássicos que se completam. Não queria testemunhar uma série que vai caindo de nível, como em O Poderoso Chefão. Porque isso me deixa meio deprimida, confesso.

Mas aí o cara quer fazer o terceido Kill Bill. Beleza, eu até confio nele. Até acho que ele é foda, que vai fazer um filme bom. Mas que soou desesperado, isso soou.
E a gente aqui de fora só fica esperando, com a certeza de que vamos todos assistir no cinema, mesmo que seja uma droga.

Thursday, May 15, 2008

Foi algo que eu disse?

Faz pouco tempo que decidi colocar o endereço deste blog no meu currículo. É que eu achava que o Poça D'água era bobo demais para ser levado em consideração em uma disputa de trabalho e, além disso, algumas vezes os textos daqui assumem um ar confessional demais. Mas todas as minhas crenças foram abaixo quando uma entrevistadora admitiu que procurou meu nome no Google, achou o blog e leu de cabo a rabo. E achou os textos muito bons.

Se através do blog fui bem analisada, e se meu nome aparece facilmente em qualquer site de busca, por que não colocar a minha URL no currículo? Realmente não faz o mínimo sentido, ainda mais porque sou uma pessoa que, além de blog, tem Flickr, Twitter, Orkut (claro), MySpace e tantas outras nerdices inventadas na era da rede mundial de computadores.
E, convenhamos, o meu texto é bom!

O meu texto é bom. Eu sou uma profissional de televisão completa. Eu me adequo a qualquer cargo em poucas semanas. Eu gosto de sentir frio na barriga e de percorrer outros caminhos. Eu não tenho problemas com relacionamentos interpessoais. Aliás, eu não tenho nem problemas com oportunidades de trabalho, porque estou empregada, com bebefícios mil, e todos os meus chefes me elogiam.

Então por que eu nunca fui chamada para nenhuma das últimas três vagas a que me candidatei?

Eu fico pensando: "Será que fui muito arrogante quando disse que sou uma profissional de televisão completa? Mas... cara, eu sou mesmo! Será que eu deveria ter fingido que não? Será que eu deveria ter dito que sou completa mas que, por outro lado, ainda tenho muito o que aprender? As pessoas adoram ouvir que a gente tem muito a aprender com elas. Vai ver foi isso..."

Sempre que saio de uma entrevista, tenho certeza quase absoluta de que fui muito bem. Sei conversar e expor minhas qualidades, e admito que nunca fiz certa coisa, mas que também não tenho medo de tentar, etc etc. Então depois, quando não me procuram com a resposta, eu fico dias martelando: O que eu fiz de errado? É quase como terminar um casinho que você jurava que ia virar namoro. Do nada a história desanda, e você nunca sabe exatamente por quê.

Da última vez foi uma troca de emails com o pessoal de um respeitado site de música eletrônica. Mandei meu currículo e recebi uma resposta quase imediata, pedindo para listar meu gosto musical. Fiquei animada com a rapidez e pronto: discorri sobre o que tenho baixado, sobre o que descobri recentemente, sobre os últimos shows incríveis que eu vi, sobre meu vício na Last.fm... E depois, quando dei meu endereço na Last, nunca mais ninguém do site me escreveu.

Será que não gostaram do meu gosto musical?
Mas, cara... Eu tenho um gosto tão bom!

Estou me tornando uma especilista no pé na bunda de Recursos Humanos.

Tuesday, May 13, 2008

Info addicted

A primeira vez que ouvi o termo "viciados em informação" foi quando uma amiga explicava que seu marido era um data addicted: ou seja, alguém absurdamente enlouquecido por tecnologia, aquele que conhece e pesquisa as ultra novas novidades tecnológicas. É um hobby caro - especialmente para quem mora no Brasil e ganha em Real - mas é uma mania que se espalha no país em progressão geométrica.

Só que eu não sou uma data adictted. E dou graças a Deus, porque dificilmente teria dinheiro para adquirir todas as coisas muito legais que aparecem todos os dias nos meus emails. Mas justamente por essa mania de querer saber sobre tudo que está sendo lançado, relançado, divulgado, revitalizado, inventado, remasterizado (mesmo que eu não tenha nenhuma intenção de adquirir qualisquer dos ítens), me descobri um outro tipo de viciada: a dependente de informação.

A princípio, não há nada de mal em se tornar uma info addicted - ainda mais para uma jornalista que, a princípio, tem que saber de tudo mesmo. Mas a verdade é que a caçada por novidades se tornou quase doentia: toda vez que recebo um email com um link bacana, fico me perguntando como é que nego descobriu esse endeerço, e vasculho os outros links da página, à procura do que pode ser ainda mais interessante, e penso em postar no Twitter minha mais nova descoberta, e só sigo lá quem tem a me oferecer informação relevante (a não ser que sejam amigos da vida real).

Veja a maldição que é ser uma info addicted:

- Quando estou de bobeira em casa ou no trabalho, me sinto na obrigação de procurar novidades na rede. Mas eu acabo voltando sempre aos mesmos sites, o que me deixa muito mal-humorada. - Me sinto culpada quando fico em casa vendo televisão: acho que deveria usar eu tempo livre para ver um filme, ou ler um livro, ou porduzir de alguma maneira.
- Tenho vontade de conhecer o mundo inteiro, e raramente consigo decidir qual é a minha prioridade. Ou seja: minha meta muda assim que recebo informações sobre outro destino.
- Quando vejo uma matéria muito legal, penso: "damn it, por que não pensei nisso antes?" E tenho uma inveja negra do autor (a não ser que o autor seja meu amigo, aí a inveja é branca).
- Tenho idéias de matérias imperdíveis e não sei onde publicá-las. E como sou mesquinha, não quero passar essas idéias pra ninguém, achando que um dia vou finalmente realizar as reportagens.
- Dou refresh no Twitter de 5 em 5 minutos para ver se alguém postou alguma coisa legal.

Agora os pontos positivos - porque nem tudo é terrível nessa vida:

- Informação, atualmente, vale mais que dinheiro. Portanto, convenhamos que o meu vício veio bem a calhar.
- A troca de informações é o que há de mais belo na internet, a meu ver. I'll show mine and you'll show me yours, e dessa maneira todo mundo conhece coisas bem legais.
- Obter informação faz as idéias crescerem e a critividade aumentar, e quanto mais idéias a gente tem, mais elas surgem.
- Mais uma vez a internet ajuda todo mundo: temos acesso a qualquer revista ou publicação, de qualquer parte do mundo, absolutamente de graça.
- As pessoas te acham incrível quando você vem com uma solução que você viu em um site qualquer. Acham que você é a pessoa mais inteligente do mundo, mesmo a idéia não sendo originalmente sua...

Monday, May 12, 2008

Jonathan Safran Foer

Estou na reta final do "Everything is Iluminated", livro daquele cara que eu odeio, porque é genial e tem a minha idade, Jonathan Safran Foer. O que acontece quando estou nas últimas 50 páginas de um livro é que fico absolutamente obcecada por terminar logo a leitura. Não paro de pensar no desfecho e nos personagens, fico ansiosa para poder, finalmente, sentar na cama, embaixo do cobertor, e me dedicar ao fim do romace. E depois, quando acabo, fico meio arrependida de ter ido tão rápido, porque dá um vazio e faz falta a companhia dos personagens do livro terminado.

"Everything is Iluminate" virou filme que eu, resistindo à maior de todas as curiosidades, ainda não assisti. Quero terminar o livro e só depois ver como é que ele foi adaptado ao cinema - mas confesso que existe uma constante luta interna pra não dar o braço a torcer e baixar de uma vez o longa.

E o livro está aqui na minha bolsa. Ele me olha lá do fundo e eu resisto ao impulso de abrir em uma página qualquer e ler um trecho. Ele é um livro que serve assim também, aberto ao acaso. Mesmo fora de ordem ele faz sentido, porque cada palavra escrita foi certamente bem pensada e, por isso, carrega um caminhão de significados.

Futilidades sobre Jonathan Safran Foer:

- "Extremamente alto, incrivelmente perto" foi eleito pelo Poça D'água's Voice Reader, o Oscar dos livros lançados e lidos por quem escreve esse blog, como o melhor romance publicado no século XXI
- Ele já veio ao Brasil participar da Flip e eu mosqueei e não fui lá pedir a benção.
- Como quase todo judeu americano, ele mora em Nova York. E como quase todo morador de Nova York, o que ele escreve tem muito a ver com a sua cidade (o que me faz analisar que os novaiorquinos são os cariocas dos Estados Unidos. Será?)
- Os direitos de "Extremamente.." foram vendidos para a Paramount, o que me deixa com medo, porque o livro é realmente incrível, e se o filme não for nada menos que maravilhoso, eu vou ficar muito, mas muito irritada.
- Ele mora na mesma rua que o Paul Auster.
- Ele é vegetariano (característica que me deixa um pouquinho desapontada).