No último ano, fiz muitos novos amigos. Normal, certo? A gente termina um namoro, começa outro, muda de posição no trabalho, e vai aumentando o círculo de convivência. O que eu acho engraçado são aquelas situações em que a gente conhece a pessoa apenas uma vez ao vivo, e depois mantém contato apenas através da internet. Em alguns casos extremos, nem o contato ao vivo existe: os amigos cyber de amigos do mundo real vão se apresentando e estabelecendo uma conexão. O Zander é o maior exemplo desse tipo de amizade cyber: visitamos muito um o blog do outro até finalmente nos conhecermos ao vivo.
O Twitter me mostrou um outro tipo de novos amigos. Os que eu só conheço por nick, e que me lembram um pouquinho minha época de twenty-something, quando todos os blogueiros do Rio se conheciam e visitavam as páginas uns dos outros. E quando finalmente nos encontrávamos ao vivo, era engraçado: todos comentando de posts alheios, no maior estilo nerd de ser.
Acho legal também quando algumas amizades superam términos de namoro e continuam firmes e fortes. Tenho uns três amigos que conheci através do meu ex, com quem hoje converso mais do que ele próprio. Tenho também alguns amigos do peito que foram ex-casinhos, mas que terminaram na mais pura amizade, com direito a double date: nós e nossos respectivos saindo pra jantar.
Houve um tempo em que acreditei que fazer novas amizades depois da fase adulta era praticamente impossível. Aos poucos, minha teoria foi caindo pro terra. Talvez isso realmente aconteça com aquelas pessoas que se casam e têm filhos e vêem sua vida social um pouco engessada nos programas com outros casados e pais (sem que isso seja uma crítica). Mas como ainda não cheguei a essa fase, e sou realmente uma pessoa pilhável com programas absurdos, acabou que o último ano me fez conhecer gente legal, que eu vou levar comigo pra sempre.
Japanimation é uma delas.
Thursday, April 24, 2008
Tuesday, April 22, 2008
Arroz com Furikake
Impossível namorar com um japonês e não ficar familiarizada com os costumes orientais. É por isso que volta e meia eu e Japanimation vamos dar um pulo na Liberdade, onde compramos potinhos, temperinhos, balinhas e bebidinhas originais da terra do sol nascente, e corremos pra casa pra experimentar as novas aquisições. Aliás, descobri que esse bairro é o preferido dos cariocas que se mudaram pra Sampa, como no caso desse cara aqui.
O campeão no quesito 'melhores sabores orientais' é, definitivamente, o arroz com furikake. Quase ninguém conhece o tempero japonês que vai em cima do arroz, e que tem sabores variados de peixe, ovo, vegetais, mix, etc. Toda vez que vou pra casa do Japanimation, fazemos arroz naquelas panelas elétricas (aliás, aposto que muita gente aqui no Rio nem conhece as tais panelas!), e passamos o fim de semana beliscando a iguaria, fazendo montinhos entre as refeições, ganhando alguns deliciosos quilos a mais.
Volta e meia eu e o Japa inventamos de fazer um almoço oriental. No Japão, os pratos são separados por tigelinhas do tamanho de uma única porção. Comemos, então, com um monte de vasilhas em cima da mesa: uma pro arroz com furikake, outra com missoshiro, outra com bolinhos chineses... E comemos de hashi, e bebemos saquê em copos de cerâmica, e dispensamos os sushis. Deve ser por isso, por comer pequenas porções em diversos recipientes, que os japoneses são tão magros, imagino.
Eu não fazia idéia de que o arroz com furikake era o número um na preferência dos descendentes e simpatizantes de japoneses. Depois li uma matéria com nisseis famosos, e todos se derretem frente ao pozinho mágico. É amor à primeira vista.
O campeão no quesito 'melhores sabores orientais' é, definitivamente, o arroz com furikake. Quase ninguém conhece o tempero japonês que vai em cima do arroz, e que tem sabores variados de peixe, ovo, vegetais, mix, etc. Toda vez que vou pra casa do Japanimation, fazemos arroz naquelas panelas elétricas (aliás, aposto que muita gente aqui no Rio nem conhece as tais panelas!), e passamos o fim de semana beliscando a iguaria, fazendo montinhos entre as refeições, ganhando alguns deliciosos quilos a mais.
Volta e meia eu e o Japa inventamos de fazer um almoço oriental. No Japão, os pratos são separados por tigelinhas do tamanho de uma única porção. Comemos, então, com um monte de vasilhas em cima da mesa: uma pro arroz com furikake, outra com missoshiro, outra com bolinhos chineses... E comemos de hashi, e bebemos saquê em copos de cerâmica, e dispensamos os sushis. Deve ser por isso, por comer pequenas porções em diversos recipientes, que os japoneses são tão magros, imagino.
Eu não fazia idéia de que o arroz com furikake era o número um na preferência dos descendentes e simpatizantes de japoneses. Depois li uma matéria com nisseis famosos, e todos se derretem frente ao pozinho mágico. É amor à primeira vista.
Friday, April 18, 2008
Os Estrangeiros
Como todos os outros brasileiros espalhados pelo planeta, tenho acompanhado diariamente o caso Isabella. Mas ao contrário da grande maioria, não tenho uma opinião formada: acho tudo um grande mistério, e considero que só o C.S.I da televisão conseguiria resolver essa história. E, mesmo assim, só se for a unidade de Las Vegas. A exepriência é muito importante nessas horas.
Para mim, o circo armado em torno da morte da menina lembra, em muito, 'O Estrangeiro', aquele livro do Camus que todo mundo leu aos vinte e poucos anos e ficou absurdamente influenciado. O anti-herói do livro é declarado culpado por matar um argelino (o cara é francês) e pega a pena mais alta depois que é julgado não pelo crime, mas pelas suas atitudes frente à sociedade. Vai uma pessoa lá e testemunha contando que o cara não chorou no funeral da mãe. Depois, vai uma ex-namorada e diz que o cara é frio, incapaz de demonstrar sentimentos. E quando a narrativa chega ao fim do julgamento, o anti-herói vira inimigo número um da nação, ganhando um castigo maior que o do parricida julgado na sessão anterior.
É óbvio que o pai e a madrasta da Isabella já estão condenados. O que me faz pensar que, se um dia olharem pra minha vida com a mega lupa que estão usando para esquadrinhar a vida do casal, tenho certeza de que a opinião pública será de que eu sou uma assassina. Mesmo que quem me conheça bem saiba que é impossível eu, um dia, matar alguém. Aliás, quem é que sobreviveria a uma lupa sobre a sua vida? Não acho que alguém atenda a todos os padrões de normalidade que as pessoas cobram uns dos outros.
Disseram que a madrasta deu chilique de ciúmes. E quem nunca deu? Disseram que ela reclama da presença da enteada no fim de semana. Já ouvi muitas amigas que são namoradas ou casadas com homens que já tem filhos reclamarem da mesma coisa. Já vi e já participei de brigas com namorados que eu preseumo que o resto da vizinhança tenha ouvido. Alguém aqui nunca berrou com o namorado? Ou nunca ouviu o namorado berrar com você?
Não tenho a pretensão de dizer que o pai e a madrasta da Isabella sejam inocentes e ótimas pessoas. Mas ver um taxista que fez uma corrida com a Ana Carolina há não sei quanto tempo ir testemunhar é demais, né não?
Qualquer um é estrangeiro quando todos viram as costas de uma vez só. É muito fácil se unir em grupinhos de iguais e apontar pro outro lado da rua. Difícil é apontar pra dentro do grupo.
Para mim, o circo armado em torno da morte da menina lembra, em muito, 'O Estrangeiro', aquele livro do Camus que todo mundo leu aos vinte e poucos anos e ficou absurdamente influenciado. O anti-herói do livro é declarado culpado por matar um argelino (o cara é francês) e pega a pena mais alta depois que é julgado não pelo crime, mas pelas suas atitudes frente à sociedade. Vai uma pessoa lá e testemunha contando que o cara não chorou no funeral da mãe. Depois, vai uma ex-namorada e diz que o cara é frio, incapaz de demonstrar sentimentos. E quando a narrativa chega ao fim do julgamento, o anti-herói vira inimigo número um da nação, ganhando um castigo maior que o do parricida julgado na sessão anterior.
É óbvio que o pai e a madrasta da Isabella já estão condenados. O que me faz pensar que, se um dia olharem pra minha vida com a mega lupa que estão usando para esquadrinhar a vida do casal, tenho certeza de que a opinião pública será de que eu sou uma assassina. Mesmo que quem me conheça bem saiba que é impossível eu, um dia, matar alguém. Aliás, quem é que sobreviveria a uma lupa sobre a sua vida? Não acho que alguém atenda a todos os padrões de normalidade que as pessoas cobram uns dos outros.
Disseram que a madrasta deu chilique de ciúmes. E quem nunca deu? Disseram que ela reclama da presença da enteada no fim de semana. Já ouvi muitas amigas que são namoradas ou casadas com homens que já tem filhos reclamarem da mesma coisa. Já vi e já participei de brigas com namorados que eu preseumo que o resto da vizinhança tenha ouvido. Alguém aqui nunca berrou com o namorado? Ou nunca ouviu o namorado berrar com você?
Não tenho a pretensão de dizer que o pai e a madrasta da Isabella sejam inocentes e ótimas pessoas. Mas ver um taxista que fez uma corrida com a Ana Carolina há não sei quanto tempo ir testemunhar é demais, né não?
Qualquer um é estrangeiro quando todos viram as costas de uma vez só. É muito fácil se unir em grupinhos de iguais e apontar pro outro lado da rua. Difícil é apontar pra dentro do grupo.
Thursday, April 17, 2008
Sem grana
Como eu contei outro dia, ando dura como há anos não era. Exagerei no cartão de crédito, entrei no curso de espanhol e na academia sem colocar no papel quanto sairia isso para o meu (parco) orçamento e, ainda por cima, me descabelo com as promoções quase-vantajosas da Gol Linhas aéreas. Resumindo, minha vida financeira está um caos.
E de repente eu me vejo fazendo contas para saber se posso ou não posso tomar um chope com os amigos. É verdade o que dizem, que depois que você se acostuma com um padrão de vida, descer desse patamar é quase impossível. Todo o problema é que meus gastos fixos aumentaram consideravelmente, mas meus hábitos insano-econômicos continuam os mesmos. Ainda é difícil resistir a uma liquidação mega power. Ou a uma balada que promete ser inacreditável. Ou a uma viagem no fim de semana. É muito, mas muito difícil mesmo, não cerder à minha alma de milionária.
Bom, com esse baita tombo financeiro que eu levei, estou reaprendendo a viver na base dos cálculos. Confesso que ainda dou algumas escorregadelas, que estão me custando minha queriada e suada poupança, mas já consegui fazer um pequeno manual para tempos de crise.
A saber:
1 - Economizar no almoço
Vou almoçar no bandeijão ao invés de dar pinta no restaurante onde os diretores da empresa se reúnem. Como sou metida a besta, adorava comer no meio dos ricos. Agora vou pra junto da plebe e garanto uns troquinhos a mais pro chope de fim de semana.
2 - Ir ao cinema às quartas
Como todo mundo sabe, quarta-feira é o dia mais barato para se ir ao cinema - pelo menos no Rio e em SP. Reservei essa noite pra me atualizar cinematograficamente. A preferência é por cinemas de rua, porque aí não tenho que pagar estacionamento de shopping.
3 - Chopes, só no fim de semana
Acabou essa história de encontrar os amigos de segunda a quinta. Até porque, com a minha atual escala da semana, eu nem tenho tempo pra isso mesmo...
4 - Fazer programas diurnos
Praia não gasta nada. Paineiras também não. Jardim Botânico até gasta um pouquinho, mas nada que se compare ao que eu costumo gastar no sábado à noite.
5 - Esquecer, por um tempo, mega baladas
6 - Esquecer, por um tempo, comprinhas deliciosas.
7 - Esquecer, por um tempo, passagens de "promoção" da Gol e encarar Rio-SP de ônibus mesmo.
8 - Tentar cozinhas receritas incríveis em casa
Eu juro que o processo é divertido, mesmo que o resultado final fique uma merda. Se ficar muito ruim mesmo, do tipo incomível, dá pra comprar uma pizza no Zona Sul, que é bem baratinha, e tem pertíssimo da minha casa. Mas, na boa, eu nunca fiz uma comida incomível. Mais ou menos, tudo bem. Incomível, jamais!
9 - Chamar a galera pra casa ao invés de ir pra rua.
10 - Sentar a bunda em casa e aproveitar para ler todos os livros que estão pendentes.
E olha que são muitos. Eu mal dou conta da Rolling Stone mensal!
Pelos meus cálculos, em junho eu to bem de novo. Mas aí começa a saga de juntar dinheiro pra viajar pra Tóquio.
Mas isso é outra história. E eu já cansei de chorar por ser pobre por hoje. Tá de bom tamanho já, né?
E de repente eu me vejo fazendo contas para saber se posso ou não posso tomar um chope com os amigos. É verdade o que dizem, que depois que você se acostuma com um padrão de vida, descer desse patamar é quase impossível. Todo o problema é que meus gastos fixos aumentaram consideravelmente, mas meus hábitos insano-econômicos continuam os mesmos. Ainda é difícil resistir a uma liquidação mega power. Ou a uma balada que promete ser inacreditável. Ou a uma viagem no fim de semana. É muito, mas muito difícil mesmo, não cerder à minha alma de milionária.
Bom, com esse baita tombo financeiro que eu levei, estou reaprendendo a viver na base dos cálculos. Confesso que ainda dou algumas escorregadelas, que estão me custando minha queriada e suada poupança, mas já consegui fazer um pequeno manual para tempos de crise.
A saber:
1 - Economizar no almoço
Vou almoçar no bandeijão ao invés de dar pinta no restaurante onde os diretores da empresa se reúnem. Como sou metida a besta, adorava comer no meio dos ricos. Agora vou pra junto da plebe e garanto uns troquinhos a mais pro chope de fim de semana.
2 - Ir ao cinema às quartas
Como todo mundo sabe, quarta-feira é o dia mais barato para se ir ao cinema - pelo menos no Rio e em SP. Reservei essa noite pra me atualizar cinematograficamente. A preferência é por cinemas de rua, porque aí não tenho que pagar estacionamento de shopping.
3 - Chopes, só no fim de semana
Acabou essa história de encontrar os amigos de segunda a quinta. Até porque, com a minha atual escala da semana, eu nem tenho tempo pra isso mesmo...
4 - Fazer programas diurnos
Praia não gasta nada. Paineiras também não. Jardim Botânico até gasta um pouquinho, mas nada que se compare ao que eu costumo gastar no sábado à noite.
5 - Esquecer, por um tempo, mega baladas
6 - Esquecer, por um tempo, comprinhas deliciosas.
7 - Esquecer, por um tempo, passagens de "promoção" da Gol e encarar Rio-SP de ônibus mesmo.
8 - Tentar cozinhas receritas incríveis em casa
Eu juro que o processo é divertido, mesmo que o resultado final fique uma merda. Se ficar muito ruim mesmo, do tipo incomível, dá pra comprar uma pizza no Zona Sul, que é bem baratinha, e tem pertíssimo da minha casa. Mas, na boa, eu nunca fiz uma comida incomível. Mais ou menos, tudo bem. Incomível, jamais!
9 - Chamar a galera pra casa ao invés de ir pra rua.
10 - Sentar a bunda em casa e aproveitar para ler todos os livros que estão pendentes.
E olha que são muitos. Eu mal dou conta da Rolling Stone mensal!
Pelos meus cálculos, em junho eu to bem de novo. Mas aí começa a saga de juntar dinheiro pra viajar pra Tóquio.
Mas isso é outra história. E eu já cansei de chorar por ser pobre por hoje. Tá de bom tamanho já, né?
Wednesday, April 16, 2008
Mais um membro pro subclube
Da última vez que fui na casa da Clarissa, ela exibia uma barriguinha de uns cinco meses de gravidez, que contrastava bastante com seu corpo magérrimo de professora de pilates. Enquanto Guilherme, o filho da Bia, tocava de cinco em cinco minutos o boneco do Darth Vader que decorava o futuro quarto do bebê, eu e as outras não-mães da casa nos empanturrávamos de pizza e coca-cola. E vinho branco. E pão de queijo.
A Clarissa, a Bia e todas as outras pessoas que estavam no apartamento da Barra da Tijuca naquela noite, são amigas de colégio que o tempo insistiu em não separar. Ao contrário: depois de velha fiquei mais próxima a elas do que quando era estudante e andava preocupada demais em passar as madrugadas de sábado na Dr. Smith - programa que mais ninguém ali gostava de fazer - com execeção da Cris, que de vez em quando se aventurava pelos caminhos underground.
O fato é que a Clarissa daqui a pouquíssimo vai ter um filho e vai entrar pro hall das mães do grupo. Esse subclube vem ganhando mais e mais adeptas, a cada ano que passa, apesar do ritmo lento. Parece que é mesmo um caminho sem volta.
Eu gosto de ver as amigas finalmente se tornando adultas. Eu gosto de acompanhar as ultras, ver as roupinhas de bebê e comprar presentes pro futuro rebento. Afinal de contas, meus hormônios também estão aí. Que atire a primeira pedra a mulher que nunca sentiu o peso da necessidade da procriação ao se deparar com um bebê fofíssimo pela frente.
Meu pequeno grupo de amigas se encontra de vez em quando, através de combinações por grupos de emails. Se não fossem os emails, não sei o que seria da minha vida social. Somos todas mega atarefadas, trabalhando muito e ganhando menos do que gostaríamos, cuidando da casa aos trancos e barrancos, bebendo um pouquinho mais no fim de semana, tendo que administrar amigos, namorados, ficantes e pais em um espaço de 48 horas, se jogando na academia na segunda-feira pra compensar o descompensamento do sábado e do domingo.
Tenho certeza de que o Yahoo pensou na gente quando inventou os egroups.
A Clarissa, a Bia e todas as outras pessoas que estavam no apartamento da Barra da Tijuca naquela noite, são amigas de colégio que o tempo insistiu em não separar. Ao contrário: depois de velha fiquei mais próxima a elas do que quando era estudante e andava preocupada demais em passar as madrugadas de sábado na Dr. Smith - programa que mais ninguém ali gostava de fazer - com execeção da Cris, que de vez em quando se aventurava pelos caminhos underground.
O fato é que a Clarissa daqui a pouquíssimo vai ter um filho e vai entrar pro hall das mães do grupo. Esse subclube vem ganhando mais e mais adeptas, a cada ano que passa, apesar do ritmo lento. Parece que é mesmo um caminho sem volta.
Eu gosto de ver as amigas finalmente se tornando adultas. Eu gosto de acompanhar as ultras, ver as roupinhas de bebê e comprar presentes pro futuro rebento. Afinal de contas, meus hormônios também estão aí. Que atire a primeira pedra a mulher que nunca sentiu o peso da necessidade da procriação ao se deparar com um bebê fofíssimo pela frente.
Meu pequeno grupo de amigas se encontra de vez em quando, através de combinações por grupos de emails. Se não fossem os emails, não sei o que seria da minha vida social. Somos todas mega atarefadas, trabalhando muito e ganhando menos do que gostaríamos, cuidando da casa aos trancos e barrancos, bebendo um pouquinho mais no fim de semana, tendo que administrar amigos, namorados, ficantes e pais em um espaço de 48 horas, se jogando na academia na segunda-feira pra compensar o descompensamento do sábado e do domingo.
Tenho certeza de que o Yahoo pensou na gente quando inventou os egroups.
Tuesday, April 15, 2008
Síndrome do jogador de RPG
Quando eu era mais nova, jogava RPG. Faz parte da minha formação geek virar noites regadas a Coca-Cola e pizza, imaginando estar em um território de ambientação medieval, se metendo em encrencas a torto e a direito. (Aliás, "a torto e a direito" é uma expressão legal de se usar, hein? Nunca tinah usado antes...). Foi através do RPG que eu aprendi que, para ter história, é preciso meter o nariz onde não somos chamados. Se o mestre do jogo narra que ali naquela caverna tem um barulho estranho, é logico que o meu jogador vai ver o que é. É preciso criar enredo. E, principlamente, é preciso criar jogo.
Lembrei das noitadas de RPG quando assisti "Beijo Roubado" no último fim de semana. Trata-se de um road movie mulherzinha, bem fofinho e com final suspirante, mas continua sendo o Wong Kar Wai, de alguma maneira. Enfim, a Norah Jones, protagonista, sai pelos Estados Unidos, vivendo um pouquinho em cada cidade. Totalmente On The Road de esmalte. E durante o filme ela vai se metendo nas encrencas, metendo o bedelho na vida dos outros e, assim, vai criando seus acontecimentos.
Saí do cinema pensando que também tô precisando dar uma de jogador de RPG. De meter o nariz nas possibilidades que me aparecem pela frente, pra depois decidir se é isso ou não é. Ando decidindo as coisas antes de vivê-las, olha que merda. Como se eu já tivesse 75 anos e sofresse de dores de artrite. Só que eu tenho 30 e acabei de parar de fumar. Ou seja: lavou, tá novo.
Tem gente que passa a vida evitando entrar nas cavernas com barulhos estranhos. Sei lá, de repente eu vou ser assim também. Não me nego esse direito, de passar ao largo dos acontecimentos. Mas é melhor deixar isso pra quando eu tiver artrite, né? Ou pro momento em que barulhos em cavernas não pareçam tão perigosamente tentadores.
Lembrei das noitadas de RPG quando assisti "Beijo Roubado" no último fim de semana. Trata-se de um road movie mulherzinha, bem fofinho e com final suspirante, mas continua sendo o Wong Kar Wai, de alguma maneira. Enfim, a Norah Jones, protagonista, sai pelos Estados Unidos, vivendo um pouquinho em cada cidade. Totalmente On The Road de esmalte. E durante o filme ela vai se metendo nas encrencas, metendo o bedelho na vida dos outros e, assim, vai criando seus acontecimentos.
Saí do cinema pensando que também tô precisando dar uma de jogador de RPG. De meter o nariz nas possibilidades que me aparecem pela frente, pra depois decidir se é isso ou não é. Ando decidindo as coisas antes de vivê-las, olha que merda. Como se eu já tivesse 75 anos e sofresse de dores de artrite. Só que eu tenho 30 e acabei de parar de fumar. Ou seja: lavou, tá novo.
Tem gente que passa a vida evitando entrar nas cavernas com barulhos estranhos. Sei lá, de repente eu vou ser assim também. Não me nego esse direito, de passar ao largo dos acontecimentos. Mas é melhor deixar isso pra quando eu tiver artrite, né? Ou pro momento em que barulhos em cavernas não pareçam tão perigosamente tentadores.
Monday, April 14, 2008
'What are you doing?'
Ando completamente viciada em Twitter. E olha que o Zander, há meses, me dizia que eu tinha que entrar, que era muito legal, que não sei mais o que... Eu dizia "ah, não, mais uma mania de pós adolescentes da web, vou ter que ficar fazendo social on line com neguinho, colocar uma foto no profile que revele meu ângulo mais bonito, ficar bolando frases inteligentes..." Ele dizia que não era nada disso, mas eu não fui. Depois o Nicholas colocou pilha também. E eu, nada.
Até que, um dia, recebi por email o link do Twitteratura. E pirei. Na mesma hora, entrei no Twitter e me inscrevi, e comecei a seguir alguns amigos que tinham contas... E agora passo o dia pensando: tenho que postar isso no Twitter, tenho que escrever sobre aquilo, qual será o primeiro post de hoje? E assim por diante.
Pra quem não conhece ainda, o Twitter é (mais um) site de relacionamentos, mais ou menos, em que podemos postar o que estamos fazendo ou pensando no momento. A pergunta "What are you doing?" encabeça a lista de comentários dos meus amigos e de pessoas que não conheço.
Sigo apenas os comentários que eu quero, posso bloquear quem eu acho péla e tenho a possibilidade de só mostrar minhas anotações pra quem for do meu gosto. Mas como sou exibida, deixo tudo público mesmo.
Um detalhe: tenho apenas 140 toques pra dizer o que quero.
É um vício nerd. Mas é divertido.
Até que, um dia, recebi por email o link do Twitteratura. E pirei. Na mesma hora, entrei no Twitter e me inscrevi, e comecei a seguir alguns amigos que tinham contas... E agora passo o dia pensando: tenho que postar isso no Twitter, tenho que escrever sobre aquilo, qual será o primeiro post de hoje? E assim por diante.
Pra quem não conhece ainda, o Twitter é (mais um) site de relacionamentos, mais ou menos, em que podemos postar o que estamos fazendo ou pensando no momento. A pergunta "What are you doing?" encabeça a lista de comentários dos meus amigos e de pessoas que não conheço.
Sigo apenas os comentários que eu quero, posso bloquear quem eu acho péla e tenho a possibilidade de só mostrar minhas anotações pra quem for do meu gosto. Mas como sou exibida, deixo tudo público mesmo.
Um detalhe: tenho apenas 140 toques pra dizer o que quero.
É um vício nerd. Mas é divertido.
Tuesday, April 08, 2008
Semanas
Às terças e quintas estudo espanhol em uma sala de freqüência levemente bizarra. Meu professor é um tipo simpático, morador de Santa Teresa, que aprendeu espanhol praticamente sozinho, ouvindo Luis Miguel e conversando, entre cervejas, com um amigo mexicano. Ao meu lado está o adolescente espinhento natural de todas as salas do mundo onde se estuda outra língua que não a materna. E o "meu" adolescente é gente boa, muito mais simpático do que eu era quando tinha a idade dele, e muito mais compenetrado também. Depois, na parede oposta, três matronas se alternam no cargo de Aposentadas que Fazem Cursos. Tenho uma certa inveja do trio, porque eu adoraria me inscrever em aulas as mais variadas, de cursos de idiomas a pintura de porcelana.
Quarta-feira é o dia reservado ao cinema. Vou sozinha, apesar de sempre tentar rebocar amigos via e-mail. Mas isso não é exatamente ruim, porque na verdade eu até prefiro ir ao cinema sozinha, sentar no escuro e não falar com ninguém nas próximas duas horas. Sento na frente de todos os outros espectadores, em uma tentaiva de esquecer que tem gente viva ali. É que gente viva me distrai. Volta e meia me pego olhando pro lado, pra ver se as outras pessoas estão chorando, ou se estão me vendo chorar.
Segunda à noite eu vou à academia, ou lavo roupa, ou arrumo o quarto, ou desfaço a mala, ou posto novas fotos no Flickr, ou tento me concentrar no romance da vez, ou converso no Skype por uma hora, initerruptamente. Segunda é sempre uma noite com infinitas possibilidades e tempo curto para tudo o que se apresenta.
Sexta durmo cedo ou tarde pra esperar quem vem.
E sábado ele chega ou eu vou.
E domingo passamos o dia morrendo de preguiça, aqui ou lá.
E depois tem uma despedida. Mais uma.
E segunda volta de novo, nesse vai e vem que nem dá pra saber onde começa e onde termina.
Pouco tempo pra muita coisa. Por isso que eu tinha que viver mais de 100 anos.
Quarta-feira é o dia reservado ao cinema. Vou sozinha, apesar de sempre tentar rebocar amigos via e-mail. Mas isso não é exatamente ruim, porque na verdade eu até prefiro ir ao cinema sozinha, sentar no escuro e não falar com ninguém nas próximas duas horas. Sento na frente de todos os outros espectadores, em uma tentaiva de esquecer que tem gente viva ali. É que gente viva me distrai. Volta e meia me pego olhando pro lado, pra ver se as outras pessoas estão chorando, ou se estão me vendo chorar.
Segunda à noite eu vou à academia, ou lavo roupa, ou arrumo o quarto, ou desfaço a mala, ou posto novas fotos no Flickr, ou tento me concentrar no romance da vez, ou converso no Skype por uma hora, initerruptamente. Segunda é sempre uma noite com infinitas possibilidades e tempo curto para tudo o que se apresenta.
Sexta durmo cedo ou tarde pra esperar quem vem.
E sábado ele chega ou eu vou.
E domingo passamos o dia morrendo de preguiça, aqui ou lá.
E depois tem uma despedida. Mais uma.
E segunda volta de novo, nesse vai e vem que nem dá pra saber onde começa e onde termina.
Pouco tempo pra muita coisa. Por isso que eu tinha que viver mais de 100 anos.
Monday, April 07, 2008
Retorno do Jedi
Quem tem blog sabe que de vez em quando rola um bode de continuar escrevendo. Rola uma total falta de saco, um questionamento do tipo "pra que tudo isso", e aí você percebe que os seus últimos dez textos foram todos risíveis e alvos de comentários pseudo-terroristas da internet (ai, ai, ai, como é fácil ser terrorista na internet, a melhor arma dos covardes anônimos!). E aí você não escreve mais. E pronto. E de vez em quando vê uma coisa ali e outra aqui e pensa: eu poderia fazer um texto sobre isso - mas você não faz. E alguns amigos perguntam por que você não escreve mais, mas são realmente poucos os amigos que perguntam e então, quando você vê, há dois meses o seu blog não vê atualização. E foi assim que detonaram o meu querido Pequenas Observações sobre Coisas sem Importância II, que Deus o tenha. E só não lançaram esse aqui para as trevas cibernéticas porque o Blogger.com é infinitamente melhor que o Blogger.com.br, que, por sua vez, foi um mico de dar dó da Globo.com. Enfim.
Mas desde o último texto o que aconteceu foi que eu perdi o controle do meu cartão de crédito, pela primeira vez em trinta anos, e de repente me vi na maior pindaíba da vida e, mesmo assim, voando para São Paulo de 15 em 15 dias para encontrar o Samurai, antes que ele encontre outra pessoa mais acessível que eu, e ainda por cima me inscrevi em uma academia e comecei um curso de espanhol. Ah, sim, e nunca mais fumei. E quase não tenho tempo para arrumar meu quarto, e não vejo mais Seinfeld religiosamente todos os dias, e não consigo ler o primeiro livro do Jonathan Safran Foer, que eu comprei em inglês mas to boiando em várias partes. E, apesar de tudo e de todos, eu to na boa e achando que as coisas estao indo bem.
Tá tudo bem na Avenida Paulista e tudo bem na Praça São Salvador e eu espero realmente voltar a escrever aqui.
Mas desde o último texto o que aconteceu foi que eu perdi o controle do meu cartão de crédito, pela primeira vez em trinta anos, e de repente me vi na maior pindaíba da vida e, mesmo assim, voando para São Paulo de 15 em 15 dias para encontrar o Samurai, antes que ele encontre outra pessoa mais acessível que eu, e ainda por cima me inscrevi em uma academia e comecei um curso de espanhol. Ah, sim, e nunca mais fumei. E quase não tenho tempo para arrumar meu quarto, e não vejo mais Seinfeld religiosamente todos os dias, e não consigo ler o primeiro livro do Jonathan Safran Foer, que eu comprei em inglês mas to boiando em várias partes. E, apesar de tudo e de todos, eu to na boa e achando que as coisas estao indo bem.
Tá tudo bem na Avenida Paulista e tudo bem na Praça São Salvador e eu espero realmente voltar a escrever aqui.
Monday, March 10, 2008
Mauro fez 30 anos
Às vezes parece absurdo o quanto eu e meus amigos estamos envelhecendo. Quer dizer, todo o meu grupo social se recusa terminantemente a virar adulto. Poucos se casaram, quase ninguém tem filhos. E, para a maioria solteira, as noites de sábado ainda são regadas a _________ (complete aqui com o destilado de sua preferência).
Outro dia, o Mauro fez 30 anos. Mauro é um amigo que abandonou a carreira de farmacêutico e decidiu cursar medicina quando já estava nos seus 26 anos. Agora, ele divide seu tempo livre entre os amigos do colégio, todos balzaquianos, e colegas de faculdade, pós adolescentes na frescura dos vinte e pouco.
E que festa fazer em um aniversário com convidados tão diversos? O Mauro estava quase desistindo de ter sua comemoração bombástica, quando, a tempo, lembrou de um lugar que iria agradar tanto seus amigos bagaceiros e trintões quanto à inocente molecada de medicina: uma noite no Buraco da Lacraia.
Pra quem não sabe, o Buraco é um bar GLS que fica na Lapa, onde você paga sinceros R$18 e bebe cerveja de garrafa e caipirinha a noite inteira. São dois andares: no de cima, uma pista que toca Britney Spears e outras musas pop, no de baixo, um videokê incrível, um bar mais ou menos e um darkroom que eu tive medo de entrar.
Mauro fechou a noite cantando "Total Eclipse of The Heart": "O ponto alto do evento, uma catarse coletiva", segundo o aniversariante. Na verdade, o cara de pau do Mauro copiou a idéia que eu tive na minha festa de 30 anos, quando pedi ao Marinho para fechar a noite com "Total..."
Dizem que a música fechou bem a festa; eu não sei, porque não estava mais lá. Fui embora sem dar tchau do meu próprio aniversário.
Anyway, esse texto é só pra falar que é possível ser trintão e se acabar de cantar em um videokê brega do centro e no dia seguinte estar ótimo, concentradíssimo na sua vida de interno-que-um-dia-será-um-médico-de-muito-dinheiro.
E viva balzaquianos que não querem envelhecer.
Outro dia, o Mauro fez 30 anos. Mauro é um amigo que abandonou a carreira de farmacêutico e decidiu cursar medicina quando já estava nos seus 26 anos. Agora, ele divide seu tempo livre entre os amigos do colégio, todos balzaquianos, e colegas de faculdade, pós adolescentes na frescura dos vinte e pouco.
E que festa fazer em um aniversário com convidados tão diversos? O Mauro estava quase desistindo de ter sua comemoração bombástica, quando, a tempo, lembrou de um lugar que iria agradar tanto seus amigos bagaceiros e trintões quanto à inocente molecada de medicina: uma noite no Buraco da Lacraia.
Pra quem não sabe, o Buraco é um bar GLS que fica na Lapa, onde você paga sinceros R$18 e bebe cerveja de garrafa e caipirinha a noite inteira. São dois andares: no de cima, uma pista que toca Britney Spears e outras musas pop, no de baixo, um videokê incrível, um bar mais ou menos e um darkroom que eu tive medo de entrar.
Mauro fechou a noite cantando "Total Eclipse of The Heart": "O ponto alto do evento, uma catarse coletiva", segundo o aniversariante. Na verdade, o cara de pau do Mauro copiou a idéia que eu tive na minha festa de 30 anos, quando pedi ao Marinho para fechar a noite com "Total..."
Dizem que a música fechou bem a festa; eu não sei, porque não estava mais lá. Fui embora sem dar tchau do meu próprio aniversário.
Anyway, esse texto é só pra falar que é possível ser trintão e se acabar de cantar em um videokê brega do centro e no dia seguinte estar ótimo, concentradíssimo na sua vida de interno-que-um-dia-será-um-médico-de-muito-dinheiro.
E viva balzaquianos que não querem envelhecer.
Aqui e lá
Lá é assim:
Saio à noite e quase não conheço ninguém, visto mini-saia e as outras meninas não, invejo a maneira como elas sabem usar pomada no cabelo, encaro um inacreditável trânsito a caminho do aeroporto às 6h30, planejo ter um gato e colocar uma rede de proteção na varanda, bebo café no Starbucks, acabo comprando muitos livros necessários (porque minha vida precisa de livros maravilhosos) na Livraria Cultura, imagino como seria morar lá e não sei bem o que eu acho disso. Talvez. Um dia. Quem sabe.
Aqui é assim:
Pouso na cidade azul e lá se vão todas as minhas vontades de morar em outro lugar. Só fica a saudade. Dele.
Saio à noite e quase não conheço ninguém, visto mini-saia e as outras meninas não, invejo a maneira como elas sabem usar pomada no cabelo, encaro um inacreditável trânsito a caminho do aeroporto às 6h30, planejo ter um gato e colocar uma rede de proteção na varanda, bebo café no Starbucks, acabo comprando muitos livros necessários (porque minha vida precisa de livros maravilhosos) na Livraria Cultura, imagino como seria morar lá e não sei bem o que eu acho disso. Talvez. Um dia. Quem sabe.
Aqui é assim:
Pouso na cidade azul e lá se vão todas as minhas vontades de morar em outro lugar. Só fica a saudade. Dele.
Tuesday, February 26, 2008
Tudo muda depois dos 30
Não fumo há cinco dias. Todo manhã acordo e faço um X no calendário referente ao dia anterior. Para quem nunca fumou, a conquista de 24h sem nicotina é risível; para quem é ex-fumante, ou ainda se delicia com o bastãozinho, essa marca é digna de nota. Afinal, passei por um sábado à noite com vodca e festinhas sem me deixar levar pela tentação do traguinho noturno. Aquele traguinho que estraga o trabalho de uma semana, sabe como é?
Pois então, agora que estou tentando entrar pro time dos não-fumantes, tenho muito medo de engordar. Muito mesmo. Me encho de litros e litros de água, mas a vontade é cair no chocolate. Que substituição bizarra essa, de nicotina por doce. Queria muito saber se só eu tenho essa loucura, ou se é uma mania conhecida de gente que está deixando de lado os cigarros. E aí, na mesma proporção em que me preocupo com o peso, engordo. Ou melhor: em sinto mais gorda.
O lance é que as coisas definitivamente não são como antes. Quando era mais nova, eu comia doces à vontade. Tudo bem, nunca fui daquelas que tinham corpinho de modelo, ou que eram saradas. Mas também nunca tive muitos quilos extras. Era uma extensão aturável, digamos assim.
De uns tempos pra cá, perder peso tornou-se uma odisséia. Eu tento fechar a boca, mas nada de ver resultado... Só emagreço mesmo quando estou trabalhando loucamente, ou quando estou triste. Aí é incrível: perco a fome totalmente, e só de olhar pra comida já fico enjoada. Tenho algumas amigas que passam pelo mesmo sintoma, e é de uma delas a melhor frase de emagrecimento que eu já ouvi: "Eu gosto de ter o peso de quando estou deprimida."
Pra completar, outro dia fui a uma entrevista de emprego e estava cara a cara com a mocinha do RH. Digo mocinha do RH porque ela era bem novinha, mas devia ter seus trinta e poucos. Mas tinha cara de menina - as roupas é que diziam em que casa decimal sua idade se encontrava. Anyway, ela disse que eu estava diferente da foto do currículo. É que o meu CV tem uma foto que tirei em Jericoacoara, ainda de cabelo comprido, sorriso de quem está de férias no Ceará e, claro, vinte e seis aninhos de praia.
Expliquei pra mocinha do RH o contexto em que aquela foto havia sido tirada e concluí com: "... e eu tinha uns 26 anos na época, agora tenho 30".
Ela me olhou com uma expressão de quem sabe do que eu estou falando. E completou, entre suspiros: "Tudo muda depois dos 30, minha filha".
Até para balzaquianas que são praticamente adolescentes, imagino...
Pois então, agora que estou tentando entrar pro time dos não-fumantes, tenho muito medo de engordar. Muito mesmo. Me encho de litros e litros de água, mas a vontade é cair no chocolate. Que substituição bizarra essa, de nicotina por doce. Queria muito saber se só eu tenho essa loucura, ou se é uma mania conhecida de gente que está deixando de lado os cigarros. E aí, na mesma proporção em que me preocupo com o peso, engordo. Ou melhor: em sinto mais gorda.
O lance é que as coisas definitivamente não são como antes. Quando era mais nova, eu comia doces à vontade. Tudo bem, nunca fui daquelas que tinham corpinho de modelo, ou que eram saradas. Mas também nunca tive muitos quilos extras. Era uma extensão aturável, digamos assim.
De uns tempos pra cá, perder peso tornou-se uma odisséia. Eu tento fechar a boca, mas nada de ver resultado... Só emagreço mesmo quando estou trabalhando loucamente, ou quando estou triste. Aí é incrível: perco a fome totalmente, e só de olhar pra comida já fico enjoada. Tenho algumas amigas que passam pelo mesmo sintoma, e é de uma delas a melhor frase de emagrecimento que eu já ouvi: "Eu gosto de ter o peso de quando estou deprimida."
Pra completar, outro dia fui a uma entrevista de emprego e estava cara a cara com a mocinha do RH. Digo mocinha do RH porque ela era bem novinha, mas devia ter seus trinta e poucos. Mas tinha cara de menina - as roupas é que diziam em que casa decimal sua idade se encontrava. Anyway, ela disse que eu estava diferente da foto do currículo. É que o meu CV tem uma foto que tirei em Jericoacoara, ainda de cabelo comprido, sorriso de quem está de férias no Ceará e, claro, vinte e seis aninhos de praia.
Expliquei pra mocinha do RH o contexto em que aquela foto havia sido tirada e concluí com: "... e eu tinha uns 26 anos na época, agora tenho 30".
Ela me olhou com uma expressão de quem sabe do que eu estou falando. E completou, entre suspiros: "Tudo muda depois dos 30, minha filha".
Até para balzaquianas que são praticamente adolescentes, imagino...
Friday, February 22, 2008
Mergulho no mar em pleno expediente
Às dez da manhã minha irmã me liga para falar de amenidades. Ela me liga na manhã de um dia de semana, enquanto eu estou me preparando para sair para o trabalho, habitualmente atrasada, calçando o tênis e engolindo os últimos goles do suco, enquanto ouço os planos de fim de semana, as fofocas do namorado novo, etc. Até que ela revela que naquele momento estava no Leblon, aproveitando um pouquinho de praia entre horários de pacientes que ela tinha que visitar (minha irmã é fiosoterapeuta). Nota: estava um dia maravilhoso, e eu fiquei instantaneamente com inveja da praia da minha irmã.
E aí me lembrei de um outro dia, quando fui encontrar o Japanimatrix na praia pra pegar qualquer coisa com ele, e fui direto do trabalho, vestida de gente séria, e mesmo assim, quando cheguei em Ipanema, tirei os sapatos e fui andando até ele pela areia. Quando cheguei perto ele disse: "Que coisa de paulista, andando vestida na praia!" E eu respondi: "Engano seu, não há nada mais carioca que sair do trabalho e dar uma caminhada na areia, tolinho".
Em tempos de horário de verão, por volta das 18h, 19h, o calçadão fica cheio de transeuntes, quando os mortais estão deixando seu 'sirvicinho' e querem aquela merecida cerveja da hora alegre. Sabe como é que é, né: tá todo mundo cansado, ninguém está de biquini ou calção de banho, e mesmo assim quem pode dá um passadinha na orla - e quem não pode, não fica desesperado, porque sabe que ela está bem ali, ao alcance.
Tenho pensado muito na questão Rio x São Paulo. Quando estava na faculdade, lembro de um professor comentar em sala de aula: se preparem porque vocês vão lidar muito com a questão de mudar ou não pra sampa. E aí, é verdade, de vez em quando eu considero essa possibilidade, por conta de salários e oportunidades ligadas à minha área, e agora que eu tenho o Japanimatrix na vida, São Paulo se tornou ainda mais atraente.
Mas, por outro lado, e depois, faço o quê? Caso e crio um filho em São Paulo? Mas o que as crianças fazem em SP? No Rio eu sei que as crianças vão à praia, e que andam de bicicleta na Lagoa, e que passeiam no Jardim Botânico, e que andam de charretinha na praça São Francisco Xavier, na Tijuca. Eu sei o que fazem as crianças do Rio porque eu fui uma delas, mas em São Paulo eu não sei o que fazem as crianças, ou os adultos, ou os idosos. O que tem pra fazer nessa cidade? Durante o dia e ao ar livre, quero dizer.
Quem falar em Ibirapuera perde a brincadeira.
E aí me lembrei de um outro dia, quando fui encontrar o Japanimatrix na praia pra pegar qualquer coisa com ele, e fui direto do trabalho, vestida de gente séria, e mesmo assim, quando cheguei em Ipanema, tirei os sapatos e fui andando até ele pela areia. Quando cheguei perto ele disse: "Que coisa de paulista, andando vestida na praia!" E eu respondi: "Engano seu, não há nada mais carioca que sair do trabalho e dar uma caminhada na areia, tolinho".
Em tempos de horário de verão, por volta das 18h, 19h, o calçadão fica cheio de transeuntes, quando os mortais estão deixando seu 'sirvicinho' e querem aquela merecida cerveja da hora alegre. Sabe como é que é, né: tá todo mundo cansado, ninguém está de biquini ou calção de banho, e mesmo assim quem pode dá um passadinha na orla - e quem não pode, não fica desesperado, porque sabe que ela está bem ali, ao alcance.
Tenho pensado muito na questão Rio x São Paulo. Quando estava na faculdade, lembro de um professor comentar em sala de aula: se preparem porque vocês vão lidar muito com a questão de mudar ou não pra sampa. E aí, é verdade, de vez em quando eu considero essa possibilidade, por conta de salários e oportunidades ligadas à minha área, e agora que eu tenho o Japanimatrix na vida, São Paulo se tornou ainda mais atraente.
Mas, por outro lado, e depois, faço o quê? Caso e crio um filho em São Paulo? Mas o que as crianças fazem em SP? No Rio eu sei que as crianças vão à praia, e que andam de bicicleta na Lagoa, e que passeiam no Jardim Botânico, e que andam de charretinha na praça São Francisco Xavier, na Tijuca. Eu sei o que fazem as crianças do Rio porque eu fui uma delas, mas em São Paulo eu não sei o que fazem as crianças, ou os adultos, ou os idosos. O que tem pra fazer nessa cidade? Durante o dia e ao ar livre, quero dizer.
Quem falar em Ibirapuera perde a brincadeira.
Wednesday, February 20, 2008
Surfe de sofá
O sofá lá de casa bomba. Volta e meia tem alguém dormindo no meio da sala, sem se preocupar com gente que chega de madrugada, ou que sai muito cedo pra trabalhar, ou com a luz do sol que entra com força total pela janela do Cantinho da Leitura (siiiim, lá em casa tem um lugar que eu decorei como cantinho da leitura: lanterna japonesa no teto, poltrona azul, tapete vermelho, almofada indiana, estante baixinha com livros variados. O melhor espaço da casa, definitivamente). São pessoas que passam uma noite ou duas semanas lá em casa, e todos são amigos da roommate mais popular do mundo. Muito mais do que eu, inclusive.
Do reveillon até hoje já passaram pelo sofá um suíço, uma mineira que mora em São Paulo, outra mineira que mora em BH, dois canadenses, uma brasileira e uma sueca e, de vez em quando, um niteroense.
Os amigos nacionais são parceiros das andanças da roommate popular pelo Brasil. Mas os internacionais são amigos virtuais que ela conheceu através do CouchSurfing, uma espécie de orkut de mochileiros. Deu pra sacar?
O CounchSurfing existe como forma de estabelecer um contato entre aqueles que desejam viajar pelo mundo sem entrar no esquema turistão endinheirado. Você não é obrigado a dispor a sua casa para gringos desconhecidos, mas pode se oferecer para dar dicas de programas legais na cidade, ou para acompanhar os visitantes em passeios genuinamente nativos. É claro que sempre rola aquela visitinha ao Pão de Açúcar e ao Cristo Redentor, mas os canadenses que até outro dia estavam lá em casa encontraram um carnaval bem diferente daquele da Sapucaí, amplamente divulgado em Quebec, a cidade natal das figuras.
Quem vacila no CouchSurfing tem o filme queimado no site. Se você recebeu alguém que foi a maior furada, pode deixar um depoimento avisando aos outros companheiros que o tal fulano se revelou um hóspede encrenqueiro. Pela experiência do amplamente usado sofá lá de casa, o perfil de viajantes do site é de gente com cerca de 30 anos, classe média gringa, curiosos por conhecer esse país tão exótico chamado Brasil.
Algumas curiosidades sobre os gringos:
- Todos dormem de cueca e acham muito normal. Mas não ficam sem camisa de jeito nenhum.
- Os canadenses se referiam às passistas das escolas de samba como "mulheres peladas".
- Todos tentam arranhar um pouquinho de português.
- A grande maioria é desejada pelo sexo oposto nacional. E a recíproca é verdadeira.
Como forma de agradecimento à temporada passada lá em casa, ganhamos dos canadenses um vale presente da Casa e Vídeo, e uma linda orquídea da sueca. Ah, claro, e ganhamos novas amizades também - essas, priceless.
Do reveillon até hoje já passaram pelo sofá um suíço, uma mineira que mora em São Paulo, outra mineira que mora em BH, dois canadenses, uma brasileira e uma sueca e, de vez em quando, um niteroense.
Os amigos nacionais são parceiros das andanças da roommate popular pelo Brasil. Mas os internacionais são amigos virtuais que ela conheceu através do CouchSurfing, uma espécie de orkut de mochileiros. Deu pra sacar?
O CounchSurfing existe como forma de estabelecer um contato entre aqueles que desejam viajar pelo mundo sem entrar no esquema turistão endinheirado. Você não é obrigado a dispor a sua casa para gringos desconhecidos, mas pode se oferecer para dar dicas de programas legais na cidade, ou para acompanhar os visitantes em passeios genuinamente nativos. É claro que sempre rola aquela visitinha ao Pão de Açúcar e ao Cristo Redentor, mas os canadenses que até outro dia estavam lá em casa encontraram um carnaval bem diferente daquele da Sapucaí, amplamente divulgado em Quebec, a cidade natal das figuras.
Quem vacila no CouchSurfing tem o filme queimado no site. Se você recebeu alguém que foi a maior furada, pode deixar um depoimento avisando aos outros companheiros que o tal fulano se revelou um hóspede encrenqueiro. Pela experiência do amplamente usado sofá lá de casa, o perfil de viajantes do site é de gente com cerca de 30 anos, classe média gringa, curiosos por conhecer esse país tão exótico chamado Brasil.
Algumas curiosidades sobre os gringos:
- Todos dormem de cueca e acham muito normal. Mas não ficam sem camisa de jeito nenhum.
- Os canadenses se referiam às passistas das escolas de samba como "mulheres peladas".
- Todos tentam arranhar um pouquinho de português.
- A grande maioria é desejada pelo sexo oposto nacional. E a recíproca é verdadeira.
Como forma de agradecimento à temporada passada lá em casa, ganhamos dos canadenses um vale presente da Casa e Vídeo, e uma linda orquídea da sueca. Ah, claro, e ganhamos novas amizades também - essas, priceless.
Tuesday, February 19, 2008
4 Estilos para escrever em um blog
1 - Marginal
Referência: Qualquer livro do Bukowski
Ex:
Sigo pelas ruas iluminadas de Copacabana, tropeçando em mendigos e nos buracos do calçamento inacabado, quando enxergo uma pequena porta escondida na Galeria Alaska. Escondo o cantil de metal recheado de vodca dentro do bolso da calça e me dirijo ao local. Entro. Trata-se de uma mistura de bar e puteiro decadente, remanescente da década de 50, onde cabeças brancas fazem sentar em seus colos meninas muito novas. No balcão, uma puta, velha demais para a sua profissão, procura um modo de acender o cigarro caído no canto da boca. Pego meu maço e o zippo, acendo o cigarro da puta e depois o meu próprio. Ela rosna um "obrigada", e percebo que falta um dente em sua boca escura. Nos beijamos.
2 - Sem ponto final (só permitido quando o texto acabar)
Referência: Um Copo de Cólera - Raduan Nassar
Ex:
Barco, vento no rosto, mar verde, música brega aos berros, sonhando em chegar logo, tomara que chege logo, ele me disse, eu respondi que sim, e ficamos parados olhando a água passando, a espuma, os outros tripulantes, imaginando que depois daquela linha tem uma curva, e depois daquela curva tem outra linha, e depois de tantas linhas pode ser que tenha a China, e como é que tanta gente viajava de navio antigamente, meses e meses vendo mar, espuma e sentindo o vendo no rosto, curtindo o silêncio das ondas, enquanto que nós temos que aturar o pior de todos os tempos em termos musicais, mas não tinha razão pra reclamar porque era sábado e eu estava a caminho da praia mais bonita do mundo, ou uma delas, e por isso mesmo eu engoli a música ruim e, sem dizer nada, sentei na proa do barco e mirei o horizonte.
3 - Prosa poética
Referência: qualquer jornalzinho alternativo de estudantes de Comunicação
Ex:
Divago. As horas pingam no ponteiro do relógio, zombateiras, rindo do meu tédio. Escorrego pelos minutos esperando que o fim do dia chegue, quando todas as respostas também chegarão e eu serei salva. Se ao menos todos nós soubéssemos o segredo do tempo, poderíamos moldá-lo à nossa própria vontade. Seria o poder supremo, o poder de todos os poderes, o de moldar o tempo. Mas as horas pingam, os minutos escorrem, e o fim do dia está longe. Espero. Antecipo. Divago.
4 - Onomatopéicos
Referência: On The Road, Jack Kerouac
Ex:
Fechei a porta. Blam. Acendi um cigarro. Zipp. Procurei um disco de jazz e coloquei um pra tocar. Bopblemtchuruboom. Trim. Tocava o telefone. Atendi. Não era pra mim. Sniff. Então beijei o fone. Smack.
Referência: Qualquer livro do Bukowski
Ex:
Sigo pelas ruas iluminadas de Copacabana, tropeçando em mendigos e nos buracos do calçamento inacabado, quando enxergo uma pequena porta escondida na Galeria Alaska. Escondo o cantil de metal recheado de vodca dentro do bolso da calça e me dirijo ao local. Entro. Trata-se de uma mistura de bar e puteiro decadente, remanescente da década de 50, onde cabeças brancas fazem sentar em seus colos meninas muito novas. No balcão, uma puta, velha demais para a sua profissão, procura um modo de acender o cigarro caído no canto da boca. Pego meu maço e o zippo, acendo o cigarro da puta e depois o meu próprio. Ela rosna um "obrigada", e percebo que falta um dente em sua boca escura. Nos beijamos.
2 - Sem ponto final (só permitido quando o texto acabar)
Referência: Um Copo de Cólera - Raduan Nassar
Ex:
Barco, vento no rosto, mar verde, música brega aos berros, sonhando em chegar logo, tomara que chege logo, ele me disse, eu respondi que sim, e ficamos parados olhando a água passando, a espuma, os outros tripulantes, imaginando que depois daquela linha tem uma curva, e depois daquela curva tem outra linha, e depois de tantas linhas pode ser que tenha a China, e como é que tanta gente viajava de navio antigamente, meses e meses vendo mar, espuma e sentindo o vendo no rosto, curtindo o silêncio das ondas, enquanto que nós temos que aturar o pior de todos os tempos em termos musicais, mas não tinha razão pra reclamar porque era sábado e eu estava a caminho da praia mais bonita do mundo, ou uma delas, e por isso mesmo eu engoli a música ruim e, sem dizer nada, sentei na proa do barco e mirei o horizonte.
3 - Prosa poética
Referência: qualquer jornalzinho alternativo de estudantes de Comunicação
Ex:
Divago. As horas pingam no ponteiro do relógio, zombateiras, rindo do meu tédio. Escorrego pelos minutos esperando que o fim do dia chegue, quando todas as respostas também chegarão e eu serei salva. Se ao menos todos nós soubéssemos o segredo do tempo, poderíamos moldá-lo à nossa própria vontade. Seria o poder supremo, o poder de todos os poderes, o de moldar o tempo. Mas as horas pingam, os minutos escorrem, e o fim do dia está longe. Espero. Antecipo. Divago.
4 - Onomatopéicos
Referência: On The Road, Jack Kerouac
Ex:
Fechei a porta. Blam. Acendi um cigarro. Zipp. Procurei um disco de jazz e coloquei um pra tocar. Bopblemtchuruboom. Trim. Tocava o telefone. Atendi. Não era pra mim. Sniff. Então beijei o fone. Smack.
Monday, February 18, 2008
Finalmente, Ilha Grande

É absurdo eu conhecer muito pouco dos paraísos que estão bem ao alcance das minhas mãos e bolsos furados. Mas a verdade é que justamente essa proximidade, passando a impressão de que a qualquer momento eu posso arrumar a minha mochila e me mandar, que me faz empurrar com a barriga o momento de viajar pra lugares legais no Rio. E então, depois de anos e anos de promessa, decidi parar de me enganar e pegar a primeira barca pra Ilha Grande.
A ilha é realmente maravilhosa, mas confesso que essa história de ter barco pra cima e pra baixo me deixou um pouco tensa. Porque os passeios lá funcionam assim: ou você vai a pé, por trilhas de 1h ou 2h, ou você pega um barquinho, junto com outros turistas, e vai curtindo o sol e o vento no rosto. Pelo meu histórico de preguiça e preparo físico, obviamente optei pelo segundo tipo. Como os barcos têm horários certos pra sair, eu ficava obcedaca pelo relógio, perguntando as horas de cinco em cinco minutos, quase um comportamento compulsivo. Passei o fim de semana com medo de perder algum barco e ver a grana do passeio se afogar no mar, ainda mais depois que eu e o Japanimatrix não conseguimos pegar a barca Mangaratiba - Ilha Grande, e tivemos que passar uma noite naquela cidadezinha bizarra. Mangaratiba só tem um hotel, o Mendonça, que cobra R$127 por pernoite, em uma cama com lençóis duvidosos e televisão sem controle remoto. Mas ok, vamos lá, a Ilha está logo ali na frente, não vai ser agora que eu vou desistir, né?
No dia seguinte, a primeira barca saía às 8h. Adivinha? Perdemos de novo. Mas ao contrário da noite anterior, dessa vez tínhamos várias opções de embarcações pra Vila do Abraão, onde passaríamos o sábado e o domingo. Escolhemos um saveiro grande, que nos cobrou R$20 cada pra fazer a travessia, e seguimos aturando Ivete Sangalo e outros axés nada agradáveis durante uma hora, mentalizando a praia de Lopes Mendes pra conseguir manter a sanidade.
Chegando na vila, fomos direto ao Albergue do Holandês, onde a gente tinha feito a reserva. Além dos quartos coletivos, o albergue tem uns chalés fofos com cama de casal e uma cama de solteiro, um banheiro limpinho e um ventilador que dá conta. O único vacilo (nosso) foi não levar Autan ou qualquer outro remédio contra mosquitos. Eu, que tenho sangue ruim, dormi que nem um anjo. Mas o Japa sofreu com o ataque dos mosquitos mutantes da Ilha Grande. Que fique anotado pra quem é alérgico: Ilha Grande sem Autan não rola!
Bom, mas isso só foi mais tarde. Naquela hora, só jogamos as coisas no nosso chalé e corremos pra praia pra tentar um barquinho pra Lopes Mendes. Conseguimos um lugar no último, que partia às 12h, e lá fomos nós pra uma das praias mais bonitas do mundo.
Só que aí tem uma coisa: ir de barco é mais confortável, mas também é mais caro. Pagamos R$15 por pessoa para chegar a Lopes Mendes, e R$30 para chegar à Lagoa Azul, no domingo.
Como chegamos tarde, muita gente estava indo embora da praia, e pudemos usufruir das poucas sombrinhas das árvores só pra gente. Milhões de argentinos passavam por nós, rumo à trilha que levava de volta ao barco. Eu estendi a minha canga, deitei virada pro mar de águas azuis e concluí que se eu fosse milionária, ia ser absolutamente insuportável de chata. Não dá pra ter um visual desses de bobeira, tem que rolar um certo perrengue, eu acho.
Friday, February 15, 2008
Todos dizem eu te amo
Não sei muito bem o que é o amor. Não imagino qual seja a diferença entre amar e estar apaixonada, nem entre estar apaixonada e adorar, nem entre adorar e ter inventado a adoração, só porque está legal assim. Já disse "eu te amo" sem amar realmente um milhão de vezes, porque tinha certeza absoluta de que um dia eu iria acabar amando mesmo. E já reneguei o amor do passado comparando com o relacionamento presente: "Agora sim eu estou com o amor da minha vida, antes eu achava que amava mas na verdade tudo não passava de uma construção da minha mente sempre pronta a ficar entediada". Já ouvi "eu te amo"s com uma semana de namoro, com um mês, ou só no término, depois de três anos de indas e vindas. Em todas, eu disse que amava também. Mesmo quando não amava (ainda).
E eu sei lá o que é o amor entre um homem e uma mulher. Sei lá se já amei de verdade alguém na vida, porque amor de verdade não deve ser esse estrangulamento absurdo que já senti no peito, esse medo desesperado de perder o objeto de desejo, esse frio na barriga e essa raiva porque eu queria mais e mais atenção. Isso não deve ser amor. Isso deve ser algum tipo de adoração quase religiosa, um culto que, obviamente, não pode ter final feliz.
Na real, nem sei se essa é uma reflexão que vale a pena. Porque o que conta é apenas o presente, certo? E no momento, eu amo. Infnito enquanto dure.
E eu sei lá o que é o amor entre um homem e uma mulher. Sei lá se já amei de verdade alguém na vida, porque amor de verdade não deve ser esse estrangulamento absurdo que já senti no peito, esse medo desesperado de perder o objeto de desejo, esse frio na barriga e essa raiva porque eu queria mais e mais atenção. Isso não deve ser amor. Isso deve ser algum tipo de adoração quase religiosa, um culto que, obviamente, não pode ter final feliz.
Na real, nem sei se essa é uma reflexão que vale a pena. Porque o que conta é apenas o presente, certo? E no momento, eu amo. Infnito enquanto dure.
Thursday, February 14, 2008
Eliana
De vez em quando sou pega de surpresa por algum sentimento que eu achava que há muito tempo estava morto e enterrado debaixo do cotidiano. Acontece muito quando ouço uma certa música, algum disco que escutava todos os dias na época em questão, e que me fazem lembrar da seqüência dos acontecimentos que me fizeram ou muito feliz ou muito triste. Obviamente, essas épocas estão sempre associadas a alguém que não participa mais da minha vida: ou porque perdemos contato, ou porque brigamos (são raros os casos, mas existem), ou porque a pessoa morreu.
Ontem o Japanimation me perguntou como foi o dia da morte da minha mãe. Nunca ninguém havia me perguntado isso antes, e eu encarei a conversa da forma como sempre faço quando comento que fui criada pela minha avó: com mais preocupação em não constrager o ouvinte do que em relembrar o momento.
E aí comecei a narrar, com riqueza de detalhes, as mãos suadas do meu pai quando ele foi me pegar na casa de uma amiguinha onde eu havia passado a noite, toda a família reunida em casa e todos estranhos como eu nunca tinha visto antes, o telefone que não parava de tocar e a notícia que o meu pai teve que dar sozinho para minha irmã e eu, ela com 6 e eu com 8 anos, e de como eu não chorei no dia e achei isso esquizito, e de como a minha irmã chorou e disse que estava com uma dor no coração e que também deveria estar doente, e de como voltamos pra casa da minha amiga enquanto o resto da família foi para o enterro, e da mãe da minha amiga oferecendo colo e a gente brincando sem entender totalmente a situação.
Na medida em que eu fui narrando, fui sentindo os olhos enchendo de água e fiquei surpresa por ainda restar alguma lágrima para chorar sobre o assunto que me acompanha há tantos anos, e que há muito deixou de ser tabu. Ele me abraçou e pediu desculpas e eu disse que tudo bem, que na verdade era até bom saber que esse amor ainda existia, mesmo depois de camadas e camadas de ausência.
Ontem o Japanimation me perguntou como foi o dia da morte da minha mãe. Nunca ninguém havia me perguntado isso antes, e eu encarei a conversa da forma como sempre faço quando comento que fui criada pela minha avó: com mais preocupação em não constrager o ouvinte do que em relembrar o momento.
E aí comecei a narrar, com riqueza de detalhes, as mãos suadas do meu pai quando ele foi me pegar na casa de uma amiguinha onde eu havia passado a noite, toda a família reunida em casa e todos estranhos como eu nunca tinha visto antes, o telefone que não parava de tocar e a notícia que o meu pai teve que dar sozinho para minha irmã e eu, ela com 6 e eu com 8 anos, e de como eu não chorei no dia e achei isso esquizito, e de como a minha irmã chorou e disse que estava com uma dor no coração e que também deveria estar doente, e de como voltamos pra casa da minha amiga enquanto o resto da família foi para o enterro, e da mãe da minha amiga oferecendo colo e a gente brincando sem entender totalmente a situação.
Na medida em que eu fui narrando, fui sentindo os olhos enchendo de água e fiquei surpresa por ainda restar alguma lágrima para chorar sobre o assunto que me acompanha há tantos anos, e que há muito deixou de ser tabu. Ele me abraçou e pediu desculpas e eu disse que tudo bem, que na verdade era até bom saber que esse amor ainda existia, mesmo depois de camadas e camadas de ausência.
Wednesday, February 13, 2008
Plano de carreira
Quando eu era garçonete em NY, costumava olhar com inveja branca as mesas de amigas na casa dos 30 que se reuniam na sexta à noite para beber vinho, comer bem e bater papo. Nos meus míseros twenty-something, me perguntava se algum dia teria dinheiro e amigas que me acompanhassem nesse tipo de programa.
Sete anos se passaram, e de repente eu me vejo bebendo saquê em um restaurante japonês do Leblon, em pleno carnaval carioca, acompanhada de duas amigas que, como eu, não se enaltecem com samba, suor e cerveja (se bem que uma delas até desfilou esse ano, e a outra encarou a Sapucaí em outros tempos). Mesmo sem a mínima fome, eu me dedicava com afinco ao sushi de ovas que sorria à minha frente, enquanto ouvia teorias bem construídas que faziam um paralelo entre o mercado de trabalho e relacionamentos amorosos. E uma delas explicava:
- O casamento é um contrato, todo mundo concorda com isso. Todos estão sendo avaliados, como em uma entrevista de emprego. O homem avalia se a mulher é apta a cuidar de seus filhos, e a mulher observa se o homem será capaz de lhe prover uma vida com o mínimo de conforto. É como se fosse um plano de carreira.
Daí eu lembrei que o meu primeiro namorado sério, por quem eu fui indescritivelmente apaixonada, tinha parado de estudar na 5a. série, enquanto que eu estava entrando na faculdade. Saca aí o abismo. Eu falava pra ele fazer cursos e se aperfeiçoar na sua área, não porque queria que ele ganhasse mais (até porque, naquele tempo, ele ganhava muuuito mais que eu, uma pobre escraviária de salário mínimo no ramo das comunicações), mas porque achava que assim ele seria mais feliz.
Não tenho mais a menor ilusão de que hoje em dia eu não teria a mínima paciência para um ser humano desse tipo.
Outra coisa que eu andei observando é que os ricos estão fadados a ficar com ricos, os da classe média e os pobres ídem, como um sistema de castas invisível e facilmente aceitado por todos - menos pelos tais alpinistas sociais, gente que eu nunca conheci pessoalmente, mas que eu sei que existe. Aliás, seguindo essa lógica, se eu conhecesse muitos alpinistas sociais, será que eu correria risco de me tornar uma?
Houve um tempo em que eu queria um maridinho assim também, que ganhasse muito mais e pagasse os empregados, enquanto que eu poderia ganhar pouco (mas, ainda assim, ter a minha carreira, sabe como é?) e dividisse o meu tempo entre o trabalho, os filhos e a decoração da casa (contanto que o meu marido bem provido pagasse os móveis que eu escolhesse). Mas aí eu fui vendo que todo mundo que eu conhecia ganhava a mesma coisa que eu - se não, menos - e aí vi que não adianta, só tem uma pessoa nesse mundo que pode me dar as coisas que eu quero ter: eu mesma.
Mas tudo bem, porque há muito tempo eu desisti de ter alguém pra cuidar de mim - inclusive descobri que não sou muito boa nisso, em deixar que me cuidem, porque fico bem mais orgulhosa de mim mesma quando eu faço tudo sozinha. Só peço ajuda pra trocar pneu de carro e usar a furadeira. De resto, pode deixar que eu me viro.
Sete anos se passaram, e de repente eu me vejo bebendo saquê em um restaurante japonês do Leblon, em pleno carnaval carioca, acompanhada de duas amigas que, como eu, não se enaltecem com samba, suor e cerveja (se bem que uma delas até desfilou esse ano, e a outra encarou a Sapucaí em outros tempos). Mesmo sem a mínima fome, eu me dedicava com afinco ao sushi de ovas que sorria à minha frente, enquanto ouvia teorias bem construídas que faziam um paralelo entre o mercado de trabalho e relacionamentos amorosos. E uma delas explicava:
- O casamento é um contrato, todo mundo concorda com isso. Todos estão sendo avaliados, como em uma entrevista de emprego. O homem avalia se a mulher é apta a cuidar de seus filhos, e a mulher observa se o homem será capaz de lhe prover uma vida com o mínimo de conforto. É como se fosse um plano de carreira.
Daí eu lembrei que o meu primeiro namorado sério, por quem eu fui indescritivelmente apaixonada, tinha parado de estudar na 5a. série, enquanto que eu estava entrando na faculdade. Saca aí o abismo. Eu falava pra ele fazer cursos e se aperfeiçoar na sua área, não porque queria que ele ganhasse mais (até porque, naquele tempo, ele ganhava muuuito mais que eu, uma pobre escraviária de salário mínimo no ramo das comunicações), mas porque achava que assim ele seria mais feliz.
Não tenho mais a menor ilusão de que hoje em dia eu não teria a mínima paciência para um ser humano desse tipo.
Outra coisa que eu andei observando é que os ricos estão fadados a ficar com ricos, os da classe média e os pobres ídem, como um sistema de castas invisível e facilmente aceitado por todos - menos pelos tais alpinistas sociais, gente que eu nunca conheci pessoalmente, mas que eu sei que existe. Aliás, seguindo essa lógica, se eu conhecesse muitos alpinistas sociais, será que eu correria risco de me tornar uma?
Houve um tempo em que eu queria um maridinho assim também, que ganhasse muito mais e pagasse os empregados, enquanto que eu poderia ganhar pouco (mas, ainda assim, ter a minha carreira, sabe como é?) e dividisse o meu tempo entre o trabalho, os filhos e a decoração da casa (contanto que o meu marido bem provido pagasse os móveis que eu escolhesse). Mas aí eu fui vendo que todo mundo que eu conhecia ganhava a mesma coisa que eu - se não, menos - e aí vi que não adianta, só tem uma pessoa nesse mundo que pode me dar as coisas que eu quero ter: eu mesma.
Mas tudo bem, porque há muito tempo eu desisti de ter alguém pra cuidar de mim - inclusive descobri que não sou muito boa nisso, em deixar que me cuidem, porque fico bem mais orgulhosa de mim mesma quando eu faço tudo sozinha. Só peço ajuda pra trocar pneu de carro e usar a furadeira. De resto, pode deixar que eu me viro.
Tuesday, February 12, 2008
Brincando de casinha
Em fevereiro, as minhas olheiras andam um pouco mais profundas do que o habitual. Durmo tarde todos os dias, porque o Japanimatrix dorme tarde, e acordo cedo (antes das 11h é cedo, certo?) porque tenho que trabalhar. Entre a hora que acordo e a hora que vou dormir, faço compras no supermercado dos sucos que ele gosta, preparo cahorros-quente absolutamente sem graças no jantar, tento arrumar o quarto que insiste em permanecer uma zona completa e lavo louças e mais louças e mais louças.
E penso que em março eu vou sentir muita falta dele me abraçando de manhã como se seus braços fossem de borracha, do ar condicionado exageradamente gelado, do laptop dele na cadeira e do meu na mesinha do quarto, da frustração de baixar filmes raros por dias e depois descobrir que eles estão dublados em francês, da negociação dos programas de fim de semana (eu, que tenho três festas pro mesmo dia e sempre quero ir em todas), dos almoços em que chutamos o balde e gastamos aos montes, das conversas intermináveis madrugada adentro ("olha só, tá amanhecendo") e de tantas outras baboseiras que não interessam a mais ninguém a não ser a nós dois.
Eu sei, é meloso demais. Já escrevi uns quatro testimonials pro Japanimatrix no orkut, e apaguei porque fiquei com vergonha de ser tão mela-cueda. Mas fazer o quê, né? A breguice faz parte disso tudo.
E penso que em março eu vou sentir muita falta dele me abraçando de manhã como se seus braços fossem de borracha, do ar condicionado exageradamente gelado, do laptop dele na cadeira e do meu na mesinha do quarto, da frustração de baixar filmes raros por dias e depois descobrir que eles estão dublados em francês, da negociação dos programas de fim de semana (eu, que tenho três festas pro mesmo dia e sempre quero ir em todas), dos almoços em que chutamos o balde e gastamos aos montes, das conversas intermináveis madrugada adentro ("olha só, tá amanhecendo") e de tantas outras baboseiras que não interessam a mais ninguém a não ser a nós dois.
Eu sei, é meloso demais. Já escrevi uns quatro testimonials pro Japanimatrix no orkut, e apaguei porque fiquei com vergonha de ser tão mela-cueda. Mas fazer o quê, né? A breguice faz parte disso tudo.
Thursday, February 07, 2008
Mixed Feelings em relação ao carnaval
Primeiro momento: Eu odeio carnaval
O Japanimation adora carnaval. Eu, por definição, odeio. Eis aí o primeiro impasse do namoro.
Como boa namorada, resolvi acompanhar um bloco pra ver como é, e para calar a boca de todos os meus amigos que não cansam de gritar: "Se não conhece, como é que sabe que não gosta?". Fui estrear o carnaval 2008 no Empolga às 9, bloco que sai em Botafogo e que é conhecido como "bloco família".
E eu protagonizei um faniquito. Estava um calor abafado, e os amigos do Japanimation estavam na frente do bloco, enquanto que nós estávamos atrás. A idéia de cruzar os músicos foi a pior de todos os tempos: ficamos parados, encurralados por uma multidão de folioes que pareciam não se importar com muita gente e muito calor. Tava todo mundo feliz à minha volta, menos eu. Cansada de tentar alcançar uma esquina que nunca, mas nunca mesmo, eu chegava, falei pro pobre do meu namorado: Eu quero sair daqui agora!
Eu estava a um milésimo de segundo de sair chutando velhos, crianças e demais seres humanos, e precisava de ar não carnavalesco para respirar. Chegamos ao final da rua, o bloco seguiu em frente e a gente virou à direita, no exato momento em que eu direcionava meu chute pras canelas alheias. Demos sorte.
Segundo momento: Eu adoro carnaval
No segundo dia, fui fantasiada de Borboleta Mal-humorada para o bloco que todos os meus amigos adoram, o Boi Tolo. E dessa vez eu gostei. Estava chovendo, como em todos os dias desse carnaval carioca, mas eu achei uma delícia ficar me aliviando do calor de fevereiro no meio das ruas do Rio antigo. Fiz filminhos alegres do povo cantando "Olha a cabeleira do Zezé", todo mundo muito fantasiado e colorido.
Quando o bloco chegou ao Palácio Tiradentes, ponto final da andança, encontrei os tais amigos que são carnavalescos, e um deles (o Mauro, que fique registrado), ao me ver, nem oi disse, partiu logo pro berro: "Admite que é muito bom! Vai, admite!"
E eu admiti.
De lá, seguimos para o Boitatá, e como eu estava de bom humor e levemente de pilequinho, dancei, cantei, sambei, pulei, e fiz todas essas coisas que fazem as pessoas que não se incomodam com o carnaval.
Terceiro momento: Eu adoro carnaval. Mas só o que rola no centro do Rio
Da Praça XV, onde rolava o Boitatá, seguimos para o Jardim Botânico, onde teria o Bangalafumenga. Here we go. No caminho, deixei em casa uma amiga que vomitava intermitentemente (quem pula carnaval não almoça, só bebe muitos tipos de bebidas diferentes, o que resulta em ressacas homéricas e, aqui e ali, Rauls pelos cantos da cidade).
Chegando no Jardim Botânico, ofereci minhas asas de borboleta ao deus do carnaval, desovando as companheiras em cima de um capô de carro, onde, com certeza, encontrariam um novo dono muito mais interessado nelas.
Depois, tudo começou a ficar muito confuso: não paravam de chegar pessoas e mais pessoas, o clima estava de muvuca e eu quis sair daquele lugar o mais rápido possível. Pedi peloamordedeus vambora, e a gente foi, mas eu já estava com a alma lavada de ter participado um pouco do carnaval do Rio. E ficava repetindo a musiquinha que os meus companheiros de folia entoaram na escadaria do Palácio Tiradentes: "O Rio é melhor que Salvador..."
Os baianos que me desculpem, mas é verdade.
O Japanimation adora carnaval. Eu, por definição, odeio. Eis aí o primeiro impasse do namoro.
Como boa namorada, resolvi acompanhar um bloco pra ver como é, e para calar a boca de todos os meus amigos que não cansam de gritar: "Se não conhece, como é que sabe que não gosta?". Fui estrear o carnaval 2008 no Empolga às 9, bloco que sai em Botafogo e que é conhecido como "bloco família".
E eu protagonizei um faniquito. Estava um calor abafado, e os amigos do Japanimation estavam na frente do bloco, enquanto que nós estávamos atrás. A idéia de cruzar os músicos foi a pior de todos os tempos: ficamos parados, encurralados por uma multidão de folioes que pareciam não se importar com muita gente e muito calor. Tava todo mundo feliz à minha volta, menos eu. Cansada de tentar alcançar uma esquina que nunca, mas nunca mesmo, eu chegava, falei pro pobre do meu namorado: Eu quero sair daqui agora!
Eu estava a um milésimo de segundo de sair chutando velhos, crianças e demais seres humanos, e precisava de ar não carnavalesco para respirar. Chegamos ao final da rua, o bloco seguiu em frente e a gente virou à direita, no exato momento em que eu direcionava meu chute pras canelas alheias. Demos sorte.
Segundo momento: Eu adoro carnaval
No segundo dia, fui fantasiada de Borboleta Mal-humorada para o bloco que todos os meus amigos adoram, o Boi Tolo. E dessa vez eu gostei. Estava chovendo, como em todos os dias desse carnaval carioca, mas eu achei uma delícia ficar me aliviando do calor de fevereiro no meio das ruas do Rio antigo. Fiz filminhos alegres do povo cantando "Olha a cabeleira do Zezé", todo mundo muito fantasiado e colorido.
Quando o bloco chegou ao Palácio Tiradentes, ponto final da andança, encontrei os tais amigos que são carnavalescos, e um deles (o Mauro, que fique registrado), ao me ver, nem oi disse, partiu logo pro berro: "Admite que é muito bom! Vai, admite!"
E eu admiti.
De lá, seguimos para o Boitatá, e como eu estava de bom humor e levemente de pilequinho, dancei, cantei, sambei, pulei, e fiz todas essas coisas que fazem as pessoas que não se incomodam com o carnaval.
Terceiro momento: Eu adoro carnaval. Mas só o que rola no centro do Rio
Da Praça XV, onde rolava o Boitatá, seguimos para o Jardim Botânico, onde teria o Bangalafumenga. Here we go. No caminho, deixei em casa uma amiga que vomitava intermitentemente (quem pula carnaval não almoça, só bebe muitos tipos de bebidas diferentes, o que resulta em ressacas homéricas e, aqui e ali, Rauls pelos cantos da cidade).
Chegando no Jardim Botânico, ofereci minhas asas de borboleta ao deus do carnaval, desovando as companheiras em cima de um capô de carro, onde, com certeza, encontrariam um novo dono muito mais interessado nelas.
Depois, tudo começou a ficar muito confuso: não paravam de chegar pessoas e mais pessoas, o clima estava de muvuca e eu quis sair daquele lugar o mais rápido possível. Pedi peloamordedeus vambora, e a gente foi, mas eu já estava com a alma lavada de ter participado um pouco do carnaval do Rio. E ficava repetindo a musiquinha que os meus companheiros de folia entoaram na escadaria do Palácio Tiradentes: "O Rio é melhor que Salvador..."
Os baianos que me desculpem, mas é verdade.
Monday, January 28, 2008
Liberdade, Liberdade
Talvez o lugar que eu mais goste em São Paulo seja o bairro da Liberdade. Nem sempre consigo passear por lá, mas quando vou, é satisfação garantida. Como boa turista, adoro as luminárias japonesas na rua. Me encanto com aqueles restaurantes que se escondem em portinhas despretenciosas. Gasto todo o meu suado salário em quinquilharias e balas da terra do sol nascente. Como sushi. Como tempura. Como shiitake. Como muito.
E bebo saquê, é claro.
Dessa vez, fui com o Japanimation me guiando pelas ruas orientais. Era festa de ano novo chinês, e as pessoas usavam aquele chapéu que parece uma casinha de madeira (que, que eu saiba, é do Vietnã, mas tudo bem). Enquanto almoçava muitos suhis e sashimis variados, vi um leão chinês passando pela rua, carregando aquela cabeçorra da fantasia debaixo do braço. O Japanimation me mostrava vários tipos de temperos orientais, e explicava qual era o nome deles e pra que eles serviam. E eu fotografava as embalagens coloridas e carregava a minha sacola cheia de compras absolutamente desnecessárias mas que, como sempre, me divertiram.
"Sábado foi um dia colorido", ele disse pra mim, mais tarde.
Até mesmo as tardes cinzentas de São Paulo ficam mais alegres quando se passeia pela Liberdade.
E bebo saquê, é claro.
Dessa vez, fui com o Japanimation me guiando pelas ruas orientais. Era festa de ano novo chinês, e as pessoas usavam aquele chapéu que parece uma casinha de madeira (que, que eu saiba, é do Vietnã, mas tudo bem). Enquanto almoçava muitos suhis e sashimis variados, vi um leão chinês passando pela rua, carregando aquela cabeçorra da fantasia debaixo do braço. O Japanimation me mostrava vários tipos de temperos orientais, e explicava qual era o nome deles e pra que eles serviam. E eu fotografava as embalagens coloridas e carregava a minha sacola cheia de compras absolutamente desnecessárias mas que, como sempre, me divertiram.
"Sábado foi um dia colorido", ele disse pra mim, mais tarde.
Até mesmo as tardes cinzentas de São Paulo ficam mais alegres quando se passeia pela Liberdade.
Thursday, January 24, 2008
10 lições sobre namoro à distância
1 - Comece a considerar a distância um mero detalhe no seu relacionamento, e repita como um mantra: "Imagina, São Paulo é logo ali".
2 - Engula todas as vezes em que você discursou sobre a impossibilidade de manter um namoro em cidades diferentes.
3 - Skype e internet banda larga passam a ser os seus melhores amigos.
4 - Passe a considerar sexo virtual como uma alternativa saudável da vida a dois.
5 - Exercite o desprendimento com a conta de celular.
6 - Fique esperta em relação a passagens da ponte aérea que estejam em promoção. Faça contas completamente insdanas sobre a possibilidade de parcelar uma passagem: "se esse finde eu voar de Tam, nos outros eu recupero as minhas finanças viajando de ônibus".
7 - Planeje o sábado e o domingo como quem sai de férias pra Europa.
8 - Produza a bagagem de modo a só viajar de mochila (o que, convenhamos, é uma dificuldade para qualquer mulher).
9 - Tente não focar na sexta-feira, dia da viagem, para não encher a cara de cigarros de tanta ansiedade.
10 - Empurre com a barriga planos para a vida a dois. Viva o agora e depois a gente vê no que dá.
2 - Engula todas as vezes em que você discursou sobre a impossibilidade de manter um namoro em cidades diferentes.
3 - Skype e internet banda larga passam a ser os seus melhores amigos.
4 - Passe a considerar sexo virtual como uma alternativa saudável da vida a dois.
5 - Exercite o desprendimento com a conta de celular.
6 - Fique esperta em relação a passagens da ponte aérea que estejam em promoção. Faça contas completamente insdanas sobre a possibilidade de parcelar uma passagem: "se esse finde eu voar de Tam, nos outros eu recupero as minhas finanças viajando de ônibus".
7 - Planeje o sábado e o domingo como quem sai de férias pra Europa.
8 - Produza a bagagem de modo a só viajar de mochila (o que, convenhamos, é uma dificuldade para qualquer mulher).
9 - Tente não focar na sexta-feira, dia da viagem, para não encher a cara de cigarros de tanta ansiedade.
10 - Empurre com a barriga planos para a vida a dois. Viva o agora e depois a gente vê no que dá.
Wednesday, January 23, 2008
'I hope you die with cancer'
Um dia uma pessoa disse isso pra mim. Eu estava em pé em frente a um restaurante de NY, esperando que o gerente chegasse para me entrevistar para a vaga de hostess. Cheguei muito cedo - mega cedo, lá pelas 7h - e fiquei na porta do estabelecimento fazendo hora, enquanto alguns homens descarregavam verduras e legumes que seriam cozinhados durante o dia.
Como toda fumante que se preza, acendi um cigarro para passar o tempo. E, entre uma tragada e outra, veio uma velhinha de uns 110 anos, parou na minha frente e soltou a praga: "Espero que você morra de câncer".
A princípio, não etendi o que ela quis dizer. Eu tenho esse bloqueio de entender inglês de velhinhos e crianças. Eles falam em uma entonação diferente, eu acho. Olhei com cara de quem boiou no assunto, e o cara que descarregava os legumes (e que também estava fumando), respondeu por mim: "That's very nice of you, ma'am". E então me explicou o que ela tinha dito.
Eu fiquei pensando o que leva alguém a dizer uma frase desse naipe a outra pessoa. Será que ela perdeu um ente querido por causa de câncer de pulmão? Será que ela mesma estava morrendo disso? Ou então, será que ela era totalmente e absolutamente antitabagista, a ponto de ser terrorista, de querer colocar bombas nas indústrias de tabaco? Quanto mais eu buscava uma explicação, mais eu ficava sem justificativas para uma frase tão cruel. É crueldade desejar a morte de alguém, quanto mais de câncer de pulmão.
De vez em quando eu lembro da velhinha me rogando a praga de morte. E, ainda hoje, busco a razão de ela ter me escolhido para fazer jorrar toda a sua raiva. Não se trata de ter medo de que a frase dela um dia irá se concretizar. O que acontece é que o ser humano consegue despertar em mim os diversos sentimentos. No caso da velha, uma mistura de pena e de surpresa.
Como toda fumante que se preza, acendi um cigarro para passar o tempo. E, entre uma tragada e outra, veio uma velhinha de uns 110 anos, parou na minha frente e soltou a praga: "Espero que você morra de câncer".
A princípio, não etendi o que ela quis dizer. Eu tenho esse bloqueio de entender inglês de velhinhos e crianças. Eles falam em uma entonação diferente, eu acho. Olhei com cara de quem boiou no assunto, e o cara que descarregava os legumes (e que também estava fumando), respondeu por mim: "That's very nice of you, ma'am". E então me explicou o que ela tinha dito.
Eu fiquei pensando o que leva alguém a dizer uma frase desse naipe a outra pessoa. Será que ela perdeu um ente querido por causa de câncer de pulmão? Será que ela mesma estava morrendo disso? Ou então, será que ela era totalmente e absolutamente antitabagista, a ponto de ser terrorista, de querer colocar bombas nas indústrias de tabaco? Quanto mais eu buscava uma explicação, mais eu ficava sem justificativas para uma frase tão cruel. É crueldade desejar a morte de alguém, quanto mais de câncer de pulmão.
De vez em quando eu lembro da velhinha me rogando a praga de morte. E, ainda hoje, busco a razão de ela ter me escolhido para fazer jorrar toda a sua raiva. Não se trata de ter medo de que a frase dela um dia irá se concretizar. O que acontece é que o ser humano consegue despertar em mim os diversos sentimentos. No caso da velha, uma mistura de pena e de surpresa.
Monday, January 21, 2008
Googled her
Ele procurou meu nome no Google. E disse isso pra mim, sorrindo (como sempre), comentando dos meus blogs mais antigos. Eu perguntei: quer dizer que você andou me pesquisando na internet? Ele disse que é claro, e devolveu a pergunta: você nunca me colocou no Google? Eu tive que confessar que sim.
Os olhos dele continuam sorrindo mesmo quando ele fica sério. É aquele tipo de pessoa que parece deslizar pelos dias como quem surfa na Indonésia. Vai descendo pela onda de águas claras, sem grande esforço aparente, sentindo o vento e os respingos do mar, acariciando a parte interna do tubo, experimentando, ao mesmo tempo, a maciez e a força do oceano.
Quando ele acha que eu não estou olhando, filma todos os meus movimentos e decora todos os meus gestos, pra depois, em outro momento, comentar o que viu. Ouve as histórias dos amigos e emite opiniões desinteressadas de quem busca uma solução pela consideração de ouvinte. Ouve mais do que fala. De vez em quando, cisma com uma entonação errada e se fecha no casulo. Eu falo: como você é magoável!, e aí ele desarma e volta ao normal. E admite: eu to melhorando isso.
No primeiro dia, bebemos muito saquê e ele disse que estava com saudades. Acostumada com todo o tipo de histórias da carochinha, não levei muito a sério mas, ainda assim, sorri. No segundo dia, ele falou: ainda bem que você está aqui. No terceiro dia eu disse que queria ele pra mim. Ele disse: tudo bem, me deu um beijo e comentou que já estava com saudades.
E hoje eu estou aqui.
Os olhos dele continuam sorrindo mesmo quando ele fica sério. É aquele tipo de pessoa que parece deslizar pelos dias como quem surfa na Indonésia. Vai descendo pela onda de águas claras, sem grande esforço aparente, sentindo o vento e os respingos do mar, acariciando a parte interna do tubo, experimentando, ao mesmo tempo, a maciez e a força do oceano.
Quando ele acha que eu não estou olhando, filma todos os meus movimentos e decora todos os meus gestos, pra depois, em outro momento, comentar o que viu. Ouve as histórias dos amigos e emite opiniões desinteressadas de quem busca uma solução pela consideração de ouvinte. Ouve mais do que fala. De vez em quando, cisma com uma entonação errada e se fecha no casulo. Eu falo: como você é magoável!, e aí ele desarma e volta ao normal. E admite: eu to melhorando isso.
No primeiro dia, bebemos muito saquê e ele disse que estava com saudades. Acostumada com todo o tipo de histórias da carochinha, não levei muito a sério mas, ainda assim, sorri. No segundo dia, ele falou: ainda bem que você está aqui. No terceiro dia eu disse que queria ele pra mim. Ele disse: tudo bem, me deu um beijo e comentou que já estava com saudades.
E hoje eu estou aqui.
Friday, January 11, 2008
Caso de amor do momento
Essa música: Beautiful life - Gui Boratto
O clip é caidinho, mas a música é muito boa.
Tocou na Moo do dia 29, no reveillon e no meu iPod durante todos os dias desse ano de 2008.
Se eu fosse você, baixava agora.
O clip é caidinho, mas a música é muito boa.
Tocou na Moo do dia 29, no reveillon e no meu iPod durante todos os dias desse ano de 2008.
Se eu fosse você, baixava agora.
Thursday, January 10, 2008
Fashion Rio, o evento que me faz sentir gorda
Eu tenho dessas mulherzices. É só chegar na Marina da Glória em tempos de Fashion Rio que eu automaticamente me sinto com uns quilinhos a mais e muito mal vestida. E despentada, sempre despenteada. Porque não são só as modelos magérrimas e maquiadas que estarão na passarela que demonstram toda a minha falta de graça, mas toda aquela fauna dos corredores das tendas. Tá todo mundo ali pra ver e ser visto. Mais até de quem está nas passarelas.
O mundo da moda sempre foi, ao mesmo tempo, irritante e fascinante pra mim. Considero todo aquele glamour, as roupas, a música, etc, muito interessantes. Mas quando começam a usar os termos em inglês... me dá vontade de sair correndo e pegar pelo braço aquele senador (ou deputado?) que está lutando por uma lei contra os estrangeirismos na língua portuguesa.
Ontem foi dia de gravação no maior evento de moda do Rio. No meio de tanta gente chique, estava eu de jeans, camiseta e tênis, o roteiro dobrado dentro de um bolso da calça, o celular no outro, o rádio preso na cintura, uma mochila nas costas e duas sacolas, uma em cada braço, correndo de um lado para o outro, pedindo peloamordedeus posso gravar nesse stand? (e ouvindo sim quando pronunciava o mágico nome do programa), encontrando amiguinhos da noite que perguntavam 'vai ver o desfile da Fulana de Tal?', enquanto que eu respondia: não..., pegando um bronze não intensionado no pátio, comendo um cone entre uma entrevista e outra, falando com milhões de pessoas ao mesmo tempo, trocando telefones, ganhando brindes...
E o pior é que eu gosto de tudo isso, acredita? Vai entender a cabeça do ser humano...
Ah, sim, e tem o Fashion Week agora. Vou ver se me privo de algumas manhãs de leite com nescau até lá.
O mundo da moda sempre foi, ao mesmo tempo, irritante e fascinante pra mim. Considero todo aquele glamour, as roupas, a música, etc, muito interessantes. Mas quando começam a usar os termos em inglês... me dá vontade de sair correndo e pegar pelo braço aquele senador (ou deputado?) que está lutando por uma lei contra os estrangeirismos na língua portuguesa.
Ontem foi dia de gravação no maior evento de moda do Rio. No meio de tanta gente chique, estava eu de jeans, camiseta e tênis, o roteiro dobrado dentro de um bolso da calça, o celular no outro, o rádio preso na cintura, uma mochila nas costas e duas sacolas, uma em cada braço, correndo de um lado para o outro, pedindo peloamordedeus posso gravar nesse stand? (e ouvindo sim quando pronunciava o mágico nome do programa), encontrando amiguinhos da noite que perguntavam 'vai ver o desfile da Fulana de Tal?', enquanto que eu respondia: não..., pegando um bronze não intensionado no pátio, comendo um cone entre uma entrevista e outra, falando com milhões de pessoas ao mesmo tempo, trocando telefones, ganhando brindes...
E o pior é que eu gosto de tudo isso, acredita? Vai entender a cabeça do ser humano...
Ah, sim, e tem o Fashion Week agora. Vou ver se me privo de algumas manhãs de leite com nescau até lá.
Thursday, January 03, 2008
O primeiro cocô de pombo do ano
Eu me pergunto se é só do brasileiro essa coisa de transformar o infortúnio em amuleto de sorte. Hoje cheguei fresquinha (na medida do possível nesse calor bombante do Rio de Janeiro) no centro da cidade e, em menos de dez minutos, fui coroada com uma bela cagada de pombo na franja. Uma pausa na história: simplesmente odeio a palavra "cagada", acho feio e desnecessário, mas, nesse caso, nada se ajusta melhor que o termo. Não foi só o dejeto do pombo que me acertou os cabelos, mas toda a situação de constrangimento frente aos passantes e aos colegas de trabalho. Foi, enfim, uma merda completa.
Mas, voltando, logo alguém se apressou em dizer: isso significa sorte! Eu sorri amarelo, porque não acredito nisso, apesar de acreditar em uma série de absurdas mandingas inexplicáveis. O problema é que essa do cocô de pombo está descarada demais como se tratando de um artifício do alvo do pombo para ver o lado bom das coisas. Um jogo do contente místico.
E foi aí que me veio: será que isso é coisa do nosso país? Ou será uma tendência mundial essa de passar a mão na cabeça suja e dizer: eu to é bem, vocês é que estão mal!
Aliás, tem uma situação parecida com essa do pombo, que é o ditado: sorte no jogo, azar no amor. E esse eu sei que é universal. Mas o engraçado é que eu só gosto de aplicar o ditado quando estou perdendo, pra ver se humilho um pouquinho o meu oponente. No sentido inverso, quando estou ganhando, faço logo questão de espinafrar meu adversário, inventando musiquinhas, repentindo fases do tipo: "amigo, aqui você não tem vez", contando cada ponto conquistado. Acontece muito quando eu jogo sueca. Acho que sou uma boa perdedora, mas uma péssima ganhadora.
O episódio do cocô do pombo logo foi esquecido. Lavei meu cabelo com um copinho de água mineral que estava ao alcance, penteei a franja mal sorteada e deixei que o assunto morresse. Mas a verdade é que eu continuei apreensiva, eternamente olhando pra cima, cuidando para me safar da mira desses animais nojentos. E preferi ficar no sol impossível do centro do Rio ao alívio da sombra sob as copas das árvores.
Tudo é uma escolha nessa vida..
Mas, voltando, logo alguém se apressou em dizer: isso significa sorte! Eu sorri amarelo, porque não acredito nisso, apesar de acreditar em uma série de absurdas mandingas inexplicáveis. O problema é que essa do cocô de pombo está descarada demais como se tratando de um artifício do alvo do pombo para ver o lado bom das coisas. Um jogo do contente místico.
E foi aí que me veio: será que isso é coisa do nosso país? Ou será uma tendência mundial essa de passar a mão na cabeça suja e dizer: eu to é bem, vocês é que estão mal!
Aliás, tem uma situação parecida com essa do pombo, que é o ditado: sorte no jogo, azar no amor. E esse eu sei que é universal. Mas o engraçado é que eu só gosto de aplicar o ditado quando estou perdendo, pra ver se humilho um pouquinho o meu oponente. No sentido inverso, quando estou ganhando, faço logo questão de espinafrar meu adversário, inventando musiquinhas, repentindo fases do tipo: "amigo, aqui você não tem vez", contando cada ponto conquistado. Acontece muito quando eu jogo sueca. Acho que sou uma boa perdedora, mas uma péssima ganhadora.
O episódio do cocô do pombo logo foi esquecido. Lavei meu cabelo com um copinho de água mineral que estava ao alcance, penteei a franja mal sorteada e deixei que o assunto morresse. Mas a verdade é que eu continuei apreensiva, eternamente olhando pra cima, cuidando para me safar da mira desses animais nojentos. E preferi ficar no sol impossível do centro do Rio ao alívio da sombra sob as copas das árvores.
Tudo é uma escolha nessa vida..
Wednesday, January 02, 2008
A dependência da mega comemoração de Ano Novo
Eu sofro da síndrome de mega comemoração de ano novo. Todos os anos eu preciso - necessito - de uma festa bombástica, amigos e amigos dos amigos reunidos, abraços à meia-noite, três pedidos, champagne, a primeira música do ano que entra, cores certas na roupa, lista de ítens a realizar nos próximos 12 meses, 12 uvas e, se possível (nem sempre dá...), banho de mar e oferendas a Iemanjá.
Meus reveillons são complicadas produções culturais.
Só que, esse ano, a coisa degringolou. Estava tudo certo para uma festa aparentemente incrível, em um hotel antigo de Santa Teresa. Consegui convencer cerca de 30 amigos de que aquele era o melhor lugar do mundo para brindar a chegada de 2008, e lá fomos nós pagar o preço (salgado) do convite. Até que, dois dias antes da virada, veio a notícia de que o evento tinha sido cancelado.
A minha sorte é que eu moro no Rio de Janeiro. Na pior das hipóteses, a gente vai pra praia de Copacabana e tá tudo certo (apesar de que foram seis baleados este ano, entre Copa e Ipanema, então talvez não seja uma jogada tão boa assim passar o reveillon no litoral da Zona Sul do Rio...). Anyway, os meus amigos, que são pessoas muito mais elevadas espiritualmente que eu, foram capazes de organizar uma ceia e uma festa com todos os tipos de drinks em apenas um dia. A idéia era virar na festinha e depois deixar a vida nos levar por aí, pulando sete ondas e conversando com desconhecidos.
Lá pelas 2h, eu e Mayra decidimos que o apartamendo da festa estava pequenos demais para nós. Arrastamos alguns amigos argentinos e um paulista desavisado para uma festa no Arpoador, popularmente conhecida como Festa do Ernesto Neto, o artista plástico, que há anos faz a animação daquele cantinho da praia. Segundo me explicaram, era só chegar ali, comprar cerveja com os ambulantes e curtir a música.
Três pessoas de três grupos completamente diferentes me avisaram que iriam na tal da festa, o que me deixou muito intrigada. Que tipo de música devia tocar lá? Rock gringo pseudo-conhecido? Hippismo tropicalista revisited? Black-music-da-juventude-dourada-carioca?
Pois é, tocou de tudo isso um pouco. E o pior é que deu certo. Ou então eu estava feliz demais na minha passagem de ano, tanto que esqueci de pular as sete ondas da sorte - e olha que eu estava bem ali, na beirinha da água! Só não foi um erro imperdoável porque, em compensação, meu primeiro banho de mar (com roupa e tudo - mas não de branco, diga-se de passagem!) foi realmente inesquecível, o que me faz pensar que, em matéria de good vibes, essa entrada no mar foi equivalente aos sete pulinhos, certo?
De manerira geral, meus reveillon são realmente incríveis. Mesmo que não sejam em mega comemorações.
Acho que já tá na hora de eu me livrar dessa síndrome.
Meus reveillons são complicadas produções culturais.
Só que, esse ano, a coisa degringolou. Estava tudo certo para uma festa aparentemente incrível, em um hotel antigo de Santa Teresa. Consegui convencer cerca de 30 amigos de que aquele era o melhor lugar do mundo para brindar a chegada de 2008, e lá fomos nós pagar o preço (salgado) do convite. Até que, dois dias antes da virada, veio a notícia de que o evento tinha sido cancelado.
A minha sorte é que eu moro no Rio de Janeiro. Na pior das hipóteses, a gente vai pra praia de Copacabana e tá tudo certo (apesar de que foram seis baleados este ano, entre Copa e Ipanema, então talvez não seja uma jogada tão boa assim passar o reveillon no litoral da Zona Sul do Rio...). Anyway, os meus amigos, que são pessoas muito mais elevadas espiritualmente que eu, foram capazes de organizar uma ceia e uma festa com todos os tipos de drinks em apenas um dia. A idéia era virar na festinha e depois deixar a vida nos levar por aí, pulando sete ondas e conversando com desconhecidos.
Lá pelas 2h, eu e Mayra decidimos que o apartamendo da festa estava pequenos demais para nós. Arrastamos alguns amigos argentinos e um paulista desavisado para uma festa no Arpoador, popularmente conhecida como Festa do Ernesto Neto, o artista plástico, que há anos faz a animação daquele cantinho da praia. Segundo me explicaram, era só chegar ali, comprar cerveja com os ambulantes e curtir a música.
Três pessoas de três grupos completamente diferentes me avisaram que iriam na tal da festa, o que me deixou muito intrigada. Que tipo de música devia tocar lá? Rock gringo pseudo-conhecido? Hippismo tropicalista revisited? Black-music-da-juventude-dourada-carioca?
Pois é, tocou de tudo isso um pouco. E o pior é que deu certo. Ou então eu estava feliz demais na minha passagem de ano, tanto que esqueci de pular as sete ondas da sorte - e olha que eu estava bem ali, na beirinha da água! Só não foi um erro imperdoável porque, em compensação, meu primeiro banho de mar (com roupa e tudo - mas não de branco, diga-se de passagem!) foi realmente inesquecível, o que me faz pensar que, em matéria de good vibes, essa entrada no mar foi equivalente aos sete pulinhos, certo?
De manerira geral, meus reveillon são realmente incríveis. Mesmo que não sejam em mega comemorações.
Acho que já tá na hora de eu me livrar dessa síndrome.
Saturday, December 29, 2007
Três mulheres e um banheiro
Dividir o apartamento com duas amigas é como viver em uma colônia de férias. A pia da cozinha nunca está limpa. O banheiro tem uma infinidade de calcinhas de cores e tamanhos diferentes secando. A maior coleção de shampoos e condicionadores já encontrada fora das farmácias. Todos os tipos de bebida. Sala sempre com amigas das amigas. Confissões trocadas enquanto assistimos Seinfeld. Compras em conjunto. Telefone que nunca para de tocar. Banhos interrompidos para alguém fazer xixi. Fila pra se arrumar para o trabalho. Risadas, muitas risadas. Coincidências inexplicáveis.
Quando eu fico cansada de tanto agito, fecho a porta do quarto e ligo o som. Me dedico aos meus cinco livros não lidos, ansiosa por terminar o que estou lendo pra já começar a ler o outro. Uma vida de ansiedades, essa de leitora de livros.
Vem 2008, to esperando...
Quando eu fico cansada de tanto agito, fecho a porta do quarto e ligo o som. Me dedico aos meus cinco livros não lidos, ansiosa por terminar o que estou lendo pra já começar a ler o outro. Uma vida de ansiedades, essa de leitora de livros.
Vem 2008, to esperando...
Sunday, December 16, 2007
Outro poema que eu levo comigo
Alguém me mandou de natal, há muitos anos, um poema da Cecília Meireles. Eu gostei e copiei em um pedaço de papel com um recado anotado no verso, com a letra do meu pai. Desde então, o poema anda na minha carteira. De vez em quando eu leio, só para me sentir bem.
Não gosto de poemas em sua maioria, mas quando gosto, eles me fazem feliz.
Não fazes de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
sem te falarem.
Sem lhes falares.
Não gosto de poemas em sua maioria, mas quando gosto, eles me fazem feliz.
Não fazes de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
sem te falarem.
Sem lhes falares.
Brincadeira dos copos
A brincadeira é assim: entre em um bar com amigos que estão tão ou mais de ressaca que você. Comece bebendo iced tea de limão para depois descobrir que uma Devassa Ruiva cai muito melhor com a sua ressaca. No terceiro chope, parta para os drinks destilados. A cada rodada, uma pessoa da mesa pede o drink que todos os outros deverão beber. Atenção: não vale repetir a bebida de antes. Passeie pela vodca, pelo rum e pela tequila. Encerre com um chope garotinho, se quiser. Roube o copo do Devassa e leve pra casa, pra entulhar o armário da sua cozinha. Depois, decida que está com fome e vá comer uma pizza extremamente oleosa no botequim mais próximo. Utilize o papel que cobre a mesa do boteco para fazer um barquinho de papel tamanho gigante. Tenha a brilhante idéia de colocar o barquinho pra flutuar no chafariz da sua rua. Resolva dar uma volta de carro pelo Aterro do Flamengo só porque a noite está agradável. Volte pra casa bem tarde, querendo acordar cedo pra ir à praia.
Ganha a brincadeira aquele que não se arrepender de nada da noite anterior.
Ganha a brincadeira aquele que não se arrepender de nada da noite anterior.
Scrap para a Mayra depois de um sábado destruidor
nunca mais beber, nunca mais sair à noite, nunca mais conversar com desconhecidos, nunca mais ver o dinheiro ir embora magicamente, nunca mais perder o domingo, nunca mais descumprir promessas feitas antes da meia-noite, nunca mais ligar ou passar mensagens por celular de pilequinho, nunca mais fazer um barco de papel gigante e colocar ele pra passear no chafariz da praça, nunca mais roubar copo de bar só pra ficar rindo depois, nunca mais, nunca mais, nunca mais.
E nem adianta insistir.
E nem adianta insistir.
LCD Soundsystem sabe das verdades da vida
"And it keeps coming till the day it stops"
- Someone Great
- Someone Great
Monday, December 10, 2007
Férias Coccoon
Estou de férias, ou o que poderia ser chamado disso. Não são férias de verdade porque eu não recebi adiantamento de salário nem a garantia de que tenho trabalho no ano que vem, mas mesmo assim gastei o que tinha e o que não tinha redecorando a casa. Ou decorando, apenas, porque o meu apartamento, até mês passado, era conhecido pela ausência total de decoração. Uma coisa assim minimalista, entende.
E agora eu tenho dias livres e consciência pesada para sair e me divertir gastando dinheiro. Então inaugurei um novo estilo de férias: as férias Coccoon. Aquela em que eu passo o dia inteiro dentro de casa apenas navegando na internet, conversando no msn e baixando séries. Baixei Heroes todinho e assisti em dois dias. Agora me dedico a Lost.
Baixo, gravo, assisto, deleto. Da hora que eu acordo à hora que vou dormir. Pode parecer chato - às vezes é... - mas eu tenho me divertido com o meu momento casulo. Dando um tempo do resto da humanidade em um momento que não tenho paciência para a maioria dos humanos.
Às vezes faz bem ficar em casa.
E agora eu tenho dias livres e consciência pesada para sair e me divertir gastando dinheiro. Então inaugurei um novo estilo de férias: as férias Coccoon. Aquela em que eu passo o dia inteiro dentro de casa apenas navegando na internet, conversando no msn e baixando séries. Baixei Heroes todinho e assisti em dois dias. Agora me dedico a Lost.
Baixo, gravo, assisto, deleto. Da hora que eu acordo à hora que vou dormir. Pode parecer chato - às vezes é... - mas eu tenho me divertido com o meu momento casulo. Dando um tempo do resto da humanidade em um momento que não tenho paciência para a maioria dos humanos.
Às vezes faz bem ficar em casa.
Saturday, December 08, 2007
A arte de amar - Manuel Bandeira
Durante muitos anos, esse foi o meu poema preferido.
Eu copiei em uma folha de papel e preguei na parede do meu quarto adolescente, em meio aos posters de hard rock dos anos 90.
Não satisfeita, pintei o primeiro verso atrás da porta, em letras tortas de quem não tem nenhum jeito para atividades manuais.
É esse aqui:
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
Eu copiei em uma folha de papel e preguei na parede do meu quarto adolescente, em meio aos posters de hard rock dos anos 90.
Não satisfeita, pintei o primeiro verso atrás da porta, em letras tortas de quem não tem nenhum jeito para atividades manuais.
É esse aqui:
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
Fazendo
Bebendo vodca sozinha. Preparando a maquiagem. Fumando muitos cigarros, nunca tantos. Esperando a campainha tocar. Admirando minhas novas cortinas. Pensando em mandar tomar no cu. Imaginando que a maioria é ignorante e não entende ironia. Segurando para não mandar neguinho tomar no cu. Repetindo "que se foda" como se fosse um mantra. Falando muitos palavrões. Sentindo saudade. Imaginando como seria se fosse. Sentindo saudade. Imaginando como será quando. Sentindo saudade. Testando o mau humor contra a humanidade. Buscando conversas quaisquer, em qualquer lugar. Ouvindo histórias. Sentindo saudade. Sentindo saudade. Sentindo saudade.
Thursday, November 29, 2007
Carmen, a Fêmea Alfa
Depois de uns cinco anos sem pisar no Theatro Municipal, 2007 foi um ano de muitos eventos culturais naquele local. Começou com o show da Madeleine Peyroux, depois teve o Bolshoi Brasil e, finalmente, o concerto da ópera Carmen.
De todas as óperas, talvez Carmen seja a mais pop. Mesmo quem não conhece nada de música erudita reconhece uma das árias da cigana. Já foram tantas as repetições em filmes e publicidades diversas que é difícil não cantarolar junto as melodias.
Eu, pessoalmente, acho Carmen fodíssima. Imagina uma mulher que, em pleno século XVIII, era livre, cobiçada e sensual. "As paixões de Carmen não duram mais que seis meses", avisa o toureiro ao mané D. José, que não se conforma com o pé na bunda que levou da protagonista, depois de ser expulso do exército e cair na clandestinidade - tudo por causa dela.
Carmen é o tipo de personagem que mantém discussões em mesas de bar, como se ela fosse uma pessoa de verdade. Quando o concerto terminou, um homem que estava ao meu lado lançou a observação que dá título a esse post: "Carmen é a fêmea alfa!" Achei incrível e anotei mentalmente, pra poder roubar e usar mais tarde (como estou fazendo agora). Esse mesmo homem disse que já viu mais de quinze versões cinematográficas da obra, com visões que vão desde Charles Chaplin a Goddard.
Saí do teatro com vontade de usar saia rodada e salto alto, mas logo tive que me conformar com a minha rotina jeans & tênis. Não adianta: quem nasce Billie Jean nunca será Carmenzita.
De todas as óperas, talvez Carmen seja a mais pop. Mesmo quem não conhece nada de música erudita reconhece uma das árias da cigana. Já foram tantas as repetições em filmes e publicidades diversas que é difícil não cantarolar junto as melodias.
Eu, pessoalmente, acho Carmen fodíssima. Imagina uma mulher que, em pleno século XVIII, era livre, cobiçada e sensual. "As paixões de Carmen não duram mais que seis meses", avisa o toureiro ao mané D. José, que não se conforma com o pé na bunda que levou da protagonista, depois de ser expulso do exército e cair na clandestinidade - tudo por causa dela.
Carmen é o tipo de personagem que mantém discussões em mesas de bar, como se ela fosse uma pessoa de verdade. Quando o concerto terminou, um homem que estava ao meu lado lançou a observação que dá título a esse post: "Carmen é a fêmea alfa!" Achei incrível e anotei mentalmente, pra poder roubar e usar mais tarde (como estou fazendo agora). Esse mesmo homem disse que já viu mais de quinze versões cinematográficas da obra, com visões que vão desde Charles Chaplin a Goddard.
Saí do teatro com vontade de usar saia rodada e salto alto, mas logo tive que me conformar com a minha rotina jeans & tênis. Não adianta: quem nasce Billie Jean nunca será Carmenzita.
Wednesday, November 28, 2007
Sobre pessoas e livros em cinco minutos
Vou tentar disfarçar e dizer que quando entrei na sua casa não reparei que havia livros espalhados por todos os cantos: no banheiro, no quarto, na mesa de jantar e até na cozinha (e nem era um livro de culinária, o que me deixou muito intrigada. O que é que você lê na cozinha? Lê enquanto prepara o almoço?). Vou disfarçar e tentar convencer você de que não reparei que existia um livro aberto em cima do sofá, uma página marcada, que deve ter sido deixado de lado no exato momento em que toquei a campainha e interrompi a sua leitura. Mas como não consigo disfarçar porcaria nenhuma, como sou absolutamente transparente - e ainda não descobri se isso é bom ou ruim - acabei perguntando: "que livro é esse?". E você respondeu: "... blá blá blá Satre", e eu só entendi que tinha Sartre no título, mas que não era um livro do Sartre. E aí não falei mais nada, porque nunca tinha ouvido falar do tal livro, mas achei que devia ser interessante, porque a capa era legal. E eu julgo livros pela capa.
E tem mais: eu percebi que nenhum daqueles volumes estavam em português. Tinham uns em inglês, outros em francês e outros em espanhol, e eu secretamente fiquei orgulhosa. Não tem nada mais turn on pra mim do que inteligência.
E então você abriu a geladeira pra pegar alguma coisa pra gente beber e eu espiei lá dentro e vi que não era uma geladeira típica de casa de homem, com cerveja, água e ketchup e nada mais. Ao contrário, era uma geladeira muito mais preparada pra vida que a minha: tinha temperos e frutas e alguns ingredientes já cortados do que comporia o jantar de mais tarde que, na verdade, nunca aconteceu. E eu pedi a receita e você disse que não dava, depois disse que não tinha receita e que você cozinhava com o que tinha em casa, esquecendo que antes tinha me dito que havia saído pra comprar os ingredientes do prato, em uma contradição deliciosa em busca da valorização de qualidades.
Depois observei que as fotos do seu computador eram, na maioria, auto-retratos, e achei engraçada essa vaidade adolescente em meio a tantas qualidades maduras. Nada melhor do que acabar de conhecer uma pessoa e considerar engraçados os potenciais defeitos dela. Mas antes que eu desse continuidade à essa lógica, você me mostrou a sua coleção de mp3, e disse que pensava em redecorar o apartamento, e me convidou pra sentar e nem reclamou quando eu, espaçosa, tirei os sapatos.
Isso é que dá abrir as portas da sua casa pra uma virginiana.
E tem mais: eu percebi que nenhum daqueles volumes estavam em português. Tinham uns em inglês, outros em francês e outros em espanhol, e eu secretamente fiquei orgulhosa. Não tem nada mais turn on pra mim do que inteligência.
E então você abriu a geladeira pra pegar alguma coisa pra gente beber e eu espiei lá dentro e vi que não era uma geladeira típica de casa de homem, com cerveja, água e ketchup e nada mais. Ao contrário, era uma geladeira muito mais preparada pra vida que a minha: tinha temperos e frutas e alguns ingredientes já cortados do que comporia o jantar de mais tarde que, na verdade, nunca aconteceu. E eu pedi a receita e você disse que não dava, depois disse que não tinha receita e que você cozinhava com o que tinha em casa, esquecendo que antes tinha me dito que havia saído pra comprar os ingredientes do prato, em uma contradição deliciosa em busca da valorização de qualidades.
Depois observei que as fotos do seu computador eram, na maioria, auto-retratos, e achei engraçada essa vaidade adolescente em meio a tantas qualidades maduras. Nada melhor do que acabar de conhecer uma pessoa e considerar engraçados os potenciais defeitos dela. Mas antes que eu desse continuidade à essa lógica, você me mostrou a sua coleção de mp3, e disse que pensava em redecorar o apartamento, e me convidou pra sentar e nem reclamou quando eu, espaçosa, tirei os sapatos.
Isso é que dá abrir as portas da sua casa pra uma virginiana.
Friday, November 23, 2007
Brincadeira do Copo
Eu sempre tive medo de histórias de fantasmas e almas e possessões. Fui ver a nova versão do Exorcista no cinema e quase morri do coração. Depois, foi a vez de amarelar ao assistir um trecho de "O exorcismo de Emily Rose" na TV: na hora em que o namorado acorda e encontra a Emily toda retorcida no chão, eu tive que mudar de canal. Era isso ou não conseguir dormir à noite.
Se agora que eu sou velha eu ainda tenho medo do sobrenatural, imagina quando era mais nova. Não tinha a mínima possibilidade de participar daquelas brincadeiras com copos e tesouras que todo mundo fazia - ou falava que fazia. E, pra falar a verdade, eu nunca soube se aquilo tudo que me contavam era real ou não. Devia ser uma grande mentira que eu, menina inocente, acreditava e morria de medo.
Tinha o caso do copo que saui voando do tabuleiro e bateu na parede, depois que um espírito brincalhão ficou irritado com as perguntas da roda. Os meus amigos me explicavam que espíritos brincalhões são os mais perigosos, e que sempre devemos perguntar primeiro se a entidade quer estava ali era séria ou não. Outra pergunta necessária era saber se a brincadeira poderia parar em determinado momento, já que os espíritos não gostavam dessa história de serem entrevistados e depois dispensados sem maiores explicações. Tudo deveria ser feito com grande respeito.
Uma vez, eu e minhas amigas estávamos na casa de uma delas, em Miguel Pereira, e resolvemos conversar com um espírito através do pêndulo. O lance era parecido com a brincadeira do copo: a gente fazia uma roda e falava: "espírito, mostre o seu sim", e aí o pêndulo balançava pra um lado. Depois, só pra confirmar, a gente falava: "espírito, mostre seu não", e o pêndulo deveria balançar para o lado oposto. Enfim, nesse dia a gente perguntou se aquela era uma alma brincalhona e o pêndulo disse que sim, e imediatamente todas as meninas ficaram morrendo de medo. Pedimos então para parar com a brincadeira e tivemos a nossa vontade concedida, para alívio geral.
Pelo visto o espírito brincalhão tava sem o mínimo saco de brincar com a gente.
Se agora que eu sou velha eu ainda tenho medo do sobrenatural, imagina quando era mais nova. Não tinha a mínima possibilidade de participar daquelas brincadeiras com copos e tesouras que todo mundo fazia - ou falava que fazia. E, pra falar a verdade, eu nunca soube se aquilo tudo que me contavam era real ou não. Devia ser uma grande mentira que eu, menina inocente, acreditava e morria de medo.
Tinha o caso do copo que saui voando do tabuleiro e bateu na parede, depois que um espírito brincalhão ficou irritado com as perguntas da roda. Os meus amigos me explicavam que espíritos brincalhões são os mais perigosos, e que sempre devemos perguntar primeiro se a entidade quer estava ali era séria ou não. Outra pergunta necessária era saber se a brincadeira poderia parar em determinado momento, já que os espíritos não gostavam dessa história de serem entrevistados e depois dispensados sem maiores explicações. Tudo deveria ser feito com grande respeito.
Uma vez, eu e minhas amigas estávamos na casa de uma delas, em Miguel Pereira, e resolvemos conversar com um espírito através do pêndulo. O lance era parecido com a brincadeira do copo: a gente fazia uma roda e falava: "espírito, mostre o seu sim", e aí o pêndulo balançava pra um lado. Depois, só pra confirmar, a gente falava: "espírito, mostre seu não", e o pêndulo deveria balançar para o lado oposto. Enfim, nesse dia a gente perguntou se aquela era uma alma brincalhona e o pêndulo disse que sim, e imediatamente todas as meninas ficaram morrendo de medo. Pedimos então para parar com a brincadeira e tivemos a nossa vontade concedida, para alívio geral.
Pelo visto o espírito brincalhão tava sem o mínimo saco de brincar com a gente.
Thursday, November 22, 2007
Top 5 dos Melhores e Piores de 2007
(sob a minha visão altamente influenciável)
Melhores Shows:
1 - LCDSoundsystem no Circo
2 - Bjork no Tim Festival
3 - Nouvelle Vague no Circo
4 - Devo no Planeta Terra
5 - Los Hermanos na Fundição Progresso
Planos não realizados:
1 - Parar de fumar
2 - Entrar para uma academia
3 - Guardar dinheiro
4 - Mobiliar o apartamento novo
5 - Aproveitar mais o dia
Programa de fim de semana (dia):
1 - Paineiras
2 - Segundo Coqueirão de Ipanema (estacionando no Leblon e andando pelo calçadão até o posto 9)
3 - Café da manhã à uma da tarde no Leblon
4 - Almoço às cinco da tarde em Santa Teresa
5 - Cerveja na muretinha do Bar Urca
Programa de fim de semana (noite):
1 - Fix
2 - Cerveja na muretinha da São Salvador
3 - Festa de música black
4 - Aniversários de amigos e amigos dos amigos
5 - Festa na casa do Marinho
Viagens incríveis (trabalho e/ou lazer):
1 - Paris
2 - Fernando de Noronha
3 - Despedida de Vera Cruz
4 - Búzios com chuva
5 - Fim de semana gastação em sp
Melhores Shows:
1 - LCDSoundsystem no Circo
2 - Bjork no Tim Festival
3 - Nouvelle Vague no Circo
4 - Devo no Planeta Terra
5 - Los Hermanos na Fundição Progresso
Planos não realizados:
1 - Parar de fumar
2 - Entrar para uma academia
3 - Guardar dinheiro
4 - Mobiliar o apartamento novo
5 - Aproveitar mais o dia
Programa de fim de semana (dia):
1 - Paineiras
2 - Segundo Coqueirão de Ipanema (estacionando no Leblon e andando pelo calçadão até o posto 9)
3 - Café da manhã à uma da tarde no Leblon
4 - Almoço às cinco da tarde em Santa Teresa
5 - Cerveja na muretinha do Bar Urca
Programa de fim de semana (noite):
1 - Fix
2 - Cerveja na muretinha da São Salvador
3 - Festa de música black
4 - Aniversários de amigos e amigos dos amigos
5 - Festa na casa do Marinho
Viagens incríveis (trabalho e/ou lazer):
1 - Paris
2 - Fernando de Noronha
3 - Despedida de Vera Cruz
4 - Búzios com chuva
5 - Fim de semana gastação em sp
Wednesday, November 14, 2007
Falling in love for an android with delayed reaction
Eu me apaixonei por um robô com reações retardadas. Aliás, eu venho me apaixonando por tipos assim nos últimos cinco anos, o que me faz pensar sobre os padrões que a gente escolhe nessa vida. Eles não sabem que são robôs com defeito, e eu não sei que são do mesmo jeito de sempre quando me apaixono por eles. Só depois de um tempo é que a falha vem à tona - como todos os outros defeitos de fabricação - e aí já é tarde demais para se escapar das garras do amor. No fim das contas, amar é só a capacidade de aturar, com mais paciência do que o usual, os defeitos alheios.
Porque ele era um andróide incrivelmente lindo, com grandes e tímidos olhos azuis e um sotaque característico de sua condição de máquina, à princípio o delay das reações era só mais um de seus charmes. Eu mandava emails apaixonados que nunca recebiam respostas. Eu ligava e não era atendida e, nas raras ocasiões em que recebia uma resposta imediata no aparelhinho de celular, eram sempre evasivas e esquivas. Mas a única saída para quem se apaixona por um robô com reações retardadas é esperar que seus circuitos finalmente se consertem. Sozinhos.
Eu criava ferramentas imaginárias para tentar consertar meu irresistível cyborg de olhos azuis. Explicava a mesma coisa repetidas vezes pra ver se ele entendia bem. Mas, coitado, devido à sua condição de mal fabricado, de nada adiantavam as minhas soluções inventadas. Em questão de tempo - muito tempo - o charme do andróide perdeu a graça e as minhas ferramentas se amontoaram inúteis em um canto da garagem.
Agora ele entende tudo. Mas agora não dá mais tempo.
É esse o resultado de se apaixonar por andróides com reações retardadas.
Porque ele era um andróide incrivelmente lindo, com grandes e tímidos olhos azuis e um sotaque característico de sua condição de máquina, à princípio o delay das reações era só mais um de seus charmes. Eu mandava emails apaixonados que nunca recebiam respostas. Eu ligava e não era atendida e, nas raras ocasiões em que recebia uma resposta imediata no aparelhinho de celular, eram sempre evasivas e esquivas. Mas a única saída para quem se apaixona por um robô com reações retardadas é esperar que seus circuitos finalmente se consertem. Sozinhos.
Eu criava ferramentas imaginárias para tentar consertar meu irresistível cyborg de olhos azuis. Explicava a mesma coisa repetidas vezes pra ver se ele entendia bem. Mas, coitado, devido à sua condição de mal fabricado, de nada adiantavam as minhas soluções inventadas. Em questão de tempo - muito tempo - o charme do andróide perdeu a graça e as minhas ferramentas se amontoaram inúteis em um canto da garagem.
Agora ele entende tudo. Mas agora não dá mais tempo.
É esse o resultado de se apaixonar por andróides com reações retardadas.
Tuesday, November 13, 2007
Android with delayed reaction
Às vezes tenho uns ímpetos incontroláveis de dizer a verdade, mesmo que o outro lado não queira ouvir. E digo sem ser convidada, mesmo que a verdade seja apenas temporária - minhas verdades são mutáveis, assim como as minhas paixões: leviandade, teu nome é mulher.
E quando ouvem verdades, os que não querem ouvir se fazem de surdos, de desentendidos e de burros. Eu mesma já apliquei tantas vezes essa tática, meu bem. A grande diferença está na parte do saber: eu sei que quando eles não ouvem é mentira, enquanto que eu, quando não me faço ouvir, estou plenamente consciente de que aquilo é uma farsa. Deu pra sacar?
São todos uns robôs com mecanismo retardado. Todos eles programados para não responderem na hora, sofrendo um tremendo de um timing errado, entendendo a regra quando o jogo já acabou. Cyborgs com defeito, todos eles.
A grande merda é que eu sou obrigada a conviver com isso.
E quando ouvem verdades, os que não querem ouvir se fazem de surdos, de desentendidos e de burros. Eu mesma já apliquei tantas vezes essa tática, meu bem. A grande diferença está na parte do saber: eu sei que quando eles não ouvem é mentira, enquanto que eu, quando não me faço ouvir, estou plenamente consciente de que aquilo é uma farsa. Deu pra sacar?
São todos uns robôs com mecanismo retardado. Todos eles programados para não responderem na hora, sofrendo um tremendo de um timing errado, entendendo a regra quando o jogo já acabou. Cyborgs com defeito, todos eles.
A grande merda é que eu sou obrigada a conviver com isso.
Sunday, November 04, 2007
Taxi Driver
- Boa noite. Lapa, por favor.
Pega o celular e disca pra qualquer número, porque não suporta silêncio de táxi, nem conversa com o taxista. Se bem que tem uns que são legais. Vontade de fumar um cigarro, vontade de comer uma bala, e o primeiro número não atende. Olha pela janela todas as luzes e todas as faunas e o taxista avisa:
- Não vai esquecer o celular em cima do banco, hein, boneca.
Diz que não, pode deixar, já tá na bolsa - mas, na verdade, estava ligando pra outro número e pensando: "só tenho uma nota de cinquenta, será que esse cara tem troco?"
Toca o alerta da mensagem dizendo que já chegaram, o cigarro está ali, luminoso, falta só mais um sinal e depois um pouquinho de engarrafamento, pela janela vai vendo televisão, quase chegando, o celular já tá guardado, o dinheiro tá na mão.
- Boa noite, bom divertimento pra você, princesa.
- Boa noite pro senhor.
E fecha a porta.
Pega o celular e disca pra qualquer número, porque não suporta silêncio de táxi, nem conversa com o taxista. Se bem que tem uns que são legais. Vontade de fumar um cigarro, vontade de comer uma bala, e o primeiro número não atende. Olha pela janela todas as luzes e todas as faunas e o taxista avisa:
- Não vai esquecer o celular em cima do banco, hein, boneca.
Diz que não, pode deixar, já tá na bolsa - mas, na verdade, estava ligando pra outro número e pensando: "só tenho uma nota de cinquenta, será que esse cara tem troco?"
Toca o alerta da mensagem dizendo que já chegaram, o cigarro está ali, luminoso, falta só mais um sinal e depois um pouquinho de engarrafamento, pela janela vai vendo televisão, quase chegando, o celular já tá guardado, o dinheiro tá na mão.
- Boa noite, bom divertimento pra você, princesa.
- Boa noite pro senhor.
E fecha a porta.
Paineiras
Enquanto sinto o ar mais fresco nas minhas bochechas, vou suando morro acima. No caminho, um muro de pedra para fazer rapel, o Cristo bem pertinho, bicicleta e skate, vai mais devagar que você anda muito rápido, assim as minhas coxas ficam doídas o resto da semana, aqui tem uma vista boa da Lagoa, repara só como essa árvore caiu mas ainda está viva (vai viver assim ainda por muitos e muitos anos), fila pra entrar embaixo do cano, água gelada que aperta o peito e tira o fôlego, não quis sair ontem porque queria ouvir Nouvelle Vague aqui em cima, as mulheres contam para as amigas sua vida sexual com detalhes, tá falando sério?, suas bochechas são musculosas, deve ser porque eu vivo rindo que nem boba, vocês vão subir pro Cristo?, vocês querem uma van?, do you want a car?, vontade de comer arroz com brócolis e lula, eu prefiro mesa de ferro e cerveja de garrafa e piadas masculinas a mesa de restaurante japonês cheio de mulheres, tá falando sério?, se quiser eu dirijo pra você curtir a vista, você tem cara de alemã, tenho?, por que você não me chamou antes?, não conheço mais ninguém que goste de passear aqui, meus amigos só saem à noite, to virando eremita - mas pelo menos o iPod tá sempre comigo, já viu que louco esse bicho aqui?, tomara que ele não venha pousar em mim, acho que to virando hippie, mas hoje à noite tem festa de eletrônico, né? Tem... Sempre tem.
Wednesday, October 31, 2007
Domingo de sol
Eu adoro São Paulo. Gosto de passar fim de semanas insanos, de quase não dormir em 48h de noites paulistanas, de visitar a Liberdade e comprar sapatos totalmente dispensáveis na Galeria Ouro Fino. Mas não troco, por nada nesse mundo, o Rio de Janeiro. Nem por NY, nem por Paris. Sou viciada demais nas situações da minha cidade.
Domingo acordei com a voz rouca de incontáveis cigarros da noite anterior. Ainda com a voz cavernosa, telefonei para o número certo, que iria me proporcionar programas divertidos e baratos. E aí, peguei o carro e me mandei pra Santa Teresa, pra almoçar frutos do mar em um restaurante cheio de artesanato do nordeste.
Próxima parada: Paineiras. Meu guia me avisou que a boa não é aquele cano grudado na pedra que nego chama de cachoeira, e sim uma trilhazinha no meio do mato, subindo pedras e passando por teias de aranha. Mesmo chiliquenta e totalmente urbana, decidi inovar e aceitei o desafio de me embrenhar mata adentro, e o resultado foi um banho revigorante em águas totalmente geladas. Diz a lenda que a cachoeira tem um código secreto em que dois grupos desconhecidos nunca se encontram: quando sobe uma primeira galera, os outros ferquentadores só aparecem no momento da descida. Toda a organização é feita metafisicamente, através da mística das águas do Parque Nacional Floresta da Tijuca. Quando eu voltava ao asfalto das Paineiras, não deu outra: encontrei um casal subindo, pronto para pegar o nosso posto. Achei incrível.
Depois dei um pulo no Parque das Ruínas pra ver uma exposição moderninha, e aproveitei pra tirar fotos do céu de Santa e ainda comer um salgadinho natureba. E mesmo com toda a intensidade da programação, ainda estava sol. Fiquei com muita vontade de aproveitar mais os dias que as noites nos fins de semana - mas a verdade é que sempre me rendo ao primeiro telefonema nortuno, e acabo acordando muito tarde no dia seguinte.
Mas fala sério, é ou não é uma cidade incrível o Rio de Janeiro?
Deixa eu pegar o crachá aqui na bolsa.
Domingo acordei com a voz rouca de incontáveis cigarros da noite anterior. Ainda com a voz cavernosa, telefonei para o número certo, que iria me proporcionar programas divertidos e baratos. E aí, peguei o carro e me mandei pra Santa Teresa, pra almoçar frutos do mar em um restaurante cheio de artesanato do nordeste.
Próxima parada: Paineiras. Meu guia me avisou que a boa não é aquele cano grudado na pedra que nego chama de cachoeira, e sim uma trilhazinha no meio do mato, subindo pedras e passando por teias de aranha. Mesmo chiliquenta e totalmente urbana, decidi inovar e aceitei o desafio de me embrenhar mata adentro, e o resultado foi um banho revigorante em águas totalmente geladas. Diz a lenda que a cachoeira tem um código secreto em que dois grupos desconhecidos nunca se encontram: quando sobe uma primeira galera, os outros ferquentadores só aparecem no momento da descida. Toda a organização é feita metafisicamente, através da mística das águas do Parque Nacional Floresta da Tijuca. Quando eu voltava ao asfalto das Paineiras, não deu outra: encontrei um casal subindo, pronto para pegar o nosso posto. Achei incrível.
Depois dei um pulo no Parque das Ruínas pra ver uma exposição moderninha, e aproveitei pra tirar fotos do céu de Santa e ainda comer um salgadinho natureba. E mesmo com toda a intensidade da programação, ainda estava sol. Fiquei com muita vontade de aproveitar mais os dias que as noites nos fins de semana - mas a verdade é que sempre me rendo ao primeiro telefonema nortuno, e acabo acordando muito tarde no dia seguinte.
Mas fala sério, é ou não é uma cidade incrível o Rio de Janeiro?
Deixa eu pegar o crachá aqui na bolsa.
Tuesday, October 30, 2007
State of Emergency
Hoje eu estava lendo o blog da Kamille quando me deparei com esse texto maravilhoso sobre o show da Bjork. E fiquei com vontade de escrever sobre música e sobre como a minha vida é toda baseada em sons, e até o meu tempo é dividido por canções: com essa eu vou arrumar a cama, com essa eu vou preparar o meu sanduíche/jantar e com essa eu vou ficar lendo, deitada na cama.
(Agora estou ouvindo She's leaving home, dos Beatles.)
Eu fui no show da Bjork. Numa puta má vontade, é verdade, mas fui. Já vi a cantora outras duas vezes - minha estréia no FreeJazz, inclusive, foi na apresentação dela, em longínquos 1996, quando eu ainda era jovem. Dessa vez eu achei que o show não ia ser nada demais, porque nem gostei tanto assim do disco Volta, e comprei só porque uma amiga estava na fila e se ofereceu pra comprar pra mim.
(Agora estou ouvindo The warning, do Nine Inch Nails.)
Ainda bem que eu fui, ainda bem. Acho que não existe situação mais específica em que eu sinto a alma satisfeita que depois de assistir a um bom show. Exceto, talvez, algumas vezes em que leio uma certa passagem realmente incrível de um livro (acontecia toda hora com Incrivelmente Perto...), mas aí a história toda é muito solitária, muito você e o papel, sabe? Em um show a coisa é diferente, é como se fosse uma satisfação coletiva, com todas aquelas pessoas fazendo coro e gritando de prazer, literalmente.
(Ouvindo Glória, do Tom Zé.)
No caso da Bjork, as músicas foram repletas de lembranças de casos passados, de eventos e de historinhas inesquecíveis dos meus twenty somethings. Saudosista até o último fio de cabelo, eu cantava o refrão de Joga, o tal do state of emergency, how beautiful to be, versos que sempre entendi muito bem e sempre achei incríveis, e que durante anos figuraram na mensagem de abertura do meu celular tijolão, só pra me lembrar que eu não devo ficar encostada no muro vendo o povo passar - a menos, é claro, que eu esteja saboreando infinitamente esse momento.
(Ever Fallen in Love, do Nouvelle Vague)
Depois do show, o que mais tem pra fazer? Eu estava morrendo de sono e feliz e satisfeita, e havia uma chuva que empurrava todo mundo pra baixo das poucas coberturas do local, e era uma guerra pra conseguir uma cerveja.
Fui pra casa. Quando a coisa ta no auge eu me retiro, que é pra não perder tempo com a decadência.
(Próxima: Essa passou, Chico Buarque)
(Agora estou ouvindo She's leaving home, dos Beatles.)
Eu fui no show da Bjork. Numa puta má vontade, é verdade, mas fui. Já vi a cantora outras duas vezes - minha estréia no FreeJazz, inclusive, foi na apresentação dela, em longínquos 1996, quando eu ainda era jovem. Dessa vez eu achei que o show não ia ser nada demais, porque nem gostei tanto assim do disco Volta, e comprei só porque uma amiga estava na fila e se ofereceu pra comprar pra mim.
(Agora estou ouvindo The warning, do Nine Inch Nails.)
Ainda bem que eu fui, ainda bem. Acho que não existe situação mais específica em que eu sinto a alma satisfeita que depois de assistir a um bom show. Exceto, talvez, algumas vezes em que leio uma certa passagem realmente incrível de um livro (acontecia toda hora com Incrivelmente Perto...), mas aí a história toda é muito solitária, muito você e o papel, sabe? Em um show a coisa é diferente, é como se fosse uma satisfação coletiva, com todas aquelas pessoas fazendo coro e gritando de prazer, literalmente.
(Ouvindo Glória, do Tom Zé.)
No caso da Bjork, as músicas foram repletas de lembranças de casos passados, de eventos e de historinhas inesquecíveis dos meus twenty somethings. Saudosista até o último fio de cabelo, eu cantava o refrão de Joga, o tal do state of emergency, how beautiful to be, versos que sempre entendi muito bem e sempre achei incríveis, e que durante anos figuraram na mensagem de abertura do meu celular tijolão, só pra me lembrar que eu não devo ficar encostada no muro vendo o povo passar - a menos, é claro, que eu esteja saboreando infinitamente esse momento.
(Ever Fallen in Love, do Nouvelle Vague)
Depois do show, o que mais tem pra fazer? Eu estava morrendo de sono e feliz e satisfeita, e havia uma chuva que empurrava todo mundo pra baixo das poucas coberturas do local, e era uma guerra pra conseguir uma cerveja.
Fui pra casa. Quando a coisa ta no auge eu me retiro, que é pra não perder tempo com a decadência.
(Próxima: Essa passou, Chico Buarque)
Vida sonora
Durante toda a minha vida eu fui viciada em música. Lembro de pegar uns disquinhos da Rita Lee que eram da minha mãe e colocar pra tocar naquelas vitrolas infantis que já vêm com caixa de som, e quando você dobra elas viram uma maleta. E depois, um pouco mais velha, comecei a fuçar a coleção de vinis de jazz do meu pai, e assim descobri Janis Joplin, Ella Fitzgerald e Chet Baker. E ainda teve as fases college rock e guitar band, uma curta passagem pelo heavy metal e pelo punk rock, até chegar ao injustificável e polêmico bate-estaca. Hoje em dia eu misturo tudo isso e ainda acrescento samba e MPB. Imagino que o povo do SoulSeek que vasculha a minha pasta de mp3 deve me achar uma louca, considerando que bem ao lado do Daft Punk existe uma lista extensa de Chico Buarques de todos os tempos.
Durante todos esses anos, o walkman (com todas as suas variações) virou o meu melhor amigo. Outro dia roubaram o rádio do meu carro e eu entrei em desespero, porque sabia que não aguentaria uma horinha de engarrafamento sem ter com que distrair meus ouvidos e a minha cabeça, sempre pronta a pensar um monte de besteiras. Mas aí, a solução foi dirigir de fone, burlando qualquer tipo de lei de trânsito que me prive de ter prazer. Saquei o iPod que mora na minha bolsa e me mandei para os meus 35km diários a caminho do trabalho.
O problema é que, desde então, não consigo mais tirar os fones do ouvido. Sabe como é, a vida fica muito mais interessante. Hoje mesmo, depois do trabalho, tive que passar no insuportável supermercado estreito e mega cheio que existe na minha rua. Não tive a menor dúvida: aumentei o volume do LCDSoundSystem que reinava no mp3 player a ponto de cobrir aqueles ordinários sons externos da vida cotidiana, sabe como é? E fui procurar margarina, requeijão, leite, etc, morrendo de vontade de dançar pelos corredores estreitos do Zona Sul, transformando todos os movimentos da menina do caixa em coreografia de videoclipe, fechando os olhos de vez em quando para me transportar pra fora daquela fila de no máximo 15 ítens (mas que todo mundo engana) e pensando que, não tem jeito, a minha sina é pagar duzentos reais no ingresso do show dos caras no Circo.
Essa necessidade de ter a alma beijada nunca vai me permitir virar milionária.
Durante todos esses anos, o walkman (com todas as suas variações) virou o meu melhor amigo. Outro dia roubaram o rádio do meu carro e eu entrei em desespero, porque sabia que não aguentaria uma horinha de engarrafamento sem ter com que distrair meus ouvidos e a minha cabeça, sempre pronta a pensar um monte de besteiras. Mas aí, a solução foi dirigir de fone, burlando qualquer tipo de lei de trânsito que me prive de ter prazer. Saquei o iPod que mora na minha bolsa e me mandei para os meus 35km diários a caminho do trabalho.
O problema é que, desde então, não consigo mais tirar os fones do ouvido. Sabe como é, a vida fica muito mais interessante. Hoje mesmo, depois do trabalho, tive que passar no insuportável supermercado estreito e mega cheio que existe na minha rua. Não tive a menor dúvida: aumentei o volume do LCDSoundSystem que reinava no mp3 player a ponto de cobrir aqueles ordinários sons externos da vida cotidiana, sabe como é? E fui procurar margarina, requeijão, leite, etc, morrendo de vontade de dançar pelos corredores estreitos do Zona Sul, transformando todos os movimentos da menina do caixa em coreografia de videoclipe, fechando os olhos de vez em quando para me transportar pra fora daquela fila de no máximo 15 ítens (mas que todo mundo engana) e pensando que, não tem jeito, a minha sina é pagar duzentos reais no ingresso do show dos caras no Circo.
Essa necessidade de ter a alma beijada nunca vai me permitir virar milionária.
Tuesday, October 23, 2007
Pseudo malandragem
Tenho uma grande amiga que está de malas prontas pra morar em Madri. O plano é fazer um doutorado - 4 anos, minha gente... - e voltar com a tese debaixo do braço. Se bem que eu acho que ela vai terminar o doutorado e arrumar um trabalho em alguma universidade madrilenha, e conhecer um espanhol bem gato e se casar e ter dois filhos lindinhos e espanhoizinhos, que irão chamá-la de madrecita. E acho também que ela vai ser bem feliz lá, e de vez em quando ela virá pro Rio no carnaval, enquanto eu vou ter que ficar um tempão juntando dinheiro pro poder visitá-la, porque vou continuar ganhando míseros reais que nada valem no Velho Continente.
Tenho uma outra grande amiga, a única que conheço precisamente desde que nasci (ela nasceu dia 29 de abril e eu 29 de agosto, olha que simpático) que resolveu morar na Austrália, e já avisou que de lá ela não volta nunca mais. Lá vou eu juntar mais e mais ridículos reais para comprar essa passagem de avião mega cara que é a Rio - Sidney - Rio só para poder rever a minha amiga do coração.
Deve ser por isso que tenho problemas de abandono.
Eu e essas duas meninas costumávamos passar juntas todas as tardes depois do colégio. Fazíamos vários tipos de merdas, tipo roubar o carro do pai de uma delas pra ficar dando voltas pelo bairro, ter a cara de pau de pegar um filme de sacanagem pra ver como é que era e ficar com nojinho das cenas (porque o filme era feito de várias situações, mas todas terminavam com uma mulher sendo comida por cinco caras ao mesmo tempo), ou fumar os primeiros baseados de uma série, hábito que se estendeu por alguns anos.
Existe também a história clássica do arrombamento do armário. Uma das minhas amigas ficava o dia inteiro sozinha em casa, sem família e sem empregada, e por isso aquele lugar foi escolhido como a base do nosso pequeno clube. E a gente passava o dia inteiro comendo leite condensado com nescau e vendo televisão e ouvindo música, ou qualquer outro tipo de eventos não produtivos do dia-a-dia. Estudar, só se fosse na véspera da prova, ou nas provas finais. O que a gente queria era falar bastante besteira e andar de carro por aí.
Mas aí, a madrasta dessa amiga percebeu que os víveres do mês estavam acabando cada vez mais rápido. Mal sabia ela que alimentava duas bocas extras. E a madrasta passou a trancar o armário da despensa.
Nós três achamos um absurdo. Mas logo descobrimos um jeito de arrombar o armário sem que ninguém percebesse. E continuamos enchendo nossas barrigas de brigadeiros e biscoitos recheados de chocolate. Não sei como não ficamos obesas.
Anos depois, descobrimos que o pai da amiga de quem roubávamos o carro sempre soube do nosso truque. Perecebeu por causa da quilometragem. E a madrasta também sabia dos nossos assaltos à despensa. Provavelmente também sabiam dos baseados, mas isso a gente deixa quieto, né?
A gente se considerava tão malandra! Bons tempos esses de adolescentes de subúrbio. Pelo menos a pseudo-malandragem ficou pra trás...
E adolescência serve pra isso mesmo. Pra fazer coisas que ficariam ridículas se a gente fizesse quando adultos.
Tenho uma outra grande amiga, a única que conheço precisamente desde que nasci (ela nasceu dia 29 de abril e eu 29 de agosto, olha que simpático) que resolveu morar na Austrália, e já avisou que de lá ela não volta nunca mais. Lá vou eu juntar mais e mais ridículos reais para comprar essa passagem de avião mega cara que é a Rio - Sidney - Rio só para poder rever a minha amiga do coração.
Deve ser por isso que tenho problemas de abandono.
Eu e essas duas meninas costumávamos passar juntas todas as tardes depois do colégio. Fazíamos vários tipos de merdas, tipo roubar o carro do pai de uma delas pra ficar dando voltas pelo bairro, ter a cara de pau de pegar um filme de sacanagem pra ver como é que era e ficar com nojinho das cenas (porque o filme era feito de várias situações, mas todas terminavam com uma mulher sendo comida por cinco caras ao mesmo tempo), ou fumar os primeiros baseados de uma série, hábito que se estendeu por alguns anos.
Existe também a história clássica do arrombamento do armário. Uma das minhas amigas ficava o dia inteiro sozinha em casa, sem família e sem empregada, e por isso aquele lugar foi escolhido como a base do nosso pequeno clube. E a gente passava o dia inteiro comendo leite condensado com nescau e vendo televisão e ouvindo música, ou qualquer outro tipo de eventos não produtivos do dia-a-dia. Estudar, só se fosse na véspera da prova, ou nas provas finais. O que a gente queria era falar bastante besteira e andar de carro por aí.
Mas aí, a madrasta dessa amiga percebeu que os víveres do mês estavam acabando cada vez mais rápido. Mal sabia ela que alimentava duas bocas extras. E a madrasta passou a trancar o armário da despensa.
Nós três achamos um absurdo. Mas logo descobrimos um jeito de arrombar o armário sem que ninguém percebesse. E continuamos enchendo nossas barrigas de brigadeiros e biscoitos recheados de chocolate. Não sei como não ficamos obesas.
Anos depois, descobrimos que o pai da amiga de quem roubávamos o carro sempre soube do nosso truque. Perecebeu por causa da quilometragem. E a madrasta também sabia dos nossos assaltos à despensa. Provavelmente também sabiam dos baseados, mas isso a gente deixa quieto, né?
A gente se considerava tão malandra! Bons tempos esses de adolescentes de subúrbio. Pelo menos a pseudo-malandragem ficou pra trás...
E adolescência serve pra isso mesmo. Pra fazer coisas que ficariam ridículas se a gente fizesse quando adultos.
Monday, October 22, 2007
Grupos que vão crescendo
Um dia desses eu estava conversando com um parisiense e ele me revelou a mais estranha mania dos franceses: a de não fazer novos amigos. A declaração se deu em meio a uma conversa sobre como ele chegou ao Rio de Janeiro conhecendo apenas uma menina, e saiu de lá com uma lista de novas amizades. E toda essa conversa aconteceu no apartamento dele em Paris, quando um grupo de brasileiros comemorava o ano novo com uma moqueca de peixe mega improvisada (imagina tentar achar os ingredientes corretos pra fazer uma moqueca em plena Paris! Tem que rolar uma licença poética, né...)
Segundo nosso amigo, os franceses - principalmente os parisienses - conhecem na infância o grupo com quem irão se relacionar o resto da vida. Muito raramente um ou outro membro é adicionado ao grupo original. E os programas de sábado à noite são jantares e noitadinhas básicas, mas nada de grandes festas de aniversário com amigos dos amigos convidados. É uma galera bem restrita, essa de Paris.
A história de David (o parisiense em questão) no Brasil foi a seguinte: ele chegou para trabalhar no Rio de Janeiro com apenas um contato na mão. Esse contato arrumou uma casa pra ele morar em Santa Teresa, onde moravam mais duas pessoas. Os dois roommates deram festas no apartamento do trio e apresentaram David para outros amigos. David arrumou uma namorada brasileira e se apaixonou por mais uma dezena de cariocas - embora continuasse fiel à sua namorada. Meses depois, quando ele já estava de volta à França, foi surpreendido com o email de uma das novas amizades do Rio, avisando que passaria o reveillon em Paris, e que ficaria hospedada na casa dele. Pois é, a nova amizade, no melhor estilo brasileiro de ser, avisou que se hospedaria lá - não esperou por nenhum convite. E foi com mais duas amigas. E recebeu visitas de mais um casal de brasileiros que estava hospedado em um hotel ali perto. E na noite de 31 de setembro, David se viu cercado de uma mesa com pessoas que ele havia conhecido há menos de um ano.
E ele ficou maravilhado. Porque isso não existe lá.
Os meus amigos são exatamente o contrário dos amigos do David. O povo que eu conheço há uns 15 anos gosta de agregar cada vez mais gente - embora, de vez em quando, exista uma certa má vontade em relação a alguns namorados e namoradas dos membros do grupo. Mas acho que isso é normal, né? Em determinadas situações, a preguiça social com os acompanhantes dos amigos é altamente justificável. Mas, de uma maneira geral, o meu grupo não é assim. Aliás, ele cresceu tanto que acabou englobando outros grupos, e tudo virou uma gigantesca bolha da amizade, sabe como é?
Tipo a Bolha Assassina. Só que trabalhando para o bem.
Segundo nosso amigo, os franceses - principalmente os parisienses - conhecem na infância o grupo com quem irão se relacionar o resto da vida. Muito raramente um ou outro membro é adicionado ao grupo original. E os programas de sábado à noite são jantares e noitadinhas básicas, mas nada de grandes festas de aniversário com amigos dos amigos convidados. É uma galera bem restrita, essa de Paris.
A história de David (o parisiense em questão) no Brasil foi a seguinte: ele chegou para trabalhar no Rio de Janeiro com apenas um contato na mão. Esse contato arrumou uma casa pra ele morar em Santa Teresa, onde moravam mais duas pessoas. Os dois roommates deram festas no apartamento do trio e apresentaram David para outros amigos. David arrumou uma namorada brasileira e se apaixonou por mais uma dezena de cariocas - embora continuasse fiel à sua namorada. Meses depois, quando ele já estava de volta à França, foi surpreendido com o email de uma das novas amizades do Rio, avisando que passaria o reveillon em Paris, e que ficaria hospedada na casa dele. Pois é, a nova amizade, no melhor estilo brasileiro de ser, avisou que se hospedaria lá - não esperou por nenhum convite. E foi com mais duas amigas. E recebeu visitas de mais um casal de brasileiros que estava hospedado em um hotel ali perto. E na noite de 31 de setembro, David se viu cercado de uma mesa com pessoas que ele havia conhecido há menos de um ano.
E ele ficou maravilhado. Porque isso não existe lá.
Os meus amigos são exatamente o contrário dos amigos do David. O povo que eu conheço há uns 15 anos gosta de agregar cada vez mais gente - embora, de vez em quando, exista uma certa má vontade em relação a alguns namorados e namoradas dos membros do grupo. Mas acho que isso é normal, né? Em determinadas situações, a preguiça social com os acompanhantes dos amigos é altamente justificável. Mas, de uma maneira geral, o meu grupo não é assim. Aliás, ele cresceu tanto que acabou englobando outros grupos, e tudo virou uma gigantesca bolha da amizade, sabe como é?
Tipo a Bolha Assassina. Só que trabalhando para o bem.
Wednesday, October 17, 2007
Recebendo gente em casa
Uma das situações mais legais de ter uma casa só sua é que você pode encher o lugar de gente. No último feriado fui surpreendida com a presença de um paulista e um argentino, amigos de uma amiga, que chegaram no Rio para passar o fim de semana e encontraram todos os albergues da cidade lotados. Chamei as figuras pra ficarem lá em casa, mesmo não tendo a mínima idéia de quem se tratavam. Poderiam ser duas malas, mas eu dei sorte: os dois eram bem bacanas e me fizeram passar dias mega divertidos.
O lance de receber convidados é que o ritmo fica acelerado. Em se tratando de paulistas (ou sub-paulistas, como é o caso do argentino que mora em SP), a coisa fica mais complicada, porque de repente eu tive que levá-los pra um milhão de eventos que tinham a cara da cidade maravilhosa. Não conseguimos ir à praia, mas fizemos noitadas memoráveis. E o resultado disso tudo é que eu fiquei doente na segunda-feira.
Quando a poeira baixa, o corpo pede arrego.
Na sexta à noite fomos para a casa de um amigo em Ipanema, e depois paramos em uma boate recém reformada, que eu há muito já tinha riscado da minha lista de lugares visitáveis. No sábado, fomos tomar café da manhã no Leblon, almoço em Santa Teresa e caímos na gandaia em Botafogo. Domingo ainda deu tempo de um passeio rápido pela Urca, e depois uma merecida soneca à tarde, antes que meus novos amigos encarassem a estrada. Depois que eles acordaram e foram embora, a casa ficou tão vazia e silenciosa que me deixou um pouquinho deprimida.
Mas não tem nada não. Dá próxima vez que eu for a Sampa, já tenho muitos lugares pra ficar. E, melhor do que isso, tenho novos amigos que já moram no meu coração. E que eles me esperem no próximo mês! To chegando de mala e cuia.
O lance de receber convidados é que o ritmo fica acelerado. Em se tratando de paulistas (ou sub-paulistas, como é o caso do argentino que mora em SP), a coisa fica mais complicada, porque de repente eu tive que levá-los pra um milhão de eventos que tinham a cara da cidade maravilhosa. Não conseguimos ir à praia, mas fizemos noitadas memoráveis. E o resultado disso tudo é que eu fiquei doente na segunda-feira.
Quando a poeira baixa, o corpo pede arrego.
Na sexta à noite fomos para a casa de um amigo em Ipanema, e depois paramos em uma boate recém reformada, que eu há muito já tinha riscado da minha lista de lugares visitáveis. No sábado, fomos tomar café da manhã no Leblon, almoço em Santa Teresa e caímos na gandaia em Botafogo. Domingo ainda deu tempo de um passeio rápido pela Urca, e depois uma merecida soneca à tarde, antes que meus novos amigos encarassem a estrada. Depois que eles acordaram e foram embora, a casa ficou tão vazia e silenciosa que me deixou um pouquinho deprimida.
Mas não tem nada não. Dá próxima vez que eu for a Sampa, já tenho muitos lugares pra ficar. E, melhor do que isso, tenho novos amigos que já moram no meu coração. E que eles me esperem no próximo mês! To chegando de mala e cuia.
Monday, October 15, 2007
Muretinhas
Alguém pode explicar qual é a atração irresistível que os cariocas sentem por uma muretinha? Basta que exista um muro baixo, daqueles que ficam no nível certo pra gente sentar, que logo surge um grupo de amigos, uma cerveja de garrafa e uns copinhos de vidro estilo botequim. E o papo começa ali mesmo, e vai se estendendo noite adentro, e se você não tomar cuidado pode ver seu sábado à noite ir por água abaixo porque você passou o dia bebendo na mureta. É um problema sem solução. Uma vez que se chega à muretinha, ninguém mais sai.
A maldição da muretinha me pegou na quinta passada. Como era véspera de feriado, já tinha traçado uma programação incrível que incluía lançamentos de livros, festas com gente interessante, noite com destilados e pouca ressaca no dia seguinte. Só que, chegando do trabalho, me deparei com um amigo que bebia cerveja na mureta da praça da minha rua. Resultado: parei por ali, com bolsa mega cheia de material de produção a tiracolo, e me deliciei com um copinho do que os paulistas chamam de breja.
E o copinho chamou mais um, que chamou outro, que chamou uma nova garrafa. Eu esperava uma amiga chegar de São Paulo, e ficava me repetindo que, quando ela chegasse, eu ia pra casa tomar um banho, jantar, fazer uma maquiagem legal - todas essas coisas que as pessoas normais fazem antes de cair na noite.
Mas a minha amiga chegou e eu continuei lá. E daí que a gente foi parar em Santa Teresa, e depois em um bar de Laranjeiras, e eu dei adeus ao meu programa de destilados e festas de lançamento de obras literárias.
A minha mureta preferida é a que fica em frente ao Bar Urca. Esse ano descobri que existe um verdadeiro séquito do muro da Urca, gente que passa o fim de semana inteiro comendo pastel e curtindo uma das vistas mais bonitas do Rio de Janeiro. Tem gente que leva cadeira de praia e fica ali na calçada, mas eu, tradicionalíssima, prefiro descansar o bumbum na base de pedra. Não é muito confortável, mas é mega carioca.
Nesse feriado, recebi em casa dois paulistas e um argentino. Passei três dias tentando levá-los na muretinha da Urca, mas ninguém me deu ouvidos. No último dia, tentamos almoçar no Bar Urca que, obviamente, estava lotado. Fomos embora sem aproveitar a tarde totalmente decepcionados. Mas os paulistas já avisaram: na próxima viagem ao Rio, aquele murinho será prioridade.
A mureta do Bar Urca também já foi responsável pelo fim de um sábado à noite - mas dessa vez eu nem reclamo, porque foi realmente uma tarde bem legal. Quer dizer, eu reclamei um pouquinho na hora, mas agora já nem me lamento tanto. Às vezes é uma opção sábia trocar a luz do estrobo pela luz do sol.
A maldição da muretinha me pegou na quinta passada. Como era véspera de feriado, já tinha traçado uma programação incrível que incluía lançamentos de livros, festas com gente interessante, noite com destilados e pouca ressaca no dia seguinte. Só que, chegando do trabalho, me deparei com um amigo que bebia cerveja na mureta da praça da minha rua. Resultado: parei por ali, com bolsa mega cheia de material de produção a tiracolo, e me deliciei com um copinho do que os paulistas chamam de breja.
E o copinho chamou mais um, que chamou outro, que chamou uma nova garrafa. Eu esperava uma amiga chegar de São Paulo, e ficava me repetindo que, quando ela chegasse, eu ia pra casa tomar um banho, jantar, fazer uma maquiagem legal - todas essas coisas que as pessoas normais fazem antes de cair na noite.
Mas a minha amiga chegou e eu continuei lá. E daí que a gente foi parar em Santa Teresa, e depois em um bar de Laranjeiras, e eu dei adeus ao meu programa de destilados e festas de lançamento de obras literárias.
A minha mureta preferida é a que fica em frente ao Bar Urca. Esse ano descobri que existe um verdadeiro séquito do muro da Urca, gente que passa o fim de semana inteiro comendo pastel e curtindo uma das vistas mais bonitas do Rio de Janeiro. Tem gente que leva cadeira de praia e fica ali na calçada, mas eu, tradicionalíssima, prefiro descansar o bumbum na base de pedra. Não é muito confortável, mas é mega carioca.
Nesse feriado, recebi em casa dois paulistas e um argentino. Passei três dias tentando levá-los na muretinha da Urca, mas ninguém me deu ouvidos. No último dia, tentamos almoçar no Bar Urca que, obviamente, estava lotado. Fomos embora sem aproveitar a tarde totalmente decepcionados. Mas os paulistas já avisaram: na próxima viagem ao Rio, aquele murinho será prioridade.
A mureta do Bar Urca também já foi responsável pelo fim de um sábado à noite - mas dessa vez eu nem reclamo, porque foi realmente uma tarde bem legal. Quer dizer, eu reclamei um pouquinho na hora, mas agora já nem me lamento tanto. Às vezes é uma opção sábia trocar a luz do estrobo pela luz do sol.
Saturday, September 29, 2007
Frenética
Não parei de fumar. Mas tenho uma explicação perfeitamente lógica pra isso, que vou dar uma outra hora. A vida tem estado frenética, corrida, e eu preciso confessar que adoro isso. Todas essas coisas acontecendo e eu com a sensação muito nítida de que tudo tá indo bem.
Outro dia ganhei um convite pra assistir Madeleine Peyroux no Teatro Municipal. Tive dois aniversários na semana, recebi um convite inusitado de trabalho, disse adeus a um menino bonitinho mas ordinário, ganhei uma audiência contra uma operadora de telefonia celular, penso no meu reveillon no Machu Pichu. Não sei como vai ser o ano que vem, mas também não quero concluir nada agora. 2007, com todos os seus altos e baixos, tem sido um ano que vai ficar pra história.
Às vezes paro para contar os meses desde que terminei um namoro que acreditava ser eterno, mudei pro apartamento novo e fiz uma dezena de novos amigos. Fico surpresa em descobrir que não faz tanto tempo assim. Tenho a impressão de que já se passaram anos, décadas, porque claramente não sou a mesma pessoa do começo do ano.
A Baxt estava falando de epifania outro dia. E só agora eu saquei o que é. Entendi (quase) tudo.
Outro dia ganhei um convite pra assistir Madeleine Peyroux no Teatro Municipal. Tive dois aniversários na semana, recebi um convite inusitado de trabalho, disse adeus a um menino bonitinho mas ordinário, ganhei uma audiência contra uma operadora de telefonia celular, penso no meu reveillon no Machu Pichu. Não sei como vai ser o ano que vem, mas também não quero concluir nada agora. 2007, com todos os seus altos e baixos, tem sido um ano que vai ficar pra história.
Às vezes paro para contar os meses desde que terminei um namoro que acreditava ser eterno, mudei pro apartamento novo e fiz uma dezena de novos amigos. Fico surpresa em descobrir que não faz tanto tempo assim. Tenho a impressão de que já se passaram anos, décadas, porque claramente não sou a mesma pessoa do começo do ano.
A Baxt estava falando de epifania outro dia. E só agora eu saquei o que é. Entendi (quase) tudo.
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